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Rio of sounds
Episódio 04
The voice of the bambas
0:00faltam 50 min49:35
Transcrição
Oi! Hoje eu quero te levar para um prédio imponente no centro do Rio de Janeiro.
- 0:00Oi! Hoje eu quero te levar para um prédio imponente no centro do Rio de Janeiro. A gente está bem perto de um lugar que você já visitou aqui no Rio Memórias, a Ladeira da Misericórdia, primeira via pública da cidade, aberta no século XVI, bem ali onde ficava o Morro do Castelo. O morro desapareceu e a gente já contou essa história lá na segunda temporada.
- 0:30Mas ali pertinho, na Praça Luís Souza Dantas, fica um edifício de arquitetura neoclássica, com duas escadarias que sobem até a entrada principal. Eu quero que você se imagine chegando nesse lugar, só que mais de meio século atrás. Se você é ouvinte do podcast, você sabe que eu toda hora peço para você pensar numa cena como eu estou fazendo agora.
- 1:00Aqui, a gente costuma viajar para um passado em que nem existia gravação de áudio. Então, geralmente eu te convido a imaginar o som de uma determinada época. Mas hoje não precisa Hoje você vai ouvir o som original Gravado pelos microfones que estavam posicionados Numa sala dentro daquele prédio No dia 24 de agosto de 1966
- 1:30A primeira entrevista do Conselho Superior de Música Popular Brasileira Realizada no dia 24 de agosto de 1966 Com João da Baiana Entrevistadores, os conselheiros Hermino Belo de Carvalho e Aluísio de Alencar Pinto João da Baena, por favor, seu nome completo
- 2:00João Machado Guedes João Machado Guedes Data do seu nascimento, por favor 1887, 17 de maio Aos 79 anos, João da Baena, um dos pioneiros do samba gravou naquele dia o primeiro episódio da série Depoimentos para a Posteridade no recém-inaugurado Museu da Imagem e do Som, o MIS.
- 2:30Até hoje, o MIS funciona no mesmo endereço e também em outra sede no centro. De lá para cá, foram mais de mil depoimentos. E hoje, você ainda vai ouvir outras duas vozes fundamentais que passaram por lá. Pixinguinha, seu nome completo. Alfredo da Rocha Viena Júnior. Data do nascimento? 23 de abril de 1898. Pixinguinha, um mestre do choro, gravou seu depoimento naquele mesmo ano de 1966,
- 3:00no dia 6 de outubro, e voltou em 22 de abril de 68 para uma segunda entrevista. Mas está faltando outro pioneiro para completar esse trio. Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga, que encarou os microfones do MIS em 1969. Eu já conheci o Pixinguinha, que eu morei no Encantado, e ele morava na rua Gomes Serpa.
- 3:30Ele morava na rua Gomes Serpa, onde ele nasceu, nasceu lá na rua Gomes Serpa. Eu sou a Gabriela Montoni e essa é a quarta temporada do podcast Rio Memórias. Os episódios exploram a Galeria Rio de Sons, que você encontra no nosso Museu Virtual em riomemórias.com.br. Hoje eu te mostro que a paisagem sonora da cidade também é composta pelas vozes cariocas que se confundem com as origens do choro e do samba.
- 4:00No intervalo curto de dois anos e meio, João da Baiana, Pixinguinha e Donga subiram as escadas daquele prédio imponente no centro do Rio. Que sorte a nossa poder ouvir, em pleno século XXI, a sabedoria desses três bambas que nasceram no século XIX e ajudaram a moldar a música brasileira.
- 4:30Capítulo 1 – A festa que nunca termina Na última década do século XIX, a recém-proclamada república não era muito fã desse som que você está escutando. O som dos cortiços, as habitações coletivas populares que se espalhavam pelo centro.
- 5:00Com a abolição da escravatura em 1888, a população negra, cada vez maior no Rio de Janeiro, trombava com um projeto de branqueamento da capital. A ideologia higienista incentivava a chegada dos europeus e o chamado embelezamento da paisagem urbana.
- 5:30Mesmo que para isso fosse preciso tirar as pessoas pobres do caminho. Quer um exemplo? Em outubro de 1890, pouco mais de dois anos depois da abolição, foi publicado o Código Penal. Esse trecho, quase no fim do decreto, ia ditar o comportamento da polícia na capital.
- 6:00por meio de ocupação proibida por lei ou manifestamente ofensiva da moral e dos bons costumes. Pena de prisão por 15 a 30 dias. Era a tal lei da vadiagem. Pela mesma sentença que condenar o infrator como vadio ou vagabundo, será ele obrigado a assinar termo de tomar ocupação dentro de 15 dias, contados do cumprimento da pena.
