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Rio Desaparecido
Episódio 03
Neighborhood Movie Theaters
0:00faltam 33 min32:52
Transcrição
Tá confortável aí a poltrona? Tá boa a pipoca?
- 0:30Tá confortável aí a poltrona? Tá boa a pipoca? Então se ajeita aí que tá começando a sessão.
- 1:00Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora do podcast Rio Memórias. A segunda temporada te leva pra lugares importantes da cidade que não existem mais. Quer dizer, eles ainda existem aí na sua lembrança, dependendo da sua idade, né? E é essa lembrancinha aí dentro da sua cabeça que a gente vai atiçar hoje. Você tem saudade dos cinemas de rua? Se você já frequentou aquelas salas maravilhosas antes do domínio dos shoppings, esse episódio é todo seu.
- 1:30E, se você é muito jovem, tudo bem também. Eu tenho certeza que você vai adorar saber como era antigamente. Então, vamos nessa, que a sessão já tá rolando. Eu nem vou pedir pra você desligar o celular, né, porque geralmente as pessoas ouvem podcast no celular. Então, ajusta bem o seu volume e, se possível, escuta com um fone de ouvido.
- 2:00Hoje a gente vai recriar em áudio uma história que atravessou um século inteiro Uma história feita de salas deslumbrantes, telas enormes, hipocas saborosas e filmes que marcaram as nossas vidas Podcast Rio Memórias, cena 1, a cadeira de Rui Barbosa, plano 1, take 3
- 2:30Silêncio no set, ação Alô, teste 1-2, 1-2-1-2, alô 1-2-1-2, 1-2-1-2, teste, teste Alô, alô Para variar, esse podcast está no centro do Rio de Janeiro
- 3:00Oi, oi, eu sou o Rodrigo Alves Eu sou Jamile Boulê A gente está aqui no centro da cidade do Rio de Janeiro, na Rua da Carioca O Rodrigo, que faz os roteiros do Rio Memórias E a Jamile, que faz as entrevistas Nessa temporada, eles também assumiram uma função diferente A função de exploradores Então hoje, eles vão rodar a cidade atrás de cinemas que não existem mais Primeira parada, Rua da Carioca, numa tarde de quinta-feira.
- 3:30Eles estão bem em frente ao número 62, onde hoje funciona uma casa de festas. Mas se a gente voltar mais de um século no tempo, ali ficava uma das primeiras salas de cinema do Rio. O Cine Ideal, inaugurado em 1909. Melhor entrar, né? Porque tá muito barulho na rua e lá dentro tem muita história. Bem, aqui está bem mais silencioso do que está lá fora, fechando a porta. Mais fresco também, porque hoje em dia tem ar-condicionado. É verdade, mas na época não tinha.
- 4:00Então, assim que a gente entra aqui, é um espaço bem amplo e, olhando para cima, tem a cúpula gigante que foi desenhada pelo Gustave Eiffel, Jamire, que fez só a Torre Eiffel e a Estátua da Liberdade. Só isso, só isso. Pouca coisa, né? A cúpula de vidro projetada pelo engenheiro francês Gustave Eiffel Sobreviveu até a um incêndio nos anos 90 Ela não abre mais, mas continua lá no teto, bonitona A gente está subindo aqui para um acesso ao terraço
- 4:30Vamos ver se dá para chegar mais perto da cúpula A gente chegou aqui em um lugar que está com um bloqueio aqui com uma escada A gente está aqui bem no nível da cúpula Ela é coberta tipo por uma lona Depois de subir e descer tanta escada, veio a recompensa Eles encontraram um pequeno tesouro nessa exploração Vamos chegar no cantinho que tem uma coisa aqui interessante
- 5:00A gente tem aqui no cantinho três cadeiras originais do cinema De madeira, aquela típica de cinema Falando em cadeira, quem tinha uma cadeira cativa no Cine Ideal Era o Rui Barbosa, o famoso jurista, político, advogado e jornalista Ele adorava o lugar, principalmente por causa da cúpula. E mesmo depois da morte dele, em 1923, essa cadeira ficou reservada com uma correntinha até o fechamento do cinema em 61.
