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Rio de sons

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Rio of sounds

Episódio 02

The city of pianos

0:00faltam 37 min36:33

Transcrição

Oi! A nossa história nesse episódio começa pra variar no centro do Rio de Janeiro.

  1. 0:00Oi! A nossa história nesse episódio começa pra variar no centro do Rio de Janeiro. Mais especificamente no Lago da Carioca. Só que mais de 150 anos atrás, na noite de 5 de outubro de 1869. É, tava chovendo. E olha, eram pancadas de chuva bem assustadoras, viu?
  2. 0:30Que foram retratadas pelos cronistas da época como os horrores do dia 5. Essa chuva torrencial não impediu que centenas de pessoas lotassem o imponente teatro lírico para testemunhar um concerto musical histórico. E é essa cena que eu quero te contar. Então vem aqui comigo, vamos entrar logo no teatro para escapar do temporal.
  3. 1:00O que aconteceu no dia 5 e depois se repetiu em outras datas de outubro e novembro foi um espetáculo sem precedentes no Rio de Janeiro,
  4. 1:30organizado pelo pianista americano Lois Morroa Chau. Um concerto gigante com duas orquestras e inacreditáveis 31 pianistas. Nunca o Rio de Janeiro presenciou festa semelhante aos concertos monstros
  5. 2:00que atraíram ao teatro lírico a mais numerosa e luzida concorrência de que há memória nos anais dos nossos teatros. Estiveram presentes Suas Majestades e a Alteza Imperial. Se houvesse incrédulos para esta divina religião da arte, agora se teriam convertido diante de uma das mais esplêndidas manifestações do belo. O que a gente está ouvindo é uma interpretação da grande fantasia triunfal
  6. 2:30sobre o hino nacional brasileiro, composta por Gottschalk em homenagem à Princesa Isabel, que estava no teatro aquela noite. Essa é a interpretação da Guiomar Novaes,
  7. 3:00uma das maiores pianistas que o Brasil já teve. A simples presença do Gottschalk no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX Diz muito sobre um período em que a trilha sonora carioca Foi dominada por um instrumento majestoso Que se espalhava pelas salas de concerto, pelos salões de dança Pelos bailes e até pelas casas Claro que eu tô falando aqui das casas mais abastadas, né? De quem tinha condição financeira pra colocar um piano no meio da sala
  8. 3:30Eu sou a Gabriela Montoni e essa é a quarta temporada do podcast Rio Memórias, baseada na Galeria Rio de Sons, que você encontra no nosso museu virtual em rio-memórias.com.br. Hoje eu te convido a conhecer melhor esse momento da história em que o Rio virou a Pianópolis.
  9. 4:00Capítulo 1. Pianos por toda parte. Esse termo, Pianópolis, quem cunhou esse termo parece que foi o Araújo Porto Alegre Essa é a voz do jornalista, pesquisador e cantor Pedro Paulo Malta É ele que vai acompanhar a gente na nossa viagem de hoje E Araújo Porto Alegre é o escritor, caricaturista e historiador gaúcho que viveu no século XIX
  10. 4:30Ele que trouxe esse nome para o Rio de Janeiro ali pela metade do século É interessante, eu acho que primeiro, o século XIX é um momento muito importante para a música brasileira. Se a gente pensar nesse século, no que se passou entre 1801 e 1899, a gente vai ver a quantidade de transformações, o que era o Rio de Janeiro em 1801 e o que era o Rio de Janeiro em 1899. É uma mudança muito grande. Evidentemente que o marco mais importante, primeiro marco importante é 1808, chegada da família real
  11. 5:00Reza a lenda que já nessa época começaram a vir os pianos Na terceira temporada do podcast tem um episódio sobre as transformações no Rio de Janeiro Depois da chegada da família real Se você ainda não ouviu, busca aí O título é Quanta gente cabe no Rio? Com a população multiplicando de tamanho, os hábitos na capital também foram mudando Já tinha piano no Rio desde o século XVIII, mas a chegada de Dom João e companhia acelerou o processo.
