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Rio de Conflitos
Episódio 05
The End of the Vargas Era
0:00faltam 43 min42:37
Transcrição
Oi, antes de começar, um aviso.
- 0:00Oi, antes de começar, um aviso. Esse episódio sobre Getúlio Vargas cita a cena do suicídio e reproduz trechos da Carta-Testamento, que é um documento histórico. Então, se esse tema é sensível para você ou se você precisa de apoio emocional, você sempre pode recorrer ao CVV, o Centro de Valorização da Vida, que atende 24 horas por dia, de graça, pelo telefone 188 ou no site cvv.org.br, ok? Então, vamos para o episódio. Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim.
- 0:30Não me acusam, insultam, não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa.
- 1:00Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação para que eu não continue a defender como sempre defendi, o povo e, principalmente, os humildes. No dia 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas estava sob enorme pressão. Aquele foi um dos meses mais tensos da história da República.
- 1:30Começou com um atentado e terminou com o Rio de Janeiro mergulhado em protestos após a morte do presidente. Hoje a gente vai te levar para dentro dos acontecimentos daquele agosto que nunca terminou. Eu sou a Gabriela Montoni e esse é o quinto e penúltimo episódio do Rio Memórias,
- 2:00um podcast inspirado na Galeria Rio de Conflitos do Museu Virtual que você encontra em riumemorias.com.br. Se você ainda não ouviu os anteriores, depois busca aí no seu celular. Mas não precisa ouvir na ordem, não. Cada episódio é uma memória independente. Já estão no ar a revolta da vacina, o contrabando de ideias na conjuração carioca, os conflitos do transporte público que não eram nem por 20 réis, nem por 20 centavos e a revolta da chibata com o almirante negro João Cândido.
- 2:30Hoje você vai desembarcar na turbulência que se espalhou pelo Rio logo depois do gesto extremo no Palácio do Catete. Mas antes eu quero que você entenda direitinho qual era o cenário da política brasileira naquele momento. Getúlio Vargas estava no seu segundo mandato como presidente. O primeiro tinha durado 15 anos, de 1930 a 1945, incluindo o golpe que instituiu a ditadura do Estado Novo.
- 3:00Foi um período de avanços nas leis trabalhistas, mas também de repressão brutal aos inimigos políticos, inclusive com práticas de tortura. Seis anos depois, em 1951, ele volta ao poder, não mais como um ditador, mas eleito democraticamente com grande apoio da classe trabalhadora. Só que a oposição não dava trégua.
- 3:30Mas eu digo a vossa excelência, preze o Brasil que repousa na sua autoridade. Esse é o deputado federal Afonso Arinos de Melo Franco. Tenha coragem de perceber que o seu governo é hoje um estuário de lama e um estuário de sangue. Observe que o seu palácio é o vasculhador da sociedade. Afonso Arinos era o líder da UDN. a União Democrática Nacional, partido conservador e moralista,
- 4:00que fazia oposição feroz a Getúlio Vargas. Dá pra ver pelo tom da fala, né? Esse foi um discurso célebre que ele fez no dia 9 de agosto de 54. Senhor presidente, eu lhe falo como presidente, reflita nas suas responsabilidades de presidente e tome afinal aquela deliberação que é a última que um presidente do seu estado pode tomar. Ao longo de meia hora, o tom vai subindo numa oratória impecável.
- 4:30Eu falo ao homem de Turubarda, e eu lhe digo, lembre-se da glória da sua terra e do ímpeto do seu povo. Lembre-se, homem, pelos pequeninos, pelos humilhados, pelos asilados. Lembre-se, homem, pelos operários, pelos poetas. Lembre-se dos homens deste país, que têm a coragem de ser um destes homens, não permanecendo no governo, se não for digno deste governo que estão indignamente exércitos.
- 5:00Esse discurso do Afonso Arinos foi uma reação ao atentado da Rua Toneleiro, que tinha acontecido cinco dias antes. A ação matou um major da Força Aérea e feriu o maior inimigo político de Getúlio, o jornalista Carlos Lacerda. Daqui a pouco a gente vai chegar no atentado Mas antes você precisa saber quem era o Lacerda E como era essa oposição que emparedava o presidente
- 5:30Aliás, não sou eu que vou te contar, não É uma das maiores autoridades nesse assunto O Getúlio estava ainda na era do rádio E o Lacerda já estava com uma nova tecnologia Dominando uma nova linguagem Que era a televisão Em que ele aparecia nos programas diante de um quadro negro Fazendo anotações numa lousa que lembram muito, assim, várias setas no PowerPoint apontando para um único culpado, que seria, no caso, Getúlio.
