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Rio, cidade em transformação
Episódio 02
A cidade desce o morro
0:00faltam 30 min30:21
Transcrição
Tô saindo aqui da Estação das Barcas, na Praça XV, passando aqui do lado do monumento em homenagem a Dom João VI.
- 0:00Tô saindo aqui da Estação das Barcas, na Praça XV, passando aqui do lado do monumento em homenagem a Dom João VI. Uma estátua dele em cima de um cavalo. Oi, tudo bem por aí? Se você ouviu o episódio anterior, que abre a nossa terceira temporada, você lembra que o Tales Ramos cruzou a Baía de Guanabara de barca.
- 0:30Aliás, eu vou te dar logo um recado. Você não precisa necessariamente ouvir os episódios na ordem, mas eu acho que fica mais legal se você seguir direitinho, Porque uma história vai levando a outra Então, se você preferir, volta lá e ouve o primeiro episódio antes Bom, o fato é que o Thales já cruzou a Bahia e chegou ali na Praça XV, no centro do Rio de Janeiro Eu até quero contar uma historinha sobre essa estátua do Dom João VI Mas eu vou deixar pro fim do episódio, tá? Agora eu vou andar ali até o chafariz
- 1:00Ih, Thales tá cheio de suspense hoje Mas beleza, até porque dar estátua pro chafariz é um pulo Um fica bem pertinho do outro. Pronto, cheguei aqui no famoso chafariz do Mestre Valentim, que foi construído quando isso aqui nem se chamava Praça XV. Pois é, ali no final do século XVIII, essa região era o Largo do Carmo. E a área ainda não tinha sido aterrada, né? Então as águas da Bahia chegavam bem perto do chafariz. E naquela época o povo vinha se encontrar aqui pra bater um papo,
- 1:30fazer uma social, contar umas fofocas. O carioca sempre gostou de uma fofoquinha, né? É, tô sabendo Aliás, quem ouviu a primeira temporada Sabe que a gente já falou disso No episódio sobre a conjuração do Rio de Janeiro O chafariz do mestre Valentim Era um dos pontos onde rolava Uma espécie de contrabando de ideias Revolucionárias Uma fofoca em nome da liberdade Mas hoje a história que a gente vai te contar É outra Então deixa eu dar um até logo pro Tales
- 2:00Então é isso, Gabi Vai tocando o barco aí que mais tarde eu volto para falar sobre a estata do Dom João VI. Combinado. Daqui a pouco eu te chamo de novo. Eu sou a Gabriela Montoni e na terceira temporada do podcast Rio Memórias você vai testemunhar as mudanças que o Rio de Janeiro atravessou ao longo de 500 anos desde a fundação até os dias de hoje.
- 2:30A nossa viagem é baseada na Galeria Rio Cidade em Transformação do museu virtual que você encontra em rio-memórias.com.br. O episódio anterior terminou com a cidade subindo os morros nos séculos XVI e XVII e se instalando lá no alto, lembra? Hoje a gente vai fazer o caminho de volta, descendo os morros e abrindo espaço para se expandir. Você vai saber como nasceram as ruas e como os aterramentos foram mudando a paisagem carioca até chegar lá no fim do século XVIII, na época da construção do chafariz do Mestre Valentim.
