Podcast
Podcast
Rio, cidade em transformação
Episódio 06
De volta aos morros
0:00faltam 36 min35:54
Transcrição
É assim há 110 anos.
- 0:00É assim há 110 anos. Nossos carros são conectados à felicidade. Porque o prazer em ir lá em cima é maravilhoso. Agora deixa eu fazer o vídeo assim. E aí, vamos subir? Parque Bondim no Pão de Açúcar. Felicidade lá em cima. Olha, demorou três temporadas, 18 episódios, mas a equipe do Rio Memórias finalmente subiu a montanha mais famosa da cidade. O que você tá ouvindo agora é o som de um clássico carioca, o bondinho do Pão de Açúcar.
- 0:30E a gente foi gravar lá em cima pra poder olhar o Rio do Alto. Tem muita história ali. E o primeiro bondinho, inaugurado em 1912, ainda tá lá, viu? Não funcionando, né? Porque o bichinho tem 110 anos. Mas ele fica lá, exposto pra todo mundo ver. Enquanto a gente subia, eu fui logo fazendo um monte de pergunta pro moço que opera o teleférico.
- 1:00é o antigo aquele foi o primeiro foi de 1912 até 1972 e ele não tinha janela? não, ele tinha, era todo de madeira e tinha aquela janela, cabiam 22 pessoas foi a primeira geração imagina a primeira pessoa que andou nisso aí que fez o teste eu quero que você se imagine ali dentro do bondinho com a gente
- 1:30subindo da Praia Vermelha até o Morro da Urca que já tem uma vista linda e depois o outro trecho que chega no Pão de Açúcar a 396 metros de altura É alto, viu? Agora a gente está aqui no topo do Pão de Açúcar e daqui do alto a gente consegue ver vários lugares por onde a gente passou ao longo dessa temporada Ah, depois de atravessar cinco séculos nessa jornada para testemunhar as grandes transformações do Rio desde a fundação, fala a verdade, a gente merecia encerrar essa aventura
- 2:00olhando tudo lá de cima, né? A Baía de Guanabara, que passou tantas vezes pelos últimos episódios, agora estava ali, na nossa frente, numa vista panorâmica de tirar o fôlego. Pô, é muito bonito, né, a baía? Eu gosto muito de fazer esse exercício de ficar imaginando os navegadores quando chegavam aqui e viam tudo cristalino, tudo lindo, tudo mato. E a gente está aqui de cara para a Baía de Guanabara, bem aqui na nossa frente agora.
- 2:30Aqui de onde a gente está, a gente pode ver alguns lugares que a gente já falou em outros episódios. A gente consegue ver não só a Baía de Guanabara, mas o centro da cidade, Botafogo, Flamengo, uma parte do Catete, por aí vai. Agora a gente veio aqui para o outro lado, dá para ver Leme, Copacabana e, pô, que diazão, hein? Demos muita sorte. A gente veio gravar aqui. Está um dia lindo no Rio, ensolarado. Coisa linda.
- 3:00O Rio de Janeiro é um absurdo, né? A verdade é essa. E o dia está limpo, a gente consegue ver todos os morros em volta. E o pessoal não está ouvindo, mas a gente está fazendo várias fotos aqui, basicamente. Turistar um pouquinho não faz mal para ninguém, beleza. Mas a nossa jornada ainda não acabou, não. Eu sou a Gabriela Montoni e esse é o sexto e último episódio da terceira temporada do Rio Memórias.
- 3:30Baseada na galeria Rio Cidade em Transformação Que você encontra no nosso museu virtual Em riomemórias.com.br Lá no século XVI A gente viu o rio subindo os morros Para se estabelecer E depois descendo Para se espalhar pelas ruas Hoje, no desfecho da nossa aventura Os morros voltam a ser protagonistas Aqui no podcast E eu não estou falando só do Pão de Açúcar
- 4:00Porque é impossível passar pelas transformações urbanas do rio sem falar sobre os conjuntos de habitações populares que também se tornaram um símbolo da cidade, as favelas. Capítulo 1 – A Capital dos Cortiços
- 4:30É claro que nem toda favela fica num morro. O rio também tem favelas planas. Aliás, daqui a pouquinho a gente vai pra dentro de uma delas. Mas antes eu quero te levar pra conhecer a origem dessa ocupação territorial. Ali no século XIX, quando a cidade passou a conviver com um problema incontornável O déficit de habitação Era muita gente para acomodar e, como você já sabe, na hora de organizar o espaço urbano Quem sofre é sempre a população mais pobre, que se vira sozinha e vai vivendo um dia de cada vez
- 5:00Eram cinco horas da manhã e o Cortiço acordava abrindo não os olhos Mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros, umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário.
