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Rio, cidade em transformação
Episódio 04
Sai da frente, la vem o progresso!
0:00faltam 34 min33:51
Transcrição
Oi, eu quero abrir esse episódio te convidando para um passeio.
- 0:00Oi, eu quero abrir esse episódio te convidando para um passeio. E não é um passeio qualquer, não. Inclusive, eu espero que você tenha roupa para essa ocasião, porque aqui todo mundo está muito bem vestido. Os homens de fraca e cartola, as mulheres com vestidos longos carregando as suas sombrinhas
- 0:30e toda hora passa uma daquelas charretes elegantes do início do século XX. Parece Paris na Belle Époque, Mas é o coração do Rio de Janeiro. A gente está em 1905, na inauguração da majestosa Avenida Central. A Champs-Élysées carioca tem 2 quilômetros de extensão e 33 metros de largura.
- 1:00As calçadas novinhas são cuidadosamente ornamentadas com mosaicos de pedras portuguesas. E o canteiro central arborizado está cheio de mudas de pau-brasil e vários jambeiros com seus frutos cor-de-rosa. Só chego um pouquinho pra cá, porque essa aí é a comitiva levando o presidente Rodrigues Alves, o prefeito Pereira Passos e um monte de autoridades.
- 1:30Eles vão percorrendo a rua bem devagar, passando pelos novos edifícios, as confeitarias, um cenário que mais tarde receberia construções históricas, como o Teatro Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes, a Biblioteca Nacional. É isso mesmo, a gente tá falando do lugar onde hoje fica a Avenida Rio Branco. Naquele ano de 1905, o Rio ganhava definitivamente o seu toque francês. Tudo lindo, paisagem vistosa, pessoas felizes, mas...
- 2:00Peraí! Nem tudo é glamour nessa história. Porque antes de chegar nesse cenário sofisticado, a trilha sonora era outra. Pra elite carioca se sentir em Paris, a população mais pobre foi arrancada do caminho à força. Eu sou a Gabriela Montoni e esse é o quarto episódio da terceira temporada do podcast Rio Memórias
- 2:30Se você ainda não ouviu os três primeiros, volta lá e ouve, você vai gostar E vai fazer mais sentido se você escutar na ordem cronológica Eu tô te levando pra uma viagem de cinco séculos, passando pelas grandes mudanças estruturais da cidade Uma história baseada na galeria Rio Cidade em Transformação
- 3:00do nosso museu virtual, que você pode acessar no site riomemórias.com.br. Hoje, você vai conhecer as medidas de saneamento que combateram as condições insalubres do Rio na segunda metade do século XIX, até chegar na operação conhecida como Bota Abaixo. A reforma das reformas no início do século XX teve como grande símbolo a abertura da Avenida Central. Mas, para chegar lá, muita coisa aconteceu. Então, ajusta aí seu fone de ouvido, procura uma posição bem confortável e, por via das dúvidas, dá uma checada na sua carteirinha de vacinação, não custa nada.
- 3:30Capítulo 1 – A Cidade Febril Esse clima bucólico na Fazenda de Santa Cruz, nos arredores do Rio de Janeiro, foi atravessado por uma tragédia familiar no verão de 1850.
- 4:00Chegou ali a notícia de que duas crianças pequenas tinham sido acometidas por uma febre muito alta. Isabel, de três anos, conseguiu se curar. O irmão dela, Pedro Afonso, de um ano e meio, não resistiu e morreu na madrugada de 9 de janeiro. Naquele verão, o rio foi varrido por uma epidemia de febre amarela que contaminou um terço da população.