- 6:30Ou seja, quem não tem uma profissão pode ser preso. E isso num momento em que muitos negros recém-libertos ainda estavam à margem do mercado de trabalho. O jeito era todo mundo se ajudar como dava. E o Rio viu crescer ainda mais um polo de resistência cultural que já existia desde meados do século XIX nos arredores da Praça XI, com africanos e afro-baianos fazendo suas festas, rodas musicais e encontros religiosos.
- 7:00O sambista e pintor Heitor dos Prazeres depois apelidaria essa região de Pequena África, abrangendo os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, na zona portuária. Um cortiço bem conhecido na época ficava no número 34 da rua Senador Pompeu, na base sul do Morro da Conceição.
- 7:30Frequentada por operários que trabalhavam no porto, essa rua tinha várias habitações coletivas e acomodou moradores do Cabeça de Porco, que tinha sido demolido em 1893. Mas não é para o número 34 que eu vou te levar, não. Vamos andar mais um pouquinho para chegar na casa de uma moradora importante da Rua Senador Pompeu. Persiliana Maria Constança, a Tia Persiliana, uma das famosas baianas mães de santo da região.
- 8:00Nas casas das Tias Baianas, as festas eram espaços de acolhimento e proteção. Naquele ambiente fundamental para a formação do samba na década de 1890, circulava um menininho chamado João, um dos 12 filhos de Persiliana. João Machado Guedes. O nome de seus pais. Persiliana Maria Constança e Félio José Guedes.
- 8:30Pois é, João da Baiana não tinha esse apelido à toa. Era carioca, mas era filho da Baiana Persiliana, que ensinou para ele desde pequena a batida do pandeiro. Aos oito anos, João já participava das sessões de samba e candomblé.
- 9:00Porque eu dei para o candomblé, dei para a batucada, dei para a macumba, dei para a compô. E minha mãe tinha orgulho comigo, porque eu era carioca e venci os meus irmãos, que eram baianos, que não sabiam. Eu então discutia com minhas irmãs, eu dizia, vocês são baianos, eu sou carioca, mas vou te escrever na ponta do pé.
- 9:30Aqui, eu vou só te lembrar de novo que você está ouvindo a voz de um homem negro, nascido em maio de 1887, um ano antes da abolição. Os seus avós eram escravos? Naturalmente, né? Sim. Pela época que eles foram escravos. E que língua eles falavam também? Me parece que eles falavam jeje. Jeje, angola e nagô. Já deu pra perceber o tesouro que é esse depoimento?
- 10:00E tá só começando. O João da Baiana era o mais velho dos três bambas que a gente recebe nesse episódio. Tia Persiliana também convivia com as mães de Pixinguinha e Donga. Então, vamos trazer Donga para a conversa. Ele era dois anos mais novo que João e foi entrevistado no MIS em 1969,
- 10:30três dias antes de completar 80 anos. Um dos entrevistadores era o advogado e historiador Ricardo Cravo Albim, que fundou e dirigiu o museu até 1971. E, como o João estava falando das mães, a mãe de Donga também era uma tia baiana muito famosa, a tia Amélia. E olha, eu vou te falar, essa mulher promoveu festas memoráveis. Minha mãe realizou grandes reuniões de samba,
- 11:00porque ela trouxe isso no sangue, a baiana trouxe isso e lá em casa se reunia com os pioneiros. Há histórias, inclusive, que dizem que essas festas às vezes duravam dois dias. Dois? Na minha casa houve samba de oito dias. Ininterruptos? Ininterruptos. Como era? Conte como era. Quando era o prazer, o prazer daquilo, da festa,
- 11:30você descia, trabalhava no Nacional de Marinha, não sei o quê, ia trabalhar e voltava. Você encontrava todas as casas festejando. Lá dentro das casas você encontrava choro, samba, porque quando se falava, fulano deu o samba, o samba era na sala de jantar e o baile era na sala de visita. Na frente. Na frente. E, no fundo, a batucada. Além da tia Amélia e da tia Persiliana, é claro que a gente precisa citar aqui a mais conhecida de todas as tias,
- 12:00Hilária Batista de Almeida, a tia Ciata, dona de um tabuleiro de quitudes nas imediações da Rua da Carioca. Na sua casa e no seu terreiro, a polícia não entrava. Até porque, no meio dessa relação conturbada entre as autoridades e a população negra, parte da aristocracia política e econômica carioca Costumava se benzer com mães e pais de santo Até o presidente na época, o Wenceslau Braz
- 12:30Procurou a tia Ciata para curar uma ferida Deu certo e a partir dali ele ficou muito grato As festas colocavam sob o mesmo teto Militares, políticos de alto escalão Estivadores do porto e batuqueiros Mas apesar desse convívio improvável O samba ainda era perseguido O samba era assunto da polícia Era uma coisa horrível Parece que você era comunista É, com essa definição bem direta do Donga A gente volta para o João da Baiana
- 13:00Que explica como as tias garantiam o samba nas festas Elas tinham que tirar licença com os chefes de polícia E essa licença, como é que se tirava essa licença? Essa licença tinha que a chefatura de polícia Explicar aos chefes de polícia Que queriam dar um samba Ia dar um baile, uma festa de cortebaio mas queria um samba no fim, porque ali daquele samba saía batucada, saía candomblé. Você foi preso por samba alguma vez? Eu? Pois então não fui preso por pandeiro.
