Podcast

Rio de sons

Podcast

Rio of sounds

Episódio 06

A day of Carioca sounds

0:00faltam 41 min41:20

Transcrição

Oi, eu quero te convidar para uma experiência um pouquinho diferente aqui no Rio Memórias

  1. 0:00Oi, eu quero te convidar para uma experiência um pouquinho diferente aqui no Rio Memórias Ajusta aí seu fone de ouvido que hoje é dia de saborear os sons cariocas Fala rapaziada, primeiramente boa tarde, beleza?
  2. 0:30Olha só, promoçãozinha do dia, camisa bonita, só um shortinho, ela estando curtinha Se você quiser dar moral, só loja no Magrinho, vem que vem. Toda hora tem, toda hora vende. A raiz tá pro lado e pra cima tá lotado. E aproveita que tá barato, hein? Olha, eu já aviso logo que a gente vai bater perna, tá? Você vai, por exemplo, atravessar o camelódromo. E nem adianta tentar fugir da adicção acelerada dos vendedores,
  3. 1:00porque, de algum jeito, a lábia carioca te pega. Vai, vai, vai! Mas, como eu sei que você merece, eu também vou te levar pra beber um mate gelado na areia da praia. Geladão, mate! Mate de limão geladão aí, ó! Alô mate, alô geladão! Olha, a areia aqui tá quente, você nem... Às vezes tu tá aqui na areia, o cara te chama lá no asfalto lá, ó, te grita. Aí você tem que ir lá, passar pela areia quente, aí você tem que ir lá.
  4. 1:30E pode ir de chinelo mesmo, bem carioca. Eu ainda vou te colocar no centro de uma roda de samba, dentro do panorama sonoro do metrô e, claro, no meio de um dos maiores símbolos do Rio, a arquibancada do Maracanã.
  5. 2:00Eu sou a Gabriela Montoni e esse é o episódio final da quarta temporada do Rio Memórias. A gente explorou bastante por aqui a Galeria Rio de Sons do nosso museu virtual em rio-memórias.com.br Pra encerrar nossa viagem eu te convido a dar um passeio pelos sons cariocas. Mas como a gente tá num podcast de história eu não vou só te mostrar esses sons. Eu vou te contar
  6. 2:30a origem deles. Você sabe quando os vendedores de mate começaram a circular pela areia? Sabe como os primeiros camelôs ocuparam as ruas? Sabe quem é a dona da voz do metrô? Hoje você vai sair daqui com um monte de informação para contar para os amigos na mesa do bar. Então relaxa, pode ficar bem confortável e vem comigo para não perder nenhum detalhe do nosso passeio sonoro.
  7. 3:00Capítulo 1 – As praias Se eu pedir para você listar os símbolos do Rio de Janeiro, você pode até citar o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, mas não vai demorar muito para você falar da praia, né? A onda batendo, a movimentação na areia, os ambulantes. Esses sons são muito a cara da cidade.
  8. 3:30Só que essa relação nem sempre foi assim. Pouco mais de um século atrás, as pessoas iam à praia com um objetivo muito claro. Curar alguma doença. O banho de mar era praticamente um remédio recomendado pelos médicos. E tudo bem, a gente sabe que um bom mergulho sempre ajuda, né? Mas até o começo do século XX, as pessoas realmente viam propriedades medicinais na água salgada.
  9. 4:00E uma das possíveis origens dessa crença vem lá do século XIX. Ali, em algum momento da década de 1810, quando o Rio de Janeiro sediava a corte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, Dom João VI foi mordido na perna por um carrapato. A picada infeccionou e criou uma ferida horrorosa. O médico da corte, que era um sacerdote, receitou os banhos medicinais, ou seja, lavar o ferimento com água do mar.
  10. 4:30Só que tinha um problema. Dom João não entrava no mar porque ele morria de medo de ser atacado por caranguejos. Então ele foi levado para a casa do comendador Tavares Guerra, num balneário onde hoje fica o bairro do Caju. E construíram para ele uma liteira, aquela cadeira coberta e fechada, sustentada por duas varas compridas, sabe? Pois é, só que aquela liteira tinha uns furinhos, então os escravizados levavam a liteira até o mar, com o Dom João ali dentro,
  11. 5:00a água entrava e ele podia se tratar livre dos caranguejos. Talvez fosse mais fácil pegar água num balde, né? Mas enfim, a ferida sarou. Estavam descobrindo os prazeres do banho de mar, então foi ganhando força a prática de frequentar a praia por divertimento. Primeiro, claro, para os mais ricos, porque tudo começou com as casas de banho, que cobravam até mil réis para alugar roupas, cabines de vestiário, cordas e boias para ninguém se afogar.