- 5:30E a gente foi ali em cima, né? A gente chegou perto da lona. Já tô um pouco arrependido de ter ido ali. É, não sei quem que eu esbarrei. Fui Barbosa. Fui Barbosa, tá aí na cadeira, não sei. Tá atrás de você, Rodrigo? Não, não, tá não. Vamos lá no camarote, vamos lá. E pronto, nem parece aquela dupla corajosa do episódio anterior sobre o Morro do Castelo, você lembra? Esses dois aí estavam na Ladeira da Misericórdia, o Thales Ramos também estava lá, bem destemidos, caçando tesouros dos jesuítas.
- 6:00Agora eles estão aí, morrendo de medo e fugindo de fantasma. Daqui a pouco eu chamo Jamila e Rodrigo de novo, em outro ponto da cidade. E olha, se essas duas trilhas sonoras que a gente tocou agora abriram gavetas na sua memória,
- 6:30Se liga que várias outras ainda vão aparecer por aqui. Então vai anotando o nome dos filmes, que no fim do episódio eu te passo o gabarito pra ver quantas trilhas clássicas você consegue identificar na nossa viagem no tempo. Vem comigo pro passado, porque se você é ouvinte do Rio Memória, você já deve saber que esse podcast alugou um puxadinho ali na virada do século XIX pro XX, né? Foi um período de transformação intensa no Rio de Janeiro. E é ali que começa a história dos cinemas de rua da cidade.
- 7:00Agora a gente está numa sala dentro da sede do Jornal do Comércio, na Rua do Ouvidor, no dia 8 de julho de 1896. Foi nesse dia que um exibidor itinerante belga chamado Henri Paille
- 7:30fez a primeira projeção cinematográfica do Brasil. Cobrando ingressos caríssimos, ele mostrou para uma seleta plateia carioca oito filmetes de um minuto. Eram cenas do cotidiano de cidades europeias. Claro, né? Naquela época, o Rio só pensava em copiar as coisas da Europa Tanto que o nosso primeiro cinema, construído no ano seguinte, se chamava Salão de Novidades Paris Ficava também na Rua do Ouvidor e foi inaugurado pelo empresário ítalo-brasileiro Pascoal Segreto em 31 de julho de 1897
- 8:00Nas duas décadas seguintes, as salas foram se espalhando pelo centro do Rio A recém-aberta Avenida Central, que hoje é a Rio Branco, tinha, por exemplo, o Cine Patê O dono era o Mark Ferreira, o principal fotógrafo brasileiro do século XIX. Eram 550 lugares, com um ambiente bem arejado, que era um alívio no calor carioca, porque o ar-condicionado já tinha sido inventado nos Estados Unidos, mas por aqui era na base do leque mesmo.
- 8:30As salas eram chamadas de as abafadinhas. Por isso que o Rui Barbosa gostava tanto do Cine Ideal, que abria aquela cúpula enorme no teto para ventilar o ambiente. Em 1907 surgiu o Odeon, que tinha uma sala de espera imensa Onde o público ficava ouvindo música ao vivo entre uma sessão e outra Tinha espaço ali para uma orquestra inteira E por alguns anos o pianista do Odeon era apenas o Ernesto Nazaré Um nome importantíssimo na formação da identidade musical brasileira
- 9:00Tanto que a canção mais famosa dele se chamava justamente Odeon Você vai reconhecer, ouve só Bom, no mínimo você lembrou da novela O Cravo e a Rosa, né? Agora imagina você ali na sala de espera do Odeon ouvindo isso ao vivo. Tinha gente que ia só pra ver o maestro, não tava nem aí pro filme.
