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Rio of sounds
Episódio 03
The birthplace of carnival
0:00faltam 36 min35:52
Transcrição
Faleci ontem pelas sete horas da manhã.
- 0:00Faleci ontem pelas sete horas da manhã. Já se entende que foi sonho. Ia subindo ou viajar os coros de anjos quando a própria figura do Senhor me apareceu em pleno infinito. Tinha uma ânfora nas mãos, um vaso, onde espremera algumas dúzias de nuvens grossas e inclinava sobre esta cidade sem esperar procissões que lhe pedissem chuva.
- 0:30A sabedoria divina mostrava conhecer bem o que convinha ao Rio de Janeiro. Esta gente vai sair três dias à rua com o furor que traz toda a restauração. Os meus patrícios iam ter um bom carnaval. A crônica escrita por Machado de Assis há 130 anos, em fevereiro de 1893,
- 1:00deixa claro que, faça chuva ou faça sol, não é de hoje que o carnaval está grudado na alma carioca. Desde a celebração caótica do intrudo nas ruas dos séculos passados, que o Machado também lembrava nas crônicas Não pensem os rapazes de 22 anos que o intrudo era alguma coisa semelhante às tentativas de ressurreição
- 1:30Davam-se batalhas de casa a casa, entre a rua e as janelas Até os bailes que colocavam os mais ricos para festejar A alta roda acudiu de pronto, organizaram-se sociedades, toda a fina flor da capital entrou na dança. Eu sou a Gabriela Montoni e hoje eu vou te levar para uma viagem até as origens do Carnaval no Rio de Janeiro.
- 2:00Essa é a quarta temporada do podcast Rio Memórias, inspirada na galeria Rio de Sons, do nosso museu virtual riomemórias.com.br. E é claro que não dava para atravessar esse caminho sem explorar os sons daquela que é a mais carioca de todas as festas. Um dia veio o carnaval e deu à arte da loucura uma nova feição.
- 2:30O gosto carnavalesco invadiu todos os espíritos, todos os bolsos, todas as ruas. Evoé, no dia em que Deus Momo for exilado deste mundo, o mundo acaba. Então vem comigo que a nossa primeira parada é lá nos tempos da colônia. Capítulo 1. O que é que tinha dentro dessa bexiga?
- 3:00Desde que chegou a colonização portuguesa, eles trouxeram esse calendário de organização do tempo, que é fundamental para compreender o carnaval. Período excepcional. Essa é a antropóloga Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcante, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de livros como Carnaval Carioca, dos Bastidores ao Desfile, e Carnaval, Ritual e Arte.
- 3:30É ela que vai acompanhar a gente nessa viagem por uma tradição que vem de muito, muito tempo atrás. Esse tempo muito especial que é o Carnaval, que é uma tradição milenar, civilizatória, o nosso Carnaval chega, ele se forma na Europa, no Medievo, e na hora que vai acontecendo a cristianização da Europa nas mais diversas regiões europeias. E todas as crenças, práticas rituais que eram pré-cristãs,
- 4:00elas vão se agregar nesse período antes da quaresma, que é o carnaval, que é a celebração da carne, do aqui e do agora. E desde sempre com uma característica que se mantém até hoje. é que o carnaval é uma festa da praça pública. A configuração dele, ele é uma festa da rua, ele é uma festa da praça, ele é uma festa das cidades, dos centros urbanos,
- 4:30em que a população, num sentido muito lato, não são só as camadas mais desfavorecidas, são todas as camadas da sociedade que comparecem nessa festa da rua. Então, o carnaval brasileiro, na verdade, nessa dimensão, ele está aqui desde o século XVI. Aos poucos, a gente começa a ter relatos dos viajantes, ilustrações, crônicas de jornal e dá para entender como foram essas primeiras manifestações carnavalescas no Rio de Janeiro.
- 5:00A primeira versão mais conhecida da festa tem registros a partir do século XVIII, o intrudo, uma festa de rua um tanto agressiva. E o que a gente chama de intrudo, na verdade, é um monte de expressões carnavalescas diferentes que iam para a rua.