- 4:30Não dá para saber com 100% de certeza que a morte do menino foi por febre amarela. Mas o contexto era assustador Os números do governo registravam mais de 90 mil casos e 4 mil mortes Os jornais da época iam além e estimavam as mortes em mais de 10 mil O que representava 5% dos habitantes A menina Isabel que sobreviveu era a Princesa Isabel Que assinaria a Lei Áurea quase quatro décadas depois
- 5:00Ela e o bebê que morreu eram filhos do Imperador Dom Pedro II e da Imperatriz Teresa Cristina O pequeno Pedro Afonso, inclusive, era o herdeiro do trono brasileiro Já que o irmão mais velho dele, o Afonso Pedro, também tinha morrido ainda criança Foi uma comoção nacional No meio de uma epidemia avassaladora, as pessoas tomaram as ruas para acompanhar o velório Aquele não foi o único surto de febre amarela que assombrou o Rio na segunda metade do século XIX
- 5:30Eram tantas doenças que a revista Ilustrada publicou em 1876 uma charge macabra O desenho mostra a multidão pulando o carnaval nas ruas E lá no alto, andando por cima das casas Uma representação gigantesca da morte com o rosto de caveira segurando uma foice enorme Durante boa parte do século XIX, o Rio de Janeiro foi assolado por epidemias muito violentas
- 6:00Esse é o Jaime Benchimol, pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, e autor do livro Pereira Passos, um Rosman Tropical, a renovação urbana do Rio de Janeiro no início do século XX. Em 1849, 50, chega a febre amarela e praticamente todo verão tinha febre amarela, morria muita gente, sobretudo os estrangeiros recém-chegados morriam, muitos, muitos mesmo. Em 55 chegou cólera, no final do século XIX chegaram a peste bobônica, havia desenterias, enfim, era uma cidade muito insalubre.
- 6:30O Jaime vai ajudar a gente a contar essa história de um rio que em meados do século XIX tinha um quadro sanitário de alto risco. Os esgotos eram despejados em valas ou nas praias por meio de tonéis carregados por homens escravizados, os chamados tigres. A cidade era cheia de fossas e de valas a céu aberto, um convite às doenças.
- 7:00Se a prioridade na primeira metade do século XIX tinha sido o embelezamento urbano, a partir de 1855, o foco mudou para as questões de saneamento. Menos de uma década depois, já estava funcionando uma rede domiciliar de esgotos implantada por uma companhia inglesa, a Rio de Janeiro City Improvements Company, ou City para os íntimos. Foi uma das primeiras capitais do mundo a tomar essa iniciativa Em 10 anos, a CIT fez a rede de esgoto chegar até metade da população carioca
- 7:30As valas foram esvaziadas, o mau cheiro melhorou e aparentemente a cidade estava mais asseada Mas o problema, na verdade, só foi varrido para debaixo do tapete Ou, nesse caso, para debaixo da terra O nosso atual sistema de esgoto, por alguns vícios de instalações que possui e pela falta d'água, não pode ter contribuído para diminuir ou atenuar as epidemias de febre amarela. Pelo contrário, cooperou na infecção do solo da cidade e do interior das casas.
- 8:00Portanto, compromete a salubridade geral. Esse é um trecho de um relatório do conselheiro Pereira Rego, inspetor-geral de higiene. Se a situação continuava perigosa para as camadas privilegiadas da população, imagina para quem vivia nas habitações coletivas da zona central da cidade. Só 30% dessas construções respeitavam a lei que exigia pelo menos uma latrina para cada 20 moradores.
- 8:30Esses cortiços e hospedarias, ocupados principalmente por pessoas negras, se tornaram alvo principal da Comissão Central de Higiene, e não só pela questão sanitária. A questão sanitária está na base da justificação daquelas operações todas, mas prevalecia também a ideia, ou seja, o objetivo de enriquecimento de uma operação altamente vantajosa do ponto de vista econômico e segundo, que era uma coisa que vinha se discutindo desde a primeira epidemia de febre amarela
- 9:00desde 1850 praticamente, que era a ideia de retirar do centro da cidade aquela população proletária que vivia ali, do ganho, da viração Ou seja, essa economia informal que continua extremamente pujante no Rio de Janeiro e no Brasil todo Trabalhos no porto, trabalhos nas pequenas manufaturas, na pequena indústria que existia no centro da cidade Então era preciso tirar essa gente dali, não só por razões de segurança política das classes dominantes
- 9:30Mas também porque o capital financeiro e comercial precisava de uma cidade diferente Esse é um processo em voga até hoje no mundo inteiro, né? A gentrificação Pessoas mais pobres são retiradas de um determinado local E aquele local é reformado para virar uma área nobre Com especulação imobiliária e aumento do turismo Você desaloja um conjunto de pessoas que mantém relações entre si De uma determinada área
- 10:00E com isso você prejudica pequenos industriais, pequenos comerciantes, trabalhadores e o diabo Você valoriza essa área e ela passa para a mão de um outro setor social do capital comercial, financeiro, industrial, que lucra de várias maneiras com essa operação de renovação urbana. É sempre uma forma de ganhar dinheiro. O Jaime Benchimol reflete sobre o que seria do Rio se a intervenção urbana não tivesse sido feita dessa forma, tirando do caminho as pessoas mais pobres. Se o Rio de Janeiro não tivesse passado por isso, seria uma cidade muito bonita também.