- 5:30Esses são trechos de um clássico da literatura brasileira, o romance O Curtiço, de Aloysio Azevedo. O livro tem como cenário, e mais que isso, como protagonista mesmo, uma habitação coletiva no Rio de Janeiro. Das portas surgiam cabeças congestionadas de sono Ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas
- 6:00Pigarreava-se grosso por toda a parte Começavam as xícaras a tilintar O cheiro quente do café aquecia, suplantando todos os outros Trocavam-se de janela pra janela as primeiras palavras, os bons dias Reatavam-se conversas interrompidas à noite A pequenada, cá fora, já traquinava e lá de dentro das casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam.
- 6:30No confuso rumor que se formava, destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas.
- 7:00De alguns quartos saíam mulheres que viam dependurar cá fora, na parede, a gaiola do papagaio. E os louros, à semelhança dos donos, cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se a luz nova do dia.
- 7:30É claro que pegar uma obra literária e dizer que esse era um retrato 100% fiel do amanhecer num cortiço é sempre arriscado, né? O livro do Aloysio Azevedo eternizou esse tipo de moradia coletiva. Mas, na prática, o cenário era muito mais complexo. Na primeira metade do século XIX, boa parte da aristocracia carioca abandonou os casarões no centro da cidade e migrou para chácaras e casas de praia em áreas mais distantes, como Botafogo e Gávea.
- 8:00As mansões, os palacetes e os sobrados que ficaram para trás foram divididos em muitos cômodos, alugados a preços mais baratos e ocupados por milhares de pessoas. Assim surgiram os cortiços. E não só nos imóveis abandonados Mas naquela época existiam os corticeiros Que erguiam os cortiços pela cidade Como muitos deles ficavam perto dos polos de trabalho
- 8:30O volume de moradores foi aumentando E a partir de 1855 O governo tentou frear essa ocupação Até que veio uma decisão mais radical em 1873 Qualquer nova construção desse tipo tinha que passar pela aprovação da prefeitura. Não serão mais permitidas as construções chamadas cortiços entre as praças Dom Pedro II e 11 de junho e todo o espaço da cidade entre as ruas do Riachuelo e Livramento.
- 9:00O povo, claro, tentava driblar a proibição dizendo que aquilo não era um cortiço, mas a fiscalização era pesada. A interdição para as construções vale mesmo quando os proprietários insistirem em chamá-los casinhas ou nome equivalente. Os habitantes ali eram predominantemente negros. Pessoas livres, libertas e até escravizadas, os chamados escravos de ganho. Os brancos, em geral, eram da classe proletária.
- 9:30E a tensão com as autoridades era constante, como é até hoje essa relação social e racial. Apesar do governo torcer o nariz, em 1888, ano da abolição, O Rio de Janeiro chegou a contar 1.331 cortiços, muitas vezes com famílias inteiras dividindo o mesmo cômodo. Para as elites que queriam emular o estilo de vida europeu aqui nos trópicos, o desejo era varrer da paisagem aqueles aglomerados que escancaravam o déficit habitacional carioca.
- 10:00O discurso higienista fez com que muitas habitações fossem demolidas nas últimas décadas do século XIX. As marretas não pouparam nem o mais célebre dos cortiços, o Cabeça de Porco, na freguesia do Sacramento, que a gente já visitou no episódio 4. A demolição, no dia 26 de janeiro de 1893, mandou para a rua mais de 2 mil habitantes.