- 3:00Então ajusta aí seu fone de ouvido e vem comigo nessa. Capítulo 1 – A Tomada da Várzea Essa é a Jamile Boulê, produtora do podcast, que foi encontrar o nosso entrevistado de hoje
- 3:30num patrimônio gastronômico do Rio de Janeiro. O Angu do Gomes, que vendia o tradicional angu em carrocinhas desde 1955 E depois virou um restaurante na década de 70 Então é nesse ambiente, no coração do Rio Que vai rolar a nossa entrevista de hoje O Rio meio que se iniciou nos morros Mas ele foi descendo porque era chamado de farsa Quem está ali com a Jamília é o historiador Antônio Edmilson Martins Rodrigues
- 4:00Professor da UERJ, da PUC-Rio E um dos coordenadores do Rio Memórias É ele que vai ajudar a gente a contar essa história De uma cidade que nasce e se expande a partir da região da Baía de Guanabara. A Baía de Guanabara, na minha cabeça, é muito mais terra do que mar, na verdade, nesse período. Porque ela vai acumular tudo aquilo que são as riquezas do Rio de Janeiro. Riquezas não no sentido econômico, mas riqueza no sentido potencial, da sustentação. Eram tantos portos na Baía de Guanabara,
- 4:30tanta coisa circulava por ali. No primeiro episódio da temporada, a gente viu como o Rio ocupou os morros do Castelo, da Conceição, de São Bento e de Santo Antônio. No século XVII, a parte baixa da cidade, a planície, chamada de Várzea, começou a ser ocupada. E em pouco tempo, os eixos político e econômico, que estavam muito concentrados no Morro do Castelo, desceram a ladeira. E desceram por quê? Porque o morro tinha uma conexão direta com o porto.
- 5:00E o porto para uma cidade como o Rio de Janeiro era, naquele momento, a centralidade da cidade. A importância dessa descida é a experimentação que fizeram Porque a ideia que a gente tem é que essa cidade é instintiva Não precisa dessa relação de experimentação, não Eles experimentaram tudo isso Experimentaram também o contato com os indígenas, o contato com africanos Tudo isso redundou num modo especial de realizar esse movimento de tomada da várzea
- 5:30Você que está aí ouvindo, me conta uma coisa aqui Eu vou te fazer uma pergunta e, como moradora do Rio de Janeiro, eu até acho que eu já sei a resposta. Mas me conta, hoje, quando você pensa nas ruas do Rio de Janeiro, qual é o som que vem na sua cabeça?
- 6:00É, a gente lembra logo desse trânsito caótico, dos engarrafamentos, das buzinas. É uma paisagem sonora que tá bem inserida na nossa rotina hoje em dia, né? Mas no começo, era um pouquinho diferente. Deixa eu sintonizar meu radinho aqui pra uns 400 anos atrás.
- 6:30Pronto. Ali, na virada do século XVI pro XVII, os morros continuavam abrigando as sedes das ordens religiosas. E já já a gente vai falar delas. Mas a população crescia rapidamente e já não cabia lá em cima. Então, surgiram as primeiras casas residenciais na Várzea. Os prédios da administração pública também começaram a descer. E, para isso, era preciso criar caminhos, ligando os pontos nessa região entre os quatro morros.
- 7:00Os primeiros, claro, foram as rotas herdadas dos povos nativos, as trilhas indígenas. Eu tenho certeza absoluta que todas as trilhas que foram inicialmente desenvolvidas pelo elemento europeu ou pelo africano foram construídas pelos índios. Todos os caminhos do sertão, todos os caminhos das serras, todos os caminhos da lagoa foram feitos pelos índios.
- 7:30Essa é a tradição indígena e a gente tem pouca memória indígena. O legado indígena deu forma aos caminhos que acabaram desenvolvendo os fluxos da cidade. Quanto mais trânsito de pessoas, quanto mais esquinas, maior a quantidade de encontros.
- 8:00E é ali que começa a história das ruas do Rio. Isso significa que a cidade se estendeu por ali E a principal rua que se criou foi a Rua Direita Que é hoje a Primeiro de Março A Rua Direita ligava os morros do Castelo e de São Bento E os primeiros registros dela nos mapas são de meados do século XVII Mas no fim do século XVI já estava ali o caminho Manuel de Brito
- 8:30Que tinha quase o mesmo traçado da rua que seria aberta décadas depois Era uma linha reta, o que pode ajudar a explicar o nome, já que vários estudos apontam o mesmo valor semântico das palavras direita e direta. Então, Rua Direita podia ser o mesmo que Rua Direta. Ela era importante por vários aspectos, mas em termos da geografia, ela era a única possível nessa direção. Nesse momento de expansão da cidade, dá para dizer que a Rua Direita era a Rua das Ruas.