  12. 5:30Em 1810, você abria um jornal como a Gazeta do Rio de Janeiro e estava lá nos classificados. Antônio José de Araújo, morador da Rua do Alecrim, número 135, tem para vender um forte piano francês. O chamado forte piano, ou piano forte, era um piano mais próximo desses que a gente conhece hoje. diferente do órgão e do cravo.
  13. 6:00Nas décadas seguintes, a presença inglesa no Rio fez esse comércio se intensificar. Professores de piano ganhavam comissões para intermediar as vendas e alguns instrumentos de qualidade inferior chegavam nas casas dos consumidores mais desavisados. Vamos abrir aqui uns exemplares do Jornal do Comércio de 1850, porque os vendedores dos pianos ingleses legítimos Tentavam se defender de qualquer jeito nos classificados Pianos de erar na rua do ouvidor número 66 Sobrado
  14. 6:30Os legítimos pianos deste grande autor não se vendem senão nesta casa Cada um deles está afiançado pelo certificado assinado pelo próprio autor Todos os pianos de erar vendidos sem aquele certificado Desde o 1º de maio de 1848 são falsificados No armazém e sobrado da Rua dos Ourives, número 61 Honório Frion, fornecedor da Casa Imperial
  15. 7:00recebeu pelos últimos navios de Londres um grande sortimento de pianos ingleses fabricados expressamente para este país dos afamados autores Townes e Pecker o que poderá provar por um certificado assinado pelos mesmos fabricantes O anunciante, tendo de fazer uma viagem à Europa faz um grande abatimento nos preços É, quem precisa vender rápido faz aquele descontinho, né? E aí é sensacional como é que ao longo desse mesmo século vai se dar essa apropriação
  16. 7:30Esse mesmo instrumento que é o instrumento dos maestros, por excelência Vai começar a chegar por aqui a rodo As famílias da, entre aspas, boa sociedade, sociedade com posses Começam a importar e as pessoas começam a comprar piano e ter piano em casa. O piano passa a ser um móvel importante nas casas. Pois é, e comprar um piano era para poucos. O valor médio era de 600 contos de réis. Para você ter uma ideia, era o mesmo preço de um órgão de igreja,
  17. 8:00o que era 30 vezes mais caro que um violão francês, por exemplo. Ou seja, ostentar um piano na sala de casa era um baita símbolo de ascensão social. E para não esquecer que a elite daquela época também tratava pessoas como mercadorias, um instrumento desse tamanho podia custar mais caro do que um homem escravizado. Quando o século XIX virou para a segunda metade,
  18. 8:30ali no apogeu do segundo reinado, as elites cariocas se esbaldavam ouvindo os pianos não só nas óperas, mas também nos salões. Aos poucos, as festas que aconteciam nas chácaras, nas fazendas e nos casarões foram ocupando espaços de poder, como o Paço de São Cristóvão, nos saraus imperiais. Ali tinha poesia, dança e música à vontade. Instrumentos como a viola, a rabeca e a flauta de ébano começaram a abrir espaço para o piano,
  19. 9:00que virou o protagonista dos bailes. Aqui é importante diferenciar esses dois tipos, o piano de concerto e o piano de salão. O pianismo de concerto, digamos assim, ele segue a partitura, ele toca o que está escrito e o piano de salão, ele é um piano para dançar.
  20. 9:30Ah, esse piano das festas, esse piano é um piano sem amplificação, quer dizer, não tinha amplificação sonora, ou seja, ele tem que ser tocado com volume, ele tem que ser tocado com bossa, a cadência, ele tem que botar os casais para dançar no salão. E esses dois tipos de pianismo convivem no Rio de Janeiro do século XIX. Desde a década de 1830, a chegada de muitos professores vindo de outros países começa a criar uma cultura pianística na cidade. Em 1855, o Rio recebe pela primeira vez um grande nome estrangeiro.
  21. 10:00O austríaco Sigismond Taubert fez uma série de concertos no segundo semestre daquele ano e mudou a percepção carioca sobre o piano. As elites da corte ficaram encantadas.
  22. 10:30Essa é uma interpretação do italiano Francesco Nicolosi para uma das composições do Taubert. Nas décadas seguintes, outros grandes nomes passaram pelo Rio. Em 1857, chegou o português Arthur Napoleão e, em 1869, o americano Gottschalk, que a gente citou no começo do episódio, naqueles clássicos concertos com 31 pianistas. E duas orquestras. Eu não sei onde cabia isso tudo e eu não sei, assim, se teve público, onde é que ficou o público.