- 9:30Mas no geral, a população do Rio tava apaixonada pelo cinema. E as crianças também entravam na onda. O Cine Rio Branco distribuía brinquedos e doces num ambiente de luxo que encantava filhos, pais, mães e avós. Olha esse relato do jornal O País na edição de 3 de dezembro de 1909. Dá gosto assistir a uma sessão nesse luxuoso cinema Com sua instalação custosa Seus divãs ricos de couro Seus faiscantes espelhos
- 10:00Encimados por estatuetas de preço Sarpeados por guirlandas de lâmpadas elétricas Sua frequência fina Ostentando ricos costumes Seus programas originais Enfim, tudo quanto é preciso Para prender o público com conforto e arte E assim, o Carioca se sentia na Europa. Só que também veio da Europa um golpe inesperado nos cinemas brasileiros. A Primeira Guerra Mundial.
- 10:30Quando começou o conflito, em 1914, o Rio tinha 123 salas de exibição. A maioria fechou as portas porque a produção cultural na Europa foi interrompida e não tinha filme novo para exibir. Quando a guerra acabou, em 1918, as filmagens foram retomadas, mas o cenário internacional já era outro. E veio uma nova era, a era de Hollywood.
- 11:00Nos anos 20, já brilhavam nomes como Charlie Chaplin e Walt Disney. Era só o começo de uma produção intensa que atravessaria as décadas seguintes com clássico atrás de clássico. E o vento levou, o Mágico de Ócida, Don Quen, Casa Blanca. Essa é uma lista que não acaba nunca, né? E é claro que o Brasil não queria ficar de fora da festa.
- 11:30Naquela altura do campeonato, já não bastava assistir. Era preciso produzir. E é aí que entra na história um jornalista empresário chamado Adhemar Gonzaga. Ele tinha visitado os grandes estúdios de Hollywood e, em 1930, criou a primeira companhia cinematográfica brasileira, a Cinedia. Era o efeito prático da famosa frase do Adhemar.
- 12:00Fazer filmes é uma arte, mas cinema é indústria. E o primeiro produto dessa indústria foi o longa-metragem Lábios Sem Beijos, do mineiro Humberto Mauro, protagonizado por Lelita Rosa e Paulo Morano. Quer ouvir um pouquinho? É isso mesmo, não dá pra ouvir nada. Porque o filme era mudo e não tinha nem música, era só imagem. Só que naquele começo da década de 30, os filmes falados começavam a ganhar força e rolava uma preocupação. Com cada vez mais falas em inglês, o público podia ficar confuso e perder o interesse.
- 12:30É aí que entra a cinédia, pra fortalecer a produção em português. Foi um sucesso absoluto. Essa é a comédia musical Alô Alô Carnaval, de Adhemar Gonzaga e Wallace Downey, com Carmen Miranda no elenco. Grandes nomes da música eram presenças frequentes nos filmes.
- 13:00E o maior sucesso de todos veio com o cantor Vicente Celestino, que em 1946 estrelou O Ébrio, Dirigido por sua esposa, a cineasta, atriz e cantora Gilda de Abreu.
- 13:30A história do homem que se entrega a bebida depois de ser abandonado por sua amada
- 14:00termina com uma cena icônica do cinema nacional. O personagem de Vicente Celestino encontra a mulher novamente e a perdoa, mas não aceita voltar para ela. Pelos relatos da época, a reação da plateia nessa cena variava de acordo com a região da cidade.
- 14:30Nos cinemas mais elitistas da Zona Sul, o público achava graça e ria. Na Zona Norte, mais popular, as pessoas se emocionavam e choravam. A Cinédia produziu filmes até 1951. Naquele momento, um outro estúdio famoso já tinha uma década de atuação no Rio A Companhia Atlântida Cinematográfica Fundada em 1941, a Atlântida fazia filmes com orçamentos menores e roteiros despretensiosos
- 15:00Eram as comédias populares conhecidas como chanchadas A crítica não curtia muito, mas o povo se identificava com os personagens Ali se consolidou uma das parcerias de maior sucesso na história do cinema brasileiro Oscarito e Grande Otelo Essa é a comédia musical Carnaval Atlântida
- 16:00Dirigida por José Carlos Bull Em 1952 Até 62, quando fechou as portas, o estúdio produziu quase 70 títulos. E toda essa produção fez o Rio voltar a ser uma grande cidade de salas lotadas a partir dos anos 40.