- 5:30Essa prática se intensifica no comecinho do século XIX, quando a população aumenta muito depois da chegada da família real. Por vários dias, o som nas ruas do Rio de Janeiro era o das batalhas campais com bexigas e bisnagas sendo arremessadas de um lado para o outro, cheias dos mais variados líquidos. Onde você começa a associar o intrudo com alguma forma mais selvagem
- 6:00E eu acho que é porque você tinha confete Você tinha uma porção de formas de brincar na rua Que foram chamadas de intrudo E entre elas você tinha as bexigas de água As bexigas de perfume E tinha um problema, que era um problema real De bexigas de urina Ou de fezes Ou de coisas não necessariamente frazeirosas É, não dava pra voltar pra casa limpinho, não Aos poucos, as expressões do intrudo também começaram a ser adotadas nos sobrados mais abastados
- 6:30E ali era muito comum ver os chamados limões de cheiro ou limões de cera Que eram pequenas esferas de cera com água perfumada O Machado de Assis fez uma crônica com um relato bem, digamos assim, bem carnal Cheguei a lembrar-me dos episódios de amor que vinham com o intrudo O limão de cera, que de longe podia escalavrar um olho Tinha um ofício mais próximo e inteiramente secreto
- 7:00Servia a molhar o peito das moças Era esmigalhado nele pela mão do próprio namorado Maciamente, amorosamente, interminavelmente Mas esse climinha de romance não comovia as autoridades, não Ao longo do século XIX, foram vários decretos tentando proibir o intrudo no Rio. O policiamento ficava de olho nos máscaras que iam para as ruas com os rostos cobertos. Um desses decretos foi publicado em 14 de fevereiro de 1857
- 7:30pelo delegado de polícia da corte, o doutor Antônio Rodrigo da Cunha. Fica proibido o jogo do intrudo dentro do município. qualquer pessoa que o jogar incorrerá na pena financeira e não tendo com o que satisfazer sofrerá oito dias de cadeia fica proibido das dez horas da noite até quatro da manhã andarem indivíduos pelas ruas com máscara sendo os infratores presos e punidos com a pena de desobediência
- 8:00então os protestos eles não começam necessariamente porque é uma expressão do povo é um problema que é um problema do carnaval até hoje e de qualquer forma carnavalesca, que são os excessos, porque o carnaval é um período de excesso, é um período de liberalidades, é um período de licenças, de suspensão de comportamentos regrados. Apesar das tentativas de proibição e controle, os intrudos seguiram vivos.
- 8:30Presta atenção nesse relato já no fim do século XIX. É uma carta datada de 17 de fevereiro de 1882, escrita pela educadora alemã Ina von Binzer, que morou no Rio de Janeiro por quatro anos. Na carta para uma amiga chamada Gretchen, ela conta que estava indo ao dentista para extrair um siso e trombou com um intrudo no meio do caminho. Gretchen, você já foi alguma vez ao dentista para arrancar um sólido dente do siso?
- 9:00Talvez. Mas aconteceu por acaso de já tirarem ao rosto, que você cuidadosamente procurava proteger. Um projétil duro que estoura enquanto um jato de água com cheiro de planta escorre pelo seu pescoço abaixo? Não. Eu fiz essa descoberta na Rua dos Ourives. Procurava baixar-me para verificar a forma desses terríveis projéteis e puff! Um estalo na minha nuca despeja água pelas minhas costas.
- 9:30Alucinada de tanta raiva, comecei a olhar em volta. Senhores elegantes, caixeiros, vadios e até senhoras nas sacadas Pareciam transformados em demônios, rindo todos juntos Como se tivessem conspirado contra aquela pobre infeliz torturada pela dor de dente Além de arremessar bexigas ou tentar desviar delas Dava para curtir a festa no século XIX com a percussão dos cucumbis
- 10:00Uma forma de brincar o carnaval muito praticada pela população negra Eram folguedos em que as pessoas se enfeitavam com penas e colares de miçangas, corais e dentes de animais, misturando tradições africanas e indígenas ao som de chocalhos, agogôs e marimbas. Se os cucumbis foram mais comuns no fim do século XIX, antes disso o Rio já tinha o Zé Pereiras, a primeira forma de se andar em pequenas multidões atrás de uma banda.
