José da Silva Lisboa, visconde de Cairu (1756-1835)

Danilo Marques 

“Liberal na economia e conservador nos costumes”. Provavelmente, a máxima tão repetida nos dias de hoje para designar uma parcela da população brasileira cairia como uma luva para definir José da Silva Lisboa.  

Baiano de Salvador, nascido em 1756, Lisboa era um homem culto – e complexo, para dizer o mínimo. Formou-se em filosofia e direito canônico na Universidade de Coimbra e foi professor em Portugal e na Bahia. Traduziu, comentou e divulgou ideias como a do teórico irlandês Edmund Burke – referência do pensamento político conservador – e do pensador escocês Adam Smith – arquiteto dos fundamentos do liberalismo econômico.  

Figura 1 – José da Silva Lisboa, visconde de Cayrú, primeiro economista brasileiro, senador. Fundação Biblioteca Nacional. [icon1396387] 

Tinha grande admiração pelo filósofo iluminista Montesquieu, mas era um monarquista convicto. Moralista de marca maior, botava fé na força da tradição católica contra os devaneios democráticos da Revolução Francesa. Sonhava com um império luso-brasileiro, mas não arredava o pé de criticar qualquer monopólio comercial. e Defendia com unhas e dentes o livre mercado em seu Princípios de economia política, de 1804. Tornou-se mais conhecido pelo título que recebeu de D. Pedro I em 1826 – junto da incumbência de escrever a História dos principais sucessos políticos do Império do Brasil: visconde de Cairu. Mas até aí muita coisa aconteceu.  

Figura 2 – Frontispício do livro Princípios de direito mercantil, e leis de marinha para uso da mocidade portuguesa…, de José da Silva Lisboa: Mansutti Foundation, 1806 

Ao lado de José Bonifácio, Lisboa foi um dos principais artífices políticos do projeto de independência que saiu vitorioso em 1822. Partidário da dinastia dos Bragança, se coçava só de ouvir falar em ideias radicais de república e democracia. Sua proposta era uma só: formar o Império do Brasil a partir de um governo centralizado no Rio de Janeiro, capaz de aglutinar a força gravitacional das demais províncias em torno de si.  

Figura 3 – José da Silva Lisboa, visconde de Cairú, junto a José Bonifácio  
de Andrada e Silva, R. Nunes, s/d. Câmara de Vereadores de Salvador, Bahia. 

Foi exatamente por isso, que Lisboa caçou confusão com os redatores do jornal Revérbero Constitucional Fluminense, Gonçalves Ledo e Januário Barbosa, bem como com seu conterrâneo Cipriano Barata e o revolucionário pernambucano Frei Caneca. “Qualquer Brasileiro de boa fé”, anotou em um folheto indignado contra os “descabeçados ou tresloucados da cáfila de 1817”, “ora pode (…) arguir a esse punhado de Facciosos, que se manifestam ser Cabeças de Revolução, aspirando capitanear o Norte em seus delírios Democráticos (…). Direi: Não tendes, oh Desalmados, remorsos de consciência, de rasgar as entranhas da Pátria, e fomentar uma Divisão diabólica no País, que o adorado Autor da Natureza distinguiu na criação da Terra, compondo-o de uma Peça inteiriça, e tendo-lhe dado a vantagem de habitadores da mesma Religião, Língua e Lei, que são as fianças solidárias da unidade, e duração dos Estados?”  

Experiente em matéria de política, José da Silva Lisboa foi um dos parlamentares mais atuantes na Assembleia Constituinte, em 1823. Na tribuna do antigo prédio da Cadeia Velha, fazia questão de bradar propostas que expressavam toda a sua carolice: “Impugnei o § em questão”, registrou em uma dessas discussões, “por me parecer a enunciativa da liberdade religiosa, não só desnecessária, mas também inconsequente, e perigosa à religião católica, e à estabilidade do Império”. Lisboa era obsessivo com a ideia de um Império do Brasil e, para isso, sabia que era preciso conservar o máximo de símbolos na manutenção de uma coesão do país – se não cultural e identitária, ao menos territorial e administrativa.  

Figura 4 – Retrato de José Maria da Silva Lisboa (Visconde de Cairú),  
Domenico Failutti, 1825. Coleção Fundo Museu Paulista (FMP), Museu Paulista da USP. 

Homem de letras e um exemplar puro sangue da elite formada em Coimbra, Lisboa se tornou barão em 1824 e visconde de Cairu dois anos depois. Exímio construtor da nação para uns e bajulador do poder para outros, representou o modelo do burocrata envolvido na formação do nascente império no século XIX: aquele que, sem perder a devoção à autoridade do monarca, não abria mão de recorrer às novidades do pensamento político e econômico. Tudo, claro, para assegurar a soberania de Sua Majestade e a unidade do reino frente aos fortes ventos da revolução.  

Referências Bibliográficas 

VAINFAS, Ronaldo; NEVES, Lúcia Bastos Pereira das (Org.). Dicionário do Brasil joanino: 1808-1821. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008 

JÚNIOR, Luiz Ramiro. 200 Anos da Independência | José da Silva Lisboa, Visconde de Cairu (1756-1835). Rio de Janeiro: Fundação Bilioteca Nacional, 2020. Disponível em: http://bndigital.bn.gov.br/artigos/fundadores-do-brasil-jose-da-silva-lisboa-visconde-de-cairu-1756-1835/. (acesso em: 8 abr 2022)