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Cidade em Transformação

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Rio, cidade em transformação

Episódio 01

Chuva de flechas na Baía de Guanabara

0:00faltam 30 min29:40

Transcrição

As escadas devem permanecer livres. É proibido sentar ou permanecer nas escadas da embarcação.

  1. 0:00As escadas devem permanecer livres. É proibido sentar ou permanecer nas escadas da embarcação. A vista daqui é até covardia, né? Pão de açúcar ali no fundo. Coisa linda. Oi, tudo bem? Esse aí que você tá ouvindo é o Tales Ramos.
  2. 0:30Ele já apareceu outras vezes por aqui, circulando pela cidade. Agora ele tá bem no meio da Baía de Guanabara. Agora são 3h13 da tarde, eu estou aqui dentro da barca Rio-Niterói. É um trajeto que dura menos de meia hora. Antes da construção da ponte Rio-Niterói, na década de 1970, a barca era a única maneira de atravessar de uma cidade para outra. O Tales mora em Niterói e faz esse trajeto quase todo dia, assim como milhares de pessoas.
  3. 1:00E a gente nem se dá conta, né? Eu passo por aqui direto e às vezes nem presto atenção na paisagem, no que está em volta. É, mas o Pão de Açúcar tá sempre ali, paradinho, no mesmo lugar, testemunhando todas as mudanças do Rio de Janeiro. Eu tô quase chegando aqui na Praça 15, no centro do Rio. E hoje a nossa história começa exatamente ali, na Baía de Guanabara.
  4. 1:30Só que não em 2022. Você já sabe que a gente gosta de viajar pro passado, né? Então segura firme, porque hoje vai ser um baita salto pra trás. Um salto de cinco séculos. Pronto, acho que a gente caiu na época certa.
  5. 2:00Se bem que, sei lá, eu tô achando tudo calmo demais. Opa, cuidado aí! Agora sim! Essa é uma paisagem sonora carioca típica da segunda metade do século XVI, Com as flechas cruzando o ar e as batalhas envolvendo os indígenas, os portugueses, os franceses.
  6. 2:30Tudo isso ali na região da Baía de Guanabara, num cenário cheio de florestas, rios e morros. Eu sou a Gabriela Montoni e está começando a terceira temporada do podcast Rio Memórias. Eu quero te convidar para embarcar comigo numa jornada que vai durar quase 500 anos. Mas calma, nos preocupa não, porque aqui a gente vai encaixar tudo em seis episódios com bastante informação histórica, recriação de cenas e, claro, uma boa dose de aventura,
  7. 3:00porque a gente adora, né? Você vai testemunhar as grandes mudanças que o Rio de Janeiro atravessou desde a fundação até os dias de hoje. Uma viagem baseada na galeria Rio Cidade em Transformação do nosso museu virtual riomemórias.com.br. Vamos nessa? Cuidado aí com a flecha! Capítulo 1 – Os Donos da Terra Antes da chegada dos portugueses, bem no comecinho do século XVI
  8. 3:30A Baía de Guanabara era habitada pelos Tupinambás E nessa região existiam dezenas de aldeias super povoadas Esse é o jornalista Rafael Freitas da Silva Autor do livro O Rio Antes do Rio É ele que vai ajudar a gente a te contar essa história Em meio a toda essa exuberância de natureza
  9. 4:00E eles viviam em plena fartura Não tinham nenhum problema populacional e de doenças em geral. Eu fico imaginando as araras voando, os papagaios. Então eu quero que você que está ouvindo também imagine esse cenário. E olha, isso não significa que a paz reinava não, tá? Porque os indígenas também lutavam entre eles. A gente já vai falar mais sobre isso. Mas eu vou aproveitar esse raro momento de calmaria
  10. 4:30para guiar você até a mais conhecida comunidade tupinambá. A Aldeia Carioca Imagina aí A paisagem é daquele tipo que hipnotiza No horizonte, vários morros e planaltos Incluindo Pão de Açúcar, que já estava ali observando tudo Nas águas, a Guanabara ganhou esse nome Porque entupir significa braço de mar ou seio de mar Uma baía com jeito de mar e uma fartura de vida marinha
  11. 5:00O que parecia a foz de um grande rio Era o começo do trajeto que levava à Aldeia Carioca A viagem pelo Riacho de Águas Transparentes era feita de canoa passando por pequenas lagoas e manguezais. Depois, o percurso seguia por terra numa trilha por dentro da mata.