  12. 5:30A residência onde o Dom João se tratou ficou conhecida como Casa de Banho Dom João VI, e depois foi tombada pelo patrimônio histórico. Com o passar dos anos, a população foi percebendo que dava para ocupar a areia e cair no mar sem pagar nada. Aí, as casas de banho perderam relevância Até a virada do século XIX para o XX, o banho de mar ficava mais concentrado na orla do centro
  13. 6:00Por exemplo, na Praia de Santa Luzia, que desapareceu nas décadas seguintes com os sucessivos aterros Depois, o fluxo foi migrando para as praias oceânicas, de mar aberto Até o início da década de 1920, a Praia do Flamengo era a mais frequentada da cidade Foi bem ali que a nossa produtora Jamile Boulay e o nosso captador de áudio Gustavo Andrade passaram uma manhã para te levar para dentro desse som que representa o Rio há mais de um século.
  14. 6:30E aí, Gabi, beleza? Hoje estamos aqui gravando na Praia do Flamengo, cartão postal, pão de açúcar de fundo, dia de solzão. Muita gente na praia, agora que a Praia do Flamengo está própria para o banho. Então, tem mó galera aqui aproveitando esse dia de sol, dia de semana, mas o pessoal está aqui marcando presença. Muito quente. Queria estar na água, Gabi. Vai dar um mergulho, Jamile, que daqui a pouco eu te chamo de novo.
  15. 7:00Enquanto isso, deixa eu te contar que lá no início do século XX, as reformas do prefeito Pereira Passos, principalmente a construção da Avenida Beira-Mar e do túnel Coelho Sintra, conhecido como Túnel Novo, estimularam bastante a prática do banho de mar ali no Flamengo, em Copacabana, nas praias da Zona Sul como um todo. Essa ocupação crescente mudou os hábitos cariocas, mas também gerou um decreto em 1917,
  16. 7:30estabelecendo uma série de normas com datas e horários para os banhos de mar, as bandeiras brancas e vermelhas para indicar se o mergulho estava liberado e a criação oficial do corpo de salvamento. Até o figurino e o falatório entraram no decreto Artigo 3º As pessoas que fizerem uso do banho de mar devem apresentar-se com o vestuário apropriado guardando a necessária decência e compostura de acordo com as exigências da autoridade respectiva
  17. 8:00Artigo 5º São expressamente proibidos quaisquer ruídos e vozerias na praia ou no mar durante todo o período do banho Artigo 6º será punido com multa de R$ 20 mil todo aquele que infringir as disposições estabelecidas nesse regulamento e na falta de pagamento com cinco dias de prisão. Mas, gente, praia em silêncio? Não tem como, né? Na prática, aquelas punições nem chegaram a ser aplicadas.
  18. 8:30O Rio começou a ganhar características de balneário. Surgiram grandes hotéis, como Copacabana Palace, que completou 100 anos em 2023 E as praias ganharam contornos bem parecidos com o que a gente conhece hoje Hoje é muito comum a gente ouvir o som das conversas, do chuveiro, do frescobol, do futebol
  19. 9:00Desde o fim dos anos 40 e início dos 50, a praia já estava associada com a ideia de bem-estar físico Não mais com o banho de mar medicinal, mas com os esportes praticados na areia. Tudo isso compõe a trilha sonora da Orla. E eu sei que você já deve estar sentindo falta de uma coisa, né?
  20. 9:30Ah, agora sim chegou quem faltava. Geladão, matei. Mate o limão geladão aí, ó. O fluxo crescente de banhistas em meados do século XX também levou para a areia a criatividade dos ambulantes. E na virada dos anos 50 para os 60, surge o som icônico dos vendedores de mate. Um som que está na memória afetiva de todos os cariocas.
  21. 10:00Ainda mais um carioca típico como esse que a gente vai receber agora. Os sons que marcam o Rio de Janeiro para mim, eles são sons da minha infância, Então, decorrente da infância, tem uma dimensão afetiva nisso. Esse é o escritor, historiador e compositor Luiz Antônio Simas, que já esteve aqui no Rio Memórias no encerramento da primeira temporada e agora volta no encerramento da quarta para falar sobre os sons marcantes da cidade.
  22. 10:30Eu me lembro da praia, para ir para a praia com os pais, avós e tal, e aí o vendedor de mate e de biscoito, aquele grito do vendedor do mate, Olha o mate e tal Foi um som muito marcante pra mim O limão nada bebe mate Tu quer limão, você quer mate O limão nada bebe mate Beba mate, beba mate O som que encanta o Simas Vem de gente como o Márcio
  23. 11:00De 47 anos Que a gente encontrou ali na Praia do Flamengo Com o seu galão de mate A luta é essa aqui, tá vendo? A luta é essa É bom quando tá cheio, sábado e domingo fica cheio Se ele ficar gritando, o mendigo já chama logo. Nem precisa gritar, né? Acaba o mate, tem que subir, pegar mais. Agora é correria, entendeu? Agora, no verão, fica bom. Se não chover... Deu chuva, não tem como. Quer dizer, amanhã vai dar... Vai dar 39 graus amanhã. Amanhã é 39. Hoje é 37, amanhã é 39.