- 16:30Você consegue imaginar como era uma noite na Cinelândia naquela época? Vem comigo que eu vou te ajudar. Pra gente recriar essa cena, eu vou apelar pra todos os seus sentidos. Primeiro, escuta aí o som da rua, dos carros antigos passando.
- 17:00Agora tenta visualizar os letreiros luminosos em neon, de cinemas como o Império, o Glória, o Capitólio, o majestoso Metro Passeio. Ali no Cinepatê Palácio está passando o filme Frankenstein, então a fachada está toda decorada com umas ilustrações enormes do monstro.
- 17:30E na calçada o que a gente vê é uma aglomeração de homens de terno e chapéu, as mulheres de vestidos longos. O paladar desse povo era gostado pelos famosos hot dogs americanos, uma novidade gastronômica importada dos Estados Unidos pelo empresário espanhol Francisco Serrador. Aliás, foi ele que idealizou o complexo de cinemas da Cinelândia para recriar a atmosfera da Broadway nova-iorquina dos anos 20.
- 18:00Mas eu vou apelar também para o seu olfato, porque a Cinelândia tinha jardins muito bem cuidados, cheios de flores. E pertinho do Teatro Municipal ficava Bering, a primeira fábrica de chocolate e café moído do Brasil. Então você tem essa explosão de cheiros. Tenta imaginar o cheiro do chocolate, do café, das flores, o sabor do cachorro-quente, o som dos carros, a luz dos letreiros.
- 18:30Era assim a noite na Cinelândia, a Broadway tropical no centro do Rio. Esse espaço glamuroso manteve sua força até a década de 60 E só aí começou a se esvaziar Mas os cinemas de rua continuavam espalhados por outros pontos da cidade
- 19:00Gente, vamos lá Podcast Rio Memórias, cena 2, Trapalhões na Tijuca Atenção, atenção Plano 3, take 7 Silêncio Gravando O caos dos ônibus, vocês estão ouvindo, né? Aqui é um lugar muito movimentado, né? Tem muita gente andando, muito carro passando.
- 19:30A gente está bem na praça aqui, virado para Conde Bonfim, que é uma das principais avenidas aqui da Tijuca. A nossa dupla de exploradores está agora na Praça São Espenha. E a gente está bem de frente para a calçada da Conde Bonfim, onde ficavam vários cinemas, inclusive da minha adolescência, da minha infância. Eu estou um pouco emotivo aqui, Jamir. Eu acho bonito. Faz tempo, né? Você é jovem, né, Rodrigo? Um pouquinho de tempo só, só um pouquinho. Mas bem ali para onde a gente está olhando agora, a gente tem dois cinemas que ficavam um do lado do outro
- 20:00e no meio deles a Rua Majorávila, que são o Carioca e o América. Dois cinemas que eu frequentei muito, muito, muito. O Carioca hoje em dia é uma igreja e o América é uma drogaria. Inaugurado em 1941, o Carioca tinha pilastras na calçada e uma escadaria imponente. Isso ainda está lá, mas o letreiro superior sumiu. No América, a fachada anuncia o nome da drogaria. Agora a gente está bem em frente aqui onde era o América, onde hoje é uma farmácia.
- 20:30Do outro lado ali tem uma igreja universal. Muita gente aqui. A gente está sofrendo para parar um pouquinho, porque há tanta gente passando que não dá. Se você parar, você vai se atropelar. E quando a gente avança um pouquinho aqui na Rua Majorávila, aqui essa rua que fica entre os cinemas conhecida aqui pelos tijucanos como Rua das Flores nas paredes aqui dos cinemas ficavam os cartazes, então eu lembro muito nitidamente da gente sair de casa, vir aqui
- 21:00pro cinema e no caminho você já ia vendo quais seriam os próximos filmes, entrar em cartaz e tal, então a gente ia olhando pras paredes pra ver os cartazes e hoje não tem não tem mais nenhum registro disso aqui agora você olha pros lados e vê plantas, plantas por todos os cantos É, tem uma rua com vários quiosquezinhos de floricultura, de plantas e tal. Por isso que ela ficou conhecida como Rua das Flores. É uma rua de pedestres, não passa carro aqui. E ela vai dar do outro lado, na Barão de Mesquita. Além do Carioca e do América, eram várias salas na Tijuca.