- 13:30Só uma vez só ou mais? Diversas vezes. Diversas vezes? Eu tomava pandeiro e prendia. Eu tenho fotografia em casa, na revista, eu dentro do xadrez com pandeiro. Um dia o jogo virou. João da Baiana tinha sido abordado pelos policiais E mesmo comprovando renda e residência fixa, tomaram o pandeiro Com isso, ele não pôde tocar num evento promovido pelo então senador Pinheiro Machado
- 14:00No Palácio das Laranjeiras O senador, que era um dos homens mais poderosos do país Mandou chamar João no gabinete para saber o motivo da ausência no evento Quando soube que a polícia tinha confiscado o instrumento, falou para o João Pode comprar outro pandeiro na loja que você quiser e entregue esse bilhete para o dono da loja. Pede para ele gravar essa frase no pandeiro. A minha admiração, João da Baiana. Senador Pinheiro Machado.
- 14:30Pronto. Nunca mais um policial teve coragem de confiscar o pandeiro do João assinado pelo senador. Como diz o jornalista e escritor Lira Neto no livro Uma História do Samba, esse caso ajuda a entender a relação cheia de altos e baixos entre os sambistas e as autoridades nas primeiras décadas do século XX. Ouve só esse trecho. O presente de um dos mais influentes políticos de toda a Primeira República,
- 15:00o jovem talento do ritmo, foi mais do que um agrado. Naquela troca estava expressa a complexa convivência entre as classes políticas e econômicas e os músicos populares. A sociedade permanecia extremamente racista e o Rio vivendo a ideologia do higienismo e o seu bota abaixo. Por outro lado, havia os pontos de contato cotidiano entre, abre aspas, os de cima e os de baixo, fecha aspas, possibilitando não apenas uma efetiva rede de proteção contra a violência policial,
- 15:30mas também garantindo um certo sustento para João da Baiana e seus semelhantes através de seu trabalho como músico. Esse instrumento que você está ouvindo, tão associado ao samba, foi João que juntou as duas coisas lá no começo do século XX. E, já que a gente está falando de pioneirismo,
- 16:00é sempre bom lembrar que essas certidões de nascimento do samba são meio confusas. A musicalidade vem de caminhos diferentes que em algum momento se cruzam Uma dessas origens é o chamado partido alto
- 16:30Uma arte do improviso presente na rotina dos três personagens que a gente está ouvindo hoje Presta atenção no que diz e no que canta o João da Baiana Tinha samba corrido, que era com coro Esse samba que nós cantamos, que responde com coro, era corrido Agora tinha o samba do Partido Alto É o que eu canto com o Donga e o Pixinguinha Partido Alto, por exemplo Entro eu e o Donga, né? Pixinguinha faz a introdução, né? Pixinguinha faz a introdução
- 17:00Aí eu entro com o Donga Oi, patrão O patrão prende o seu galho Na lavra tem um ditado Quem mata o galho é jurado Missa de padre é latim Rapaz solteiro é letrado Eu vim preso da Bahia Porque era namorado Sem asinha vazia Dona, samba Samba Samba Samba Capítulo 2
- 17:30A Santíssima Trindade A gente já escutou bastante A voz do João da Baiana e do Donga Mas se eu te conheço bem Eu sei que a essa altura você está aí Já pensando, cadê o Pixinguinha? Então pronto, chegou a hora Aliás, a hora certa, porque esse papo de origem do samba deixava Pixinguinha meio contrariado A praia dele era o Choro e ele diz isso claramente nos dois depoimentos concedidos ao MIS em 1966 e 68
- 18:00Inclusive nessas duas ocasiões o João estava presente na sala Você disse que não quer responder sobre samba, mas eu queria saber também o seguinte Na época, você é, você que está o João da Baiana aqui é uma autoridade Mas você já ouviu falar, na época, você ouviu falar em samba duro? Não, não sei. Samba corrido? Conversa lá. Bom, corrido é lá com o João. Tudo isso.
- 18:30Bom, mas tinha, não, porque o João já fez um depoimento muito bonito. Eu não era do samba, meu amigo, eu não era do samba. Eu era do choro, né? Eu não era do choro. Não, porque nós estamos fazendo aqui um registro sobre partido alto, sobre chula raiada, essas coisas, somente para dizer se nessa época você vivia em outra parte que não era do João justamente, eles faziam o seu samba lá no quintal, no terreiro
- 19:00eu fazia o meu choro na sala de visita ficava tocando o meu choro depois a gente ia pegar e levava ele para lá às vezes eu ia lá pegar, fazer um contracanto no samba com a flauta e tudo isso, mas eu não entendia Nesse depoimento histórico, o Pixinguinha foi entrevistado por grandes figuras da música brasileira,
- 19:30como Jacó do Bandolim, Paulo Tapajós e Hermínio Belo de Carvalho. E ali ele vai contando tudo, desde o início do envolvimento com a música. Fazia um dom maior, um sol maior, porque ensinava pelo meu irmão. E meu pai também era... tocava um plato de flauta, gostava do choro.