  24. 11:30Com esse calorão, a equipe do Rio Memórias ainda ganhou um mate geladinho, porque ninguém é de ferro, né? Pô, boa, cara. Obrigada por ter deixado a gente te acompanhar aí nesse dia de praia, uns minutinhos pelo menos. Me amei? Pode ser. Obrigadão, tá?
  25. 12:00De repente, sábado e domingo, então vai, sábado e domingo aí. Fala que eu fico aí, peraí, pô. Não, precisa não, pô. Que isso, cara. Não, esquenta não, esquenta não. Valeu, brigadão ali. Pô, que isso, valeu. Não, valeu, esquenta não, valeu. Obrigada. Valeu, boa praia aí. Valeu, obrigada. Tchau, tchau, Matheus. A relação do carioca com a praia é cheia de símbolos. Desde a prática de esportes até o famoso ato de aplaudir o pôr do sol no arcoador.
  26. 12:30A combinação do mate gelado com o Biscoito Globo talvez seja o símbolo mais forte das areias da cidade. Tanto que o vendedor se tornou patrimônio imaterial carioca a partir de um decreto em março de 2012. Mas aqui eu preciso te contar que nem o mate, nem o biscoito nasceram no Rio. O Biscoito Globo, acredite se quiser, nasceu em São Paulo, no bairro do Ipiranga, em 1953
  27. 13:00A história começa com os irmãos Milton, Jaime e João Fernandes Ponce O nome inicialmente era Biscoitos Felipe, em referência a um primo deles Que era o dono da padaria onde a famosa rosquinha de polvilho era confeccionada Em 1955, os irmãos partiram para o Rio de Janeiro com um carregamento de biscoitos para vender no 36º Congresso Eucarístico Internacional. O evento durou cinco dias, mas os 2.500 saquinhos se esgotaram em menos de 48 horas.
  28. 13:30Pronto. Eles se mudaram de cidade e passaram a produzir numa padaria chamada Globo, em Botafogo. Mudaram o nome do biscoito e o resto é história. A embalagem amarela com um bonequinho cercado pelo pão de açúcar e pelas torres Eiffel, de Pisa e de Belém Se tornou um ícone gráfico da cidade E ai de quem fale mal, viu?
  29. 14:00Você lembra quando em 2016 o New York Times falou que o biscoito era sem gosto? Coloque um biscoito em sua boca e será como se os seus dentes estivessem em uma festa para a qual a sua língua não foi convidada Ah, peraí, né? A reação dos cariocas foi imediata. O assunto viralizou nas redes sociais e o consumo até aumentou.
  30. 14:30Acompanhado do tradicional mate, então... Tô com sede, bate a fome, aí é o globo e mate. E limão. Não tem erro, é a cara do Rio, com certeza. Essa é uma reportagem da TV Brasil em 2018, quando o Biscoito Globo completou 65 anos. O mate, claro, surgiu muito antes disso. O hábito de beber chá feito de erva mate tem origem indígena e o primeiro registro é de 1564 com os povos Guarani.
  31. 15:00Mas o registro é europeu, claro. Essa tradição já estava ali há muito mais tempo. Agora, a marca que ficou famosa nas praias do Rio, essa surgiu no Paraná. A Mate Leão foi fundada em Ponta Grossa em 1901 e, nos anos 50, o chá gelado virou uma febre nas areias cariocas. Foi para este país tropical, para este povo e para estas praias que a Leão Júnior criou o Mate Leão.
  32. 15:30Um sabor incomparável que refresca e reanima. Deleite-se, caro amigo, com o sabor natural da erva mate. Um patrimônio da flora brasileira. Até hoje, o mate e o biscoito estão por aí. Não só nas praias, mas espalhados pela cidade. Uma cena muito comum no Rio é a seguinte. Rolou engarrafamento? Já aparece um vendedor carregando aquele saco transparente cheio de biscoito Globo.
  33. 16:00E aí, carioca? Biscoitozinho Globo? Globo. Quanto é que tá? Tá 4,30 reais, rapaziada. Aí ele tem o doce e o salgado, né? É. Aqui, pra quem não sabe, não é pipoca não, né? Não. É, biscoito de polvilho, né? Me dá três aí. Bota uma... Tudo sal? Não, bota uma doce. Capítulo 2. As ruas.
  34. 16:30Fica com mais cinco aí. Valeu. Obrigado pela força. Valeu, Guilherme. Bom trabalho aí. Esse é um vídeo do canal WBO TV, que registra viagens pelo Brasil. O cara tá de carro e compra o biscoito no engarrafamento. Esse som dos carros, do trânsito, é um som típico de toda cidade grande, né? Mas, de uns anos pra cá, o som de um carro específico tem chamado atenção nas ruas do Rio. Se liga, vê se você reconhece.
  35. 17:00Na verdade, são várias Kombis do ferro velho que vão circulando pela cidade com esse alto-falante, tocando a música gospel Uma Nova História. E uma gravação avisando que o moço tá passando e tá comprando.
