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Rio Desaparecido

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Rio Desaparecido

Episódio 02

Morro do Castelo

0:00faltam 39 min38:50

Transcrição

Castelo era bom, era, porque a maioria eram amigos, como é que se diz, eu me sentia bem ali, eu me sentia bem.

  1. 0:00Castelo era bom, era, porque a maioria eram amigos, como é que se diz, eu me sentia bem ali, eu me sentia bem. Sabe por quê? Aquilo era grande, e as pessoas se davam como se fosse da própria família, como era grande, muito grande, tinha de um tudo, coisas que não tivesse ali, os garotos iam buscar lá embaixo.
  2. 0:30Mas a amizade que a gente tinha lá era uma amizade sincera. Falta hoje essa amizade sincera. Que não existe mais. Acabou. Florinda Aloy Moreno e Francisco Aloy Moreno são dois irmãos que nasceram e cresceram no Morro do Castelo, no centro do Rio de Janeiro. Exatamente 100 anos atrás, o morro sumiu do mapa carioca.
  3. 1:00Florinda tinha 20 anos e Francisco tinha 12. O tempo passou, as lembranças ficaram guardadas, e numa quarta-feira, dia 30 de outubro de 1985, eles abriram todas as gavetas da memória para gravar um depoimento histórico no projeto Arquivo Vivo do Museu da Imagem e do Som. Foi esse áudio que você ouviu na abertura e vai ouvir muito mais, porque ele não acaba ali. O morro não está mais lá, o casal de irmãos também não.
  4. 1:30Mas essas recordações vão guiar a gente numa viagem de um século para recriar um pedaço importante do rio que desapareceu praticamente sem deixar vestígio. Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora do podcast Rio Memórias. Nessa segunda temporada, a gente explora a Galeria Rio Desaparecido, do nosso museu virtual, que você encontra no site riomemórias.com.br.
  5. 2:00Então, ajusta aí o seu volume. E se você puder ouvir com fone, eu recomendo, viu, para captar todos os sons. Hoje eu vou te levar para o alto do Morro do Castelo, que se confunde com as origens da cidade. Aliás, falando em origens, eu já vou começar te fazendo uma pergunta. Você sabe qual foi a primeira rua do Rio de Janeiro? Capítulo 1 – O Começo de Tudo
  6. 2:30É aqui, primeira rua do Rio de Janeiro. Ladeira da Misericórdia, que nem era ladeira na época, era a Rua da Misericórdia ainda. Muito doido, né? Saber que ela ainda está aqui, de alguma maneira, mesmo que seja só um pedacinho dela. Assim, pela aparência dá pra ver que tá meio largado, assim, não dão a devida importância histórica, né, assim, a rua ela é toda de pedra, né, e aí tem capim nascendo. Tá bem largado, tem uma caixa de CD aqui no canto da rua que, não sei, talvez esteja aqui desde aquela época, né, em 1567.
  7. 3:00Quem ouve CD hoje em dia? A gente vê um muro com pichação, liberdade para os do centro. Daniel, te amo. Tem ali também. Verdade. 2019. É, tem que atualizar. Naquela época não tinha pichador, com certeza. Agora, é engraçado porque antes de existir rua, né? Essa foi a primeira rua do Rio. Os indígenas se locomoviam por umas trilhas, né?
  8. 3:30Que eles chamavam de Peabirus. E duas dessas trilhas passavam bem perto aqui, né? É meio doido você ficar tentando imaginar onde era, né? Por onde passava. Porque era mata. E eles iam abrindo esses caminhos na mata, os Tupinambás, pra ligar uma aldeia a outra, então eu tô olhando aqui em volta tentando imaginar por onde passava, né? E os portugueses, eles aproveitaram, né? Esses caminhos ancestrais. O que que os portugueses não aproveitaram, né? É verdade. Rindo pra não chorar. E ó, primeira vez
  9. 4:00que parte da equipe Rio Memórias se encontra pra fazer gravação. Um momento histórico. O que que você faz no Rio Memórias? Eu sou a Jamília Goulet, eu sou produtor e faço as entrevistas do Rio Memórias de vez em quando. Canta também, de vez em quando. É, acontece. gravo umas coisas aí que me deixam um pouco envergonhado. Eu sou o Rodrigo Alves, eu escrevo os roteiros e mando pro Tales, pro Tales ver se tá tudo direitinho e faço a coordenação da produção. Eu sou o Tales Ramos, o Rodrigo já deu spoiler aqui, né, da minha função, eu supervisiono os roteiros dele.
  10. 4:30É, mas é isso, vamos dar uma circulada aqui, ver se a gente encontra mais alguma coisa. Enquanto isso, vamos devolver pra Gabriela, né? Gabi, vai contando essa história aí pra gente, que a gente tá curioso pra saber um pouco mais. Dá tchauzinho aí pra Gabi, vai. Valeu, Gabi. Um beijo. Tchau. Igual criança, né, quando tu fala Dá tchau pra tia Pronto, a gente já viu que a quinta série tá a um E foi gravar lá na Ladeira da Misericórdia E pelo visto a bagunça foi boa, né? Gostei