- 10:30Era uma tradição do norte de Portugal em que as pessoas saíam às ruas tocando tambores e especialmente um bumbo grande que levava esse nome, Zé Pereira. Esse bumbo provavelmente foi o pai do surdo de marcação, tão importante na sonoridade do carnaval. Um dos nomes apontados como pioneiro dessa prática no Brasil,
- 11:00ali entre os anos de 1840 e 1850, foi José Nogueira de Azevedo Paredes, um sapateiro português. Zé Pereira virou sinônimo de algazarra carnavalesca nas ruas do Rio em fevereiro. Então você tem essas expressões, né? Zé Pereira, esse monte de coisas que vêem ser chamadas de intrudos, os cucumbis. É interessante também porque você tem muita migração para o Rio de Janeiro. E chega muita... as pessoas trazem as suas experiências culturais com elas.
- 11:30Você tem migração de camadas negras, importantes, não é só da Bahia, vem de Minas Gerais. Então as pessoas trazem suas expressões folclóricas, a lembrança das celebrações de calendário. Capítulo 2. De quem é esse fevereiro?
- 12:00Essa é a famosa polca Viva o Carnaval, da Chiquinha Gonzaga, na interpretação da Olinda Alessandrini. Aliás, se você quer saber mais sobre a história da Chiquinha, busca aí o nosso episódio anterior, A Cidade dos Pianos. Mas essa música tá aqui pra lembrar que a polca dominava os bailes de máscaras no Rio de Janeiro Na segunda metade do século XIX Era uma espécie de resposta dos palacetes Diante daquela farra dos zé pereiras e dos cucumbis que tomavam as ruas
- 12:30Em 1855, quando a Chiquinha Gonzaga ainda era uma menina de 8 anos E tava muito longe de compor essa polca Um grupo de intelectuais criou no Rio de Janeiro uma nova forma de brincar o carnaval Eram as chamadas sociedades, ou os clubes, sempre de olho nos costumes europeus.
- 13:00Tudo começou com o desfile promovido pelo Congresso das Sumidades Carnavalescas. Entre os 80 sócios estava o escritor José de Alencar, aos 26 anos. Ele escreveu uma crônica na Gazeta Mercantil. Muitas coisas se preparam neste ano para os três dias de carnaval. Uma sociedade já perto de 80 sócios, todos pessoas de boa companhia, deve fazer no domingo a sua grande promenade pelas ruas da cidade.
- 13:30Na tarde de segunda-feira, os máscaras se reunirão no passeio público e aí passarão a tarde como se passa uma tarde de carnaval na Itália, distribuindo flores e confetes. As sociedades tentavam dar para a festa esse ar mais civilizado e os desfiles já tinham vários elementos que a gente vê no carnaval até hoje. estandartes, fantasias e até carros alegóricos e eles passam pelas ruas e eles têm galpões nos arredores da cidade
- 14:00onde essas alegorias são fabricadas essas alegorias são fabricadas com cenógrafos super importantes no meio teatral da cidade do Rio de Janeiro são cenógrafos renomados você tem uma cena teatral no Rio de Janeiro também nessa virada de século, começo do século até os anos 40, os anos 50, uma cenografia forte. Uma das sociedades mais duradouras foi a Tenentes do Diabo, que angariava fundos para a causa abolicionista.
- 14:30Tenentes do Diabo é também o nome dessa música, composta pelo Noel Rosa em 1932, interpretada pelo Ildefonso Norá. Dezenas de outras sociedades carnavalescas foram criadas. Uma delas, rival dos Tenentes, era o Clube Democráticos. Um dos integrantes, o Arquimedes de Oliveira, compôs com o famoso jornalista, humorista e teatrólogo Bastos Tigre
- 15:00O que na época se chamava de Paul Cachula, com o título Vem cá, mulata Lembrando que mulata era um termo muito usado na época, mas hoje esse termo é muito questionável Em vez de pegar músicas que já existiam, as sociedades passaram a fazer ou encomendar essas composições próprias Nesse caso, foi um sucesso em 1906 Aqui a gravação interpretada por Duarte Silva e Isabel Costa
- 15:30Sou democrata de coração, dizia o refrão que ainda foi cantado por muitos carnavais no início do século XX. A essa altura, o que a imprensa chamava efetivamente de carnaval
- 16:00era o que faziam as sociedades. E desde as últimas décadas do século XIX, isso ficava bem claro. Houve só esse texto de um articulista do jornal O Mequetrefe, em fevereiro de 1885, tentando riscar de vez da folia carioca à prática do intrudo. O clube dos tenentes do diabo e o dos políticos, os únicos que se dignaram a convidar o Mequetrefe, deslumbraram-nos com o esplendor de suas festas intramuros.