  36. 17:30Geladeira velha, ar-condicionado velho Às vezes as combis são velhas também E no início de 2023, uma operação da prefeitura com o governo do estado Apreendeu alguns veículos que estavam irregulares Mas eles continuam por aí A prática de comprar e vender coisas nas ruas do Rio vem de muito tempo Inclusive com catadores, trapeiros e suas carroças no século XIX
  37. 18:00coletando objetos feitos de ferro, vidro e barro. Nessa época, o comércio ambulante ficou mais intenso com os chamados escravizados de ganho, que, apesar de viverem como cativos, tinham certa autonomia para vender produtos e, por vezes, ficavam com uma pequena parte do dinheiro que usavam para comprar sua própria alforria ou a de parentes e amigos. O paisagista brasileiro Frederico Guilherme Briggs publicou, em meados do século XIX, uma ilustração de um menino negro vendendo doces.
  38. 18:30E logo abaixo do desenho tem o que parece ser uma espécie de fala cantada pelo menino que começa com bala do parto, bala do parto. Ou seja, desde aquela época, a voz dos vendedores de rua já fazia parte da trilha sonora carioca. E é assim até hoje como lembra o Luiz Antônio Simas. Eu vou te dizer que uma coisa que me marca muito é a sonoridade do mercado popular, a sonoridade das feiras, né?
  39. 19:00A feira não tem só sabor, a feira não tem só cheiro, mas a feira tem som, né? Os plegoeiros, a turma que vende coisa nas feiras, etc. Anuncia fruta, olha aí a banana, olha aí a maçã, não sei o quê. Isso é muito para mim. As feiras livres são o fator mais importante da economia do povo. Nelas encontramos uma enorme variedade de artigos. Os gêneros de primeira necessidade, as frutas e legumes, os vestidos e tecidos da mais variada textura
  40. 19:30acham-se expostos nas barracas das feiras que se realizam diariamente em nossa capital. Esse é um documentário sobre as feiras livres no Rio, produzido em 1952 pela Agência Nacional. Mas vamos voltar para o presente, porque a Jamile também deu um pulo numa feira que rola em Botafogo toda segunda. Esse som da feira é sempre uma delícia de ouvir, né?
  41. 20:00Te deu vontade de comer um pastel com caldo de cana? Então calma, porque pra te colocar dentro do espetáculo sonoro do comércio popular, Não tem melhor lugar que o Camelódromo Chegamos aqui na Uruguaiana Aquela confusão de lei
  42. 20:30Muita gente passando Uma alta circulação Muita gente vendendo coisa Anunciando, gritando A galera conversando, trocando ideia Rindo Mas a gente passando é pra tudo quanto é canto Se tu fica parado no meio da rua Vai ser atropelado E a galera vendendo de tudo Aqui vende de tudo real Teve um impacto depois da pandemia, claro que a circulação diminuiu, mas ainda assim é muita gente na rua, maior galera mesmo.
  43. 21:00Canecas e gotafas só R$ 20,00, garrafas térmicas e copos térmicos, remando barato, só R$ 20,00. O Camelódromo da Uruguaiana surgiu em 1994, numa tentativa de organizar os comerciantes que estavam espalhados pelas ruas. Tenta se imaginar ali, no meio dos boxes, dos tabuleiros, dessa polifonia de anúncios. Camelódromo da Uruguaiana, quadradete, box dance.
  44. 21:30Carregador película com sefo. Olha o suco de laranja 100% natural, gente. Olha que é natural, é geladão e é feito na hora, hein? Vem que tá barato, vem que vale a pena. É a partir de 4 reais, hein? Essa é a Cíntia, que vende suco. E aquele vendedor que a gente ouviu lá no início do episódio, lembra? Camisa bonita, só tão shortinha, ela estando curtinha. Se quiser dar moral, só um agrinho, vem que vem.
  45. 22:00Toda hora tem, toda hora vem. Pois é, esse é o Adriano, que vende roupa também na Uruguaiana. Bem ali pertinho fica a Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega. Não reconheceu esse nome? É que a gente chama pela sigla Saara Agora você se localizou, né? É um dos maiores shoppings a céu aberto da América Latina Com mais de 600 lojas Uma área muito antiga de comércio popular Estabelecida no século XIX Por imigrantes sírio-libaneses, espanhóis, portugueses, gregos, judeus
  46. 22:30Esse é o Anderson que trabalha há 26 anos na Casas Pedro do Saara. Aqui é bom, show de bola. Eu acho legal. Sem som. Aqui é ótimo. Já vi cada coisa aqui. Aqui é incrível. Esse som que botam aí na Rádio Saara. Isso aí é marcante. Esses comerciais aí, desde quando eu entrei aqui, que é isso aí. E é o dia todo, né?
  47. 23:00É o dia todo, até sete horas. Aí vem as musiquinhas de Natal também. Aí é marcante, isso é marcante, é legal. Agora que o Anderson falou, bateu a curiosidade para saber como é a Rádio Saara? Então, fecha o olho aí e tenta se imaginar, no meio dos vendedores, com essa trilha sonora que vai sendo reproduzida em quase 50 caixas de som espalhadas pelo mercado. Preste muita atenção. A Vivian Vesta chegou ao Saara.
