Baía de Guanabara

Os corpos d’água em geral têm grande importância simbólica, espiritual e prática para as religiões e cosmologias indígenas. Antes da ocupação europeia, rios, lagoas, mangues, restingas e o próprio mar eram compreendidos não apenas como recursos naturais, mas como entidades vivas, dotadas de agência espiritual e integradas à ordem do mundo. Povos de matriz tupi, como os tupinambá e os temiminó, estabeleceram sua relação com a paisagem a partir de uma visão na qual natureza, ancestralidade e espiritualidade formavam um todo indissociável.

La France Antartique autrement le Rio de Janeiro, a partir das viagens de Villegagnon e Jean de Léry. 1557 / Acervo Bibliothèque nationale de France.

Na cosmologia indígena, a água era associada à origem da vida, à circulação das energias vitais e à comunicação com o mundo espiritual. Rios e lagoas funcionavam como espaços de passagem e transformação, ligados aos mitos de criação e aos deslocamentos dos antepassados míticos. A Baía de Guanabara, por exemplo, não era apenas um espaço geográfico estratégico, mas um território simbólico, marcado por narrativas míticas, práticas ritualísticas e formas específicas de ocupação, onde a pesca, a navegação e os ritos coletivos reforçavam laços comunitários e espirituais.

[Vista de parte da cidade e Bahia do Rio de Janeiro, Barra, Oceano, tirada a cavalleiro do Corcovado]. Théodore Alphonse Galot, . Rio de Janeiro, RJ: [s.n.], 1850. Acervo Fundação Biblioteca Nacional.

Essa dimensão sagrada, extrapola os limites territoriais do que hoje conhecemos como a cidade do Rio de Janeiro. Por exemplo, a cosmovisão dos povos tukano, desana e outros grupos do Alto Rio Negro estabelece o Rio de Janeiro como o epicentro geomitológico da origem da vida na Terra. Para eles, o que conhecemos como Baía de Guanabara é o Lago de Leite (Diá ahpikõdihtaru ou Opekõ Dihtará), o local sagrado onde emergiu a Canoa da Transformação (Pamürí yuküsiru) após uma travessia cósmica pela Via Láctea. Esta “Canoa-Cobra” trouxe os seres humanos primordiais, e foi nas margens deste lago que surgiram as primeiras malocas e ocorreu a transformação fundamental da humanidade.

Assim, a Baía de Guanabara é descrita como uma cuia de leite ou bacia de pedras preciosas e ouro, representando a fertilidade e a nutrição original. Seu nome original, Guajá-nã-bará, reflete sua grandiosidade como uma “baía que parece o mar”. Se repararmos bem, a forma da Baía se assemelha à do útero feminino, o que reforça seu caráter de local onde a vida se materializa. 

Cartas topographicas da capitania do Rio de Janeiro : mandadas tirar pelo Illmo. e Exmo. Sr. Conde da Cunha Capitam general e Vice-Rey do Estado do Brazil. Manuel Vieira Leão. 1767 / Acervo Fundação Biblioteca Nacional

Para estes povos, a Baía de Guanabara permanece como uma encruzilhada multidimensional viva, guardando a memória de um passado sagrado que continua a nutrir a espiritualidade dos povos originários.

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