A gripe espanhola (1918-1919)

“O Ganzá do Seu Leitão” – Roberto Ribeiro – Compositor: Nei Lopes e Cléber Augusto – 1983

A gripe espanhola foi uma doença que atingiu todos os continentes entre 1918 e 1920, vitimando algo entre 20 e 50 milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, a enfermidade chegou pelo porto de Recife, em setembro de 1918, através do navio Demerara, que vinha de Liverpool, na Inglaterra. A embarcação foi também a responsável pela contaminação da cidade de Salvador e do Rio de Janeiro. Na capital federal, a doença chegou no dia 15 do mesmo mês, quando desembarcaram 267 passageiros contaminados. 

A gripe, que ficou conhecida como “influenza espanhola”, carregava no nome os traços da geopolítica do período. Na Primeira Guerra Mundial, a divulgação de um surto de doença podia passar a ideia de fraqueza das nações e de prejuízos na guerra. A Espanha – que não participou do conflito – foi o primeiro país a noticiar, sem censura, a gripe. Daí a referência ao país. Mas, na verdade, a doença teve sua origem nos Estados Unidos, meses antes. 

A gripe espanhola foi extremamente contagiosa e letal. Causada por uma cepa agressiva do vírus Influenza A, do subtipo H1N1, ela passou por três ondas, chegando ao Brasil apenas na segunda – e a mais forte delas. A transmissão se dava através de pequenas gotículas de saliva que se projetam ao tossir ou espirrar, sendo possível também a transmissão por vírus suspensos no ar. A doença gerava sintomas leves, como dor de cabeça e nas costas e a perda de olfato, característicos de inflamações respiratórias, e alguns mais graves, como vômitos sanguíneos, hemorragias, delírio, falta de oxigenação, coma e muitas vezes, a morte. A gripe atuava rapidamente no corpo das vítimas, levando-as a óbito em um intervalo de um a três dias. 

Pacientes em um hospital improvisado no bairro do Meyer, durante a pandemia da Gripe Espanhola. Careta, 23 de novembro de 1918, n. 544. Fundação Biblioteca Nacional – Hemeroteca Digital

Desde o início do século, o Rio passava por um período de modernização, com mudanças arquitetônicas no centro e na zona portuária, tendo como preocupação a higienização e diminuição da proliferação de doenças. A “nova” cidade moderna e planejada, não estava preparada, no entanto, para uma pandemia e o governo ignorou o quanto pôde a gravidade da doença. Só a partir de meados de outubro de 1918 houve o reconhecimento da pandemia em seu real estado, não havia mais como esconder já que centenas de pessoas morriam todos os dias. Estima-se que o número de mortos na capital tenha chegado a 12.700, mais de um terço de todas as mortes do país.

Preces públicas para pedir o fim do flagelo da epidemia. Revista Careta, 26/10/1918. Ed. 540, p16. Acervo: Fundação Biblioteca Nacional

A gestão da diretoria de Saúde Pública foi lenta e ineficiente. A imprensa passou a desempenhar um importante papel de divulgação de informações para o controle e prevenção da doença. Nas colunas, os periódicos alertavam para a necessidade da higienização das mãos, ensinavam como utilizar máscaras e alertavam que aglomerações deveriam ser evitadas. Além disso, alguns jornais começaram a divulgar receitas caseiras de prevenção e cura da doença, em uma mistura de saberes científicos e crenças populares. Havia publicações de propagandas de “remédios milagrosos” que, na maioria das vezes, eram produzidos em laboratórios improvisados ou boticas clandestinas. A diversidade de produtos abrangia tônicos, plantas medicinais, pomadas, pastilhas, farinhas, chás, vinagre, xarope e limão. 

Avenida Rio Branco no período da “Influenza hespanhola”, período de esvaziamento da cidade na tentativa de conter a transmissão da doença. Revista Careta, 26/10/1918, n. 540. Hemeroteca da Biblioteca Nacional.

Faltavam leitos e médicos, caixões e coveiros. As desigualdades sociais se intensificaram e a maior parte das vítimas estava entre a população negra e pobre. As ruas da cidade se tornaram palco de cenas macabras, com cadáveres espalhados pelas calçadas, sendo recolhidos por caminhões como sacos de lixo. Segundo o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, “(o) sujeito começava a atravessar a rua na vertical, em gozo de saúde exemplar, chegava na outra calçada na horizontal, fulminado pela Gripe.”

Cenas de ruas durante a Gripe Espanhola.Fotos. Revista Careta, 26/10/1918. Ed. 540, p17. Fundação Biblioteca Nacional

Nos dois primeiros meses de 1919, o Rio começou a respirar. Então, em 1º de março, explodiu o Carnaval da ressurreição. O armistício da 1º Guerra Mundial aliado ao fim da Gripe Espanhola deram aos sobreviventes da epidemia muitos motivos para celebrar.

Ainda não existiam as escolas de samba. Havia blocos, cordões, ranchos, corsos e as chamadas grandes sociedades que desfilavam em grandes carros alegóricos. Em 1919, escolheram a doença como tema: os Fenianos exibiram um carro com caveiras que representavam a ‘dançarina espanhola’, cercada de pierrôs, arlequins e colombinas. Já os Democráticos apresentaram uma grande xícara com a inscrição ‘chá da meia-noite’, referência à bebida mortal que, dizia-se, era servida aos desenganados para acelerar o adeus.

A esbórnia foi total. Parecia inacreditável que o palco de tamanha euforia era o mesmo da tragédia epidêmica que tantos mortos havia enterrado.

Este texto foi elaborado pela pesquisadora Júlia Kern do Projeto República (UFMG)

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