- 20:00Ele não era grande flautista. Naquela época, para mim, ele era o primeiro, né? O pai do Pixinguinha se chamava Alfredo da Rocha Viana, o mesmo nome que ele colocou no filho. Casado com Raimunda Maria da Conceição Ele era funcionário dos telégrafos, flautista amador e um entusiasta do choro Tinha em casa uma grande coleção de partituras Incluindo originais de Joaquim Antônio Calado, pioneiro e patrono dos chorões
- 20:30Calado é o compositor de Flor Amorosa Uma das peças inaugurais do estilo lançada em 1880 Aqui a gente ouve esse clássico na interpretação de outra lenda do choro Altamiro Carrilho, ao vivo no Sesc, em São Paulo, em abril de 2010.
- 21:00Como se não bastasse ter influenciado o filho no gosto pelo choro, Selviana ainda acolhia os músicos que chegavam ao Rio de Janeiro em busca de oportunidade, como o João da Baiana lembra no depoimento dele. O pai do Pixinguinha, Selviana, ele tocava flauta, né? Você ia muito na casa dele também? Bom, às vezes, né? Mas agora a história do pai do Pixinguinha eu não sei bem, não. Porque ele ele era professor de flauta, trabalhava aí no...
- 21:30Eu sei que ele trabalhava no Estelégro e ele alugava casas de habitação coletiva para guardar esses músicos todos que chegavam de fora, sem emprego, sem trabalho. Ele então alugava aquelas casas grandes em Catumbi e deixava, dava comida, dava alimento aos músicos que chegavam desempregar. Na família Viana é claro que a paixão pela flauta passou de pai pra filho.
- 22:00E tinha uma flautinha assim daquele tempo, uma flautinha de folha e eu ia naquela flautinha tinha bom ouvido e tudo isso e pegava alguns chorinhos que eram fáceis, eu fazia na flautinha de folha aquele chorinho. E meu professor Irineu de Almeida que estava morando em minha casa Esse menino promete
- 22:30E prometia mesmo Com 12 ou 13 anos, ali por volta de 1910 Pixinguinha escreveu sua primeira composição A sua primeira composição, Pixinguinha, qual foi? Lata de leite Lata de leite Escuta Por que assim chamada? Porque naquela época Nós saímos Todo dia tinha um bailezinho para a gente tocar, em casa de amigos, de pessoas, e me levaram, eu era garoto
- 23:00Mas eu ia sempre, porque eu tocava cavaquinho E de manhã, naquele tempo, os leiteiros entregavam o leite nas casas das famílias Não, no portão, deixava aquele vasilhame, vasilhame era adito Deixava com o leite ali para a família recolher E nós passávamos de manhã, não era eu não
- 23:30Quer dizer, eu também não era santo, mas não era eu porque eu era garoto Então eles iam lá, pegavam lá o litro de leite, bebiam o leite e deixavam lá o litro vazio E eu me inspirei e fiz lata de leite, chorando lata de leite por isso foi meu primeiro show essa história saborosa é tudo que a gente tem sobre Lata de Leite
- 24:00não existe nenhum registro ou partitura dessa música mas pouco depois, aos 15 anos Pixinguinha já começava a ganhar fama no Rio de Janeiro como um prodígio da flauta em 1912, o Teatro Rio Branco que era também um cinema ou cinematógrafo, como se chamava na época tinha uma orquestra e o flautista era o experiente Antônio Maria Passos, que também tocava com Chiquinha Gonzaga. Ele precisou se ausentar de algumas sessões da peça Morreu Neves.
- 24:30Aí, o violinista do espetáculo chamado Tuti, lembrou que já tinha visto o filho do Selviana tocando flauta. E Pixinguinha, sem desconfiar de nada, estava na rua um belo dia soltando pipa. Então eu estava na estação de piedade soltando um papagaiozinho. Naquela época Estou soltando meu papagaio nas horas várias. E chegou um representante da Seu Álvaro me procurando.
- 25:00É aqui que mora o Sr. Pixinguinha. Minhas irmãs ficaram assim, o Sr. Pixinguinha? É, tem um Pixinguinha aí soltando papagaio. Eu queria falar com ele. Então o cidadão chegou lá e disse, eu trago aqui um pedido para que o senhor compareça lá no Teatro Rio Branco,
- 25:30essa coisa toda para o senhor, porque o senhor foi indicado para tocar flauta lá no Teatro Rio Branco. Eu digo, eu? Eu digo, eu não vou, não. Eu disse, olha, eu, em teatro do Rio Branco, naquele tempo, era muito conhecido. Eu digo, eu não vou, eu não vou. Então, minhas irmãs começaram, vai, vai, vai lá, vai lá.