  23. 11:00Essas apresentações coordenadas pelo Gottschalk se repetiram em dias diferentes, muitas vezes em benefícios de instituições como o Asilo dos Inválidos da Pátria. Inclusive, ele morre logo depois, o Gottschalk. Na apresentação do dia 24 de novembro de 1869,
  24. 11:30ele estava tocando essa composição que, por uma trágica coincidência, se chama Morte. Assim que terminou, ele passou para a peça Trêmulo e, no meio dessa interpretação, ele teve um colapso no palco. Foi socorrido e ficou três semanas num hotel na Tijuca, na região onde hoje fica o Alto da Boa Vista. Ele morreu no quarto do hotel, foi enterrado com grandes honras no cemitério São João Batista
  25. 12:00e depois os restos mortais foram transferidos para Nova York. Naquela época, o Rio viveu uma febre de concertos, mas os pianos não estavam só nos teatros. Dentro dos salões, o pianista era um condutor sonoro para as danças, um animador de festas bem mais popular. Inclusive tem um termo que surge disso.
  26. 12:30Esse termo surge inicialmente como um teor pejorativo e depois ele passa a ser assimilado pelos próprios músicos, que é o termo pioneiro. O pioneiro nada mais é do que esse pianista de bossa, o pianista de salão, o pianista que tem que tocar para segurar um baile, para botar os casais para dançar e toca com volume também, que é para ser ouvido, que é para ser ouvido num salão cheio de gente dançando e possivelmente falando.
  27. 13:00E não numa sala de concerto, onde você tem pessoas sentadas para ouvir aquela música específica. E depois vai entrar, e hoje ele faz parte da história da música brasileira, o pioneiro. Você tem vários pioneiros importantes na história da música brasileira. Você tem um deles que é o Romualdo Peixoto, Nunu, outra pioneira famosa, Carolina Cardoso de Menezes. O pai dela também era pioneiro. E sempre lutando contra aquele rótulo que remetia a um status inferior.
  28. 13:30Então, acho que é isso. Acho que tem um termo justamente para colar uma etiqueta pejorativa na testa de quem supostamente está num degrau abaixo. E aí, com o tempo, vê-se que não é bem assim, entendeu? Está abaixo para quem, né? Esse tipo de separação social marcava o Rio de Janeiro do século XIX. E marca até hoje, claro. Mas naquele momento tinha um ponto específico. A gente não pode esquecer também, neste século XIX, que havia navios que traziam pianos e havia navios que traziam gente, mercadoria humana.
  29. 14:00Então, assim, a gente está contando a mesma história. É uma história bem complexa, uma história de muitas transformações. Esse mesmo século que em 1808 tem a vinda da família real portuguesa Em 1888 vai ter a Lei Áurea e entre uma coisa e outra tem outras conquistas nessa história abolicionista
  30. 14:30A própria guerra abolicionista é um fato histórico importante desse século Chiquinha Gonzaga participa dessa luta abolicionista Esse é um bom gancho, porque se a gente está num episódio sobre pianos Chiquinha Gonzaga merece um capítulo só pra ela.
  31. 15:00Francisca Edviges Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro em 17 de outubro de 1847 e desde muito nova já era chiquinha. De origem mestiça, o pai militar de alto escalão no império, a mãe descendente de escravizados. O objetivo era criar uma boa moça, como se dizia na época. Só que, ao longo da vida, todas as expectativas tradicionais foram subvertidas.
  32. 15:30Chiquinha se tornou uma republicana, abolicionista que panfletava nas ruas, vendia partituras para alforrear pessoas e, quase aos 70 anos, liderou o movimento que exigia o pagamento de direitos autorais para os artistas. Ela foi uma das fundadoras da Sociedade Brasileira dos Autores Teatrais, a SBAT, que cuidava dessa questão dos direitos. Chiquinha é a única mulher signatária dessa ata de fundação