- 10:30Seria uma cidade próxima de São Luís, próxima de Salvador, do centro histórico de Salvador, que a gente valoriza tanto. o centro histórico do Rio de Janeiro seria muito bonito, seria admirável e muita coisa, quer dizer, porque na verdade foram várias eras de demolição que se sucederam depois daí até a construção da Presidente Vargas que acabou de demolir o que havia de cidade colonial do Rio de Janeiro liquidou para ilustrar essa política
- 11:00de tirar do mapa as habitações coletivas no caminho do progresso eu quero te convidar para conhecer o cortiço mais célebre do Rio naquela época Agora a gente está na freguesia de Santana, aos pés do Morro da Providência Perto da estrada de ferro Pedro II, que é a atual central do Brasil Bem na entrada, no portão frontal, tem uma escultura em ferro representando a cabeça de um porco
- 11:30Não à toa esse cortiço ficou conhecido como cabeça de porco E mais que isso, a expressão virou um sinônimo desse tipo de moradia Depois do portão, tem um longo corredor central, cortando duas alas com umas 100 casinhas. E, a partir daí, outras ruas com mais habitações.
- 12:00Estima-se que o Cabeça de Porco tinha cerca de 2 mil moradores e era praticamente um bairro, construído entre as décadas de 1840 e 1850. A demolição foi uma ordem do prefeito Barata Ribeiro, que comandou o rio só por cinco meses e hoje é nome de rua em Copacabana. O cortiço precisava sumir dali para a construção do que hoje é o túnel João Ricardo, na Gamboa. No dia 21 de janeiro de 1893, o Barata Ribeiro mandou uma intimação para os habitantes
- 12:30dando um prazo de cinco dias para desocuparem as casas. A Gazeta de Notícias registrou assim. O senhor doutor Barata Ribeiro, digno prefeito, que não sabe o que são embaraços quando se trata de cumprir a lei e que, se continuar neste caminho, está destinado a prestar serviços inesquecíveis à nossa cidade, mandou, há cinco dias, intimidar os habitantes do Cortiço a despejarem-no.
- 13:00Ontem, inspirando o prazo, procedeu-se à demolição da estalagem. No dia 26 de janeiro, uma pequena multidão se juntou em frente ao número 154 da Rua Barão de São Félix para assistir à destruição dos casebres. De uma só vez, centenas de famílias foram desalojadas.
- 13:30A imprensa fez uma ampla cobertura do evento, que ficou marcado como uma demonstração de força da república recém-instalada no Brasil. Era o progresso atropelando o que a elite chamava de atraso, simbolizado nas camadas mais pobres. O ataque do prefeito ao cortiço se materializou no desenho do italiano Angelo Agostini,
- 14:00que ocupou a capa da revista Ilustrada poucos dias depois. Uma cabeça de porco servida numa bandeja e sendo comida por uma barata Um breve poema no pé da página Era de ferro a cabeça de tal poder infinito Que, se bem nos pareça, devia ser de granito No seu bojo secular de forças devastadoras Viviam sempre a bailar punhos e metralhadoras
- 14:30Por isso viveu tranquila dos poderes temerosos Como um louco cão de fila Humilhando poderosos Mas eis que um dia a barata Deu-lhe na telha almoçá-la E assim foi, sem patarata Roendo até devorá-la E o túnel, que era desculpa para aquilo tudo Só foi concluído quase 30 anos depois Capítulo 2
- 15:00A Paris dos Trópicos Paris era o grande modelo Durante o Segundo Império, na França, o barão de Haussmann remodela completamente a capital parisiense. A Paris que nós conhecemos hoje é fruto dessa intervenção que destruiu a cidade antiga parisiense. O barão, conhecido como o Artista Demolidor, derrubou milhares de casas e prédios na reforma urbana da capital francesa na década de 1870.
- 15:30Não por acaso, o livro do Jaime Benchimol usa o termo rosmantropical para se referir ao engenheiro Francisco Pereira Passos o prefeito que colocou em prática no Rio um conjunto de reformas radicais entre 1902 e 1906 Foi o processo conhecido como Bota Abaixo Se você é ouvinte do Rio Memória, você sabe que a gente já visitou esse período várias vezes, né?