  11. 5:00Daqui a pouquinho eu chamo vocês de novo Mas vamos lá, deixa eu resumir aqui essa história das origens do Rio de Janeiro Quando os europeus invadiram o Brasil A região da Baía de Guanabara era toda habitada por indígenas Os Tupinambás estavam por ali e a primeira metade do século XVI foi de conflito pesado com os portugueses. Aliás, tinha indígena dos dois lados. Os portugueses se juntaram com os temiminós e os franceses se aliaram aos tupinambás.
  12. 5:30Em 1565, o Estácio de Sá ergueu um povoado entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar. Era a fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Só que dois anos depois, o Estácio levou uma flechada no rosto na Batalha de Urussumirim, Ali onde hoje é a região da glória, onde fica a estátua de São Sebastião Ele morreu um mês depois da flechada por causa de uma infecção Aí o tio dele, o Mendes Sá, que era o governador-geral
  13. 6:00Transferiu aquele assentamento inicial do sobrinho Para uma elevação batizada de Morro do Descanso Com uma vista ótima para se defender de possíveis ataques Estava decidido A cidade seria construída a partir daquele lugar Escolhi um sítio que parecia mais conveniente para edificar nele a cidade de São Sebastião o qual sítio era de um grande mato espesso cheio de muitas árvores grossas em que se levou trabalho em as cortar e a limpar o dito sítio
  14. 6:30e edificar uma cidade grande toda cercada de muro por cima com muitos baluartes e os fortes cheios de artilharia Esse aí é o Mendes Sá Quer dizer, esse é o Rodrigo gravando um trecho de um documento deixado pelo Mendes Sá naquela época. Tinha uma muralha enorme para proteger o morro, com canhões apontados para tudo quanto é lado. Ou seja, o berço da Cidade Maravilhosa já era motivado pelo conflito. Um lugar, desde sempre, marcado pela violência. A imensa violência que sempre esteve por trás da história do Rio de Janeiro.
  15. 7:00Talvez, não sei se existe uma cidade que possa ter uma história tão violenta como a nossa. Esse é o escritor Alberto Mussa, autor do livro A Primeira História do Mundo, que aborda o Morro do Castelo e integra o compêndio mítico do Rio de Janeiro. É uma série de cinco romances que investigam a formação e a evolução da cidade através dos séculos, a partir de crimes reais ou fictícios. Uma cidade que já nasceu na guerra, nasceu por causa da guerra, continuou em guerra durante quase 100 anos.
  16. 7:30Além da Florine do Francisco, o Alberto Mussa também vai ajudar a gente a entender melhor esse cenário, que tem muito de beleza, mas também tem muito de brutalidade. A escravização de indígenas, a escravização de africanos, é o inferno. E hoje é isso que a gente também experimenta aqui no dia a dia. É uma cidade muito violenta e muito desigual. Então, acho que mostrar esse nascedor da cidade nos seus vários momentos é o que eu acho interessante, mas falar do contemporâneo não me atrai tanto.
  17. 8:00Então, você está no lugar certo, Mussa, porque hoje a gente quer desvendar esse nascedor do Rio. Desde o Morro do Descanso Que pode ter recebido esse nome Pela trabalheira que deu pra conquistar Aquela área de 185 mil metros quadrados Ou por ser muito íngreme Com 63 metros de altura Então quem subia Tinha que dar uma descansada lá em cima Mas o fato é que esse nome mudou rapidinho Depois da construção do Forte de São Sebastião Que o povo chamava de Castelo
  18. 8:30Então, como você já deve ter desconfiado O que era o Morro do Descanso Virou Morro do Castelo É claro que a Florinda e o Francisco estão esperando a gente ali no século XX, nos últimos anos do morro. Mas até chegar lá, são mais de três séculos de história. Logo de cara, surgiram as primeiras edificações administrativas, militares e religiosas. A Câmara e a Cadeia, o Reduto de São Januário, a Igreja e o Colégio dos Jesuítas.
  19. 9:00Aliás, a Companhia de Jesus era a irmandade mais rica e poderosa da colônia, com um papel central na colonização. Mas em 1640, quase houve um linchamento no colégio, você sabia disso? O Papa, na época, proibiu a escravidão indígena na América E os colonos se revoltaram porque era a mão de obra mais usada nos canaviais e nos engenhos O tráfico de escravizados africanos era três vezes mais caro E o que a população fez? Se revoltou contra os religiosos e subiu o morro do castelo para atacar os padres