- 21:30Do outro lado da praça ficava o majestoso Olinda, que chegou a ser o maior da América Latina, com 3.500 lugares. Foi demolido em 72 e hoje funciona ali o Shopping 45. Até os anos 90, o bairro respirava cinema Eu lembro muito, na infância ainda, da expectativa pela estreia de filme dos Trapalhões Isso aí era o clássico do verão A gente ficava esperando o filme dos Trapalhões e meu avô me trazia para ver
- 22:00E geralmente os filmes dos Trapalhões estavam ou no América ou no Carioca Que são os maiores cinemas daquela época daqui E a gente vinha ver Mas era legal porque a gente podia ficar dentro do cinema e ver o filme várias vezes Então a gente ficava morando uma tarde inteira dentro do cinema, vendo trapalhões na sequência, em looping. A vida já foi divertida, né? Já foi, já foi. Cinema de rua muito legal. Meu Deus, não dá pra acreditar! Como é que tu conseguiu esse tanque?
- 22:30Prestígio no exército. Vinda Nossa Senhora, isso vai ser uma cena braba, Didi. Como é que foi? Tu com esse tanque derrubou a cadeia do homem, derrubou a delegacia do prefeito. Como é que ele vai fazer pra voltar naquela cidade? Eu abomino cadeia, vou destruir todas com esse tanque aqui. E a febre da sétima arte não era só na Tijuca e no centro.
- 23:00Naquela época, os cinemas de rua do Rio de Janeiro se multiplicavam, tipo aqueles monstrinhos que você não podia botar na água e nem alimentar depois da meia-noite, lembra?
- 23:30Reconheceu essa trilha? Essa é clássica dos anos 80. No fim do episódio eu te conto. Mas voltando. O bairro do Mayer, por exemplo, teve uma dezena de cinemas. O primeiríssimo deles foi o Para Todos, que também era da empresa do Mark Ferrez. A inauguração foi no dia 10 de outubro de 1935, com o filme Alegre Divorciada. Nem a chuva forte que caiu naquele dia diminuiu a empolgação do público que entupiu a sala para ver Fred Astaire e Ginger Rogers na tela
- 24:00Olha só o que disse o jornal Diário Carioca sobre a noite de estreia A inauguração revestiu-se de grande brilho e, apesar da formidável enchente, tudo correu na maior ordem e com êxito invulgar, dando plena satisfação a todos que assistiram ao espetáculo,
- 24:30que não se cansavam de elogiar o gosto da decoração, a originalidade da pintura, que davam uma nota de frescura e alegria ao ambiente. Além disso, o cinema possui confortáveis cadeiras automáticas e silenciosas. É amplo, bem arejado, não se temendo os rigores do verão. Duas décadas depois, em 1954, o Mayer inaugurou seu cinema mais notável, o Imperator, que talvez esteja aí na sua memória como uma casa de shows.
- 25:00É que desde o início, o endereço ali na Rua Dias da Cruz estava muito ligado à música. A juventude da Zona Norte chegava com as suas motos e fazia da Galeria do Cinema uma pista de dança, inspirada em ídolos americanos como Elvis Presley e James Dean. O lugar ficou aberto até 1986 e, poucos anos depois, se transformou na Casa de Espetáculos. Desde 2012, funciona ali o Centro Cultural João Nogueira, que inclusive tem três salas de cinema. O subúrbio do Rio também ostentava muitas salas, principalmente nos bairros que tinham estação de trem.