- 16:00Inclusive no nosso primeiríssimo episódio sobre a revolta da vacina E aqui eu preciso dividir com você a notícia de que esse episódio recentemente foi finalista do Prêmio Roche de Jornalismo de Saúde na América Latina, concedido pela Fundação Gabo. A gente tá muito chique, viu? Eu fui representar o podcast na cerimônia de premiação na Colômbia e a nossa equipe tá em festa até agora. Se você ainda não ouviu esse episódio, depois volta lá porque tem bastante coisa sobre o Bota Baixo.
- 16:30Resumindo, o Pereira Passos ganhou carta branca do presidente Rodrigues Alves para transformar a capital da república numa vitrine para o mundo A ideia era mostrar o Brasil como uma nação moderna, limpa e finalmente livre daquela pecha de pestilenta Como escreveu na época o jornalista Alberto Figueiredo Pimentel O Rio civiliza-se Essa frase foi publicada na sessão Binóculo da Gazeta de Notícias e acabou virando o slogan do período que transformou o Rio num grande canteiro de obras.
- 17:00Pereira Passos não trabalhou sozinho e eu vou citar aqui outros dois personagens importantes. O engenheiro e político Lauro Miller, que cuidou da modernização do porto, e o sanitarista Oswaldo Cruz, responsável pelo saneamento da capital. Oswaldo Cruz está preocupado, ele vai tentar atacar três doenças. Ele vai atacar a varíola, que também era uma coisa recorrente, muitas epidemias graves, Tentando implantar a lei da vacinação obrigatória
- 17:30Que vai dar origem à revolta de 1904 A peste bubônica Que nos anos 80 e 90 já se tem identificado Que o agente causal era um bacilo Que era transmitido pelas pulgas Que se alojavam nos ratos E a principal meta que era combater a febre amarela Naquela altura, os cientistas como Oswaldo Cruz Já tinham uma visão mais avançada Em relação às políticas urbanas das décadas anteriores Pela ótica sanitária essas grandes obras não eram mais necessárias porque a ciência já conhecia soluções específicas.
- 18:00A febre amarela era transmitida pelo mosquito, a peste bubônica estava nos ratos, a varíola precisava de vacina e por aí vai. Para Oswaldo Cruz, aquele conjunto de intervenções que o Pereira Passos estava implementando, à luz da teoria miasmática do século XIX, era não só desnecessário como contraproducente, porque a campanha dele contra o ex-Egipte era prejudicada pelas obras que criavam poças d'água em toda parte, dificultavam a ação das brigadas sanitárias do Oswaldo Cruz.
- 18:30Então, na verdade, a reforma e saneamento do Rio de Janeiro são duas faces de uma mesma moeda, mas faces em conflito uma com a outra, que giram em função de mecanismos, de lógicas, de estratégias totalmente colidentes. Mas, do ponto de vista do embelezamento, tinha aquela coisa da vitrine que eu citei ainda há pouco, né? Por isso, o maior símbolo da reforma é a abertura da imponente Avenida Central,
- 19:00que a gente já visitou na abertura do episódio. Vamos voltar pra lá? A Avenida Central começava no Porto Mauá e isso não era por acaso. Ali chegavam os navios com os estrangeiros, era um cartão de visitas. De lá, seguia por dois quilômetros até a Avenida Beira Mar, na região onde hoje fica o Aeroporto Santos Dumont.
- 19:30A terra que pavimentou a avenida veio do primeiro desmonte do Morro do Castelo. E a gente também tem um episódio sobre esse tema na segunda temporada. A inauguração foi em 15 de novembro de 1905, no aniversário de 16 anos da Proclamação da República. As fachadas em Arconvô, com os lampiões de luz elétrica, surgiram no lugar dos casarões coloniais derrubados a golpes de marreta. Os intelectuais mais elitistas, como o poeta Olavo Bilac, celebraram até o barulho das obras.