  48. 23:30São quatro saares com tudo o que você precisa para a sua festa. O Saara tem alguns estabelecimentos centenários, como a Padaria Bacil, fundada em 1913 pelo libanês Tufi Bacil. Além da esfirra famosa, quem passa por ali reconhece as paredes quadriculadas em azulejos pretos e brancos. Você sabe o motivo dessas cores? Eu te conto.
  49. 24:00Em 1962, a padaria tinha dois frequentadores famosos do futebol. O Garrincha, atacante do Botafogo, que naquele ano foi o herói do bicampeonato mundial pela seleção, e o zagueiro que era considerado o seu melhor marcador, o Jordão do Flamengo. Os dois fizeram uma aposta antes de uma partida e quem perdesse financiaria uma reforma na padaria nas cores do rival.
  50. 24:30Garrincha fez dois gols na vitória por 3x0 e o Jordão teve que bancar a reforma dos azulejos nas cores do Botafogo. As paredes estão lá até hoje, assim como a famosa esfirra Aliás, no Saara, o que não falta é opção para comer Houve aí o Vinícius anunciando o self-service sem balança no restaurante onde ele trabalha Self-service é sem balança, hein? É sem balança, é sem balança, vamos chegar aí Preço acessível, ó
  51. 25:00Vários tipos de salada, legumes Para quem quer ir no Saara ou no Camelódromo, o melhor jeito de chegar é de metrô. A estação uruguaiana fica ali na cara do gol. E se a gente está num episódio sobre os sons do rio, o metrô também tem que entrar nesse passeio. Próxima estação, Estácio. Estação de integração para Caju, bairro de São Cristóvão e rodoviária.
  52. 25:30Desembarque pelo lado direito. Next Stop, Estácio Quem anda de metrô certamente já ouviu esses anúncios várias vezes Mas você sabe de quem é essa voz? Próxima estação Rio Memórias Estação de conexão com Zana, a voz do metrô, Mind the Gap Bem-vinda ao Rio Memórias, Zana Oi, Gabriela, tudo bem? Oi, pessoal Eu sou a Zana, é um prazer estar aqui falando com vocês
  53. 26:00sua voz do metrô, a compositora da música que toca no metrô. Além de cantora e compositora, a Zana é uma amante dos sons. Tanto que ela tem uma agência, a Zana Sound, que se ocupa de criar experiências sonoras interessantes para os usuários, para as pessoas. Experiências que elevem a vibração das pessoas, que deixem as pessoas mais felizes. E a gente entende que o som tem um impacto muito maior do que a gente pode imaginar. Tudo a ver com a nossa temporada Rio de Sons, né?
  54. 26:30A Zana está escrevendo o segundo livro dela, que vai se chamar A Minha Vida Sonora. E claro, a voz dela já faz parte do cotidiano do Rio. Eu considero o som do metrorio, que é o som que a gente criou, um som muito icônico, muito comentado, muito bem recebido, que impacta milhares de pessoas todos os dias. é uma cidade definitivamente muito sonora e que vale a pena a gente cuidar dela e cuidar dos nossos ouvidos enquanto a gente vive nela
  55. 27:00porque além dela ser linda ela pode também, ela já é sonoramente linda então a gente precisa cuidar desses espaços sonoros, né gente? Próxima estação Nossa Senhora da Paz se embarque pelo lado direito ao desembarcar observe atentamente o espaço entre o trem e a plataforma. Next stop, Nossa Senhora da Paz.
  56. 27:30Disembark on the right. Mind the gap. Pronto, agora sempre que você estiver no metrô, você pode cutucar a pessoa do lado e dizer que você sabe de quem é essa voz. Eu tô brincando, gente, não é pra sair cutucando os outros no metrô não, tá? Mas agora você tem aí uma informação pra aliviar a rotina de voltar do trabalho. O Rio é a quarta cidade do mundo em que as pessoas passam mais tempo no trânsito, segundo o Relatório Global sobre o Transporte Público, divulgado em 2022 pelo aplicativo Movit. E esse estresse não é de hoje.
  57. 28:00Cerca de 600 mil pessoas diariamente, entre operários, comerciários, professores, funcionários públicos, bancários e representantes de outras classes, se utilizam dos trens suburbanos da central. Esse é o documentário Vida Carioca, um dia na central, sobre os trens do Rio na década de 1950. É comum o atraso temporário nos horários. E o público impaciente por voltar à casa invade as linhas em busca de outra composição.
  58. 28:30E vamos ser sinceros, né? Não dá pra falar em perrengue no Rio sem citar um barulho que, infelizmente, ainda faz parte da rotina de muita gente. Aê, bala comendo aqui, ó. O cara atirando no reboque aqui, ó. O cara atirando no reboque, mano. Aqui, ó. Esse é um caminhão de reboque da prefeitura e os funcionários se escondem atrás do veículo para se proteger do tiroteio.