- 9:00Foi a mais importante do Rio até o século XIX e puxou para ela não só o eixo de poder que estava no Morro do Castelo, mas também o hábito dos encontros no espaço público. Além de ser o ponto de partida para outras ruas importantes e outras regiões da cidade. Então as ruas perpendiculares todas foram se desenvolvendo, principalmente a Rua do Ouvidor, que era a lixo manuel, o início do processo de construção dela.
- 9:30Então toda a dinâmica da cidade se conservou nessa região O passado fala com entusiasmo da Rua do Ouvidor Chamando-a de Salão de Visitas do Rio de Janeiro Os primeiros trabalhos sobre alinhamento, nivelamento e melhoria das casas Datam de 1624 Essa é uma memória escrita na virada do século XIX para o XX Muitos imóveis nessas ruas tinham função
- 10:00ao mesmo tempo residencial e comercial, a loja na parte de baixo e a casa nos pavimentos superiores dos sobrados. O nome Rua do Ouvidor vem em meados do século XVIII, quando dois ouvidores da comarca, em períodos diferentes, passaram a morar ali. Primeiro, Manuel de Amaro Pena, de Mesquita Pinto, em 1745. Depois, Francisco Bercó da Silveira, em 1780. Aliás, esses nomes, com referências diretas e até meio óbvias, eram bem comuns na época.
- 10:30A Rua da Quitanda foi chamada assim porque tinha ali uma grande feira, então facilitava para as pessoas se localizarem. Algumas referências eram diretas até demais, como a Rua do Piolho, a atual carioca, e a Rua da Vala, a atual uruguaiana, famosa pelo seu camelódromo. Aliás, a Rua da Vala é um símbolo de como o rio foi alterando sua geografia com os aterramentos. Ali, onde hoje fica a Avenida Chile, tinha uma lagoa pantanosa no pé da encosta do Morro de Santo Antônio.
- 11:00Quando os franciscanos ocuparam o morro, eles pediram na Câmara e no Senado para que a lagoa fosse drenada. Para fazer essa drenagem, surgiu a Rua da Vala, que só seria coberta no fim do século XVIII, numa tentativa de acabar com o mau cheiro e as enchentes. O aterramento de lagoas, pântanos e extensões do mar foi uma prática comum no processo de expansão do rio.
- 11:30inclusive em boa parte da região ali onde a Jamila está conversando com o Edmilson, na Praça Mauá, na Saúde, na Gamboa. É, porque se você olhar essa região aqui, era tudo água, e isso foi tudo sendo aterrado, então o trabalho é um trabalho muito grande. Eles trabalharam muito para definir essa terra carioca. Essa mesma lógica vale para o local de fundação da cidade. Como você viu no primeiro episódio, o Pão de Açúcar está sempre ali,
- 12:00Intacto como símbolo do rio Observando todas as transformações E ele vai acompanhar a gente ao longo de toda a temporada Mas ao redor dele Aquela região também teve sua geografia alterada radicalmente Até a década de 1690 O Pão de Açúcar, o Cara de Cão e o Morro da Urca Ficavam separados do continente Você sabia disso? Era uma ilha, a Ilha da Trindade Só tinha acesso por água Até que no fim do século XVII
- 12:30um aterramento deu origem à Praia de Martim Afonso, que hoje a gente conhece como Praia Vermelha. Aliás, você sabe por que o Pão de Açúcar tem esse nome? Momento curiosidade aqui no Rio Memórias. Na verdade, tem um debate em torno dessa história, mas eu vou recorrer aos registros do historiador José Vieira Fazenda. Ele lembra que no auge do cultivo da cana de açúcar no Brasil, ali nos séculos XVI e XVII,
- 13:00a cana era espremida, o caldo era fervido e colocado numa forma de barro que lembrava um cone. Essa forma era chamada de pão de açúcar. E, como o morro tem um formato parecido, acabou ganhando esse nome. Enfim, essa é uma das teorias, mas o fato é que o aterramento, no fim do século XVII, estreitou a relação do carioca com um de seus maiores símbolos.