- 6:00Esse é o jornalista e escritor Lira Neto, autor de Getúlio, uma série biográfica em três volumes publicada pela Companhia das Letras. Ele lembra que os políticos da UDN adotavam uma estratégia que a gente vê no Brasil até hoje. Eles começam a lançar um discurso moralista, bastante moralista, de combate à corrupção, acusando o Brasil de ser governado, então, por um sindicato de ladrões. E o Lacerda era o principal expoente, Carlos Lacerda era o principal expoente
- 6:30desta oposição mais ruidosa e mais incisiva. Então, Lacerda, em seu jornal, a tribuna da imprensa, chegou a dizer na manchete que o Brasil é um país governado por ladrões, se referindo a Getúlio e a sua família, e aos seus filhos. E não parava por aí, não. Esse moralismo seletivo encampado pela UDN se junta a um ardor de um patriotismo bem pedestre,
- 7:00de um ufanismo bem pedestre, de um verde-amarelismo intenso. E aí entra o terceiro e último elemento dessa equação, que é a acusação de que o Brasil está caminhando para uma república sindicalista, para uma república comunista. Então isso consegue capturar os corações e mentes da classe média Que passa a ver Getúlio como a encarnação deste mal Era essa a imagem que Carlos Lacerda queria colar no presidente Sempre pedindo a renúncia nos discursos
- 7:30Ele compreenda que se a maioria relativa dos brasileiros Lhe deu um respeitado voto de confiança Já que ele não pode corresponder a essa confiança corresponda ao menos ao seu sentimento de respeito por si mesmo, e não se desrespeita. Enquanto a UDN apelava para o conservadorismo e fazia barulho com um monte de acusações, os militares também pressionavam. Seis meses antes daquele agosto trágico,
- 8:0042 coronéis e 39 tenentes-coronéis do Exército fizeram um manifesto em tom de ameaça, redigido por Goberido Couto e Silva, que dez anos depois seria uma figura central da ditadura. O Manifesto dos Coronéis atacava a proposta de João Goulart, o ministro do Trabalho, de duplicar o salário mínimo para 2.400 cruzeiros. Getúlio acabou negociando a saída de Jango, que, sete anos depois, chegaria à presidência e, em 1964, seria deposto pelo golpe civil-militar.
- 8:30O ministro da Guerra também foi demitido e, naquele momento, o governo já corria sério risco. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se a dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo, se desencadearam os ódios.
- 9:00Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, Tudo suportando em silêncio Tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo Para defender o povo que agora se queda desamparado Foi no meio dessa tensão, com a possibilidade de golpe no horizonte Que o telefone tocou na casa do ministro da Justiça, o Tancredo Neves Na madrugada de 5 de agosto Do outro lado da linha estava o coronel da polícia, Milton Gonçalves
- 9:30Informando que Carlos Lacerda tinha sofrido uma emboscada na frente de casa na Rua Toneleiro, em Copacabana, e estava ferido no pé. A reação do Tancredo foi de surpresa e, ao mesmo tempo, uma dose de alívio, porque podia ter sido bem pior, né? Mas o coronel respirou e completou a informação.
- 10:00O major Rubens Vaz, oficial da aeronáutica que acompanhava a Lacerda, morreu no atentado. Ou seja, o maior inimigo político de Vargas estava ferido e um oficial das Forças Armadas tinha sido assassinado. Tancredo sabia que aquilo seria um desastre, que a repercussão seria enorme E claro, que a oposição faria de tudo para culpar o presidente Aqui estão as notícias de todo mundo e as mais importantes notícias locais
- 10:30O seu repórter é oferecido pela Expo Brasileiro de Petróleo e pelo seu revendedor Expo E atenção ouvintes, Rio, o jornalista Carlos Lacerda foi ferido na madrugada de hoje no atentado a fala em frente à sua residência na Rua Toneleiros, em Copacabana. No atentado, perdeu a vida o major aviador Rubens Florentino Vaz, que acompanhava o diretor da tribuna da imprensa. O fato é que tudo isso junto, tudo isso reunido,
- 11:00chega num momento crítico, quando o chefe da guarda pessoal de Getúlio, Gregório Fortunato, é envolvido no cérebro e atentado da Rua Toneleiro, em que o Lacerda, este adversário Mas Furibondo de Getúlio é alvo de uma emboscada A apuração, teoricamente, ficaria com a Polícia Civil Comandada pelo Tancredo no Ministério da Justiça Mas a Aeronáutica colocou um grupo de oficiais na linha de frente Com total autonomia
- 11:30Esse grupo ficou conhecido como a República do Galeão E as investigações foram uma pancada no governo Na casa do Gregório Fortunato Encontraram documentos mostrando que ele tinha comprado uma fazenda de um dos filhos de Getúlio, o Maneco. O Gregório era só um chefe de segurança pessoal, não teria capital suficiente para comprar uma fazenda, uma instância no Rio Grande do Sul, o que levantou sérias suspeitas. O curioso é que o Maneco, nesse momento, estava de lua de mel em Paris,
- 12:00e Getúlio ligou para ele, ligou para o filho Maneco e disse volte imediatamente e venha esclarecer esse assunto. Não acredito que isso seja verdade, Mas eu quero ouvir de sua própria boca. A cena em que pai e filho se encontram foi presenciada por várias testemunhas, incluindo Tancredo e Alzira, a filha do presidente. O Getúlio só faz uma pergunta. Getúlio pergunta ao Maneco, sim ou não? Não há outra resposta. Você vendeu ou não a fazenda para o Gregório?