- 10:30E o poder público, obviamente, não tinha nenhum plano para essas pessoas. Abandonadas, elas construíram uns casebres na encosta do Morro da Providência. E foi assim que tudo começou. Para te contar essa história, a gente foi buscar uma ajuda luxuosa, não muito longe do Morro da Providência.
- 11:00Uma meia horinha de carro, em outro ponto, nas margens da Baía de Guanabara. A Jamile Boulê, produtora do podcast, foi encontrar a nossa entrevistada de hoje na Nova Holanda, uma das 16 favelas do Complexo da Maré.
- 11:30Oi, boa tarde, tudo bem? Meu nome é Jamile, eu estou procurando a Pâmela. Ela falou que você vinha, ela falou que já está chegando Ah não, sem problema Você pode ficar à vontade, pode sentar Obrigada Tem café lá do outro lado também Ah, vou pegar um pouquinho, obrigada A Jamile estava esperando a Pamela Carvalho Historiadora, educadora, ativista E coordenadora do Centro de Artes da Maré Enquanto isso, tomar um cafezinho Está rolando uma aula de yoga aqui
- 12:00Tem um painel muito bonito aqui que tem escrito Vida, Ancestralidade e Continuação e aí tem as fotos da Carolina de Jesus do Abdias Nascimento e da Marielle Franco muito bonito Se você, por acaso, não reconheceu algum nome Carolina Maria de Jesus é a escritora autora de Quarto de Despejo Abdias Nascimento, também escritor ativista dos direitos civis e fundador da companhia
- 12:30Teatro Experimental do Negro e do Ipeafro o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, e a Marielle, cria da Maré, que está no nosso episódio de abertura da segunda temporada. Carolina e Abdias nasceram no mesmo dia, 14 de março de 1914, e Marielle foi assassinada também no 14 de março de 2018. Foi ali, perto desse painel, que a Pâmela Carvalho chegou. E é ela que vai ajudar a gente a entender o papel das favelas
- 13:00nas transformações urbanas do Rio de Janeiro. Enquanto isso, você vai ouvindo também os sons da maré. Aliás, elas estavam bem pertinho de uma serralheria que, para nossa sorte, não estava funcionando na hora. Mas a gente fica de olho. Se começar isso a serrar em alguma coisa, eu vou lá e peço para eles. Eu falo, serra daqui a pouquinho, serra um pouquinho mais tarde. Não precisou, não. Foi tranquilo, sem barulho de serra. Vamos para o papo. Gente, já pode? Já está gravando? Ah, maravilhoso!
- 13:30A Pâmela vai começar justamente fazendo um paralelo entre o Morro da Fundação da Cidade, o Morro do Castelo, que a gente já visitou aqui no Rio Memórias, e a favela original, que recebeu os habitantes despejados do Curtiço Cabeça de Porco. O Rio de Janeiro tem como marco na sua história, numa história dita hegemônica, a história que geralmente é ensinada nos livros, nas universidades, nas escolas. ele tem como marco o Morro do Castelo, mas eu gosto de trazer para a gente pensar a história do Rio de Janeiro
- 14:00um outro morro enquanto marco que é o Morro da Providência e que ajuda a gente inclusive a pensar essa questão populacional, a ocupação dos morros, a formação dos espaços que a gente entende hoje enquanto favelas e até esse sentido do termo favela que a gente pode utilizar de uma forma ampliada tanto para falar de configurações geográficas que seriam morros e falar também de configurações geográficas planas,
- 14:30como é o caso da Maré, que é o conjunto de favelas, onde faz parte o Parque União, que é a favela onde eu moro. O Parque União fica bem pertinho de onde a Pamela estava ali conversando com a Jamile. Então acho que a gente pensar esse paralelo entre Morro do Castelo e Morro da Providência é interessante e ajuda a gente a pensar deslocamento populacional, inchaço populacional, política pública, pensar inclusive a formação desses espaços enquanto espaços de moradia, pensando que não dá para não pensar morros e favelas no Rio de Janeiro