- 13:30Capítulo 2. Por quem os sinos dobram? Não dá para pensar no crescimento do Rio de Janeiro sem levar em conta a atuação das várias congregações religiosas da cidade O projeto colonizador era também um projeto de poder do catolicismo português As ordens, irmandades ou confrarias ocuparam morros, se espalharam pelo território
- 14:00e foram muito além dos costumes e da fé Algumas investiram também no poder econômico, com produção agrícola e propriedades imobiliárias Os jesuítas, por exemplo, tinham até engenhos e fazendas de gado, além de estaleiros, armazéns e imóveis espalhados pela cidade. A paisagem urbana do rio, que no primeiro momento foi marcada pelas fortificações de defesa em cima dos morros, aos poucos foi sendo dominada pelas igrejas.
- 14:30Até meados do século XVIII, eram quase 40 construções religiosas, entre igrejas, capelas, conventos e mosteiros. A rotina da cidade foi moldada em volta desses lugares Com pontes, chafarizes, aberturas de ruas e obras de saneamento A vida noturna também se concentrava ali por perto Já que os edifícios religiosos estavam entre os raros espaços iluminados com lanternas A base de óleo de baleia que ficavam em cima dos postes E até o jeito de se comunicar mudou
- 15:00A cidade falava pelos sinos E não era só pra convocar o povo pra missa não, viu? Com ritmos e pausas diferentes, os sinos das igrejas informavam sobre acontecimentos urgentes,
- 15:30como um incêndio ou uma invasão estrangeira no porto. Eram uma espécie de código morse religioso. Aqueles espaços sacros dos católicos, claro, eram reservados aos brancos. A população negra e parda cristã precisou conquistar o direito de formar seus próprios templos de oração. Mesmo com terrenos doados pela Câmara, as Irmandades Negras, como a Nossa Senhora da Lampadosa,
- 16:00Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, ficavam mais afastadas do centro urbano. Essas instituições tiveram um papel fundamental no acolhimento de um povo afetado diretamente pela escravidão. Seja para mobilizar coletivamente a compra de uma carta de alforria, ou proporcionar um enterro digno de um membro que morria, ou ainda ajudar financeiramente as famílias. E aqui a gente está falando de negros cristãos, porque tinham também as religiões de matriz africanas, que aí sim deram para a fé um caráter mais democrático no Rio de Janeiro.
- 16:30Porque a religião católica é muito hierarquizadora e as religiões africanas são muito abertas no sentido da recepção, da sociabilidade que a gente chamaria. E isso acaba influenciando nesse processo. Então descarrega muito daquilo que era o elitismo das ordens religiosas, católicas Que comandavam as procissões Então tinham caminhos, esses caminhos se transformavam em referências políticas
- 17:00Não vou passar mais nessa rua E matava todo mundo daquela rua Porque perdia o prestígio que ela tinha Porque a procissão não passava mais Então esses usos eram como se fossem usos políticos De partidos políticos E as ordens africanas, quando se misturaram com isso, elas deram um caráter muito mais popular, muito mais da rua. A população mais pobre foi ocupando outras áreas de expansão. Depois da Rua da Vala, vinha o Campo da Cidade,
- 17:30que a partir de 1735 ficou conhecido como Campo de Santana. Um lugar que seria palco de eventos marcantes da história do Brasil, mas naquele momento era basicamente um depósito de lixo e esgoto. Ouve só esse relato do jornalista e engenheiro Vivaldo Quaraci Era um vasto areal entremeado de alguns charcos Vestido de flora característica das restingas Em que se destacavam pitangueiras e cajueiros
- 18:00Tão deserto e abandonado era o campo de Santana nos meados do século XVIII Que foi escolhido para despejo de detritos e imundices Ali perto, no Lago da Lampadosa Ciganos, judeus pobres e estrangeiros viviam em habitações improvisadas Em volta da cidade barroca das igrejas, foi-se desenhando um outro Rio de Janeiro, com casas de palafitas nas periferias e áreas de mangues. Um processo de exclusão que a gente vê até hoje, e que já naquela época marcava as áreas mais afastadas.