  59. 29:00A violência urbana não é exclusividade carioca, mas a expansão do tráfico de drogas a partir da década de 1980, o surgimento das milícias, as operações policiais que entram nas favelas atirando. Tudo isso faz do som dos tiros uma trilha perigosa em vários pontos da cidade. Como diz o rapper Black Alien na música Estilo do Gueto Capítulo 3
  60. 29:30A festa como resistência Nessa cidade cheia de contradições, o carioca resiste nas ruas, no espaço público, nas celebrações no carnaval, no futebol e se alguém entende de ocupação dos espaços no Rio é o Luiz Antônio Simas certamente um som marcante é o do Maracanã das torcidas sobretudo vibrando
  61. 30:00no momento do gol então isso marcou, eu acho que é muito carioca a explosão do gol o Simas é do tempo em que o Maracanã botava mais de 100 mil vozes na arquibancada fica o nosso agradecimento a ele por ter participado novamente do Rio Memórias. Aliás, em homenagem ao Simas, eu vou deixar aqui um som que ele certamente vai lembrar. A narração do José Carlos Araújo no gol do Maurício, em 1989,
  62. 30:30quando o Botafogo derrotou o Flamengo por 1x0 e ganhou o título estadual. Os sons do futebol habitam a memória carioca
  63. 31:00Seja a torcida no Maracanã, seja uma narração no rádio Ou um outro áudio como esse que a gente vai ouvir agora Mas, peraí Pra anunciar esse próximo som, eu vou convocar um carioca ilustríssimo Um dos sotaques mais marcantes da cidade Salve, ouvintes, eu sou o Evandro Mesquita e um som marcante aqui do Rio de Janeiro, acho que eu falaria do Canal 100 que passava antes dos filmes, as jogadas dos clássicos do Maracanã, aquele...
  64. 31:30Esse aí me traz memórias muito boas
  65. 32:00Daqueles mágicos do futebol Que a gente cresceu vendo jogar É isso aí, um abraço Obrigada, Evandro O Canal 100 foi um cinejornal criado em 1957 Que exibia lances dos jogos de futebol nos cinemas Sempre acompanhados da música Na cadência do samba Que bonito é composta por Luiz Bandeira e gravada por Valdir Calmon.
  66. 32:30De presente para o tricolor Evandro Mesquita, vamos ouvir um Canal 100 de 1975, num clássico entre Fluminense e Vasco, quando o Rivelino executou o famoso drible do elástico. Para o torcedor, os grandes clubes do Rio estão oferecendo um futebol de maiores virtudes. A bola não para, os jogadores correm e dão duro. Todos os espaços do campo estão ocupados. Ou seja, há luta, muita luta e alguma violência.
  67. 33:00Mas Rivelino, em jogada de mestre, faria um gol de placa. Esse gol acabou com o Vasco, dando a vitória ao Tricolor. Ou melhor, Rivelino 1, Vasco 0. A presença das torcidas no Maracanã, a queima de fogos em Copacabana no Réveillon, eventos grandiosos do Rio que vão compondo um panorama sonoro único. E, claro, não tem como esquecer o som que vem de um templo carioca, a Marquês de Sapucaí.
  68. 33:30Vamos no sambinha, hein? Que tal a gente ir pro sambinha? Eu acho uma boa. Vamos lá, então? O samba é de Demachaga, Zarizão, Bahia e Celso Trindade. O puxador, Quinho, Salgueiro na Avenida. Peguei um Ita no Norte. Vamos cantar. Um, dois, três.
  69. 34:00Nessa temporada, a gente tem um episódio inteirinho dedicado ao berço do carnaval. A festa popular na rua, os blocos. E outro episódio com Pixinguinha, Donga e João da Baiana contando as origens do choro e do samba. Porque é isso, né? Desculpa o clichê, mas no Rio, tudo acaba em samba. Então, pra fechar o nosso passeio, eu vou te levar pra um cenário típico do imaginário carioca.
  70. 34:30Pra explicar o som de uma roda de samba, eu vou chamar uma pessoa que conhece bem esse ambiente. O percucionista Rafael Lagoas. Ele participou do lançamento da nossa quarta temporada, quando a gente fez uma apresentação ao vivo no auditório da Rádio Roquete Pinto. Se você não viu, busca lá no canal do Rio Memórias no YouTube. Bem-vindo, Rafael.
  71. 35:00Olá, Gabi. Tudo certo? Inclusive, estou chegando para trabalhar agora, para concluir mais uma roda de samba. É o que me marca, que é bem marcante pra mim A roda de samba, nos bares, botecos, por onde eu passo, venho passando Desde quando a gente chega, que a gente encontra os funcionários da casa Na boa noite, aquela troca de ideia