- 26:00Eu digo, eu não vou, não, eu, tocar em teatro do Rio Branco, eu não vou. Mas vai lá, deixa de ser tudo, assim mesmo, assim, de ser tudo. Eu disse, sim, senhor. Então eu vou. Ele disse, eu vou. E foi.
- 26:30Naquela atmosfera refinada do Rio Branco, com lustres de cristal e as paredes do hall de entrada cobertas por espelhos, Pixinguinha não só deu conta do recado, como encantou a plateia que ocupava 600 cadeiras com assento de couro. Quem estava ali para dar umas risadas com a peça de comédia, acabou se surpreendendo com a qualidade do trio de choro
- 27:00na formação clássica, com violão, cavaquinho e flauta. E eu sei que aqui no Rio Memórias a gente costuma recriar os sons da época, mas é que nesse caso é a flauta do Pixinguinha, né? Então a música eu deixo para a sua imaginação, pode ser? Vamos direto para os aplausos. O fato é que, rapidamente, o filho do Selviana deixou de ser flautista substituto para virar o titular do Rio Branco.
- 27:30Quem não curtiu muito a ideia foi o Antônio Maria Passos, que também era muito talentoso, mas, né? Quem mandou se ausentar quando o Pixinguinha tava dando sopa na rua e pirando papagaio? A partir dali, Pixinguinha começou a fazer seu nome na cena musical carioca. Tocava nas Noites da Lapa e, ao lado do seu irmão China, ingressou no conjunto Caxangá, liderado pelo grande compositor e violonista João Pernambuco.
- 28:00Essa é uma composição de João Pernambuco chamada Maguado, numa gravação de 1930 com ele no violão.
- 28:30Agora, adivinha quem também fazia parte do Conjunto Caxangá? Donga, que já conhecia Pixinguinha desde a infância. Mandeiro, deixa eu pegar a tua memória aqui antes. Você se lembra exatamente de quando você conheceu Pixinguinha? Eu me lembro mais ou menos. Eu já conhecia o Pixinguinha, que eu morei no Encantado,
- 29:00e ele morava na rua Gomes Serpa. 1908, quando Donga tinha 19 anos e Pixinguinha tinha 11. Por mais que essas datas possam ficar meio borradas na memória, o fato é que Donga também estava inserido na cena musical desde muito cedo, aproveitando as festas da tia Amélia para se familiarizar com os instrumentos.
- 29:30Tinha uns 14 anos. Uns 14 anos. Até então você só ouvia? Só ouvia. Só ouvia e tal? Só ouvia. Já treinava e tal, mas não tocava. Mas com 14 anos eu já tocava. Você não teve aprendizado sistemático de cavaquinho nem de violão? Absolutamente. O convívio com Pixinguinha e João da Baiana foi tão natural que Donga nem lembra exatamente o início da parceria musical.
- 30:00Quando você começou? É. Quando vocês começaram a tocar juntos? Juntos nós tocamos sempre. Sempre, sempre até que... Desde o começo, desde menino? Desde então. Não sei, achava o outro bom, não largava mais, não. No caso de Pixinguinha, Donga não achava ele bom. Era um outro nível. Eu acho Pixinguinha... Vou lhe dizer uma coisa. Vou contar a vocês. Vocês não sabem, não. Acho Pixinguinha um gênio. Sempre achei. Gênio.
- 30:30Tá vendo? Em 1919, o gênio Pixinguinha tinha 22 anos quando foi procurado por um homem chamado Isaac Frankel. Ele era o gerente do Palé, um cinema luxuoso que ficava na Avenida Rio Branco, entre as ruas 7 de Setembro e Assembleia. O Rio de Janeiro ainda se recuperava da terrível epidemia da gripe espanhola e os cinemas andavam às moscas.
- 31:00De olho no sucesso do conjunto Caxangá, o gerente teve a ideia de substituir a orquestra que ficava na sala de espera por uma formação mais popular. Nasciam ali os Oito Batutas, que, além de Pixinguinha, tinham Donga, China e Raul Palmieri nos violões, Jacó Palmieri no pandeiro, Luiz Pinto no reco-reco e na bandola, Nelson Alves no cavaquinho e José Alves de Lima, o Zezé, no bandolim e no ganzá.
- 31:30É claro que os engravatados do Rio de Janeiro estranharam aqueles homens negros ocupando um espaço da elite. Mas o sucesso de público foi estrondoso. Do outro lado da rua, no Odeon, quem tocava na sala de espera era o grande pianista Ernesto Nazaré. E até o Nazaré atravessava a rua para ver os oito batutas entre um filme e outro. O milionário Arnaldo Guinle, então presidente do Fluminense, se tornou um mecenas bancando apresentações do grupo Brasil afora.