- 18:30A periferia daquela época a gente chama de sertão. O que é o sertão? O sertão é a área de produção agrícola da cidade. Então, o sertão do Rio de Janeiro é muito grande, Porque ele é basicamente todo o interior da Baía de Guanabara Porque nesse primeiro momento você não pode tirar a Baía de Guanabara da cidade Então a periferia é enorme Porque ela ocupa toda a franja dessa região Lagoa Rodrigo de Freitas, todo esse espaço
- 19:00É o espaço da periferia, é o espaço dos pescadores Que é extremamente importante porque era uma forma De você garantir a própria sobrevivência desses grupos que estavam localizados nessa área, fora, evidentemente, aqueles que começam a desenvolver uma pesca mais ligada à condição de construção da cidade, pesca da baleia, seja no arpoador, que o nome já está dizendo tudo, seja no interior da Baía de Guanabara, na Praia de Mauá. Então, as atividades de crescimento da cidade vão implementando modificações
- 19:30naquilo que era um acomodamento inicial com relação à subsistência. Depois de passar pela periferia, a gente volta para aquele lugar onde o talho estava no início do episódio, lembra? Ao contrário dos jesuítas, dos franciscanos e dos beneditinos que se instalaram nos morros ainda no século XVI Os carmelitas tomaram um caminho diferente
- 20:00Escolheram um lugar bem em frente ao porto, a via de entrada da cidade Um lugar que ficaria conhecido como Largo do Carmo Capítulo 3 – O Coração do Rio Colonial Quer dizer, a cidade, durante muito tempo, durante todo o período colonial, está associada diretamente ao Largo do Carmo, né?
- 20:30E o Largo do Carmo é o porto, né? Hoje, a Praça XV, o Largo do Carmo é o porto. Foi bem ali, à beira-mar, que os carmelitas se estabeleceram. Em 1619, eles começaram a erguer o convento e, tempos depois, em 1770, concluíram uma construção bem maior, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Ela está ali até hoje, na Rua 7 de Setembro, colada no Largo, que atualmente se chama Largo do Paço. O nome se explica pelo fato de que ali perto da igreja fica também o Paço Imperial,
- 21:00um edifício extenso que antes foi o Paço Real e antes ainda o Paço do Governador, construído em 1743. Quem desenhou o Paço foi o brigadeiro José Alpoim, talvez o maior nome da arquitetura colonial carioca. Ele também projetou o casarão de Francisco Teles de Menezes, um conjunto de três prédios que ia da Rua Direita até a Rua do Mercado. Um incêndio no fim do século XVIII destruiu boa parte desses prédios,
- 21:30e o que sobrou foi o Arco do Teles, que até hoje é muito frequentado pelos cariocas. Aliás, a partir desse incêndio, surgiu uma das maiores lendas urbanas do centro do Rio. Mas daqui a pouquinho a gente te conta. Agora, vamos passar por uma mudança importante que aconteceu antes do incêndio. Em 1733, quando Gomes Freire de Andrade, o conde de Bobadela, assumiu o governo do Rio de Janeiro,
- 22:00a cidade entrou num período de investimento pesado em infraestrutura e embelezamento. O brigadeiro José Alpoim, que eu citei agora há pouco, era o engenheiro por trás dessa modernização da cidade. Surgiram academias literárias, a primeira tipografia da colônia e, finalmente, deram um jeito na distribuição da água. O aqueduto da Carioca foi refeito com uma técnica que misturava pedra e cal com óleo de baleia, formando uma liga de concreto resistente.
- 22:30A primeira versão, nas décadas anteriores, não tinha dado muito certo, porque os canos eram de ferro e não resistiram à ação do tempo. E, se você ainda não localizou o aqueduto, se você não sabe do que eu estou falando, Eu vou te dizer que esse aqueduto é o que hoje a gente conhece como os Arcos da Lapa. Agora reconheceu, né? Pois é, um dos maiores cartões postais do Rio, com seus 17 metros de altura e 270 de comprimento, foi erguido com essa missão de transportar a água para os moradores da cidade.
- 23:00Pronto. Resolvida a questão hídrica, com o porto escoando as riquezas que vinham de Minas e Goiás, Em 1763, a coroa portuguesa transferiu a capital da colônia de Salvador para o Rio, que passou a ser o lar dos vice-reis do Brasil. Isso deu ainda mais gás para o Gomes Freire, que botou em prática outras reformas ampliando a área urbana em direção ao campo de Santana, abrindo novas ruas e fazendo novos aterramentos.