  12. 5:30Até que a gente encontra umas cercas de proteção com estacas alinhadas para formar uma barreira. Pronto, é a Aldeia Carioca. E a origem desse nome tem muita história. Acaba sendo um símbolo de como a história é contada pelo olhar europeu. Até hoje vai ter gente dizendo que Carioca é a casa do homem branco, que Carioca é a casa do peixe-cari, que Carioca tem a ver com a armadura que os portugueses usavam, então por isso era a casa do português. E todas são, em geral, suposições etimológicas
  13. 6:00em relação ao que significa Carioca na língua tupi. Em 1574, o viajante francês Jean de Léry descreve a etimologia da palavra como a casa do carijó. Carió, que é Carijó em tupi, ou Carcasa. O povo Carijó, curiosamente, era rival dos tupinambás. Tanto que uma das teorias diz que o termo significa a casa onde o inimigo, no caso o Carijó, encontra a morte.
  14. 6:30Mas eles falavam a mesma língua e compartilhavam os mesmos rituais. Então, a palavra pode ter um sentido mais amplo de casa dos indígenas. Carioca era o nome de uma aldeia original dos tupinambás e cujo a tradução é Carijó Oca. As primeiras caravelas entraram na Baía de Guanabara em janeiro de 1502
  15. 7:00com os navegadores Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio. Conforme eles foram se aproximando, a natureza que ia se revelando era diferente de tudo o que eles já tinham visto. De dentro dos navios já dava para avistar o Corcovado e a Pedra da Gávea como dois pontos de referência. E um relevo espetacular foi aparecendo. Os imensos blocos de granito à beira-mar, lagoas impressionantes e serras verdes que iam se infiltrando terra dentro. A entrada da baía era reduzida e, por isso, foi confundida com um rio.
  16. 7:30Aquele suposto rio, no mês de janeiro, acabou criando o nome da cidade como a gente conhece hoje. Mas não era só a natureza que chamava a atenção. Dava para ver as canoas espalhadas pela baía, os rastros de fumaça e até algumas pessoas pescando na margem. Ou seja, ficou claro que aquela era uma terra habitada. E habitada de um jeito muito diferente. Um tipo de sociedade que era visto como um paraíso.
  17. 8:00Dos primeiros livros, você tem lá O Mundo Novo, do Américo Vespúcio, em que ele vai retratar um lugar que escandalizou a Europa, porque as pessoas não tinham rei, não tinham lei, e andavam nuas e não conheciam a religião cristã, tinham outros deuses e não tinham uma estrutura de poder central. As aldeias se auto-organizavam.
  18. 8:30Os cursos dos rios já estavam ocupados pelas aldeias, então os poucos estrangeiros que chegavam se estabeleciam nas ilhas. Vespúcio voltou à Baía de Guanabara em 1503 para construir na Ilha do Governador uma feitoria com uma torre de observação e algumas casas. Naquele primeiro contato, os europeus tinham que conquistar a confiança dos nativos para conseguir comida, água e mão de obra Eles pagavam com ferramentas, principalmente machados e facões, que se tornaram muito disputados
  19. 9:00Como a França também estava de olho naquelas terras, Portugal queria reforçar sua autoridade como colonizador Em 1530, Martim Afonso de Souza chegou ao Brasil como capitão-mor de uma armada e, no ano seguinte, partiu em expedição pelo litoral do país, interceptando vários barcos franceses. De março a agosto, ele passou pela Baía de Guanabara e construiu uma casa de pedra na foz do rio Carioca.
  20. 9:30O Pero Lopes de Sousa, irmão do Martim Afonso, redigiu no seu diário de navegações a primeira descrição em língua portuguesa daquele lugar. A gente desse rio é tão ou mais gentil do que a gente da Baía de Todos os Santos. A região que circunda este rio é formada de montes e montanhas elevadas. A água que se encontra aqui é excelente. Passamos três meses nesse lugar e juntamos víveres suficientes para alimentar 400 homens durante um ano.