  33. 16:00Então Chiquinha luta pelo direito autoral Chiquinha luta pela abolição Chiquinha se separa do marido Muito antes do aceitável Não era aceitável Tanto que a própria família passa a virar a cara para ela Ela foi renegada pelo pai e pela mãe E impedida de criar seus três filhos Porque decidiu abandonar o marido Um proprietário de embarcações que queria afastá-la da música Teve uma hora que esse marido chegou pra ela e falou assim Ou a música ou eu
  34. 16:30Ou o piano ou eu E aí ela respondeu pra ele uma frase Que virou meio que um emblema Que hoje podia virar camiseta Eu não concebo a vida sem harmonia Eu não entendo a vida sem harmonia A vida pra mim não faz sentido sem harmonia Chiquinha então escolheu Pra ser o seu companheiro até o fim da vida Um homem quase 4 décadas Mais jovem que ela Ela com mais de 50 ele com 16. Se isso escandalizaria a sociedade hoje, imagina naquela
  35. 17:00época. Tanto que ela apresentava ele como filho. Ela passou a apresentar para a sociedade como filho. Desquitada e renegada pela família, Chiquinha passou a dar aulas de piano para se sustentar. Assim, além de ganhar algum dinheiro, ela foi adentrando o universo boêmio musical do Rio de Janeiro a partir da década de 1870. E aí vai entrar e vai começar uma história linda no teatro de revista compondo para teatro de revista enfim, passa a ser conhecida
  36. 17:30como A Maestrina, mas é sempre um nome controverso para essa sociedade de bigodes essa sociedade, entre aspas a boa sociedade, que é a sociedade que não vinha em porão de navio para cá Em 1877
  37. 18:00as primeiras partituras de Chiquinha Gonzaga foram publicadas entre elas, títulos simbólicos como Harmonias do Coração Os olhos dela e não insistas, rapariga Essa que a gente está ouvindo agora é uma polca chamada Atraente Aqui na interpretação da pianista Maria Tereza Madeira Disponível no canal do Instituto Piano Brasileiro
  38. 18:30Em 1900 você não tem disco, você não tem rádio Então para ouvir música assim, pessoas em quantidade ouvindo música Geralmente era assim Era dentro de uma sala de concerto ou de um teatro ouvindo música E Chiquinha passa a ser essa atração Chiquinha foi conquistando admiradores Mas ao mesmo tempo Continua incomodando muita gente Nas décadas seguintes As pessoas torcem o nariz Pro fato dela ser uma mulher desquitada Quer um exemplo?
  39. 19:00Presta atenção nessa história Ela tinha lançado na década de 1910 Aquela que seria sua música mais gravada O tango brasileiro Gaúcho Mais conhecido como Corta Jaca Essa é a interpretação da pianista Olinda Alessandrini
  40. 19:30Mas teve uma outra interpretação bem antes dessa Que causou um tremendo escândalo político no Rio de Janeiro Em 1914, houve um sarau no Palácio do Catete Aí você imagina, né? Na sede do poder, a elite carioca estava lá em peso A então primeira dama, Nair de Tefé Esposa do presidente Hermes da Fonseca Tocou uma versão do Corta-Jaca, só que no violão
  41. 20:00Foi a primeira vez que esse tipo de música circulou nos salões da alta sociedade A reação foi imediata O jornalista e político Rui Barbosa, que tinha perdido as eleições pro Hermes da Fonseca Fez um discurso furioso no Congresso, cheio de preconceito contra a música popular Diante do corpo diplomático da mais fina sociedade do Rio de Janeiro Aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados
  42. 20:30Elevaram o corta-jaca à altura de uma instituição social Mas o corta-jaca de que eu ouvira falar há muito tempo Que vem a ser ele, senhor presidente A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens A irmã gêmea do batuque, do catereté e do samba Mas nas recepções presidenciais O corta-jaca é executado com todas as honras de música de Wagner E não se quer que a consciência desse país se revolte?
  43. 21:00Rui Barbosa ataca Chiquinha Gonzaga e cita o compositor alemão Richard Wagner, que, ironicamente, poucas décadas depois, também seria invocado pelo regime nazista para defender o conceito de alta cultura. Mas naquele momento não tinha mais volta. Gêneros musicais que se popularizavam cada vez mais no Brasil também eram fruto do ensino de música clássica no país. usando partituras e elementos considerados eruditos. Você quer um ótimo exemplo de um pianista brasileiro
