11 de janeiro de 1822 – Motim do General Avilez

Davi Aroeira Kacowicz 

Em dezembro de 1821, chegava ao Rio de Janeiro uma resolução, emitida pelas Cortes de Lisboa (e assinada pelo rei), que decretava o regresso do príncipe- regente a Portugal. Aos olhos dos brasileiros, tratava-se de um retrocesso inadmissível. Nesse sentido, além dos apelos de políticos palacianos, um anúncio impresso e espalhado pelo Rio de Janeiro, nos primeiros dias de 1822, convocava os moradores da cidade a comparecem à rua da Ajuda, nº 137, até o dia 8 de janeiro, a fim de assinar uma petição, para que d. Pedro ficasse no Brasil. Foram coletadas cerca de 8 mil assinaturas. 

Figura 1 — Conclamação à população para assinar petição em favor  
da permanência do de d. Pedro no Brasil. 1822. Fundação Biblioteca Nacional [or1467077] 

Logo no dia 9, munido de prestígio popular, o príncipe- regente tomou a decisão que ficaria conhecida como o “fico”.  

Mas nem todos comemoraram a sua decisão. Em especial, o Governador das Armas, Jorge de Avilez Zuzarte de Sousa Tavares. 

Figura 2 — Retrato de Jorge de Avilez Zuzarte de Sousa Tavares, 1º Conde de Avilez. Autor não identificado. s/d. Wikimedia Commons. 

Desde o ano anterior, o general Avilez se destacara como notório defensor das Cortes de Lisboa. Dizia-se que quem mandava mesmo no Rio de Janeiro era o oficial. Diante da afronta de d. Pedro contra o regime liberal de Portugal, Avilez instigou seus subordinados, visando a criar animosidade e forçar obediência do regente às Cortes. Foi até os quartéis e informou aos seus comandados que fora demitido por d. Pedro. Os soldados deram vivas ao “general constitucional” e, naquele 11 de fevereiro, iniciaram um motim no Rio de Janeiro. 

Quase dois mil soldados, obedientes ao general, marcharam para o morro do Castelo — “d’onde ameaçavam varrer à metralha a população a seus pés”. Ao que consta, a euforia dos revoltosos foi tamanha, que o tenente coronel José Maria da Costa — que já havia tomado umas e outras —, jurou que o príncipe embarcaria de um jeito ou de outro: “havemos de levá-lo pelas orelhas”, teria dito. A notícia de que as tropas iriam levar d. Pedro à força para a fragata União correu ligeiro naquele mesmo dia. A princesa d. Leopoldina e seus filhos fugiram para a fazenda Santa Cruz, a doze léguas da capital, e planos de fuga também foram elaborados para o príncipe.  

O levante não saiu como o planejado. Fato fundamental para isso foi a guarnição da Quinta da Boa Vista ter se mantido fiel ao príncipe. Mas além de oficiais e policiais, milhares de pessoas comuns se juntaram à resistência em prol de d. Pedro, no Campo de Santana. Na madrugada do dia 12 de fevereiro, quase dez mil homens estavam de prontidão: uma milícia popular formada por “roceiros, padres e frades, uns montados, outros a pé, armados de pistola, de faca e até simplesmente de um varapau”, segundo cronistas da época.  

Diante da reação em favor de d. Pedro, Avilez depôs as armas e recolheu suas tropas para a praia Grande (hoje, Niterói). Embarcaram nos navios que os levariam de volta para Portugal, mas não zarparam. As tensões entre o general e o regente seguiram por mais um mês. A população temia um ataque surpresa. Em carta ao rei d. João VI, o príncipe-regente tratou de informar que havia dado seu ultimato aos soldados: “hão de embarcar, ou hão de morrer”. D. Pedro organizou as defesas e, no dia 15 de fevereiro, enfim, impôs sua vontade, e Jorge de Avilez e os demais membros de suas tropas retornaram para a Europa.   

Príncipe-Regente Dom Pedro e Jorge de Avilez a Bordo da Fragata União.  
Oscar Pereira da Silva, 1922. Museu do Ipiranga. 

Referências Bibliográficas 

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PEDREIRA, Jorge Miguel Viana; COSTA, Fernando Dores. D. João VI: um príncipe entre dois continentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 

SHULTZ, Kristen. Versalhes tropical: Império, monarquia e a Corte real portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. 

STARLING, Heloisa Maria Murgel; DE LIMA, Marcela Telles (Orgs.). Vozes do Brasil: a linguagem política na Independência (1820-1824). Brasília: Edições do Senado Federal, 2021.