  20. 9:30O governo da capitania teve que intervir para evitar um massacre. Com o tempo, a cidade começou a crescer e se espalhar. No fim do século XVII, o forte já não fazia mais sentido e os prédios públicos foram transferidos para outras regiões. No século XVIII, Marquês de Pombal, principal ministro da época, tinha a missão de modernizar a administração do reino.
  21. 10:00Como os jesuítas estavam acumulando muito poder, foram declarados inimigos da coroa portuguesa. Tiveram que abandonar o morro às pressas. E olha, dizem que eles deixaram pra trás alguns tesouros. Mas daqui a pouco a gente fala disso. O fato é que as representações de poder migraram do morro pro chão da cidade, ali no centro mesmo. Você consegue visualizar onde ficava o morro? Vamos trazer pros dias de hoje.
  22. 10:30Pensa numa área delimitada por quatro ruas que talvez você conheça. E se não conhece, depois dá uma olhadinha no mapa. Da São José até a Santa Luzia e da Avenida Rio Branco até a Rua Dom Manuel. Ali pertinho da Dom Manuel ficava um dos acessos ao morro, a Rua da Misericórdia Com esse nome que remete à Santa Casa de Misericórdia Primeiro hospital do Rio construído pelos jesuítas O nome depois mudou para Ladeira da Misericórdia Mas a magia em torno dela é a mesma, como diz esse trechinho de uma crônica do João do Rio
  23. 11:00Foi a primeira rua do Rio, dela partimos todos nós Soluço de espancado, primeiro esforço de uma porção de infelizes ela continuou pelos séculos afora sempre lamentável e tão angustiosa, franca e verdadeira na sua dor que os patriotas lisonjeiros e os governos, ninguém, ninguém se lembrou nunca de lhe tirar das esquinas aquela muda prece, aquele grito de mendiga velha misericórdia. A mesma misericórdia
  24. 11:30que subia pelo morro do castelo e hoje só ameaça subir porque não tem mais morro vamos voltar pra lá com a Jamília o Rodrigo Tales. Eles estão bem no pé da ladeira. E logo à direita de quem sobe a ladeira tem uma placa, né, com a descrição, uma pequena descrição da história da ladeira, o logo da Polícia Militar do Rio de Janeiro e a descrição em português e em inglês. Aqui é uma área agora da Polícia Militar, né, logo aqui do lado tem uma
  25. 12:00sede aqui da Polícia. Vamos subir, né, vamos subir. Vamos dar uma volta aqui. E aqui a entrada da ladeira tem uma placa proibindo o estacionamento, porque antes as motos paravam aqui na ladeira. Vamos subir, vamos encarar, né? São o quê? Menos de 100 metros aqui, mas vamos ver, né? Mas subindo, parece um quilômetro. Tenso. E a ladeira é toda de pedras originais, né? Então, um terreno todo irregular. Do lado esquerdo, quem sobe é a
  26. 12:30parede da igreja e do outro lado são várias árvores. Vocês devem estar ouvindo aí os passarinhos cantando. E ela termina do nada, né? Chega uma hora que É uma muretinha com mais árvores aqui na frente e a ladeira acaba. Fala alguma coisa aí que eu estou ofegante. Acaba aqui, do nada. Tinha um morro, uma montanha gigante aqui um século atrás. É muito difícil para mim imaginar o que era isso daqui. Hoje a gente aqui nesse barulho de carro passando, helicóptero.
  27. 13:00Capítulo 2. Das procissões ao carnaval. E é pra esse lugar que a gente vai agora.
  28. 13:30Eu te convido pra voltar até algum ponto ali no comecinho do século XX, quando Francisco era uma criança e a Florinda era uma adolescente. É com a ajuda desse registro raro, na lembrança e na voz de dois moradores originais, que a gente vai recriar o Morro do Castelo.
  29. 14:00Dois andares. Onde nós morávamos lá na Rua do Castelo, em frente ao Pau da Bandeira, sobrado. Casa da Dona Antônica, também na Rua do Castelo, sobrado. E mais nada. Eu vou colocar de novo na conversa o Alberto Mussa, porque nas pesquisas para os livros ele também foi mapeando o morro a partir dos registros da época.
  30. 14:30Inclusive lá no começo da ocupação, séculos antes da Florinda e do Francisco. Quando eu tratei mais especificamente do Morro do Castelo, que foi num romance chamado Primeira História do Mundo. Eu falo dele também, por exemplo, no Trono da Rainha Ginga, mas ele não tinha talvez a mesma importância para a trama, para o desenvolvimento da narrativa como tem na Primeira História do Mundo. A fonte principal foi a obra do geógrafo Maurício de Almeida Abreu, que morreu em 2011. Um ano antes, ele tinha publicado o livro Geografia Histórica do Rio de Janeiro.
  31. 15:00Ele condensa todas as fontes, discute todas as fontes sobre a geografia da cidade no século XVI. Então, por isso, ali, todo o crédito é dele. E o que sobra de espaço na pesquisa dá para preencher com um pouquinho de imaginação. Para um escritor, esse material é ouro. A partir daqueles registros, ele foi criando cenários, foi dando nome para as ruas. Então, o Morro do Castelo tinha três ruas. Então, essas ruas, é que eu fui chamando a rua direita, que normalmente se dava esse nome,