- 20:00Escutai o hino jubiloso das picaretas da regeneração Por outro lado, o escritor Lima Barreto, homem negro e morador do subúrbio Criticava a intervenção estética que custou tão caro para a população mais pobre De uma hora para outra, a antiga cidade desapareceu E outra surgiu como se fosse obtida por uma mutação de teatro Havia mesmo muito de cenografia
- 20:30Falando em escritor, Machado de Assis foi outro que criticou o modelo das avenidas largas Frequentador assíduo da Rua do Ouvidor, ele brincava dizendo que ali era possível tomar um café numa calçada e comer um doce na outra só esticando os braços Mesmo sendo bem estreita e muito movimentada, a Ouvidor também tinha seus ares parisienses Era um ponto de encontro de intelectuais e artistas com a vida noturna iluminada pelos novos lampiões a gás
- 21:00que substituíram os antigos de óleo de baleia. As lojas de moda com nomes franceses e as vitrines chamativas davam um tom sofisticado a quem circulava pela rua. Ao entrarmos na Rua do Ouvidor, acreditamos-nos transportados para Paris. Esse é um relato do viajante alemão Ernst Ebel. Porque nela se estabeleceram os franceses, com aquela elegância que lhes é peculiar. A influência da França na arquitetura e no paisagismo se espalhou pelo rio.
- 21:30O Campo de Santana foi redesenhado, na década de 1880, pelo botânico e arquiteto Auguste Glasiou, com jardins, cascatas, pontes e grutas. Nos últimos anos do período imperial, os cariocas começaram a se encantar pelo estilo Art Nouveau. Quer um exemplo? A Confeitaria Colombo, que está lá até hoje, no centro do Rio. Criada em 1894 e reformada com toques de Art Nouveau entre os anos de 1912 e 1918, ela preservou o interior do mesmo jeitinho
- 22:00para quem quiser sentir hoje em dia o clima da Bela Epoca carioca. Foi também no início do século XX que o centro da cidade ganhou construções como o Teatro Municipal, inspirado na Ópera de Paris, a nova sede da Escola Nacional de Belas Artes, baseada no Museu do Louvre, a Biblioteca Nacional e o Palácio Monroe, completando o circuito arquitetônico da Praça Floriano Peixoto, que depois ficaria conhecida como a Cinelândia.
- 22:30A cidade era muito bonita, sempre foi muito bonita, então sempre despertou o interesse do turismo. Turismo é um negócio que quer mais no final do século XIX e em diante. Se a ideia era ser uma vitrine para os estrangeiros, nada melhor do que sediar uma feira de modernidades dessas que movimentavam cidades europeias para celebrar os avanços da ciência e do progresso humano. Foi assim, em 1908, com a Exposição Internacional, quando o Brasil foi escolhido como sede por causa do centenário da abertura dos portos das Nações Amigas.
- 23:00O palco do mega-evento foi a Praia Vermelha, com pavilhões de grande porte construídos em tempo recorde. Todo aquele clima de novas tecnologias inspirou um dos organizadores do evento, o engenheiro Augusto Ferreira Ramos. Depois da feira, ele colocou em prática a ideia meio doida e um tanto megalomaníaca de construir um teleférico naquele lugar, ligando a Praia Vermelha ao alto do Pão de Açúcar.
- 23:30Hoje, o bondinho é um dos maiores pontos turísticos do Rio, mas, pensando bem, ali no início do século XX, essa ideia parecia inimiga do bom senso, né? Imagina passar 500 metros de cabo da praia até o alto do morro, Com alpinistas escalando a montanha cheios de equipamentos na mochila E funcionários se arriscando a 400 metros de altura Uma operação que durou três anos e tinha tudo pra dar errado, mas deu certo
- 24:00Em 1912, o teleférico começou a funcionar com uma cabine que lembrava os bondinhos E por isso o nome acabou pegando Ainda bem que o Augusto Ferreira Ramos levou adiante a ideia maluca Lá de cima dá pra ver tudo melhor E é por isso que o Pão de Açúcar está em todos os episódios dessa temporada. A nossa montanha preferida é testemunha das grandes transformações da cidade desde a fundação.
- 24:30Lá do alto, a gente enxerga esse rio com jeito de Paris, mas enxerga também um outro rio. O rio do Samba, da Capoeira e do Candomblé. Capítulo 3 – O Protagonismo Negro Você lembra do Largo do Rocio? A gente passou por ele no episódio anterior. É aquele lugar que foi remodelado com a chegada da família real, onde instalaram um obelisco.