  44. 21:30que transitou muito bem entre o erudito e o popular? Então vem que eu vou te levar para o centro do Rio de novo. Capítulo 3. Toca essa partitura, por favor. A gente abriu o episódio no Largo da Carioca em 1869, lembra? Agora eu quero te levar para uma rua ali pertinho, a Rua Gonçalves Dias, só que exatamente meio século depois.
  45. 22:00Em 1919, a gente está em frente ao número 75, onde tinha sido inaugurada a Casa Carlos Gomes, uma das mais famosas lojas de música que o Rio já teve.
  46. 22:30O nome da casa, claro, era uma homenagem ao maior compositor de ópera brasileiro, o maestro Carlos Gomes. E o fundador da loja era o Eduardo Souto, pianista também muito importante. Pois ali tinha uma porção de lojas de música onde as pessoas iam comprar a partitura e aí você tinha a figura do pianista demonstrador.
  47. 23:00O pianista que você escolhia uma partitura, você queria ver se aquilo era bom ou ruim, você botava ali e o cara tocava. Pois o demonstrador da Casa Carlos Gomes era ninguém menos que Ernesto Nazaré, um dos grandes pianistas brasileiros de todos os tempos
  48. 23:30e já bastante conhecido naquela época. Você imagina que onda, você ir a uma loja e você vê lá uma partitura de uma valsa, enfim, não necessariamente música brasileira, música europeia e tal, aí você bota na estante e quem vai tocar para te mostrar como é aquilo é o próprio Nazaré. Que ficava ali tocando as partituras todos os dias, de meio-dia às 18, por um salário de 120 mil réis.
  49. 24:00Ernesto Júlio de Nazaré nasceu no Rio de Janeiro em 20 de março de 1863. Só pra você não se perder nas linhas do tempo, Chiquinha Gonzaga tinha 16 anos. Ainda criança, Nazaré foi apresentado ao piano pela mãe, Carolina Augusta Pereira da Cunha. Ele ficava ouvindo a mãe tocar e dançava, criando coreografias. Mas Carolina morreu cedo, quando o menino tinha 11 anos. Então ele passou até aulas de piano, primeiro com um amigo da família,
  50. 24:30e, mais tarde, aos 18 anos, um famoso músico americano, o Charles Lucien Lambert. Um músico dos Estados Unidos, de New Orleans, e esse cara vai ser um professor aqui no Brasil. O Lambert sai de New Orleans, vai primeiro para Paris, depois vem parar no Rio de Janeiro e ele vai ter o Nazaré como aluno dele. Mas o Nazaré nunca teve a chance de sair daqui para estudar fora. Ele acaba aprendendo aqui mesmo.
  51. 25:00Porque naquela época, os compositores que apareciam com algum talento, geralmente as famílias mandavam para estudar na Europa. Ele não teve essa oportunidade. O Lambert foi o único professor formal na trajetória do Ernesto Nazaré. O americano despontou como um pianista virtuoso em Nova Orleans na década de 1840, quando dividiu os holofotes com um amigo e conterrâneo que você já conheceu nesse episódio, o Gottschalk, aquele dos concertos com duas orquestras e 31 pianistas. Dois desses 31 eram o Lambert e o filho único dele, na época uma criança precoce de 11 anos.
  52. 25:30Voltando ao Nazaré, a Casa Carlos Gomes não era o único lugar do Rio onde dava para esbarrar com ele. Se você é ouvinte do Rio Memórias, você deve lembrar que lá na segunda temporada tem um episódio sobre cinemas de rua. E lá eu já tinha te contado que o Nazaré tocava desde 1909
  53. 26:00na sala de espera do antigo Cine Odeon, o mais luxuoso da cidade. As salas de espera eram uma atração à parte. Você tem no Odeon, assim como outros cinemas, ali do centro da cidade, da Rio Branco, ali da região da Cinelândia, você tem isso, um conjunto contratado para tocar. Às vezes um pianista sozinho e o cara vira atração.