  32. 15:30a rua travessa, que era transversal, e a terceira rua é a rua de trás. é a última que fechava o triângulo então assim exatamente como é a reconstituição dele, é uma reconstituição geográfica muito precisa e tudo, eu me baseei nela, mas eu tive que fazer as minhas adaptações, então inventar as casas, e aí você vai seguindo uma espécie de princípio que eu acho que norteia tudo, na rua principal você vai ter as casas públicas da governança, a câmara municipal
  33. 16:00você vai ter os depósitos a fazenda, como eles chamavam, onde tem a cadeia embaixo da câmara. E aí você tem a igreja, tinha o colégio dos jesuítas, que a gente sabia onde se situava, porque ali era um lugar mais bem descrito, o colégio que os jesuítas fundaram. Tempos depois, no século XX, essas instituições não funcionavam mais. A igreja dos jesuítas virou um hospital e essas sedes do poder público já tinham sido transferidas. Mas o que unia todo mundo era a força das festas religiosas,
  34. 16:30seja na Igreja dos Guardadinhos, ou a procissão de São Sebastião, ou a Missa do Galo.
  35. 17:00Eu também fui vestida de anjo, carreguei também o anjo do menino de Jesus. Era muito bonito, muito mesmo. A rivalidade só aparecia no carnaval quando os dois clubes do Morro se enfrentavam, cada um com a sua torcida. Era a única rivalidade. Era castelo de ouro e prazer no castelo. Quando chegava o carnaval, havia bofetão.
  36. 17:30Mas era divertido Os doze estandartes que tinham Três metros de altura Era algo grande Era coisa linda Então quando eles se juntavam Pra se beijar, era difícil Chegar Um beijo no estandarte e no outro Quantas vezes juntavam Todo em pau Mas não era só briga não, tá? As marchinhas de carnaval estavam bem vivas Na memória do casal de irmãos Mesmo tanto tempo depois Eles foram lembrando as músicas, foram se animando com as pastorinhas, com o bloco Filhos do Castelo.
  37. 18:00O castelo de ouro também tem.
  38. 18:30Também. Preto é tristeza, perdim, carnava, esperança é guerra. Os filhos do castelo com seus caboclos lá de trás da serra. Quando venham longe, vem gritando alerta. Tinha um outro bloco que era feito na Misericórdia
  39. 19:00Esse era o bloco Miserifome, que passava lá embaixo, no pé do morro Tinha um coral de tenores, barítomos, baixos Que lá debaixo da Rua da Misericórdia nós ouvíamos no Morro do Terceiro Onde vai o miséria e fome, com tanta pena que nos faz chorar. Que linda noite amena, como é serena, para nós brincarmos.
  40. 19:30O miséria e fome passava exatamente aqui onde a gente está, e outros blocos também, e Florinda e Francisco dizendo que ouviam lá de cima, lá do alto do morro dava para ouvir. O miséria e fome me lembra o seguinte, criatividade para inventar nome de bloco não é de hoje. É verdade. Sempre teve. Maravilha. Eu já frequentei muitos também. Boa. O carnaval se mistura com a história do Rio de Janeiro, né? Mas se você ouviu a nossa primeira temporada,
  41. 20:00você sabe que aquele começo do século XX também era um tempo de conflitos. Um dos nossos episódios lembra a Revolta da Chibata, quando o marinheiro João Cândido, almirante negro, liderou um motim nos navios na Baía de Guanabara para protestar contra as condições de trabalho na marinha. No meio daquela tensão, os navios chegaram a disparar contra a cidade. Em um desses ataques, que era para atingir o arsenal da marinha,
  42. 20:30uma granada caiu numa área residencial no Morro do Castelo, bem ali perto da Rua da Misericórdia. Morreram duas crianças, a mãe, inclusive um projétil caiu na casa de uma família. Uma tragédia, uma grande tragédia. Esse é o historiador Álvaro Pereira do Nascimento, que conversa com a gente naquele episódio sobre a Revolta da Chibata. Foi uma tragédia mesmo, e não era o que o João Cândido queria. Ele próprio diz isso também num depoimento ao Museu da Imagem e do Som. Eu sempre fui contra a violência.
  43. 21:00Assumia o comando da revolução com as condições tais. E foi para a vida. Para a vida. Porque eu fui janeiro para a minha cidade-mátria. Cheguei aqui com 15 anos, estou com 88. Pouco se sabe sobre essa família que foi atingida O que só aumenta o valor histórico do relato que você vai ouvir agora O Francisco ainda não era nascido em 1910 quando explodiu a revolta
