Ijexá
O Ijexá é um dos ritmos mais significativos das religiões afro-brasileiras, especialmente no Candomblé e na Umbanda, onde cumpre uma função central na organização dos ritos, na comunicação com o sagrado e na preservação das heranças culturais de matriz africana. Sua origem está associada ao povo iorubá, mais especificamente à região de Ìjẹ̀ṣà (Ijexá), na atual Nigéria, de onde vieram saberes religiosos, musicais e cosmológicos trazidos ao Brasil por africanos escravizados.

Nos terreiros, o Ijexá não é apenas um ritmo musical, mas um meio de conexão espiritual. Ele estrutura cantigas e danças dedicadas principalmente aos orixás femininos, como Oxum e Iemanjá, embora também esteja presente em louvações a outros orixás. Seu compasso cadenciado, suave e contínuo favorece o equilíbrio do corpo e da mente, criando um ambiente propício ao transe ritual e à manifestação do sagrado. Assim, o ritmo orienta os movimentos, regula a energia do espaço ritual e contribui para a harmonia entre os participantes e as divindades cultuadas.

A importância do Ijexá também se manifesta na transmissão do conhecimento religioso. Tocadores de atabaque (ogãs ou alabês) aprendem o ritmo como parte de um saber ancestral, transmitido oralmente e pela prática, reforçando laços de pertencimento e continuidade entre gerações. Cada toque, variação e pausa carrega significados que dialogam com mitos, histórias e fundamentos da cosmologia africana, tornando o Ijexá um verdadeiro arquivo sonoro da memória afro-diaspórica.
Além do espaço ritual, o Ijexá extrapolou os terreiros e passou a marcar a cultura brasileira de forma mais ampla, influenciando manifestações como os afoxés e a música popular, sem perder sua referência sagrada. Essa circulação evidencia sua dupla função: de um lado, ritual e religiosa; de outro, cultural e identitária, afirmando a presença e a resistência das tradições afro-brasileiras em contextos históricos marcados pela repressão e pelo racismo.
Desse modo, o Ijexá ocupa um lugar fundamental nas religiões afro-brasileiras por articular corpo, som, espiritualidade e memória. Mais do que um ritmo, ele é uma linguagem sagrada que sustenta os ritos, fortalece a identidade religiosa e reafirma a continuidade dos saberes africanos no Brasil.