- 15:00sem a gente pensar um viés de classe e de raça. A ocupação do Morro da Providência tem um marco que acontece quatro anos depois da demolição do Cabeça de Porco. Em 1897, os soldados que lutaram na Guerra de Canudos, no interior da Bahia, voltaram para o Rio de Janeiro com a promessa do governo de Prudente de Moraes de que todos eles receberiam moradias. Então, esses combatentes de canudos vêm com essa promessa de receber uma moradia
- 15:30e quando não recebem, começam a ocupar outros espaços no Rio de Janeiro, entre eles o morro que era o Morro da Favela, que hoje a gente entende como o Morro da Providência. E aí é chamado de favela por conta dessa semelhança com uma planta, uma vegetação nativa que eles acharam parecida com a favela, que é uma planta que eles observaram lá em Caduz. O morro ficava perto do Ministério da Guerra. E o que era para ser uma moradia provisória para os soldados e para as famílias deles,
- 16:00acabou virando uma solução definitiva para centenas e depois milhares de pessoas. Então, a gente tem esse marco que eu acho que é importante para a gente pensar o início, né? O Morro da Providência, antigo Morro da Favela, é a primeira favela, o primeiro morro ocupado dessa forma aqui no Rio de Janeiro. Para alguns especialistas, como o geógrafo Andrelino Campos, essa origem vai mais longe e começa nos quilombos que surgiram na época da colônia
- 16:30e se multiplicaram nos tempos do Império. Muitos deles ocuparam as encostas dos morros, como é o caso do maciço da Tijuca, onde hoje ficam algumas das maiores favelas do Rio. Com a abolição, em 1888, os quilombos deixaram de ser clandestinos, Mas continuaram estigmatizados Mesmo assim, como já tinham estrutura e organização social Passaram a atrair moradores E foram se transformando em comunidades Com o perfil que a gente vê hoje nas favelas
- 17:00Eu acho que tem algumas similaridades Tem algumas diferenças também que eu acho que são importantes Tem uma questão da ocupação dos quilombos no Brasil Que parte dessa perspectiva de construir uma outra coisa, um outro sistema, que não seja o sistema escravocrata. E aí, quando a gente fala das favelas, tem uma questão também de construir uma outra coisa, mas muitas vezes é isso, tem essa ocupação por uma questão da necessidade,
- 17:30de eu vou porque eu preciso de um lugar para morar, e o Estado não me garante as condições ideais para a minha moradia. Por outro lado, tem um monte de semelhanças De senso de comunidade, de olhar, por exemplo, para o cuidado e para a educação das crianças em especial De forma coletiva É uma coisa que a gente pode observar tanto nos quilombos quanto nas favelas Hoje, nas favelas, até hoje, a gente vê aquelas plaquinhas
- 18:00Toma-se conta de crianças A gente vê, às vezes, é isso É uma mãe que tem dois filhos, aí ela abre o quintal dela para tomar conta das crianças da vizinhança Isso é um aspecto que a gente observa ainda hoje nas favelas e que era observado também nos quilombos. Sem falar, claro, na produção cultural. A musicalidade que está tanto na música, que a gente observava inclusive nos quilombos também, e a gente observa nas favelas, as favelas são extremamente musicais e sonoras. Está aí o Rafael Vicente, outra cria da Maré dominando a cena.
- 18:30Você já deve ter visto ele por aí dançando o Waka Waka na favela. O Rafa é um influenciador e produtor de conteúdo que viralizou durante a pandemia com um vídeo super bem produzido, incentivando a vacinação na Maré. Na Copa de 2022, ele repetiu a dose com uma coreografia da música da Shakira, gravada em vários lugares da favela, com vários dançarinos.
- 19:00A própria cantora compartilhou o vídeo elogiando. Aí já viu, né? O Rafa ficou todo emocionado daquele jeitão dele, sincerão. Não, a Mona me marcou no negócio, eu nem segui ela, fui olhar, nem segui. Ela deve ter botado meu arroba, apareceu, não segue. Ela deve ter repensado, com certeza. Eu nem comprei a música, ela vai me processar. Tomara que ela não me processe, eu não comprei a música. Não vai te processar não, Rafael. Isso aí que você faz, como diz a Pamela Carvalho, é resistência cultural purinha.