  44. 21:30Ele nasceu um mês depois Mas a Florinda já tinha 8 para 9 anos E mais que isso, ela esteve no local onde as crianças morreram Aquilo foi triste Era aquela revolução que estava preparada e nós meu pai arrumava logo as coisas com a minha mãe que a minha mãe estava esperando ele ele nasceu em dezembro
  45. 22:00a revolução foi pouco antes uma granada caiu lá nas talas do bastão matou duas meninas a mãe ficou louca isso é preciso mas disso eu vou acabar quando nós voltamos fomos lá
  46. 22:30para Cascadura num colégio que tinha, não sei se ainda existe um colégio grande de irmãs ficamos lá até que a revolução melhorou que podia se voltar para casa eu fui Lá onde morreu essas duas crianças Enquanto estava macia com água, assim com sangue
  47. 23:00Tudo isso eu lembro Foi uma tristeza muito grande E é impressionante que mesmo ainda sendo uma criança na época A Florinda teve a percepção de que o João Cândido também ficou abalado com aquela tragédia João Canto foi lá em cima no morro depois. Ele foi, porque foi uma coisa que ele não queria que acontecesse, não.
  48. 23:30Ele era um revolucionário, mas ele não queria que isso acontecesse. Capítulo 3. Um morro no caminho do progresso. Na época da Revolta da Chibata, em 1910, um pedaço do Morro do Castelo já tinha sido demolido.
  49. 24:00Foi na reforma urbana do prefeito Pereira Passos, em 1904, conhecida como Bota Abaixo A gente contou essa história no episódio sobre a revolta da vacina Se você ainda não ouviu, depois procura aí Essa reforma abriu a Avenida Central, que hoje é Rio Branco E pra isso derrubou uma parte do morro, que passou a ter um novo limite Às costas da Biblioteca Nacional e da Escola de Belas Artes A demolição total começou em 1921 O rio ainda tentava replicar aqueles modelos europeus de urbanização com avenidas largas.
  50. 24:30E o morro estava ali, no caminho do progresso. As autoridades tentavam vender o discurso de que a montanha era uma área degradada e impedia a evolução da cidade. Era muito bonito, muito bom.
  51. 25:00Enfim, era um lugar de alegria. Esse debate tomou conta do Rio quando o prefeito Carlos Sampaio assinou o decreto autorizando o desmonte, ainda em 1920. Como sempre, a população mais pobre foi ignorada. Uma voz que se levantava para defender as pessoas mais vulneráveis era o escritor e jornalista Lima Barreto. Ouve só o trechinho de uma coluna dele na revista Careta, em 28 de agosto de 1920. Todos nós estamos atacados de megalomania, de quando em quando dá-nos essa moléstia
  52. 25:30E nós nos esquecemos de obras vistas, de utilidade geral e social Para pensar só nesses arremedos parisienses, nessas fachadas e ilusões cenográficas Não há casas, entretanto queremos arrasar o morro do castelo, tirando a habitação de milhares de pessoas Como receberam a notícia? Ai, meu Deus do céu, a gente não queria sair de jeito nenhum, meu Deus do céu, mas tinha que sair mesmo, né?
  53. 26:00Mas a prefeitura foi lá comunicar? Eles iam avisando de casa em casa. Tinha que se sair. Tinha que se sair porque o morro ia ser demolido. Ia ser demolido. Muito antes, eles foram tirar medidas. E diziam, o morro do castelo vai abaixo. Ninguém acreditava naquilo. Pensavam que era abaixo. Foi não. E caía numa rapidez assustadora.
  54. 26:30Porque o morro não era de pedra, era de terra. Então, a prefeitura instalava umas bombas enormes que puxavam a água do mar. A população de uma determinada área do morro era avisada para sair dali e pronto.
  55. 27:00Apontavam as mangueiras e os jatos de água faziam tudo desmoronar imediatamente. Era tudo terra num instante com a bomba d'água, né? Já iniciada a demolição. Quando entraram as bombas d'água, aí o negócio... Era uma bomba enorme, pegava a água do mar. A água do mar. aí eles tinham que tirar aquela terra que caía com a água descia, limpava e voltava mais à frente e as bombas iam caminhando para frente
  56. 27:30o senhor comentou que era feito na mão três ou quatro homens segurando era tipo de um canhão era uma boca grande então eles seguravam cada força da água que vinha seguravam aquilo e manobravam, eram manobreiros mas três, quatro homens não lembro que era garoto que eu vi Não, não, não. É tempo pessoal. E o governo fez o seguinte, mandou construir... Foi na Praça da Bandeira que eu tinha uma terra enorme de barracões.
  57. 28:00Eu tinha esquecido, mas eu conseguia falar. Então nós, inclusive, saímos um dia antes, e tão logo nós saímos, aquela parte caiu. A terra que caía era transferida em vagões e usada para aterrar outras partes da cidade, como a sequência da Avenida Beira Mar, que o Pereira Passos tinha começado a construir no início do século XX. A população ia saindo meio às pressas. E por mais que a prefeitura tenha instalado esses barracões na Praça da Bandeira, os habitantes do morro não tiveram escolha.