- 23:30Um desses aterramentos, na Lagoa do Boqueirão, deu lugar ao Passeio Público, o primeiro jardim público da cidade construído em parte com mão de obra dos prisioneiros do Cala Bolso, a cadeia exclusiva para escravizados que ocupava aquela região onde hoje ficam, o Aeroporto Santos Dumont e o Museu Histórico Nacional. Quem assinou a obra do Passeio Público foi o mestre Valentim, o mesmo daquele chafariz que a gente visitou no início do episódio. O chafariz foi inaugurado em 1789
- 24:00para substituir um mais antigo que recebia as águas do aqueduto. Um ano depois, bem pertinho dali, veio um incêndio devastador que destruiu boa parte do casarão e só deixou de pé o Arco do Télis. Então, pra você que gosta de histórias de crime, segura aí essa lenda urbana que nasceu das cinzas do incêndio. Depois do incêndio, em 1790, o Arco do Télis virou uma área
- 24:30ocupada por moradores em situação de rua e pelas cantoneiras, como eram chamadas as prostitutas que atuavam nos cantos daquele beco. Uma delas era Bárbara Vicente de Urpia, uma jovem portuguesa que tinha sido casada com um fidalgo frequentador dos salões da elite, mas ela se apaixonou por um homem negro livre e largou o marido. A partir daí começou a circular a história de que Bárbara caiu em desgraça, perdeu sua beleza e, para se recuperar, passou a fazer rituais com sangue de crianças e bebês
- 25:00que ela sequestrava pela cidade. Uma história certamente alimentada pela maneira como a sociedade da época enxergava as mulheres que saíam do casamento e também pelo preconceito contra religiões africanas. É nesse contexto que surge a lenda urbana de Bárbara dos Prazeres, a assassina de crianças que espalhou pânico pela cidade e fez as famílias tradicionais esconderem os seus filhos dentro de casa. Mas nem tudo era conto de terror naquele momento.
- 25:30Enquanto o Rio sofre uma grande transformação e se torna a capital do vicirreino, a história da cidade passa a se misturar de vez com a história do Brasil. sem perder suas características próprias. Isso é um negócio interessante de ver como a cidade vai tomando a forma, mas sempre nesse sentido inicial. Desce do morro, toma a várzea, se expande na várzea e aí adquire esse sentido novo de expansão dela. Então acho que isso é muito legal para compreender o Rio de Janeiro
- 26:00e compreender a história do Rio de Janeiro diferente da história do Brasil. Porque aí como ela virou capital em 1763, Você começa a dizer que a história dela é a história do Brasil e aí dançou a história do Rio de Janeiro. Então, acho que a atenção nossa deve ser para esse percurso particular de uma história do Rio de Janeiro, que não é diferente da história do Brasil, claro, mas que tem manifestações muito particulares e importantes de serem acentuadas, porque elas têm uma marca muito especial de peculiaridade.
- 26:30É nesse contexto de grande expansão e modernização que o rio vai entrar no século XIX. A população, que era de 6 mil pessoas lá no início do século XVIII, já passava de 40 mil. Mas a grande explosão demográfica ainda estava por vir. Porque em 1808 aconteceu um episódio sem precedentes na história das Américas. O desembarque da família real portuguesa no Brasil, fugindo da invasão francesa em Lisboa.
- 27:00Oi, Gabi. Desculpe interromper aí, mas esse negócio que você está falando aconteceu exatamente aqui onde eu estou agora. Opa, é verdade. Eu já estava esquecendo que o Tales queria contar uma historinha sobre a estátua do Dom João VI ali na Praça XV, né? Pois é. Essa estátua foi colocada aqui de frente para a Baía de Guanabara para marcar o lugar exato onde a família real portuguesa desembarcou em 1808. É uma imagem bronze com 3 metros de altura de Dom João em cima de um cavalo segurando um globo terrestre na mão direita.