  54. 26:30E já que o Rio era a cidade dos pianos, uma sala de espera de cinema ou uma loja de instrumentos musicais podia ser um bom cenário para um pianista esbarrar no outro. Encontros como esse que o Pedro Paulo Malta vai lembrar para a gente agora. Radamés em Átali, que foi um dos maiores personagens da música brasileira no século XX, ele era gaúcho, ele vem aqui para o Rio de Janeiro muito novo e uma das lembranças que ele tem andando pelo centro do Rio é justamente o dia em que ele conheceu o Nazaré.
  55. 27:00Enfim, aí tem uma certa dúvida se ele conheceu numa loja de música, na sala de espera do Odeon, ou as duas coisas. Mas ele se lembra e faz parte, é um momento importante da biografia dele, o momento em que ele viu o Nazaré tocar. E ele diz assim, Nazaré não era pioneiro não, ele era um bom pianista. Não à toa, o Nazaré compôs o clássico Odeon em homenagem à empresa Zambelli Companhia, proprietária do cinema.
  56. 27:30Virou o maior sucesso dele, com mais de 300 gravações em disco, formando uma trinca dos seus choros fundamentais, ao lado de Brejeiro e Apanhei-te Cavaquinho. Essa última a gente ouviu ainda há pouco numa interpretação do pianista argentino Alberto Neumann. E sobre essas versões tem outro fato interessante. e quem viu ele tocar diz que depois, tem até um depoimento também do Francisco Mignone que foi um outro grande compositor enfim, da música de concerto
  57. 28:00que dizia que o Nazaré não tocava as músicas dele, Nazaré com a velocidade que depois as pessoas passaram a tocar, que tem uma, enfim com o tempo as pessoas vão começar a tocar as músicas do Nazaré com um andamento bastante pra frente, o próprio Nazaré não tocava nesse andamento pra frente por exemplo, Odeon Isso que eu fiz aqui já é até bem pra frente
  58. 28:30Ah, agora eu fiquei curiosa Vamos comparar com mais uma versão do Alberto Neumann pra ver se tá mais acelerado? Nossa, é bem mais rápido, né? Enquanto era o próprio Nazaré que tocava e decidia o andamento das músicas ele buscava soar como o clássicos europeus, principalmente Chopin, que era seu maior ídolo.
  59. 29:00No século XX, as peças apareciam em restais granfinos, inclusive fora do Brasil. E apesar do próprio Nazaré não gostar muito, a sua música também animava os cabarés da Lapa, as rodas boêmias do centro e as sensuais umbigadas da Cidade Nova. Em 1926, o Nazaré fez uma série de concertos em São Paulo. Um deles contou com uma palestra luxuosa sobre o compositor, ministrada pelo escritor Mário de Andrade,
  60. 29:30um dos fundadores do modernismo brasileiro. Ele disse o seguinte. A obra de Nazaré é mais artística do que a gente pode imaginar pelo destino que teve e deveria de estar no repertório dos nossos recitalistas. Foi profético. Nomes como Francisco Mignone, que o Pedro citou ainda há pouco, e anos depois Arthur Moreira Lima passaram a interpretar as peças. E não foram só os eruditos, não.
  61. 30:00Jacó do Bandolim e Chiquinho do Acordeon, por exemplo, foram dois grandes nomes da música popular que também visitaram a obra do compositor. Em 1968, Odeon ganhou a famosa versão com a letra do Vinícius de Moraes e a voz da Nara Leão. Centenas de gravações vieram após a morte, em 1934
  62. 30:30Mas Ernesto Nazaré também foi reconhecido em vida Como um grande pianista e compositor Consta que ele foi reconhecido na época Ele gostaria de ter sido muito mais reconhecido Ele sabia que ele era um grande compositor, um grande pianista. Já havia, na época, essa noção. Mas, sim, ele foi reconhecido em vida. Eu acho que, com o tempo, esse reconhecimento possivelmente cresceu. Não digo hoje em dia, porque é muito difícil. Hoje em dia, o mercado de música virou uma outra coisa.
  63. 31:00Mas, sim, ele foi reconhecido no seu tempo. Assim como o Chiquinha Gonzaga também foi. E esses dois vão viver até a década de 1930. Chiquinha morre bastante velhinha. ela era reconhecida assim, menos talvez como essa pianista excepcional, mas como compositora maestrina assim, acho que o nome dela passa a ser um diferencial para os espetáculos, para as revistas e é importante dizer talvez hoje em dia as pessoas não tenham muita