  58. 28:30Não foram ouvidos. Como de hábito, uma violência com o cidadão mais pobre. E, como lembra o Alberto Mussa, uma violência com a própria memória do Rio de Janeiro. Um crime é a memória da cidade? Porque não é nada, não é nada, se você pensar bem, o Morro do Castelo foi destruído, foi desmontado, e a terra dele, parte daquelas terras, foram aterrar o outro ponto em que a cidade foi fundada pela primeira vez,
  59. 29:00que foi a Praia Vermelha ali, aquela área da Praia Vermelha. Então, quer dizer, é uma cidade que foi fundada duas vezes e destruiu os seus dois lugares de fundação. É uma coisa inacreditável. É realmente só no Rio de Janeiro. Tem coisas que só acontecem no Rio de Janeiro. Capítulo 4. A Caça ao Tesouro. Em 12 de dezembro de 1893, o Machado de Assis publicou uma crônica na revista A Semana.
  60. 29:30As grandes riquezas deixadas no castelo pelos jesuítas foram uma das minhas crenças da meninice e da mocidade. Morri com ela e ainda hoje a tenho. Perdi saúde, ilusões, amigos e até dinheiro, mas a crença nos tesouros do castelo não a perdi. Ou seja, a lenda dos tesouros do Morro do Castelo continuava viva mais de um século depois da expulsão dos jesuítas. Exploradores falavam em 67 toneladas de ouro,
  61. 30:00que hoje valeriam mais de 2 bilhões de dólares. Tudo isso estaria escondido em galerias secretas no interior do morro. Claro que a imaginação do povo ia longe. Eis que, numa tarde de quinta-feira, 27 de abril de 1905, bem ali na época do Bota Baixo, promovido pelo Pereira Passos, a coisa ficou mais séria. Um operário chamado Nelson estava derrubando um pedaço do morro
  62. 30:30Na área que daria lugar à Avenida Central A picareta estava batendo na terra quando, de repente Ele encontrou uma galeria de pedra Uma entrada com meio metro de largura, um metro e meio de altura Avançando para dentro do morro O Nelson chamou o chefe da engenharia, veio também o ministro da fazenda E já viu, né? Os jornais todos deram a notícia no dia seguinte Inclusive, o Lima Barreto estava ali como repórter. Enfim, só se falava nos tesouros dos jesuítas.
  63. 31:00A curiosidade era tanta que o túnel chegou a ser aberto para visitação pública. Com novas escavações, descobriram mais galerias e aí... Bom, em vez de eu te contar, vamos ouvir de alguém que morou lá, né? Aconteceu o seguinte, quando demoraram aquela parte central da bandeira lá para trás, encontraram uma caixa com joias. Encontraram? Sustentaram. Não é lenda, não. Não é lenda, não.
  64. 31:30Encontraram sim e isto sumiu. Falaram com a polícia da época e sumiu. Segundo eu soube, encontraram até um crucifixo de ouro cravejado de brilhantes e diamantes. E é verdade. O crucifixo de ouro foi entregue para o presidente Rodrigues Alves. E um candeeiro de ferro acabou nas mãos do engenheiro Paulo de Fronten. O Lima Barreto, que se guia na cobertura jornalística, ficou bravo, queria que os itens fossem para o Museu Nacional.
  65. 32:00Mas o fato é que, além do Crucifixo e do Candeeiro, o Tesouro não foi muito além disso. E mesmo assim, continuou no imaginário de todo mundo. Isso eu acho fantástico, é fascinante você ter uma cidade que você tenha túneis secretos. Então você imagina a quantidade de romances de capa e espada, de romance de mistério que você pode desenvolver com um cenário desse. E é real, né? Foi encontrado. Ninguém sabe direito pra que serviu o túnel, não se sabe se foi pra fuga,
  66. 32:30não se sabe se eles ali armazenavam coisas. Aí começou a lenda dos tesouros, tesouro dos jesuítas. Então todo mundo atrás do tesouro. É fantástico isso daí. Eu acho... Isso pra mim é o mais fascinante do morro. Até o Francisco entrou na onda. No depoimento, ele conta que teve seu dia de Indiana Jones dentro da igreja no Morro do Castelo. E eu, desvirotei o dinheiro, a turma que fazia aquela coisa, vai lá, eu penetrei, naquela coisa de entrar naquele padre e tal, eu vi um padre descer, aí eu disse, o que é isso aí, eu quis saber o que é, e fui lá, embaixo da igreja, com um salão imenso, com mesa de pedra, bancos de pedra, tudo de pedra,
  67. 33:00e comecei a olhar e de repente eu dei com um buraco aquele buraco tinha ligação até a praça que era aqueles caminhos é a praça do castelo quer dizer, eles fizeram vários buracos