- 19:30Então, acho que a gente consegue, guardadas as devidas proporções, observar uma série de paralelos entre os quilombos e as favelas, seja nessa perspectiva cultural, numa perspectiva também de senso de comunidade uma perspectiva inclusive que é legal da gente pensar da produção de soluções hoje as favelas estão propondo uma série de soluções para a sociedade a pandemia mostrou isso muito das favelas pensando soluções para a segurança alimentar, para a questão da higiene, da limpeza
- 20:00e os quilombos também produziam uma série de soluções, de sistemas, de teorias, de materiais essenciais para si, para aquele próprio sistema do quilombo, mas que podiam e foram utilizados também na sociedade como um todo. A população nas favelas cariocas começou a aumentar muito com a industrialização no começo da Era Vargas, em 1930. Muita gente chegou de diversas partes do país, atraída pelas oportunidades de trabalho. Em 1948, eram 105 favelas com um total de 150 mil moradores.
- 20:30Pouco mais de uma década depois, o número de habitantes já tinha dobrado, com as moradias se espalhando nos arredores da Avenida Brasil. Um movimento inevitável diante dessa relação difícil entre o poder público e as populações mais pobres. Então acho que a gente pode pensar também essa ocupação dos morros e a formação das favelas dentro dessa perspectiva de resistência, de muitas vezes a necessidade mesmo da moradia.
- 21:00A gente pode ver isso a partir de uma perspectiva, inclusive, de diálogo com o poder público, só que é um diálogo que não se efetiva, porque quando a gente fala de favelas, de periferia, de morros, geralmente o senso comum entende que a gente não faz um diálogo com o poder público, que a gente está à margem dos sistemas de legalização, de organização do poder público, do Estado, mas desde a origem das favelas, desde o Morro da Providência e o Morro da Favela,
- 21:30existe uma tentativa de populações negras dialogarem com o Estado, inclusive acreditarem nessa promessa do Estado. E essa ocupação vem justamente por conta do não cumprimento dessa promessa. Ou seja, o Estado não cumpre o seu dever. A população cria soluções para resolver esse déficit habitacional e isso vira uma pedra no sapato do próprio Estado
- 22:00que passa a perseguir essas pessoas e esses lugares. É assim desde o tempo dos cortiços, continua sendo assim com as favelas que hoje ocupam quase todos os morros do Rio de Janeiro. O Pão de Açúcar é um dos únicos morros do Rio que não tem favela. Aqui perto a gente tem o Chapéu Mangueira, o Morro da Babilônia, Mas no pão de açúcar não tem favela Capítulo 3
- 22:30A resistência que vem do alto O local da favela pode ser bonito Mas além da falta de higiene Às vezes há perigo de desabamento Essa gravação é de 1971 Olha só essa previsão Felizmente a favela carioca É algo que tende a desaparecer De nossa realidade O governo federal Através da XAM
- 23:00Vem ajudando as autoridades estaduais A resolver o problema O lema é demolir para construir Essa é uma campanha De remoção das favelas Feita no início da década de 1970 Durante o governo Médici na ditadura A profecia era essa De que as favelas iam sumir Agora, vida nova Sem favela Essa campanha está num documentário Chamado Chapéu Mangueira e Babilônia Histórias do Morro Produzido pelo projeto Rumores da Cidade
- 23:30da Escola de Comunicação da UFRJ. E a profecia estava totalmente furada, né? O último censo do IBGE, em 2010, registrou 763 favelas no Rio, ocupadas por quase um milhão e meio de pessoas. Ou seja, a cada cinco habitantes da cidade, um é morador de favela. E a maior delas você sabe qual é, né? A Rocinha, com 100 mil moradores e uma história que começa lá nas primeiras décadas do século XX.
- 24:00Ainda era mato, Rocinha. Aqui passava boiada, cavalaria, tinha corrida. Corrida de carros. Essa é uma reportagem do Caco Barcelos na Globo. A Rocinha sempre despertou paixões. Nos anos 30, o morro era cortado por uma pista de automobilismo que atraía pilotos de vários países. A corrida das lendárias baratinhas era uma aventura no coração da Mata Atlântica. O maior desafio para as feras do volante estava na curva do S, na época mais perigosa do mundo.