- 27:30Tipo o dono do mundo, né? Foi feita pelo escultor português Salvador Barata Feio. Foi um presente do governo de Portugal em 1965. E é exatamente aí que a gente vai retomar a história no próximo episódio. Com a chegada de Dom João e companhia, fazendo o rio mergulhar em mais um período de transformações intensas. Obrigada, Tales. E bom passeio aí, viu? Valeu, Gabi. Vou dar mais uma caminhada aqui pela Praça XV. Até a próxima. Esse foi o segundo episódio da terceira temporada do podcast Rio Memórias.
- 28:00Em seis capítulos, a gente leva você para testemunhar as mudanças que o Rio de Janeiro atravessou ao longo de cinco séculos. Você pode visitar o Museu Virtual riumemórias.com.br e navegar pela Galeria Rio Cidade em Transformação. Aproveite e dá um pulo também nas outras galerias, inclusive as que inspiraram as nossas temporadas anteriores,
- 28:30sobre conflitos históricos e lugares do Rio que não existem mais. Se você ainda não ouviu, fica à vontade para voltar lá e dar um play. Marca a arroba Rio Memórias no Instagram e conta para a gente o que você está achando dessa jornada. O podcast é uma produção da Escuta Aqui, com coordenação do Rodrigo Alves, que também escreve os roteiros e grava as locuções adicionais. Quem faz a supervisão do roteiro é o Tales Ramos, que hoje também foi para a Praça Quim.
- 29:00Quem estava lá com ele ajudando na gravação era Jamile Boulê, que também fez a entrevista com Antônio Edmilson Martins. A pesquisa histórica é do Davi Arueira. A Clara Costa faz a montagem e a edição. E é ela que cria sonorizações para colocar você dentro das cenas. O Gabriel Falcão compõe a trilha sonora original que você está ouvindo aí. Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora do podcast.
- 29:30Todas as locuções são gravadas no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro, com supervisão técnica do Dani Di. Eu encontro você de novo no próximo episódio, combinado? Obrigada, um beijo e até lá! O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, e pelo banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremate,
- 30:00por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, lei do ISS. Obrigado e até o próximo episódio.
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- 01Chuva de flechas na Baía de GuanabaraDuração 29:40
Entre flechas e tiros de canhão, o Rio vive a sua primeira grande transformação tentando incorporar a natureza nas batalhas da Baía de Guanabara. Entrevistado neste episódio: Rafael Freitas da Silva. III Rio Memórias. Histórias do Rio para ouvir. Na 3ª temporada, as transformações que o Rio de Janeiro atravessou ao logo de cinco séculos, desde a fundação até os dias de hoje.
- 02A cidade desce o morroDuração 30:21
Depois de subir os morros para estabelecer sua fundação, o Rio de Janeiro toma o caminho de volta e se espalha pela várzea. O nascimento das ruas, o domínio das igrejas e as trasnformações urbanas para virar sede do vice-reino. Entrevistado neste episódio: Antônio Edmilson Martins Rodrigues.
- 03Quanta gente cabe no Rio?Duração 31:32
Com o desembarque da Família Real em 1808, a população do Rio explode em tamanho, e a cidade que lute para acomodar tanta gente. Entrevistado neste episódio: Sérgio Barra.
- 04Sai da frente, la vem o progresso!Duração 33:51
No início do século 20, o Bota-Abaixo do prefeito Pereira Passos transformou o Centro do Rio de Janeiro. Mas para o carioca se sentir em Paris, a população mais pobre foi arrancada do caminho à força. Entrevistado neste episódio: Jaime Benchimol.
- 05Enfim, cidade maravilhosaDuração 36:03
A praia de Copacabana, o Maracanã, o crescimento da Zona Norte e dos subúrbios. Em meados do século 20, surge o Rio de Janeiro como conhecemos hoje: a Cidade Maravilhosa. Entrevistada neste episódio: Júlia O'Donnell.
- 06De volta aos morrosDuração 35:54
No encerramento da 3ª temporada, a origem, a presença e a força das favelas, um elemento fundamental nas transformações urbanas do Rio de Janeiro. Entrevistada neste episódio: Pâmela Carvalho.