  72. 35:30O som da música de fundo, que tem nos intervalos Do samba em si Dos instrumentos de harmonia De percussão Que vai contagiando o público E a galera Contribui também com a gente Bate na palma da mão Galera fazendo aquele pedido Esses sonhos assim Marcam bastante, entendeu? Eu tenho isso muito assim na minha mente Obrigada, Rafael
  73. 36:00E bom trabalho Obrigada também a Zana, ao Evandro Mesquita Ao Luiz Antônio Simas a todo mundo que acompanhou a gente nesse Passeio pelos Sons do Rio. Essa foi a quarta temporada do Rio Memórias. Eu espero que você tenha gostado. E tem mais, viu? Se você quiser se aprofundar no assunto, você pode explorar a Galeria Rio de Sons lá no nosso Museu Virtual em riomemórias.com.br.
  74. 36:30E na descrição do episódio tem o link para você acessar as pesquisas dessa temporada. São uns arquivos lindões, com imagens e textos organizados pelo nosso historiador Davi Arueira. O Davi é mineiro, mas quando chega no Rio já tem um som que chama a atenção dele. Oi, pessoal. Bom, pra mim o som mais carioca de todos é aquele táxi, táxi cheio de sotaque que eu escuto tanto quando eu chego no aeroporto ou na rodoviária. Boa, Davi!
  75. 37:00Ah, a gente te espera aqui no Rio pra comemorar a quarta temporada. Esse podcast é uma produção da Escuta Aqui, com coordenação, roteiros e locuções adicionais do Rodrigo Alves. Gabi, a musiquinha do carro do ferro velho não sai da minha cabeça. Uma nova história Deus tem pra mim. A supervisão dos roteiros é feita pelo Thales Ramos. O meu som preferido da cidade do Rio é aquela confusão do vozerio do Largo da Carioca. Gente conversando, ambulante, artista de rua, banca de jornal, buzina de carro.
  76. 37:30Falando em vozerio, a captação dos sons que você ouviu nesse episódio foi feita pelo Gustavo Andrade e pela Jamile Boulê. Para mim, o som que representa o Rio é quando a torcida do Flamengo canta Domingo, eu vou maracanã vou torcer para o time que sou fã e aí vai até Domingo Olha Jamile, eu até acho
  77. 38:00que o som mais característico do Rio vem do maracanã, mas ele termina assim Ah, pronto Duelo de torcida bem na hora dos créditos Eu, hein Além das captações do Gustavo e da Jamile Hoje você ouviu áudios de Arquivo Nacional, Canal 100 TV Brasil, SBT TV Globo, Rádio Globo Jornal O Globo Folha de São Paulo e os canais
  78. 38:30Zana Sound, Roda de Samba Pedra do Sal, Brasil Torcidas WBOTV Cristina Luz Fresh Dance Hall e Te Vejo Pelo Mundo Quem junta esses áudios todos numa embalagem bonitona é a nossa editora e sonorizadora a Clara Costa, que também entra na cota dos mineiros, mas já frequentou muito o Rio Bom, um som que é muito característico pra mim é uma memória afetiva que eu tenho com o Rio de Janeiro, porque minha tia morou a vida inteira em Copacabana, então
  79. 39:00toda vez que eu chegava no Rio de Janeiro eu escutava aquela porta de elevador antiga assim, sanfonada, metálica aquele som é uma das marcas pra mim do Rio, de tipo, você está no Rio de Janeiro você chegou a música desse podcast não é musiquinha de elevador não, tá? É trilha sonora original, composta pelo Gabriel Falcão, que mora no interior de São Paulo pra mim o som mais legal e mais especial no Rio de Janeiro é o som da caixinha de fósforo sendo usada como percussão em alguns sambas
  80. 39:30porque isso faz muito parte da minha história da história do porquê eu escolhi estudar violão a princípio na faculdade, né? Então, acaba sendo um som que eu guardo com bastante carinho e que me lembra muito de músicas do Rio de Janeiro. E as locuções são gravadas no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro, com supervisão técnica do Dani Dinho. E como o estúdio fica bem na frente da praia, eu não posso fugir do clichê que é a voz do vendedor de mate. Não tem como fugir dos sons da praia, né? Bom, eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora do Rio Memórias.
  81. 40:00E o som mais marcante do Rio pra mim é o do vassoureiro, passando na minha rua quase todo fim de tarde. Quando eu tô em casa, ele me lembra que é a hora do meu cafezinho. Gostou do episódio da temporada? Então agora eu quero saber qual é o seu som preferido do Rio ou da sua cidade. No Spotify tem a pergunta pra você responder, vai lá. Marca a gente no Instagram, na arroba Rio Memórias.
  82. 40:30Espalha o podcast por aí e manda para todo mundo escutar. Combinado? Muito obrigada, um beijo e até a próxima. O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, e pelo Banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremat, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS.
  83. 41:00Obrigado por ter acompanhado a gente nessa temporada. Até mais!