- 24:30Sair vivo dela já representava uma grande vitória. Esse era o chamado Circuito da Gávea, com os carros que lembravam umas baratinhas compridas. Para você ter uma ideia, essa curva que ficava onde hoje é a Avenida Niemeyer, tinha o apelido de Trampolim do Diabo. Tá bom para você? A reportagem do Caco Barcelos, gravada em 1993, foi reexibida no programa Globo News Especial, que também mostra umas imagens do documentário Rocinha 77, do Sérgio Pell.
- 25:00O filme mostra a favela nos anos 70 e os moradores falam sobre as constantes tentativas de remoção. Tive uma favela há muitos anos aí, cheguei em 59 aqui e passaram 15 anos falando nisso. E se eu falava mais de 30, que eu nem estava aqui ainda.
- 25:30E a conversa é melhorar, não melhorou nada. Tirou de um lugar para botar no outro e complica a situação cada vez mais. Acho que o pobre não pode ficar num lugar bom. E a tristeza que eu acho é de levar a gente para longe, porque eu não gostaria de ir para a paciência. Na década de 1960, o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, ordenou a demolição de várias favelas E os habitantes foram transferidos para outras regiões da cidade com infraestrutura precária
- 26:00Nessa época, surgiram, por exemplo, Vila Kennedy, Vila Esperança e Cidade de Deus Inclusive, a ideia era que a Cidade de Deus recebesse os 10 mil moradores da Rocinha Só que, em 1966, o rio foi atingido por chuvas e enchentes muito intensas. Este filme de 1966 dá uma ideia do que foi a enchente do Rio de Janeiro naquele ano.
- 26:30Choveu cinco dias seguidos e a tragédia foi ainda maior do que a deste ano. Esse é o Sérgio Chapelein, num Globo Repórter em 1988, quando o rio sofreu com outra enchente muito grave. Em 66, 20 mil cariocas ficaram sem ter onde morar. Eles passaram 15 dias no estádio do Maracanã e nas escolas. Nessa situação de emergência, a Cidade de Deus foi usada para receber milhares de desabrigados e o plano de remoção da Rocinha acabou cancelado.
- 27:00Hoje, com 100 mil pessoas, é óbvio que qualquer ideia de remoção seria totalmente inviável. inviável. A maior favela do país é, na prática, uma cidade dentro do Rio de Janeiro. Você, ouvinte do Rio Memórias, sabe que a estratégia das remoções está profundamente marcada na história do Rio de Janeiro. Desde os cortiços no fim do século XIX, o bota abaixo do prefeito Pereira Passos
- 27:30no início do século XX, o desmonte do Morro do Castelo na década de 1920, a construção da Avenida presidente Vargas em 1940, as demolições de favelas nos anos 60 e assim segue até os dias atuais. Quando o Rio recebeu recentemente mega-eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, veio à tona, de novo, o processo de gentrificação. A gente já discutiu aqui nos episódios anteriores. Às vezes, nem é necessariamente uma remoção. Você revitaliza a área olhando para um outro
- 28:00tipo de público, o custo de vida fica mais alto e as pessoas mais pobres que moravam ali não conseguem mais se manter. Esse momento ali também, desses mega-eventos no Rio de Janeiro, foi importante para a gente pensar isso. Uma região que é emblemática, inclusive para a gente pensar a cidade do Rio de Janeiro, seus morros, favelas, periferias, que é a Pequena África, região por onde entraram a grande maioria dos africanos escravizados que vieram para o Brasil.
- 28:30Com as escavações, veio à tona o Cais do Valongo, principal ponto de entrada de africanos escravizados nas Américas. A gente conta essa história com a ajuda da escritora Eliana Alves Cruz no episódio de encerramento da segunda temporada. É uma área do Rio de Janeiro majoritariamente negra nas suas práticas, culturas e população. E aí a gente tem a transformação dessa região no novo Porto Maravilha e isso traz um impacto muito grande para a população local, especialmente a população dos morros
- 29:00ali da região portuária, da região da Pequena África. A gente lembra, né? As obras do Porto Maravilha começaram em 2009 como forma de preparação para a Copa do Mundo e para a Olimpíada. Foi derrubado o elevado da Perimetral, começaram as obras do VLT e também da Praça Mauá, o que mudou a cara dessa região da cidade e da região do Porto. Essa é a Fernanda Grael, numa reportagem no RJ1, na TV Globo. E aí a gente observa um processo de gentrificação, um aumento muito grande no custo de vida.