  21. 10:00Mais de duas décadas depois, em 1555, os franceses se estabeleceram na Baía de Guanabara. A ideia era afundar, a partir de uma ilhota rochosa, a colônia chamada de França Antártica. A tática foi se aliar aos tamoios numa relação muito mais amistosa do que o jeito como os portugueses se relacionavam com os indígenas O próprio Mendes Sá, governador-geral do Brasil entre 1558 e 1572, reconheceu, numa carta endereçada à Corte de Portugal, que a França tratava os nativos de um jeito diferente
  22. 10:30É liberal em extremo com eles e faz-lhes muita justiça. Manda-os ensinar todo o gênero de ofícios e de armas. Ajuda-os nas suas guerras. Eles são muitos e dos mais valentes da costa. Em pouco tempo, se pode fazer muito forte. A missão do Mendesá era justamente erradicar a colonização francesa e controlar os tamoios. Em uma tentativa de ganhar o poder na Guanabara, Em 1560, os portugueses atacaram o forte construído na região pelo comandante francês Villegagnon.
  23. 11:00A vitória portuguesa fez com que os franceses e os tamoios abandonassem o forte, fugindo a bordo de canoas. Mas aquela era só uma batalha. Ainda há muitos franceses espalhados pelas terras. Essa é uma carta escrita pelo padre jesuíta Manuel da Nóbrega, que acompanhava a expedição. Ele alertou Portugal para o fato de que a vitória de Mendes Sá não era o suficiente.
  24. 11:30A estratégia a partir dali era clara. Parece-me absolutamente necessário povoar o Rio de Janeiro e fundar aqui uma outra cidade, graças a qual tudo ficará mais garantido. Os franceses seriam definitivamente expulsos e os índios mais fáceis de sujeitar. Pois é, era preciso fundar e povoar a cidade. Mas até lá, muita gente ia tombar pelo caminho.
  25. 12:00Capítulo 2 – As Guerras Se a Baía de Guanabara era um ponto decisivo na conquista da cidade, conhecer o território e a natureza local era importantíssimo nesse jogo de xadrez. Mas os indígenas não tinham ali aquele papel clichê da ingenuidade. A ajuda deles não era só para escolher a melhor trilha na mata ou para indicar onde passava o riacho. A luta e a violência faziam parte da dinâmica da sociedade tupi
  26. 12:30Esta nação se mantém em estado de guerra Os nativos fazem uma grande quantidade de vinho de milho E bebem-no até a exaustão com os amigos convidados para a cerimônia Nessa ocasião, o prisioneiro é espancado até a morte com um porrete de madeira E posteriormente dividido em pedaços que são assados na brasa e comidos com grande prazer Esse relato foi feito pelo piloto francês Nicolas Barré Recrutado por Villegagnon na tentativa de estabelecer a França Antártica na Baía de Guanabara
  27. 13:00O viajante Jean de Lerry, que a gente já citou aqui Chegou a testemunhar os preparativos de uma batalha entre os tamoios e uma aldeia inimiga Ele cita um contingente de 8 a 10 mil homens Que saem para lutar a 30 quilômetros de distância das suas casas Os vencedores expulsam os derrotados e fazem prisioneiros Que são espancados e moqueados, ou seja, assados numa grelha para serem comidos A antropofagia era um ritual guerreiro e religioso muito comum
  28. 13:30Esse cenário das guerras entre aldeias ganhou um novo elemento com a chegada dos estrangeiros Numa rede complexa que inclui desde as armas trazidas pelos europeus Até a voracidade para obter mão de obra escravizada Fato é que, no processo de disputa pelo território, as peças estavam bem nítidas no tabuleiro e os Tupinambás se dividiram. De um lado, os tamoios, aliados aos franceses.
  29. 14:00Do outro lado, os temiminós, lutando ao lado dos portugueses e com um desafio gigantesco pela frente. Os portugueses passaram pelo menos 30 anos sem poder entrar na Baía de Guanabara. Tamanha era a força dos tamoios, que foram capazes de se articular politicamente com outras etnias indígenas que eram seus inimigos ancestrais e se uniram para realmente tentar preservar o seu território. Mas, como a gente viu ainda há pouco, Portugal queria fundar e povoar a cidade.
  30. 14:30Os portugueses recorrem às suas forças aliadas nativas, o Arariboia e os Temiminóis têm grande importância nessas batalhas, assim como outros grupos tupis que são importados da Bahia e de São Vicente para combater os tupis do Rio de Janeiro. e talvez seja a única cidade no Brasil que é fundada realmente por uma imposição da coroa portuguesa, é armada uma expedição com vários navios, são recrutadas forças por todo o litoral brasileiro,