Disponível em

Todos os episódios

  1. 01Sounds of Faith
    Duração 38:15

    At the opening of season 4, a journey through the sounds of faith in Rio de Janeiro: the church bells, the drumbeats of the terreiros, evangelical preaching, the sonic power of the many religions. Interviewed in this episode: Luiz Rufino.

  2. 02The city of pianos
    Duração 36:33

    In the 19th century, pianos spread through concert halls, dance balls, and wealthy homes in Rio de Janeiro. In the times of Chiquinha Gonzaga and Ernesto Nazareth, the city earned the nickname Pianópolis. Interviewed in this episode: Pedro Paulo Malta.

  3. 03The birthplace of carnival
    Duração 35:52

    A journey through entrudos, corsos, cordões, societies, and ranchos: the origins of carnival in Rio de Janeiro. Interviewed in this episode: Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti.

  4. 04The voice of the bambas
    Duração 49:35

    The origins of samba and choro in the voices of three geniuses of Brazilian music: Pixinguinha, Donga, and João da Baiana, in their historic testimonies to the Museu da Imagem e do Som.

  5. 05From bossa nova to funk
    Duração 41:57

    An unlikely dialogue between bossa nova and funk, two sounds that mark Rio de Janeiro's identity, each in its own rhythm, each in its own way. Interviewed in this episode: Hugo Sukman and Juliana Bragança.

  6. 06A day of Carioca sounds
    Duração 41:20

    The beach, the mate vendor, the street vendors, the street markets, the subway voice, the scrap iron truck, the samba circles: for the season finale, a stroll through Rio de Janeiro's soundscape and the history behind each of these sounds.