- 16:30Fazemos votos para que os tenentes, estimulados pela lembrança das passadas glórias, resolvam sair da caverna em 1886 e acabem de uma vez com esse pulha, esse miserável que se chama intrudo e tem ultimamente botado as manguinhas de fora.
- 17:00Com a abertura de ruas mais largas no Rio de Janeiro no início do século XX, ganhou espaço a prática do corso. Eram os desfiles com carros a motor, promovendo uma guerra de papel picado, confetes e flores, nos moldes de festas europeias como a de Nice, no sul da França. Os foliões se espremiam na parte de trás dos carros com as capotas abaixadas e iam saudando os pedestres desde o centro da cidade até os bairros da Zona Sul.
- 17:30Havia, nos séculos XIX e XX, uma certa disputa territorial carnavalesca entre classes mais ricas e mais pobres. Aliás, se você escuta o Rio Memórias Você sabe que a desigualdade é uma marca histórica do Rio de Janeiro Mas a Maria Laura lembra que no caso do carnaval As coisas ficam mais misturadas Então assim, eu não gosto de trabalhar muito com essa polaridade
- 18:00É isso Mas é claro que as grandes sociedades São expressões que nascem nas camadas mais favorecidas da sociedade Mas tem elite que não gosta de brincar carnaval Tem elite que gosta de brincar carnaval é uma diferença fundamental tem elite que gosta de ir pra rua e olhar o povo e saudar o povo e ser admirado pelo povo, tá entendendo? e gente que não quer fazer isso, que não quer nem saber, que não quer nem contato e por isso que eu acho que eu sou antropóloga
- 18:30então a gente sempre tem que relativizar e ver um pouco a riqueza do carnaval como um lugar de muita interação e troca cultural Eu não estou querendo dizer que não haja distinções de classes e camadas e desigualdades sociais e étnico-raciais relevantes na vida da cidade. Não é isso. É óbvio que há, né? Agora, o carnaval, com essa característica de se derrua,
- 19:00ele favorece a interação entre camadas sociais diferentes. Eu acho que isso é muito importante na história do Rio de Janeiro. Capítulo 3 – A Rua é Nossa
- 19:30Era em plena Rua do Ouvidor. Não se podia andar. A multidão apertava-se e sufocada. Havia sujeitos com gestos forçando a passagem com os cotovelos, mulheres afogueadas, crianças a gritar, tipos que berravam pilhérias. A pletora da alegria punha desvarios em todas as faces. Era provável que, do Largo de São Francisco à Rua Direita, dançassem 20 cordões e 40 grupos,
- 20:00rufassem 200 tambores, zabombassem 100 bumbos, gritassem 50 mil pessoas. A rua convulsionava-se como se fosse fender, rebentar de luxúria e de barulho. O texto que você ouviu é de 1908, do livro A Alma Encantadora das Ruas, do cronista João do Rio.
- 20:30E o som que você ouviu é O Abre Alas, da Chiquinha Gonzaga, tocada pelo bloco Mulheres Rodadas no Centro do Rio, no Carnaval de 2019. Os blocos carnavalescos de hoje são parecidos com os cordões que tomavam as ruas da cidade na virada do século XIX para o XX. E se você gosta da criatividade nos nomes dos blocos atuais,
- 21:00mais de um século atrás a gente já tinha o Tira o Dedo do Pudim, Os Inimigos do Trabalho, O Chuveiro do Inferno, Os Teimosos de Santo Cristo. E um dos cordões mais famosos tinha um nome bem elegante, Rosa de Ouro. A sede era no bairro do Andaraí e quem morava por lá, adivinha, era a Chiquinha Gonzaga. Em 1899, durante o ensaio do Rosa de Ouro, a maestrina se sentou ao piano e compôs ou abriá-las para embalar o desfile daquele ano.
- 21:30Essa é a interpretação de Dircinha e Linda Batista, de 1971. A primeira gravação cantada na letra original, escrita por Chiquinha, pro cordão rosa de ouro.