- 25:30O Cine Vaz Lobo abriu as portas em 1941, com a presença da então primeira-dama Darcy Vargas, e só foi fechar em 86, mesmo ano do encerramento do imperator. O letreiro enorme do Cine Vaz Lobo, lá no topo do prédio, quase foi demolido pelas obras da Transcarioca. Aquele marco histórico só não foi a nocaute porque a população lutou até o fim. Vitória de moradores e pesquisadores
- 26:00que evitaram a demolição do edifício A prefeitura acabou fazendo um desvio no traçado da pista do BRT e o letreiro está preservado até hoje Enfim, a gente já passou pelo subúrbio, pela Zona Norte pelo centro Para encerrar nosso circuito cinematográfico eu acho que Jamila e Rodrigo estão agora em algum ponto da Zona Sul
- 26:30Última cena Vamos lá, gente Podcast Rio Memórias cena 3, Academia da Sétima Arte plano 1, take 4 silêncio ok ação Oi Gabi, chegamos aqui na nossa última parada, estamos no número 35 da rua Senador Vergueiro, Flamengo Flamengo, aqui era o Cine Paissandu Disputadíssimo Paissandu foi
- 27:00uma das salas mais importantes da Zona Sul desde a inauguração em 1960 Eram 742 cadeiras vermelhas e não era fácil conseguir um lugarzinho ali. Quem não chegava cedo, acabava sentando no chão. Hoje, só sobrou a lembrança mesmo. Está bem descaracterizado, virou uma academia. Na entrada de serviço, a gente vê algum vestígio de algo mais antigo, vamos dizer assim. Tem esse mármore, tem um mármore aqui.
- 27:30A parte de cima, na fachada, tem uma carinha de cinema. Aquela mais pra fora, assim, sabe? Onde colocam os nomes dos filmes. Dá pra ver que, assim, a gente sabendo, claro, a gente percebe ali algum traço, mas a entrada principal, ninguém diz que já foi um cinema. E aí, aqui não era só o cinema, né? Porque esse lugar aqui era meio um lugar de reunião das pessoas que estudavam e conversavam sobre cinema, a intelectualidade da época. Vinha muito pra cá assistir os filmes, saía pra conversar nos bares por aqui.
- 28:00E aqui tinha uma coisa também, Jamir, que era o seguinte, aqui não tinha blockbuster, não. Aqui eram os filmes mais, né, Truffaut, Godard, Fellini, era isso que passava aqui. Outra coisa, aqui era um outro nível, então a galera vinha pra cá e discutia esses filmes. E esse debate cultural ficou ainda mais forte e necessário quatro anos depois da inauguração, quando veio o golpe civil-militar. A escritora Maria Lúcia Dall, frequentadora assídua do cinema,
- 28:30definiu a rotina naquela época em três passos. Era praia, passeata e paissandu. O ato institucional número 5, em 68, foi um duro golpe para o cinema, que mudou de nome várias vezes até fechar de vez em 2008. Se Jamila e Rodrigo quisessem encerrar essa jornada de hoje vendo um filminho no paissandu, nada feito. Não tem mais essa possibilidade. Infelizmente, não tem mais. Nem vestido. Também a gente já está rodando a cidade inteira hoje.
- 29:00Está bom, né? É, tô um pouco cansado, você. Um pouco também, mas foi legal, gostei. Valeu, valeu a pena. Mas agora deixa com a Gabi que ela continua isso pra gente. Conta aí mais, Gabi. Gabi, na próxima você vem com a gente também, viu? Por favor. Valeu. Valeu, gente. E eu também não tenho mais nada pra contar, não. Já falei muito por hoje. Mas adorei essa tour de vocês, viu? Visitando lugares que não existem mais, buscando vestígios desse rio desaparecido. Vocês estão parecendo uns arqueólogos procurando fóssil de dinossauro.
- 29:30E essa aí, adivinhou? Ah, todas as trilhas foram fáceis, vai. Você anotou? Então, confere aí que eu vou te passar o gabarito. A abertura do episódio foi com a trilha do filme O Garoto, do Chaplin, de 1921. Depois vieram Indiana Jones, de 1981, Os Caça-Fantasmas, de 84,
- 30:00aí teve Gremlin, de 84, Rock, a franquia que começou em 76, e agora, claro, Parque dos Dinossauros, de 93. É impressionante, né? Às vezes a gente só precisa de um pedacinho da música pra lembrar do filme, do cinema, do cheiro da pipoca. Fica tudo guardadinho na nossa cabeça. Eu adorei lembrar disso tudo e espero que você tenha gostado da nossa sessão de hoje. Tá quase acabando. Tá chegando aquela hora que os créditos sobem na tela.