  64. 31:30ideia do que que seja uma revista era um tipo de espetáculo, a revista musical que acontecia era dividida em quadros geralmente era como se fosse uma resenha do que está se passando e aí essa revista ela vai ter um quadro satirizando a classe política então é como se fosse uma charge no palco, e aí tem dramaturgia e música, você tem as gírias você tem os costumes sabe, as moças estão usando a saia
  65. 32:00um pouquinho mais alta isso vira um assunto para a revista então a partir de um certo momento Chiquinha Gonzaga passa a ser um nome associado às revistas Olha, a revista tal tem músicas da maestrina Chiquinha Gonzaga. Você pega os jornais da época, você vê que o nome dela passa a agregar valor a esses espetáculos. Eu agradeço demais ao Pedro Paulo Malta, que deu uma aula hoje para a gente sobre um instrumento que transformou a música no Brasil, o piano.
  66. 32:30Ele é o centro dessa transformação. É através dele que a música de matriz europeia vai, aos poucos, virando música brasileira. Obrigada, Pedro E você que ouviu até aqui se você quiser mergulhar ainda mais nesse assunto, eu vou deixar três dicas rápidas A primeira é o site institutopianobrasileiro.com.br do pesquisador Alexandre Dias que se dedica a estudar a história
  67. 33:00desse instrumento no Brasil O Alexandre também fez a pesquisa para outro site genial que é minha segunda dica O Ernesto Nazaré, 150 anos hospedado pelo Instituto Moreira Salles que inclusive tem um blog com textos do Pedro Paulo Malta e a terceira dica é o chiquinhagonzaga.com criado pelo pianista Vandrei Braga esses três sites foram muito úteis na pesquisa desse episódio inclusive com várias músicas que a gente ouviu aqui então vai lá que você vai adorar
  68. 33:30tem muita informação e texto e principalmente muita coisa boa pra ouvir Falando em coisa boa pra ouvir, já que eu citei de novo a Chiquinha Gonzaga, não dá pra encerrar sem ouvir um pedacinho da música mais conhecida dela, né? Em 1899, a Chiquinha já tinha passado dos 50 anos, já era avó e morava no bairro do Andaraí, onde ficava a sede do cordão carnavalesco Rosa de Ouro.
  69. 34:00Ela escreveu a Marcha Rancho ou Abre Alas especialmente pro cordão, criando ali a primeira canção de carnaval da história. Se essa história da origem do carnaval no Rio de Janeiro te interessa, eu acho que você vai gostar do próximo episódio. Porque a gente vai falar sobre o intrudo, os cordões, os ranchos, as marchinhas. Enfim, o berço da festa mais carioca de todas.
  70. 34:30Esse foi o segundo episódio da quarta temporada do podcast Rio Memórias. No nosso museu virtual, em riomemórias.com.br, tem várias galerias para você explorar. Entre elas, há Rio de Sons, que inspira os seis episódios dessa temporada. Eu espero que você tenha gostado da nossa viagem sonora pela Cidade dos Pianos. Me conta aí o que você achou. A nossa arroba é riumemórias no Instagram.
  71. 35:00E se você ouve no Spotify, se liga que tem uma perguntinha aí no aplicativo para você responder. Esse podcast é produzido pela Escuta Aqui. O Rodrigo Alves coordena a produção, escreve os roteiros e grava as locuções adicionais. A supervisão do roteiro é do Thales Ramos. Quem faz a montagem, a edição e a sonorização é a Clara Costa. A trilha sonora original é composta pelo Gabriel Falcão. O Davi Arueira é o autor da pesquisa histórica em todos os episódios da temporada.
  72. 35:30E quem gravou a entrevista com o Pedro Paulo Malta foi a nossa produtora, Jamile Boulê. A gravação foi feita no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro, com a supervisão técnica do Dani Di. As minhas locuções também são gravadas no rastro. E eu acho que você já sabe, mas... Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora do Rio Memórias. A gente se vê no próximo episódio, combinado? Até lá! O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo,
  73. 36:00Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo, por meio da Lei de Incentivo à Cultura e pelo banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremate por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS. Obrigado e até o próximo episódio.