- 22:00Só que tem uma outra versão da letra, com o mesmo título, composta por Piedade e Jorge Farage, em 1939, quatro décadas depois da original. Essa segunda letra tem várias gravações. Ela começa com Oh, abre alas que eu quero passar Peço licença pra poder desabafar Mas enfim, daqui a pouquinho eu vou ter que cantar nesse episódio
- 22:30Então agora eu vou poupar minha voz E a gente volta para os cordões com a Maria Laura Os cordões e os blocos Eles são formas mais assim Mais livres do carnaval Você tem um grupo de amigos Um grupo de vizinhança E vamos organizar um cordão E é muito divertido, mas são expressões mais livres e, por incrível, mais descentralizadas, porque você sai de onde você quiser, você passa, idealmente, por onde você quiser,
- 23:00mas tem os trajetos centrais que são mais valorizados. Mas, de fato, são expressões mais livres que requerem menos preparo para sair no carnaval. E era enorme, né? Todas as escolas de samba que a gente veio a conhecer têm uma história de cordões, de blocos, que vão aos poucos se estruturando na forma como nós viemos a conhecer, né?
- 23:30A irreverência que a gente vê até hoje nas marchinhas de carnaval estava muito presente naquele momento. E olha, chacota com os políticos não é coisa de agora não, tá? Tinha uma marchinha em homenagem ao Marechal Deodoro da Fonseca Que proclamou a república no Campo de Santana em 1889 O povo não perdoava e cantava no ritmo daquela cantiga de roda Fui no Itororó Deixa eu te mostrar como era Eu vou pedir ajuda aqui pro pessoal do estúdio Bora, gente! Fui ao Campo de Santana
- 24:00Beber água na cascata Encontrei o Deodoro dando beijo na mulata A mulher do Deodoro É uma grande caloteira Mandou fazer um vestido Não pagou a costureira Fui ao campo de Santana Beber água na cascata Encontrei o Deodoro Dando beijo na mulata A mulher do Deodoro É uma grande caloteira Mandou fazer um vestido Não pagou a costureira
- 24:30Ai, gente, será que o Rumi Amor está pronto Pra lançar um bloco de carnaval? Sei não, vamos ver Mas, voltando à história, os cordões mobilizavam milhares de pessoas nas ruas do Rio e tinha disputa para ver quem fazia o melhor carnaval. Muitas vezes, o pessoal extrapolava os limites. Era comum um cordão ir para cima do outro e tentar sequestrar o estandarte. O porta-estandarte era sempre um homem, muitas vezes um capoeirista. E ele já ficava ali de prontidão, porque quase sempre o negócio acabava em pancadaria.
- 25:00E vale lembrar que a gente está falando do início do século XX, quando a capital passava por aquele processo higienista com as reformas do Pereira Passos. Então, as forças policiais não curtiam muito essa bagunça, e a repressão muitas vezes era pesada. Alguns cronistas da elite forçavam a mão nos ataques, e até no racismo. Olha esse texto do Américo Fluminense, na revista Cosmos. Horríveis, fétidos, bárbaros cordões que dão ao nosso carnaval de hoje
- 25:30algo de boçal e selvagem. Não há alegria nem espírito. Há berreiro de taba misturado com uivos de africanos. Pois é. Nesse cenário, acabou ganhando espaço uma manifestação de origem popular mais organizada, mais cênica e extremamente musical. Os ranchos. E o rancho tem uma história genial, porque o rancho também é um marco na história do carnaval da cidade do Rio de Janeiro. O rancho é o Hilário Jovino,
- 26:00que ele é um baiano, e ele fazia rancho de reis. O rancho é uma festa dita folclórica que comemora o período natalino, entre o Natal e o Dia de Reis, que as pessoas saem à rua entoando e cantando num cortejo. E ele vem para o Rio de Janeiro, é genial isso. Ele tira aquela expressão do período natalino para o período do Carnaval e modifica inteiramente o sentido dela,
- 26:30que vira uma festa do carnaval, mais livre, mais solta. Então, por exemplo, mesmo que você tenha uma associação, um rancho, uma associação dos estivadores, eles faziam o seu rancho no porto do Rio de Janeiro. Trabalhadores qualificados, os estivadores. O sindicato faz uma associação, faz um rancho que sai no carnaval. Eles saíam com enredo. Então o rancho, ele traz uma sofisticação artística para o carnaval da cidade.
- 27:00Eles trazem um enredo, eles trazem uma história. E eles trazem um tipo de música, que vai ser a marcha rancho, que é belíssima, que é mais lenta. Essa é uma música do rancho Ameno Rezedá, tocada no carnaval de 1910.