  31. 15:00colonos são chamados ou obrigados a virem ao Rio de Janeiro porque era fundamental, estratégico, que a irresistência contra o domínio colonial fosse debandada aqui do Rio de Janeiro, porque o Rio de Janeiro era um porto estratégico para todo o litoral do Atlântico Sul. Aí entra na história o Estácio de Sá, sobrinho do governador-geral.
  32. 15:30Ele partiu de São Vicente no dia 22 de janeiro de 1565 para executar essa missão de estabelecer um povoado no Rio de Janeiro. A frota começou tímida, com 200 homens, Mas foi ganhando reforços e, um mês depois, já tinha nove navios de guerra, além de barcos e canoas levando indígenas. Em 28 de fevereiro, José de Anchieta anotou nos seus registros. Em uma mesma maré, com grande alegria, entramos pela boca do Rio de Janeiro.
  33. 16:00No dia 1º de março de 1565, eles desembarcaram numa varse estreita pertinho da Barra da Bahia e esse dia ficou marcado como a fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. O nome foi uma homenagem ao rei de Portugal, que naquela época ainda era uma criança de 11 anos. E aqui a gente tem mais um exemplo de como a incorporação da natureza era fundamental.
  34. 16:30Esse lugar escolhido pelos portugueses era uma ótima posição defensiva, inacessível por terra. Ficava entre o pão de açúcar e o rochedo, que depois seria conhecido como o cara de cão. Entre esses dois morros tinha uma praia pequena com vista para toda a Baía de Guanabara, ali onde hoje funciona uma base militar, na Urca. A tripulação desembarcou, incluindo o próprio Estácio de Sá, e começou a cortar árvores e serrar madeira para construir trincheiras,
  35. 17:00fossos e uma cerca que funcionava como um muro de proteção na praia. Só que aquela movimentação toda, já viu, despertou a atenção dos tupinambás e dos franceses. O Rio de Janeiro foi fundado numa guerra em que, na última instância, era praticamente contra os nativos, que tinham sim os seus aliados franceses, mas já no final, ali por volta de 1565, 1567, existiam poucos franceses entre eles, porque os franceses já tinham se derrotado em 1560 da destruição do forte de Velé-Gagnon.
  36. 17:30Então as batalhas finais de conquista da Guanabara, elas vão ser basicamente contra os guerreiros do Pinambá, que resistem bravamente. A primeira batalha foi no dia 14 de março, quando os tupinambás usaram uma nau francesa como isca para atrair parte da tropa do Estácio de Sá. Os portugueses saíram de perto da cerca e aí pronto. Os indígenas surgiram do nada em quase 50 canoas
  37. 18:00e choveu flecha no acampamento. Mesmo assim, a resistência da cerca funcionou. O contra-ataque veio e os tupinambás acabaram batendo em retirada. A batalha deu ânimo aos portugueses e, no fim de março, a cerca já estava pronta, com guaritas, artilharia, além de uma vila com casebres e roças para produzir alimentos. Outros conflitos vieram, mas sempre com muitas baixas entre os indígenas. Em julho de 1565, os tupinambás reuniram forças para a ofensiva mais sangrenta daquele período.
  38. 18:30Eram mais de 160 canoas com 3 mil guerreiros armados de flechas, espadas, espingardas e bombas. Mas não deu muito certo. Primeiro porque um navio francês foi atingido por um tiro de canhão. Alguns franceses morreram e o navio quase se espatifou contra uma laje de pedra.
  39. 19:00Para completar, uma forte tempestade jogou contra os tupinambás. Eles tentaram invadir o arraial por terra usando flechas incendiárias, mas a água da chuva ajudou a apagar o fogo nos casebres. Ali na cerca, mesmo com desvantagem numérica, os portugueses ganharam o combate. A vitória deu moral para o Estácio de Sá, que a partir dali passou a ordenar explorações mais ousadas no território No fim das contas, a verdade era uma só Nem os tupinambás conseguiam invadir o Arraial