- 29:30Várias pessoas que moravam na região tiveram que sair porque não conseguiram mesmo adaptar o valor, o salário que elas ganhavam com o preço das coisas do mercado para tomar uma cervejinha, sair ali na região. Então tiveram que fazer novamente esse deslocamento. Então observo que é realmente um ciclo. E no fim das contas, essa terceira temporada do Rio Memórias é sobre ciclos. A gente passou por tantas transformações na cidade ao longo de cinco séculos
- 30:00E se você lembrar dos episódios, você vai ver que muita coisa se repete Sempre acompanhando as tensões sociais e raciais A temporada começa com os indígenas, depois passa por várias questões da população negra E os ciclos vão se acumulando A gente vai vendo esses ciclos que às vezes não são tão intensos de uma forma explícita Como a escravidão direta do corpo da pessoa negra
- 30:30Mas que a gente observa que a gente ainda não se desprendeu totalmente De uma mentalidade colonial Então eu entendo que hoje, inclusive As operações policiais violentas nas favelas e periferias As chacinas que vitimam muito mais pessoas negras do que pessoas brancas E o Boletim de hoje começa lamentando um novo massacre na periferia do Rio de Janeiro Após a operação militar no complexo do Salgueiro Infelizmente é um cenário que se repete Dados da Universidade Federal Fluminense mostram que no início de 2017 até agosto de 2021
- 31:00Ocorreram 264 chacinas em todo o estado Esse é o Vitor Lacerda, do portal Alma Preta E tudo isso que acontece hoje em dia, na verdade, começa lá atrás Se a gente não tivesse uma sociedade racista e escravocrata, não precisava ter quilombo Talvez se a gente não tivesse uma sociedade tão desigual E uma sociedade que garantisse moradia para todos Talvez os remanescentes de canudos não tivessem ocupado o Morro da Providência E dado origem às primeiras favelas no Brasil
- 31:30Mas essa desigualdade é uma marca do Brasil E as favelas estão aí Por isso, a gente não podia encerrar essa temporada Sem fazer um episódio sobre elas Não é que as favelas estão na margem do Rio de Janeiro O Rio de Janeiro é uma grande favela A gente está em 2022 Não dá mais para a gente viver no Brasil, viver no Rio de Janeiro E ainda dizer, ah não, eu não entro em favela Eu não subo em morro Eu tenho medo Porque você está vivendo o Rio de Janeiro errado
- 32:00Porque realmente é isso Eu acho que a gente tem que parar com essa ideia De que o Rio é aquele centrinho Centro e zona sul E as favelas são intrusos que estão ali ao redor Não, o Rio de Janeiro é esse todo E o Rio de Janeiro só é tão potente Justamente porque a gente tem Favelados e faveladas Segurando o rojão e produzindo e sustentando e se deslocando diariamente para fazer essa cidade funcionar. Então, acho que o recado seria isso, esse convite para todo mundo
- 32:30que estiver nos ouvindo cada vez mais se aproximar e quem quiser viver essa realidade com a gente e pensar e construir e se abrir para as favelas. Muito obrigada Pamela Carvalho por ter recebido o Rio Memórias na Maré para conversar com a gente nesse encerramento da terceira temporada. Eu convido você que está ouvindo para conhecer melhor o trabalho da Pâmela. Ela é uma das coordenadoras do Redes da Maré,
- 33:00uma organização da sociedade civil criada a partir da mobilização comunitária. Depois entra lá no site redesdamaré.org.br E se você quiser saber mais sobre o tema de hoje, eu te recomendo o livro do Andrelino Campos que eu citei aqui mais cedo. O título é Do Quilombo à Favela. Eu não sei se você ouviu a temporada na ordem certinha, mas caso tenha pulado algum episódio, volta lá.