  68. 33:30um foi no pau da bandeira que ele entrou e vinha até o terceiro e esse outro vinha dali, agora tinha outros mas esse dali ia dar na praça do castelo e essa história de tesouro aí, será que tem não? é pra isso que a gente vê aqui Estou dando uma olhada aqui Para ver se eu acho alguma coisa O que a gente achou aqui não está muito com jeito de tesouro Está um pouco distante Mas eu estou na esperança Vamos ficar aqui mais um pouquinho Se a gente sumir da produção no futuro
  69. 34:00Vocês vão saber o que a gente encontrou Se a gente não durar para o próximo capítulo, já sabem Então, Gabi, é isso A gente vai dar uma circulada aqui Uma pena que você não pôde estar aqui com a gente Mas fica tranquilo, que se a gente achar um tesouro aqui A gente divide com você, não é, gente? Claro, claro Claro, vamos dividir com a Gabi também, né? Então, beleza. Vamos procurar, vamos procurar. Que bonito, é isso aí. Vocês estão muito engraçadinhos, né? Eu já vi que na próxima vez eu tenho que ir. Não dá pra deixar vocês três sozinhos, não? Porque vocês já estão encaçando o tesouro sem mim.
  70. 34:30Mas, beleza, boa sorte aí nas buscas. E olha, ouro escondido em túnel, eu não sei se tem. Mas eu sei que, infelizmente, o morro não tá mais ali. Sobrou a memória de um lugar fundamental na história da cidade. É aquele lugar que não existe mais, quer dizer, é o lugar mais importante da cidade. A história do Morro do Castelo é um resumo da história do Rio de Janeiro, é o processo de abandono da história, como se a ocupação do Rio de Janeiro e as pessoas, isso vale, eu acho, até para o Brasil todo, mas no Rio de Janeiro a gente percebe muito isso,
  71. 35:00as elites que vão compondo as camadas dominantes do governo, econômicas e da cidade do Rio de Janeiro, elas não têm identificação com o lugar onde vivem, não têm identificação com o povo que vive nesse lugar, não se identifica com a cultura desse lugar, não se identifica com a história, e é por isso que ela destrói e destruiu o lugar mais importante
  72. 35:30da história da cidade, que não existe mais. Eu, se pudesse, se tivesse condições, se fosse um governador de alguma coisa assim, eu ia reconstruir o Morro do Castelo. Eu ia destruir todos aqueles estacionamentos que fizeram ali. Agora, você veja também isso. No lugar do morro tem estacionamento. Não tem cabimento um negócio desse. Eu ia reconstruir aquele morro. Eu ia arrumar um jeito e comprar terra em algum lugar, trazer terra. E ia fazer o morro outra vez. Botar o morro direitinho como ele era.
  73. 36:00Ou tentar reconstruir, pelo menos ter uma ideia de como seria aquele morro do castelo e reproduzir lá as muralhas, reproduzir as coisas. Pra você ter um centro turístico, um centro cultural na cidade, no coração da cidade do Rio de Janeiro, né? Eu acho que isso aí seria um projeto, assim, o governador, o candidato que disser que vai fazer isso vai ter meu voto. E você que ouviu até aqui, gostou desse sonho do Alberto Moussa?
  74. 36:30Já imaginou o morro sendo erguido de novo? Com o colégio, a procissão de São Sebastião, o duelo dos blocos no carnaval? Tenta imaginar tudo isso. E quando você puder, dá uma passada na Ladeira da Misericórdia. Faz uma foto ou um vídeo e marca a gente no Instagram, arroba rio-memórias. Aproveita e me conta o que você achou do episódio.
  75. 37:00No site rio-memórias.com.br você pode acessar a galeria Rio Desaparecido e várias outras. Procura também os livros do Alberto Moussa. Eu agradeço demais a ele por ter topado ajudar a gente nessa viagem no tempo. O podcast é uma produção da Escuta Aqui. Hoje você já viu que o Rodrigo Alves coordena o projeto, escreve os roteiros e grava as locuções adicionais O Thales Ramos faz a supervisão dos roteiros e a Jamile Boulay é a nossa produtora e é ela que faz as entrevistas
  76. 37:30Esses três também caçam tesouros nas horas vagas, né? A pesquisa é do Danilo Marques e do Davi Arueira, do Projeto República da UFMG A música que você ouve aqui é original, composta especialmente para o podcast pelo Gabriel Falcão E quem pega todo esse material e empacota numa edição lindona é a Clara Costa, que faz a montagem e a sonorização.
  77. 38:00Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora do Rio Memórias. Espero você no próximo episódio, com ou sem tesouro. Obrigada e até lá! O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, e pelo Banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremate por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS.
  78. 38:30Obrigado e até o próximo episódio.