  40. 19:30Nem os portugueses conseguiam expulsar os indígenas da Baía de Guanabara Então, em 1566, o Estácio de Sá teve que recorrer ao tio, o governador-geral Sem reforços, não tinha como sair daquele impasse A armada do Mendesá chegou à Baía de Guanabara no dia 18 de janeiro de 1567 para reforçar o contingente que segurava aquele rojão há dois anos Os tupinambás tinham se entrincherado em alguns pontos específicos
  41. 20:00como a Ilha do Governador e o Morro da Glória Foi ali na região da Glória que aconteceu a famosa Batalha de Urussumiria Mesmo com um número menor de combatentes, os portugueses de novo saíram vitoriosos Só que dessa vez com uma baixa inesperada. No meio da batalha, o Estácio Pissar levou uma flechada no olho, provavelmente pela fresta da armadura. Ele passou semanas agonizando,
  42. 20:30enquanto outros conflitos violentos se desenrolaram até a derrota dos Tupinambás e a expulsão definitiva dos franceses, que ainda estavam por aqui. Tem a Batalha de Urussumirim, a Batalha de Paranapu, que acontece na Ilha do Governador, em que muitos são mortos, são batalhas sangrentas. E a gente pode presumir isso porque o principal comandante português era ninguém menos que o Estácio de Sá e ele morre na batalha. O que está na literatura é que ele é alvejado por uma flechada
  43. 21:00e agoniza durante alguns dias, provavelmente morre de infecção generalizada por causa dessa flechada e não só ele como outros portugueses. É simbólico que essas batalhas finais tenham se dado em regiões que foram os primeiros domínios da aldeia carioca, os cariocas originários, Que viveram ali por milênios e deixaram um legado de sabedoria e convivência com a natureza Um conhecimento explorado ao máximo pelos colonizadores E Portugal, enfim, conseguiu fundar e povoar o Rio de Janeiro
  44. 21:30A gente abriu nossa história hoje com a vista do Pão de Açúcar E você acabou de ver como ele foi uma localização estratégica nas guerras da fundação do Rio de Janeiro O símbolo maior da cidade testemunhou todas as transformações que a gente vai acompanhar ao longo dessa temporada. Inclusive naquele momento, em 1567, quando o rio, pela primeira vez, sobe o morro.
  45. 22:00Mais especificamente, quatro morros próximos a Pão de Açúcar, fundamentais na formação da cidade. São Bento, Santo Antônio, Conceição e Castelo. Castelo era bom. Era. Porque a maioria eram amigos. Como é que se diz? Eu me sentia bem ali. Eu me sentia bem. Se você ouviu o nosso episódio sobre o Morro do Castelo,
  46. 22:30você certamente lembra da Dona Florinda, que morou lá no início do século XX e deu esse depoimento riquíssimo ao Museu da Imagem e do Som. Se você não ouviu, depois busca aí. É o episódio 2 da segunda temporada. O castelo foi um berço do rio porque foi para lá que o Mendesá transferiu a sede do povoamento logo após a morte do sobrinho Estácio. O nome, aliás, ainda nem era castelo, era Morro do Descanso. E, mais uma vez, a cidade incorporou a natureza. A montanha tinha 60 metros de altura e surgia a partir dos pântanos costeiros
  47. 23:00no sudoeste da Baía de Guanabara. Lá de cima, na fortificação construída pelos portugueses, dava para vigiar tudo. Ali foram instaladas casas de pedra e taipa, além da Câmara Municipal, das igrejas, do Colégio dos Jesuítas e dos armazéns da Fazenda Real. A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro dominava a paisagem lá do alto. Uma baía que parece ter sido pintada pelo supremo pintor e arquiteto do mundo, Deus Nosso Senhor,
  48. 23:30e é assim a coisa mais bela e mais agradável que existe em todo o Brasil. Esse é um relato do padre Fernão Cardim, que passou por ali no Natal de 1584 e ficou maravilhado com a vista Aos poucos, a cidade foi ocupando também as montanhas vizinhas No fim do século XVI, os beneditinos subiram o Morro da Conceição e depois se mudaram para o Morro de São Bento Em 1615, os franciscanos se instalaram no Morro de Santo Antônio
  49. 24:00As primeiras ruas iam conectando os relevos A rua direita, que você vai conhecer melhor no próximo episódio, ligava Castelo e São Bento Novos sistemas de defesa foram erguidos no alto, incluindo a Fortaleza do Morro da Conceição construída entre 1713 e 1718 como reação às invasões francesas no início daquela década A construção de guerra poderosa impressionava pelo poder de fogo Mas logo ao lado ficava o Palácio Episcopal