- 33:30Aliás, são 18 episódios nas três temporadas, tem bastante história para você escutar e muito mais conteúdo para explorar nas galerias do nosso Museu Virtual em rio-memórias.com.br. Conta para a gente o que você achou, nosso Instagram é arroba rio-memórias e dá para avaliar com estrelinhas no Spotify e na Apple. Se você ouve no Spotify, tem uma pergunta aí na descrição do episódio para você responder. Dá uma olhada. E compartilhe o Rio Memórias nas suas redes, indica para os amigos,
- 34:00mostra na sua faculdade, na sua escola, enfim. Espalhe a palavra por aí. O podcast é uma realização da produtora Escuta Aqui. A coordenação geral, os roteiros e as locuções adicionais são do Rodrigo Alves. A supervisão de roteiro é do Tales Ramos e as entrevistas são da Jamile Boulê. Rodrigo, Thales e Jamile estavam comigo no Pão de Açúcar, além do Gustavo Andrade, que fez a captação de som. Hoje a equipe do Rio Memórias está em peso aqui no Pão de Açúcar.
- 34:30Eu adoro minha quinta série. Mas a gente é muito sério, tá? Pode acreditar. A pesquisa histórica é feita pelo Davi Arueira e a Clara Costa faz a edição, a montagem e as sonorizações que levam você pra dentro da ação. a música que você está ouvindo é composta pelo Gabriel Falcão as locuções foram gravadas no Estúdio Rastro com supervisão técnica do Dani D
- 35:00deixo aqui também um agradecimento a Natália Freitas e a Natália Serpa as duas Natálias da assessoria do Parque Bondinho Pão de Açúcar que ajudaram a gente na gravação eu sou a Gabriela Montoni historiadora e apresentadora do Rio Memórias já estou com saudade obrigada, um beijo e até a próxima O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Cajnar Leonardo por meio da Lei de Incentivo à Cultura
- 35:30e pelo banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremat por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS. Obrigado e até mais!
Disponível em
Todos os episódios
- 01Chuva de flechas na Baía de GuanabaraDuração 29:40
Entre flechas e tiros de canhão, o Rio vive a sua primeira grande transformação tentando incorporar a natureza nas batalhas da Baía de Guanabara. Entrevistado neste episódio: Rafael Freitas da Silva. III Rio Memórias. Histórias do Rio para ouvir. Na 3ª temporada, as transformações que o Rio de Janeiro atravessou ao logo de cinco séculos, desde a fundação até os dias de hoje.
- 02A cidade desce o morroDuração 30:21
Depois de subir os morros para estabelecer sua fundação, o Rio de Janeiro toma o caminho de volta e se espalha pela várzea. O nascimento das ruas, o domínio das igrejas e as trasnformações urbanas para virar sede do vice-reino. Entrevistado neste episódio: Antônio Edmilson Martins Rodrigues.
- 03Quanta gente cabe no Rio?Duração 31:32
Com o desembarque da Família Real em 1808, a população do Rio explode em tamanho, e a cidade que lute para acomodar tanta gente. Entrevistado neste episódio: Sérgio Barra.
- 04Sai da frente, la vem o progresso!Duração 33:51
No início do século 20, o Bota-Abaixo do prefeito Pereira Passos transformou o Centro do Rio de Janeiro. Mas para o carioca se sentir em Paris, a população mais pobre foi arrancada do caminho à força. Entrevistado neste episódio: Jaime Benchimol.
- 05Enfim, cidade maravilhosaDuração 36:03
A praia de Copacabana, o Maracanã, o crescimento da Zona Norte e dos subúrbios. Em meados do século 20, surge o Rio de Janeiro como conhecemos hoje: a Cidade Maravilhosa. Entrevistada neste episódio: Júlia O'Donnell.
- 06De volta aos morrosDuração 35:54
No encerramento da 3ª temporada, a origem, a presença e a força das favelas, um elemento fundamental nas transformações urbanas do Rio de Janeiro. Entrevistada neste episódio: Pâmela Carvalho.