- 27:30E eles trazem uma ideia que depois vai ser importantíssima lá para o carnaval da escola de samba mais tarde, que é a valorização da unidade estética daquela expressão carnavalesca. Então eles trazem figurinos, eles têm o que vai ser um prenúncio do mestre Salle Porta Bandeira, o estandarte do rancho que vem abrindo o cortejo. Então eles têm um processo que começa a precisar de preparo, a precisar de organização,
- 28:00a precisar de elaboração visual, de figurino, musical, sonora, rítmica, instrumental. Começa a ter uma riqueza artística na celebração do carnaval que vai ser importante. E é na rua também. O baiano Hilário Jovino, que a Maria Laura citou ainda há pouco, revolucionou até a geografia da folia carioca. Porque enquanto a majestosa Avenida Rio Branco era a passarela das sociedades carnavalescas,
- 28:30A Praça 11, no coração da Cidade Nova, era o palco dos ensaios e desfiles dos ranchos populares. Tinha até aquela passadinha na casa da tia Ciata para pedir a bênção. Dá para perceber o impacto dessa mudança no jeito de brincar o carnaval no Rio numa entrevista que o próprio Lário Jovino deu para o Jornal do Brasil em janeiro de 1913. Antes, o carnaval era feito pelos cordões de velhos, pelos Zé Pereiras e pelos dois cucumbis da Rua João Caetano e da Rua do Hospício.
- 29:00O Rei de Ouro, meu vagalume, quando se apresentou com perfeita organização de rancho, foi um sucesso. Nunca se tinha visto aquilo no Rio de Janeiro. Porta-bandeira, porta-machado, batedores, tudo perfeitamente organizado. Saímos licenciados pela polícia. Eu fundei o Rei de Ouro, que deixou de ser no dia apropriado, isso é, 6 de janeiro, porque o povo não estava acostumado com isso. Resolvi, então, transformar a saída para o carnaval. Foi um sucesso.
- 29:30O Rancho Rei de Ouro tinha cordas de isolamento separando os brincantes e o público nas calçadas Era um desfile mais ordeiro, que deixava as autoridades sossegadas Até o então presidente Floriano Peixoto prestigiou um desfile Hilário também esteve envolvido com o Rancho Ameno Rezedá, formado por operários do Arsenal da Marinha Além de funcionários do governo, cocheiros, porteiros e costureiras Quem também estava ali era o importante pianista José Barbosa da Silva, o senhor, um dos pioneiros do samba carioca.
- 30:00Alguns autores apontam que o diferencial do Ameno Rezedá era ter esses músicos ligados ao choro e à música instrumental. A polifonia sonora e os desfiles cênicos dos ranchos foram perdendo força na década de 1920. A passagem de bastão já estava em andamento com o surgimento das escolas de samba, sendo que a primeira delas foi a Deixa Falar, fundada em 12 de agosto de 1928, no bairro do Estácio.
- 30:30A partir dali, surgiram escolas em outras áreas da cidade, inclusive com uma nova revolução geográfica, migrando a folia do centro para os subúrbios e criando uma tradição popular vivíssima até hoje no Rio de Janeiro. As escolas de samba vão ser logo tão populares, e uma razão da popularidade dela é que elas vão ser antropofágicas. Elas vão adotar dos ranchos o cortejo linear, a ideia da unidade artística, um enredo e alegorias e fantasias que precisam estar integradas nessa história que vai ser narrada através do samba-enredo.