- 32:00Um desses shows foi para acompanhar um famoso bailarino internacional, conhecido como Duque. Foi Duque que convidou os Oito Batutas para cruzar o Oceano Atlântico e fazer uma turnê inesquecível na França Foram de navio, naturalmente, né? Fomos no Marcilia e voltamos no Luteça
- 32:30E vocês tinham a consciência nítida de que embarcando para a Europa estavam levando pela primeira vez a música popular brasileira para o exterior? Não tenho dúvida Tinham essa consciência? Tinha, tinha, sempre tivemos Sempre tivemos, nós fomos lá com a cara, a coragem e os instrumentos Com a cara, a coragem e os instrumentos Desembarcaram em Marseille Ah, esse é o teu nome do vinho, como é? Em Bordeaux Em fevereiro de 1922, o conjunto desembarcou na cidade que tem o nome do vinho, como disse o Donga
- 33:00E depois ficou seis meses em Paris Mas dos oito batutas, só foram sete Então, na França, eles tiveram que tirar o oito do nome e ficaram conhecidos como Le Batuta. O Pixinguinha conta essa história no maravilhoso filme Saravá, rodado em 1969 e lançado em 72 pelo ator e compositor francês Pierre Barru. O documentário sobre a música brasileira tem depoimentos antológicos de João da Baiana,
- 33:30Baden Powell, Maria Bethânia e Paulinho da Viola. Mas vamos ouvir o Pixinguinha. Essa conversa acontece numa mesa de bar cheia de garrafas, com o Pixinguinha elegantemente vestindo terno, gravata e chapéu. Tem uma hora que ele canta a música que ele compôs em francês
- 34:00para apresentar o grupo em Paris. O ponto alto da turnê francesa foram as apresentações diárias no famoso Chez Hazard. A estreia foi no dia 14 de fevereiro e o bailarino Duque não economizou nos elogios para anunciar as apresentações no jornal Le Petit Parisien.
- 34:30Batutas, esta extraordinária orquestra brasileira única no mundo de uma alegria en diable, Composta por virtuoses apelidados de reis do ritmo e do samba E o que vocês tocavam lá no Shehazade? Samba Só música brasileira? Por quê? Só Porque em frente a nós tinha uma outra orquestra Tinha um quinteto ou sexteto muito bom, não é? Violino
- 35:00No Shehazade, a casa estava sempre cheia Com dezenas de mesas rodeando a pista de dança Sem falar em quem via tudo do alto nos balcões do mezanino A viagem não chegou a ter uma ampla cobertura na imprensa francesa Mas mudou o status dos Batutas Tanto pelas referências musicais que eles captaram naqueles seis meses Como pela popularidade no retorno ao Rio de Janeiro É o próprio Pixinguinha que explica no depoimento ao Museu da Imagem e do Som A popularidade do conjunto era a mesma já, depois?
- 35:30Ih, depois que nós dá a volta de Paris Tanto que, na sequência, o grupo fez outras excursões pela América do Sul Em dezembro de 1922, os Batutas chegaram à Argentina E, no começo de 1923, fizeram quatro sessões de gravações para o selo Victor Esse é um registro de uma dessas gravações na Argentina
- 36:00uma adaptação do tema Urubu Malandro, com Pixinguinha na flauta. Mas a viagem pela América do Sul também teve seus tropeços. Os produtores se desentenderam, a grana apertou e, na volta ao Brasil, o grupo se separou. Donga e Pixinguinha voltaram a tocar juntos cinco anos depois, com a criação da orquestra típica Pixinguinha-Donga. E, no início da década de 30, surge o grupo Guarda Velha,
- 36:30no qual Pixinguinha passa a fazer arranjos para novos compositores como Ari Barroso, Lamartine Babo e Ismael Silva. É ali que João da Baiana reencontra os dois amigos, refazendo a Santíssima Trindade. A estreia do grupo foi em outubro de 1931, com o lançamento de duas músicas, Aú Laô e Patrão Prenda Seu Gado, que é essa aí que você tá ouvindo.
- 37:00Os três juntos numa gravação original, Pixinguinha na flauta e na regência, Donga no violão e no banjo E João no seu instrumento preferido O prato, que ele riscava com uma faca para marcar o ritmo Aliás, o prato e a faca originais fazem parte do acervo do MIS no Rio de Janeiro O trio também assina a composição dessas duas músicas Quem canta é a dupla Zaira de Oliveira e Francisco Sena Na certidão de nascimento empoeirada do samba
- 37:30Por muito tempo, se disse que o marco inaugural tinha sido 1916, com a música Pelo Telefone, gravada pelo Donga. Hoje, se sabe que registros fonográficos anteriores já tinham o selo identificando o gênero samba. Uma dessas músicas, inclusive, é Urubu Malandro,
- 38:00que a gente ouviu ainda há pouco na versão posterior dos Oito Batutas. Mas, desde 1908, a palavra samba já estava no registro de algumas músicas de selos como Odeon, Colúmbia e Fênix. Mesmo assim, Pelo Telefone entrou para a história como um marco. Essa é uma apresentação no programa da Hebe Camargo, em 1966.