  50. 24:30E os bispos não curtiram muito aqueles tiros de canhão que faziam a parede tremer no alto do morro. A fortaleza acabou proibida de efetuar disparos em 1718. Enfim, a eterna relação entre igreja e o poder. Entre o homem e a natureza. Entre quem chegou e quem sempre esteve aqui. Então eu acho que o nosso caminho, ele só vai ser completo quando a gente nos reconhecer enquanto povo,
  51. 25:00no sentido de que nós temos uma história única e uma origem bastante diferente daquela que muitos pensam que nós temos como só portuguesa. Todas as cidades do Rio de Janeiro, até mesmo nas serras do Rio de Janeiro, todas elas são oriundas de uma ocupação indígena. Então é uma sensação de despertencimento, não sei nem se existe isso,
  52. 25:30que eu acho que deve ocupar um caminhão na cabeça das pessoas, porque elas não sabem as suas origens. Ou, como diz o líder indígena, filósofo e escritor Ailton Krenak, no seu livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, Nosso tempo é especialista em criar ausências, do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar
  53. 26:00o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. Está cheio de pequenas constelações, de gente espalhada pelo mundo que dança, canta, faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos
  54. 26:30E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo É exatamente sempre poder contar mais uma história Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim Falando em contar mais histórias e adiar o fim do mundo É com esse trecho da Sabedoria do Ailton Krenak que eu te convido para ler os livros dele e também pra ler os livros do Rafael Freitas da Silva
  55. 27:00que esteve com a gente nesse episódio além do Rio Antes do Rio que eu citei lá no início o Rafael tá com um livro novo saindo do forno que tem tudo a ver com o que a gente conversou aqui hoje Arariboia, o indígena que mudou a história do Brasil esse foi o episódio de abertura da terceira temporada do podcast Rio Memórias conta pra gente o que você achou a arroba é rio-memórias no instagram, no site
  56. 27:30riumemórias.com.br você pode navegar pela galeria Rio Cidade em Transformação. A nossa jornada está só começando. E se hoje a gente terminou com um rio subindo os morros, no próximo episódio a cidade vai fazer o caminho de volta, descendo os morros para se espalhar pelas ruas. Desce do morro, toma a várzea, se expande na várzea e aí adquire esse sentido novo de expansão dela. Então acho que isso é muito legal para compreender o Rio de Janeiro.
  57. 28:00Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora desse podcast, que é uma produção da Escuta Aqui. A coordenação é do Rodrigo Alves, que também escreve os roteiros e faz as leituras adicionais, como essa do Ailton Krenak, que a gente ouviu ainda há pouco. A supervisão de roteiro é do Thales Ramos, que apareceu lá no início, na Barca Rio-Niterói, lembra? Valeu, Gabi. Já desembarquei na Praça 15, mas não ouvi nenhum barulho de flecha, não. Tá tranquilo por aqui. Se cuida aí, Thales. A Jamile Boulay é a nossa produtora e foi ela que entrevistou o Rafael Freitas da Silva.
  58. 28:30A pesquisa desse episódio foi feita pelo Igor Cardoso, do Projeto República da UFMG. A Clara Costa fez a montagem, a edição e todas as sonorizações da natureza, das batalhas. A trilha sonora original que você está ouvindo foi composta pelo Gabriel Falcão. As locuções são gravadas no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro, com supervisão técnica do Dani Di.
  59. 29:00a gente se encontra de novo no próximo episódio, combinado? Obrigada, um beijo e até lá O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo por meio da Lei de Incentivo à Cultura e pelo Banco BTG Pactual Adam Capital e Concremate por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS Obrigado e até
  60. 29:30o próximo episódio Legenda por Sônia Ruberti