- 31:00no começo elas tinham um samba para ir e um samba para voltar elas fixam a forma dela no final dos anos 50 e nesses anos todos essas outras formas carnavalescas
- 31:30estão interagindo entre si e as escolas de samba estão absorvendo isso quando vão virar dos anos 60 para cá o que a gente chama de um carnaval moderno as escolas de samba tem uma história riquíssima que quem sabe a gente conta numa próxima temporada hoje a ideia era te levar pra conhecer as origens do carnaval carioca e se ainda deu tempo de citar o choro e o samba, olha o som que você vai ouvir no próximo episódio é o som da
- 32:00voz dos bambas diz aí, o que você acha de trocar uma ideia diretamente com sei lá, bichinguinha tá bom pra você? então eu estava na estação de piedade, soltando um papagaiozinho e chegou um, não, representante da CELAL, me procurando. É aqui que mora o senhor Pixinguinha. É isso. Segura a ansiedade, porque no quarto episódio da temporada você vai ouvir
- 32:30depoimentos históricos, gravados no Museu da Imagem e do Som com um trio de pioneiros da música brasileira. Pixinguinha, Donga e João da Baiana. Eu já tô super ansiosa, já tô até com a roupa de ir. E hoje eu também fiquei muito feliz de contar com o conhecimento da Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcante, que levou a gente para o berço do carnaval e de quebra abordou um tema muito presente aqui no podcast o carioca ocupando o espaço público
- 33:00ocupando a rua o carnaval, ele favorece esse trânsito entre diferentes bairros e áreas urbanas da cidade, o carnaval é aquela comunidade que quer se abrir e circular livremente por todos os outros territórios da cidade. Então, o Carnaval tem um lugar muito significativo, sabe, para a história da cidade do Rio de Janeiro, ao favorecer essa troca social ampla e livre de circulação das pessoas pela sua cidade.
- 33:30Obrigada, Maria Laura. E obrigada a você que escutou até aqui. Essa temporada do Rio Memórias é inspirada na Galeria Rio de Sons do nosso Museu Virtual Acabando aqui, dá um pulinho no site em riomemórias.com.br Dá pra explorar um monte de conteúdo sobre esse tema Marchinhas, fantasias, blocos desfiles, vai lá
- 34:00que você vai curtir E conta pra gente o que você achou do episódio O nosso Instagram é arrobaRioMemórias Se você ouve no Spotify, avalia o podcast com as estrelinhas e deixe um comentário na pergunta que aparece aí no seu aplicativo Nesse episódio você ouviu áudios do documentário Carnival em Rio, da Warner Bros dirigido pelo André de Lavarre do canal do Instituto Piano Brasileiro do canal Doni Daco 73 e do Museu da Imagem e do Som O Rio Memórias
- 34:30é um podcast produzido pela Escuta Aqui. O Rodrigo Alves coordena o projeto, cria os roteiros e grava as locuções adicionais O Thales Ramos faz a supervisão dos roteiros E a Jamile Boulay faz as entrevistas Foi ela que gravou com a Maria Laura A pesquisa histórica é do Davi Arueira Quem pacota todo esse material é a Clara Costa Que faz a edição e a sonorização A música que você está ouvindo é composta pelo Gabriel Falcão As locuções e a entrevista foram gravadas no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro
- 35:00Com a supervisão técnica do Dani D E o pessoal do estúdio ainda fez bonito cantando a baixinha, lembra? Vem aí o bloco do Rio Memórias. Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora do podcast. A gente se encontra no próximo episódio. Até lá! O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo,
- 35:30por meio da Lei de Incentivo à Cultura e pelo Banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremate por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS. Obrigado e até o próximo episódio.
Disponível em
Todos os episódios
- 01Sounds of FaithDuração 38:15
At the opening of season 4, a journey through the sounds of faith in Rio de Janeiro: the church bells, the drumbeats of the terreiros, evangelical preaching, the sonic power of the many religions. Interviewed in this episode: Luiz Rufino.
- 02The city of pianosDuração 36:33
In the 19th century, pianos spread through concert halls, dance balls, and wealthy homes in Rio de Janeiro. In the times of Chiquinha Gonzaga and Ernesto Nazareth, the city earned the nickname Pianópolis. Interviewed in this episode: Pedro Paulo Malta.
- 03The birthplace of carnivalDuração 35:52
A journey through entrudos, corsos, cordões, societies, and ranchos: the origins of carnival in Rio de Janeiro. Interviewed in this episode: Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti.
- 04The voice of the bambasDuração 49:35
The origins of samba and choro in the voices of three geniuses of Brazilian music: Pixinguinha, Donga, and João da Baiana, in their historic testimonies to the Museu da Imagem e do Som.
- 05From bossa nova to funkDuração 41:57
An unlikely dialogue between bossa nova and funk, two sounds that mark Rio de Janeiro's identity, each in its own rhythm, each in its own way. Interviewed in this episode: Hugo Sukman and Juliana Bragança.
- 06A day of Carioca soundsDuração 41:20
The beach, the mate vendor, the street vendors, the street markets, the subway voice, the scrap iron truck, the samba circles: for the season finale, a stroll through Rio de Janeiro's soundscape and the history behind each of these sounds.