- 38:30Donga com 77 anos, cantando ao lado de um jovem Chico Buarque com um sorridente Pixinguinha lá atrás, observando tudo. No depoimento ao Miss, o Donga ligou o modo sincero quando perguntaram sobre as primeiras gravações da música. E qual foi a primeira gravação pelo telefone do homem de quem?
- 39:00Do Baiano. Pelo Baiano. Mas teve mais, teve mais. Você gostou, me perdoe, você gostou dessa primeira gravação? Não, não, não. Não ficou satisfeito? Nem da segunda também não gostei, não. De quem foi a segunda? A bandinha da caseta, uma coisa horrorosa. Puxa vida. E você quando veio achar a definitiva versão discográfica? Definitiva? Pelo telefone, né? Definitiva foi a banda do Maestro Sobrinho, mas não gravou. A definitiva, tendo gravado, foi a banda do primeiro de infantaria da Bahia,
- 39:30quando esteve aqui nos concursos de bandas de músicas. Ele gravou a banda Bahia? Sim, senhor. Vamos ouvir um trecho dessa primeira gravação de 1917 com Manuel Pedro dos Santos, o baiano que o Donga não gostou muito. A letra que ficou famosa no carnaval começa com o chefe da polícia. Era uma cutucada no chefe da polícia da época que administrava os jogos proibidos. Na gravação do Baiano, era o chefe da folia, com versos diferentes.
- 40:00Agora você imagina, de 1917 até 1969, quando o Donga estava ali no Miss,
- 40:30a quantidade de gente que gravou essa música. A menina Elza Soares tinha 38 anos em 1968, quando gravou com o Miltinho no álbum Elza, Miltinho e Samba, volume 2.
- 41:00Era tanta gravação que, àquela altura, nem o próprio Donga queria saber de Pelo Telefone. A versão original da música tinha características mais próximas do machixe, que não combinava muito com os blocos carnavalescos que começavam a tomar as ruas do Rio.
- 41:30No fim da década de 1920, o samba vai ganhando um outro andamento. E esse novo jeito de sambar tem como grande pioneiro um cantor e compositor que eu já citei aqui, o Ismael Silva. Ele mesmo explica a mudança num depoimento de 1977, um ano antes da sua morte, resgatado pelo programa Arquivo N, da Globo News. Já imaginaram um agrupamento carnavalesco na rua, andando, cantando pelo telefone o samba?
- 42:00Tem que andar assim De acordo com o ritmo, né? Então eu sentia que não havia Comecei a notar Cheguei à conclusão de que eu precisava transformar Daí a transformação Olha que diferença grande Que diferença É mais ou menos nessa época que se estabelece a tríade da bateria do samba, surdo, cuíca e tamborim.
- 42:30Só que outras transformações vieram nos anos seguintes, Inclusive no planejamento urbano da cidade As reformas começaram a atingir a Praça 11
- 43:00Que foi demolida com as obras de abertura da Avenida Presidente Vargas O século XX foi avançando A Mangueira viu surgir Cartola E Vila Isabel viu surgir Noel Rosa O samba caiu de vez no gosto popular com a ajuda da Rádio Nacional E virou sinônimo de música brasileira Quando Ari Barroso compôs Aquarela do Brasil Até chegar na segunda metade do século XX Quando a bossa nova começa a ganhar espaço Aliás, foi bem nesse momento que o Pixinguinha gravou o depoimento pro Miss
- 43:30Ali, em 1968, a pergunta foi inevitável Como é que você vê a música brasileira de hoje Os novos compositores Essas influências Como é que você vê? Essa geração que está surgindo Novo ritmo da bossa nova em relação ao samba anterior, por exemplo Se eu disser um movimento lá para eles, pode ser que daqui, não é? Mais adiante, que me convença.
- 44:00Mas é preciso, eu já disse, é preciso que eles estudem um pouco para não fazer um caso de erros, não é? Para que faça a gente sentir. Porque esse negócio de ritmo, isso está escrito, isso. Agora, a melodia é preciso ter um bocado de trabalho, estudar um pouco para ver se descobre outra coisa.