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Todos os episódios

  1. 01Chuva de flechas na Baía de Guanabara
    Duração 29:40

    Entre flechas e tiros de canhão, o Rio vive a sua primeira grande transformação tentando incorporar a natureza nas batalhas da Baía de Guanabara. Entrevistado neste episódio: Rafael Freitas da Silva. III Rio Memórias. Histórias do Rio para ouvir. Na 3ª temporada, as transformações que o Rio de Janeiro atravessou ao logo de cinco séculos, desde a fundação até os dias de hoje.

  2. 02A cidade desce o morro
    Duração 30:21

    Depois de subir os morros para estabelecer sua fundação, o Rio de Janeiro toma o caminho de volta e se espalha pela várzea. O nascimento das ruas, o domínio das igrejas e as trasnformações urbanas para virar sede do vice-reino. Entrevistado neste episódio: Antônio Edmilson Martins Rodrigues.

  3. 03Quanta gente cabe no Rio?
    Duração 31:32

    Com o desembarque da Família Real em 1808, a população do Rio explode em tamanho, e a cidade que lute para acomodar tanta gente. Entrevistado neste episódio: Sérgio Barra.

  4. 04Sai da frente, la vem o progresso!
    Duração 33:51

    No início do século 20, o Bota-Abaixo do prefeito Pereira Passos transformou o Centro do Rio de Janeiro. Mas para o carioca se sentir em Paris, a população mais pobre foi arrancada do caminho à força. Entrevistado neste episódio: Jaime Benchimol.

  5. 05Enfim, cidade maravilhosa
    Duração 36:03

    A praia de Copacabana, o Maracanã, o crescimento da Zona Norte e dos subúrbios. Em meados do século 20, surge o Rio de Janeiro como conhecemos hoje: a Cidade Maravilhosa. Entrevistada neste episódio: Júlia O'Donnell.

  6. 06De volta aos morros
    Duração 35:54

    No encerramento da 3ª temporada, a origem, a presença e a força das favelas, um elemento fundamental nas transformações urbanas do Rio de Janeiro. Entrevistada neste episódio: Pâmela Carvalho.