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Todos os episódios

  1. 01Sounds of Faith
    Duração 38:15

    At the opening of season 4, a journey through the sounds of faith in Rio de Janeiro: the church bells, the drumbeats of the terreiros, evangelical preaching, the sonic power of the many religions. Interviewed in this episode: Luiz Rufino.

  2. 02The city of pianos
    Duração 36:33

    In the 19th century, pianos spread through concert halls, dance balls, and wealthy homes in Rio de Janeiro. In the times of Chiquinha Gonzaga and Ernesto Nazareth, the city earned the nickname Pianópolis. Interviewed in this episode: Pedro Paulo Malta.

  3. 03The birthplace of carnival
    Duração 35:52

    A journey through entrudos, corsos, cordões, societies, and ranchos: the origins of carnival in Rio de Janeiro. Interviewed in this episode: Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti.

  4. 04The voice of the bambas
    Duração 49:35

    The origins of samba and choro in the voices of three geniuses of Brazilian music: Pixinguinha, Donga, and João da Baiana, in their historic testimonies to the Museu da Imagem e do Som.

  5. 05From bossa nova to funk
    Duração 41:57

    An unlikely dialogue between bossa nova and funk, two sounds that mark Rio de Janeiro's identity, each in its own rhythm, each in its own way. Interviewed in this episode: Hugo Sukman and Juliana Bragança.

  6. 06A day of Carioca sounds
    Duração 41:20

    The beach, the mate vendor, the street vendors, the street markets, the subway voice, the scrap iron truck, the samba circles: for the season finale, a stroll through Rio de Janeiro's soundscape and the history behind each of these sounds.