- 25:00A atual Praça Tiradentes, lembrou, né? Pois é. Agora eu vou te levar pra uma praça parecida, só que um pouco menor. O Rocio Pequeno, ali perto dos morros do Livramento, do Pinto e da Providência. Em 1865, o Rocio Pequeno mudou de nome pra Praça 11 de Junho. A Praça 11, como você conhece hoje. Foi pra ali que muitos negros e negras migraram no século XIX Principalmente a partir de quatro eventos O Levante dos Malês, em 1835
- 25:30A Proibição do Tráfico de Escravizados, em 1850 A Lei do Ventre Livre, em 1871 E a Abolição da Escravatura, em 1888 A Praça Onze é uma dessas ilhas, desses bolsões populares Que sobrevivem à reforma urbana E tem uma dinâmica muito rica Os negros, os judeus tinham uma comunidade judaica muito forte. Pequena África, que era perto. Então, era uma vida cultural muito ativa.
- 26:00O termo Pequena África foi popularizado pelo compositor e pintor Heitor dos Prazeres. Era a região portuária que pegava os bairros da Gamboa, da Saúde e parte de São Cristóvão. O número 117 da Rua Visconde de Itaúna virou um ponto de encontro da cultura negra naquela época. Era a casa da baiana Hilária Batista de Almeida, tia Ciata. Ela acolhia os recém-chegados num espaço onde as pessoas viviam o candomblé, a capoeira e o berço do samba E também se articulavam politicamente
- 26:30A polícia costumava reprimir essas atividades, mas não na casa da tia Ciata, que era uma mulher respeitada Ainda mais depois que ela curou uma ferida que incomodava o então presidente Wenceslau Braz Aí o prestígio com as autoridades aumentou e gente de todas as classes se reunia naquele quintal inclusive políticos e funcionários públicos de alto escalão. A pequena África também sofreria um golpe da gentrificação na década de 1940, quando a ditadura de Getúlio Vargas repetiu o bota abaixo do Pereira Passos
- 27:00e derrubou centenas de casas. Mas a memória daquela região está viva até hoje. Se você ouviu o último episódio, você sabe o que é isso, né? É o nosso jeito de representar em áudio, com grãos de café, o crescimento da população do Rio. Na década de 1870, eram 270 mil habitantes. Por isso, você ouviu aí 270 grãos de café caindo na vasilha.
- 27:30Só que, em 1906, o negócio já estava assim, ó. Vai derramar café até cansar. 800 mil habitantes no começo do século XX. A população foi preenchendo a cidade em duas direções.
- 28:00Primeiro, os chamados arrabaldes, que eram as áreas próximas do centro. Glória, Flamengo e Botafogo, ali pela Zona Sul Catumbi, Rio Cumprido e Tijuca, na Zona Norte Naquele momento, os bondes e os barcos a vapor já permitiam deslocamentos maiores E com os trens, o rio foi se espalhando pelos subúrbios A estrada de ferro Dom Pedro II tinha sido inaugurada em 1858 com estações no Engenho Novo, em Cascadura, em Queimados e em Machambomba
- 28:30que hoje é Nova Iguaçu No ano seguinte, os trilhos já chegavam em São Cristóvão, Belém, hoje Japeri, e Sapopemba, hoje Deodoro. Esse aí é o mestre Ney Lopes, numa roda de samba em 2012, no Clube Renascença, cantando a música Sapopemba e Machambomba, que ele compôs e que ficou conhecida na voz do Zeca Pagodinho.
- 29:00A letra vai citando as mudanças de nome dos bairros do subúrbio e das cidades da região metropolitana do Rio. O Lima Barreto, os romances do Lima Barreto são muito documentos, de uma forma muito vívida, a vida do subúrbio. O arruamento dos subúrbios é delirante.
- 29:30Uma rua começa larga, ampla, reta Vamos lhe seguindo o alinhamento Satisfeitos a imaginar os grandes palácios Que bordarão daqui a anos De repente estrangula-se, bifurca-se Na verdade, até o final do século XIX O subúrbio era uma zona de ocupação Principalmente de trabalhadores, funcionários Trabalhadores que tinham salários mais estáveis Quando começa esse período Essa população vai em massa para os subúrbios Essas regiões foram sendo ocupadas por pessoas pobres, em sua maioria negras
- 30:00Muitas que tinham saído do sistema escravista Mas também por imigrantes europeus e funcionários públicos de baixo e médio escalão O Carioca é que foi moldando a cidade, não o contrário O Rio de Janeiro é isso, é essa dinâmica contraditória Os caras que planejavam essas coisas tinham uma ilusão, uma utopia na cabeça Mas a dinâmica real do processo de reprodução da cidade é uma dinâmica contraditória, é uma luta.