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Todos os episódios

  1. 01Marielle, Amarildo, Stuart, and Rubens: present!
    Duração 44:44

    In the premiere of Season 2, Rio Memórias connects four life stories that were cut short in Rio de Janeiro and became symbols of resistance: Marielle Franco, Amarildo de Souza, Stuart Angel and Rubens Paiva. Interviewee in this episode: Mário Magalhães.

  2. 02Morro do Castelo
    Duração 38:50

    A symbol of the founding of Rio de Janeiro literally came crashing down in the early 20th century and vanished from the map. The story of Morro do Castelo, told with the help of a historic account by two former residents. Interviewee in this episode: Alberto Mussa.

  3. 03Neighborhood Movie Theaters
    Duração 32:52

    Over the course of a century, Rio de Janeiro lived out a story made of dazzling theaters, huge screens, tasty popcorn, and films that shaped our lives: the magic of the neighborhood movie theaters.

  4. 04Palácio Monroe
    Duração 36:04

    The incredible story of Palácio Monroe, a majestic building that traveled from one country to another, settled in Rio's Centro, was the seat of the Senate, and disappeared, leaving behind an empty square with a dry fountain. Interviewee in this episode: Eduardo Ades.

  5. 05Radios that are gone
    Duração 38:34

    In the year marking the centennial of radio in Brazil, a journey through radio stations that left us longing for the past: the magic of radio soap operas, the power of newscasts, the fanaticism for great singers, and the strength of sports broadcasts. Interviewed in this episode: Edson Mauro.

  6. 06Cais do Valongo
    Duração 37:25

    In the closing episode of the 2nd season, the story of the Cais do Valongo, the largest entry point for enslaved Africans in the Americas, and the repeated attempts to erase this memory. Interviewed in this episode: Eliana Alves Cruz.