- 44:30Mas as nossas melodias populares estão tão exploradas que eu acho que eles têm que cair na melodia nossa antiga mesmo. Esse olhar crítico do mestre sobre o movimento que estava surgindo é um ótimo gancho para o nosso próximo episódio que vai começar na Bossa Nova e vai chegar até o funk em dois momentos que também definem os sons do Rio. Então eu agradeço ao Pixinguinha por ter feito essa conexão pra gente. Eu só quero agradecer a vocês
- 45:00e Deus que olhe por nós que nos dê muita paz muita saúde e paz pra nós e que ninguém nos incomode que deixe a gente assim como está sempre, toda a vida. Porque assim eu tenho a certeza que viverei mais uns 10 anos. Ótimo. Que assim seja.
- 45:30Que assim seja. Pixinguinha viveu mais 5 anos. Mas esse episódio é uma prova de que, na verdade, ele continua vivíssimo até hoje. O mesmo vale para o Donga. Eu, depois dessa reunião aqui, remossei. E claro, vale para o João da Baiana Eu tenho prazer, orgulho de dizer Tenho 81 anos Estou de 87, 17 de março Sou ritmista de vocês todos Graças a Deus É isso que eu estou, meu prazer é isso
- 46:00E eu vim aqui para ajudar meu amigo Relembrar qualquer coisa Porque muitas coisas boas podem passar Aí você não declarar o Gilberto Amaral. Tá certo. Nós, meninas e meninos, estamos aqui ouvindo quase seis décadas depois, ainda querendo absorver o que os bambas podem ensinar. Por isso, eu vou encerrar voltando ao filme Saravá, com uma cena linda em que o João da Baiana, aos 82 anos,
- 46:30vestindo um terno branco, canta e até sapateia um pouquinho, acompanhado pelo violão do Baden Powell. Aqui dá pra ouvir bem o prato e a faca. Presta atenção. No terreiro de Petrobras, aqui é meu pai. Cargou o coração, teu velho. Teu velho é o coração, canseio.
- 47:00Eu agradeço a nossa Santíssima Trindade pelos ensinamentos.
- 47:30Agradeço ao Museu da Imagem e do Som, que preserva essas pérolas do áudio. E agradeço a você, que ficou comigo até aqui. Você curtiu? Compartilhe o episódio nas suas redes e marca a gente no Instagram, a arroba é Rio Memórias. Se você ouve no Spotify, tem uma perguntinha aí no aplicativo pra você dizer qual depoimento mais te marcou. Na descrição de cada episódio dessa temporada tem também um link com a íntegra da nossa pesquisa feita pelo historiador Davi Arueira.
- 48:00É um documento todo bonitão, com textos e fotos pra você se aprofundar nos temas. Aproveita e explora também a Galeria Rio de Sons do nosso Museu Virtual em rio-memórias.com.br É essa galeria que inspira a quarta temporada com a paisagem sonora da cidade Esse podcast é produzido pela Escuta Aqui com coordenação e roteiros do Rodrigo Alves que também grava as locuções adicionais A supervisão de roteiro é do Thales Ramos
- 48:30e a nossa produtora é a Jamile Boulay A Clara Costa faz a edição e a sonorização E o Gabriel Falcão compõe a trilha sonora original As locuções são gravadas no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro Com a supervisão técnica do Dani Di Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora do Rio Memórias No próximo episódio tem Bossa Nova e Funk Eu espero você lá Obrigada O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo
- 49:00Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro Secretaria Municipal de Cultura pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo por meio da Lei de Incentivo à Cultura e pelo Banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremate por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura Lei do ISS. Obrigado e até o próximo episódio.
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Todos os episódios
- 01Sounds of FaithDuração 38:15
At the opening of season 4, a journey through the sounds of faith in Rio de Janeiro: the church bells, the drumbeats of the terreiros, evangelical preaching, the sonic power of the many religions. Interviewed in this episode: Luiz Rufino.
- 02The city of pianosDuração 36:33
In the 19th century, pianos spread through concert halls, dance balls, and wealthy homes in Rio de Janeiro. In the times of Chiquinha Gonzaga and Ernesto Nazareth, the city earned the nickname Pianópolis. Interviewed in this episode: Pedro Paulo Malta.
- 03The birthplace of carnivalDuração 35:52
A journey through entrudos, corsos, cordões, societies, and ranchos: the origins of carnival in Rio de Janeiro. Interviewed in this episode: Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti.
- 04The voice of the bambasDuração 49:35
The origins of samba and choro in the voices of three geniuses of Brazilian music: Pixinguinha, Donga, and João da Baiana, in their historic testimonies to the Museu da Imagem e do Som.
- 05From bossa nova to funkDuração 41:57
An unlikely dialogue between bossa nova and funk, two sounds that mark Rio de Janeiro's identity, each in its own rhythm, each in its own way. Interviewed in this episode: Hugo Sukman and Juliana Bragança.
- 06A day of Carioca soundsDuração 41:20
The beach, the mate vendor, the street vendors, the street markets, the subway voice, the scrap iron truck, the samba circles: for the season finale, a stroll through Rio de Janeiro's soundscape and the history behind each of these sounds.