- 30:30E como o podcast também tem trilha sonora, eu vou encerrar chamando o Gabriel Falcão, que é o nosso compositor. Oi, Gabriel! Alô, Gabi. E aí, tudo bem? Eu gostei muito dessa viagem que a gente tá fazendo aqui pelas trilhas de cinema. Eu tenho uma relação muito legal com o cinema, gosto bastante. Tô super viajando aqui nos filmes, tá muito bacana. E agora eu vou dar uma subida aqui nessa trilha de encerramento pra você poder falar os créditos com mais tranquilidade, tudo bem? Um beijo pra você, pra toda a equipe do Rio Memórias e até a próxima.
- 31:00Obrigada, Gabriel. Então vamos lá. Créditos subindo na tela. O Rio Memórias é uma produção da Escuta Aqui. Além da música original do Gabriel Falcão, tem outros dois integrantes da equipe que você já ouviu aqui hoje, a Jamile Boulê e o Rodrigo Alves. A Jamile faz a produção, o Rodrigo coordena a equipe e escreve o roteiro a partir da pesquisa feita pelo Danilo Marques e pelo Davi Arueira do Projeto República da UFMG.
- 31:30Aí o Thales Ramos faz a supervisão de roteiro e a Clara Costa monta todo o material com a edição e a sonorização. Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora desse podcast. No site riomemórias.com.br você acessa a galeria Rio Desaparecido e várias outras. Dá um pulinho lá. Por fim, eu quero te fazer um pedido. Vai lá no Instagram, marca arroba Rio Memórias e conta pra gente qual era o cinema de rua que você frequentava. E não precisa ser no Rio não, pode ser em qualquer cidade do Brasil.
- 32:00Se você gostou do episódio, espalha ele por aí, posta nas redes, manda nos grupos, avalia a gente no seu aplicativo. Muito obrigada, um beijo e até mais. O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Casnar Leonardos por meio da Lei de Incentivo à Cultura e pelo Banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremate por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS.
- 32:30Obrigado e até o próximo episódio.
Disponível em
Todos os episódios
- 01Marielle, Amarildo, Stuart, and Rubens: present!Duração 44:44
In the premiere of Season 2, Rio Memórias connects four life stories that were cut short in Rio de Janeiro and became symbols of resistance: Marielle Franco, Amarildo de Souza, Stuart Angel and Rubens Paiva. Interviewee in this episode: Mário Magalhães.
- 02Morro do CasteloDuração 38:50
A symbol of the founding of Rio de Janeiro literally came crashing down in the early 20th century and vanished from the map. The story of Morro do Castelo, told with the help of a historic account by two former residents. Interviewee in this episode: Alberto Mussa.
- 03Neighborhood Movie TheatersDuração 32:52
Over the course of a century, Rio de Janeiro lived out a story made of dazzling theaters, huge screens, tasty popcorn, and films that shaped our lives: the magic of the neighborhood movie theaters.
- 04Palácio MonroeDuração 36:04
The incredible story of Palácio Monroe, a majestic building that traveled from one country to another, settled in Rio's Centro, was the seat of the Senate, and disappeared, leaving behind an empty square with a dry fountain. Interviewee in this episode: Eduardo Ades.
- 05Radios that are goneDuração 38:34
In the year marking the centennial of radio in Brazil, a journey through radio stations that left us longing for the past: the magic of radio soap operas, the power of newscasts, the fanaticism for great singers, and the strength of sports broadcasts. Interviewed in this episode: Edson Mauro.
- 06Cais do ValongoDuração 37:25
In the closing episode of the 2nd season, the story of the Cais do Valongo, the largest entry point for enslaved Africans in the Americas, and the repeated attempts to erase this memory. Interviewed in this episode: Eliana Alves Cruz.