- 30:30Muito obrigada ao Jaime Benchimol, que ajudou a gente a entender o Rio de Janeiro na virada do século XIX para o XX. Mais uma vez, eu recomendo o livro dele com o título Pereira Passos, um rosmão tropical. Conforme a nossa jornada avança, a cidade vai ficando mais parecida com o que a gente conhece hoje, né? Então se prepara, porque no próximo episódio ela vai chegar de vez.
- 31:00A gente vai encontrar o rio do Maracanã, do Cristo Redentor, da praia de Copacabana. O rio que se esquicha nos arranha-céus, que se esbalda no carnaval. Que deixa de ser a capital do país, mas não perde a majestade. O rio que, enfim, se transforma na cidade maravilhosa. O Copacabana surge como um produto direto, que a gente pode chamar de uma nova elite carioca,
- 31:30que era uma nova elite nacional que já não era tão vinculada ao universo do Brasil monárquico, da aristocracia, era de fato uma elite mais ligada a atividades ideais burgueses. Esse foi o quarto episódio da terceira temporada do podcast Rio Memórias. A gente está caminhando para a reta final da nossa viagem de quase cinco séculos para testemunhar as grandes mudanças que o Rio de Janeiro atravessou desde a sua fundação.
- 32:00As histórias são baseadas na galeria Rio Cidade em Transformação do Museu Virtual rio-memórias.com.br Marca a nossa arroba rio-memórias no Instagram e me conta o que você está achando da temporada Se você ouve no Spotify, deixa um comentário na caixinha de perguntas E se você curte os episódios, aproveita para dar 5 estrelas para a gente no aplicativo O podcast é uma realização da produtora Escuta Aqui
- 32:30A coordenação é do Rodrigo Alves, que também grava as locuções adicionais e escreve o roteiro com base na pesquisa histórica feita pelo Davi Arueira. A supervisão do roteiro é do Thales Ramos e quem entrevistou o Jaime Benchimol foi a Jamile Boulé. A Clara Costa faz a edição e todas essas recriações de cenas que você ouve por aqui. A trilha sonora original é composta pelo Gabriel Falcão. Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora do podcast.
- 33:00As locuções são gravadas no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro, com supervisão técnica do Dani Di. No próximo episódio eu te encontro de novo, combinado? Um beijo e até mais! O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, e pelo Banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremat,
- 33:30por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS. Obrigado e até o próximo episódio.
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- 01Chuva de flechas na Baía de GuanabaraDuração 29:40
Entre flechas e tiros de canhão, o Rio vive a sua primeira grande transformação tentando incorporar a natureza nas batalhas da Baía de Guanabara. Entrevistado neste episódio: Rafael Freitas da Silva. III Rio Memórias. Histórias do Rio para ouvir. Na 3ª temporada, as transformações que o Rio de Janeiro atravessou ao logo de cinco séculos, desde a fundação até os dias de hoje.
- 02A cidade desce o morroDuração 30:21
Depois de subir os morros para estabelecer sua fundação, o Rio de Janeiro toma o caminho de volta e se espalha pela várzea. O nascimento das ruas, o domínio das igrejas e as trasnformações urbanas para virar sede do vice-reino. Entrevistado neste episódio: Antônio Edmilson Martins Rodrigues.
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Com o desembarque da Família Real em 1808, a população do Rio explode em tamanho, e a cidade que lute para acomodar tanta gente. Entrevistado neste episódio: Sérgio Barra.
- 04Sai da frente, la vem o progresso!Duração 33:51
No início do século 20, o Bota-Abaixo do prefeito Pereira Passos transformou o Centro do Rio de Janeiro. Mas para o carioca se sentir em Paris, a população mais pobre foi arrancada do caminho à força. Entrevistado neste episódio: Jaime Benchimol.
- 05Enfim, cidade maravilhosaDuração 36:03
A praia de Copacabana, o Maracanã, o crescimento da Zona Norte e dos subúrbios. Em meados do século 20, surge o Rio de Janeiro como conhecemos hoje: a Cidade Maravilhosa. Entrevistada neste episódio: Júlia O'Donnell.
- 06De volta aos morrosDuração 35:54
No encerramento da 3ª temporada, a origem, a presença e a força das favelas, um elemento fundamental nas transformações urbanas do Rio de Janeiro. Entrevistada neste episódio: Pâmela Carvalho.