- 12:30E o Maneco admite que sim. E Getúlio pergunta, mas com que dinheiro o Gregório ia te pagar? O Maneco disse que o Gregório tinha explicado que o João Goulart, o Jango, tinha conseguido, por intermédio do seu prestígio, um empréstimo no Banco do Brasil com o qual ele saudaria o pagamento. E o Getúlio, segundo as testemunhas, teria baixado a cabeça e disse isso não é uma explicação, isso é uma confissão de culpa. O meu filho vende uma fazenda da minha família para o chefe da minha segurança pessoal
- 13:00E para que esse chefe da minha segurança pessoal honre a dívida, ele pede um empréstimo no banco oficial por intermédio do meu ex-ministro do trabalho, meu braço direito na política. E diz assim, isso eu não admito, isso nós realmente estamos fritos. Sobre a participação direta de Getúlio no atentado, o Lira Neto, que estudou o caso com profundidade, é categórico.
- 13:30Não acredito que houve qualquer envolvimento pessoal do próprio Getúlio na questão. Restam graves e sérias suspeitas de que sim, outras pessoas muito próximas a ele, familiares inclusive, estiveram no centro dos acontecimentos da Rua Toneleiro. Mas ele não. Isso eu tenho absoluta convicção. Só que o chefe da segurança estava envolvido na emboscada, um dos filhos do presidente era suspeito de ser o mandante, outro filho estava envolvido nesse caso da negociação da fazenda.
- 14:00Resumindo, o poderoso Getúlio Vargas chega no auge da fragilidade. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Os militares que já estavam absolutamente irados com Getúlio começam a exigir a sua renúncia.
- 14:30E aí os episódios se desenrolam até o momento crítico do dia 24 de agosto. Ele tinha a firme convicção, como chegou a declarar pouco antes de morrer, que só morto sairia do catete. Ele jamais sairia do palácio do catete preso. Ele jamais sairia pela porta dos fundos do catete. E foi no palácio que ele se recolheu e se entrincherou nos seus últimos dias. Entrincherou mesmo, porque ele mandou instalar sacos de areia e se cercou de funcionários armados com metralhadoras para resistir a um possível golpe.
- 15:00Àquela altura, ele já não tinha o apoio popular. Todo mundo pedia sua renúncia, dos udenistas aos comunistas. Até os ministros que ele reuniu na madrugada do dia 24 de agosto se dividiram. Getúlio chega a sugerir uma licença enquanto durassem as investigações do atentado na Toneleiro. O fato é que os militares não aceitam a simples licença e exigem a sua imediata renúncia
- 15:30e a imediata saída do palácio. E o Getúlio recebe essa notícia de manhã cedo pelo filho, Lutero, outro filho, e ele pergunta a Lutero, então quer dizer que eu estou deposto? Ele já percebeu que estava deposto, que os militares iam arrancá-lo, se fosse necessário, à força do palácio. Isso já era de manhã e Getúlio pede para ficar sozinho. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação.
- 16:00Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão e aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém.
- 16:30Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate. Esses trechos que você está ouvindo desde o início do episódio são da Carta Testamento de Getúlio. Existe até uma recomendação dos órgãos de saúde para que cartas e bilhetes de suicídio não sejam divulgados. Nesse caso, é um documento histórico amplamente conhecido e planejado para ser um manifesto político.
- 17:00A gente optou por não mostrar aqui a outra carta que ele escreveu, uma versão mais espontânea e pessoal. Ele chegou a rascunhar a lápis, uma primeira versão do que viria a ser a carta-testamento. essa carta escrita a lápis ela é descoberta por acaso pelo ajudante de ordens que vem sob a mesa e entrega o rascunho desta carta para a filha, a Uzira que era a mais sensata da turma que era a mais sensata dos filhos
- 17:30e a Uzira cobra o pai perguntando o que é aquilo aquilo é uma carta de suicídio o que ele está pensando, o que ele está tramando e Getúlio desconversa, diz que não é nada daquilo O presidente explica que aquilo era só um depoimento para o caso de o palácio ser invadido. Então, ele deixou aquele rascunho por ali. Mas entregou um outro rascunho ao secretário particular dele, o Maciel, e disse, Maciel, como ele sempre fazia, inclusive com seus discursos,
- 18:00Maciel, dá uma penteada neste texto, dá uma trabalhada neste texto. E Getúlio, que não sabia bater a máquina, inclusive, nunca aprendeu a bater a máquina assim como também nunca aprendeu a amarrar os sapatos duas características interessantes num homem tão poderoso e tão cheio de habilidades, não sabia bater a máquina e não sabia amarrar o sapato bom, ele não sabia bater a máquina e o Maciel portanto é que redige a versão final
- 18:30do que viria a ser a carta testamento lutei contra a espoliação do Brasil lutei contra a espoliação do povo tenho lutado de peito aberto, o ódio As infâmias calúnias não abateram o meu ânimo Eu vos dei a minha vida Agora ofereço a minha morte Nada receio Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade E saio da vida para entrar na história
- 19:00Na manhã do dia 24 de agosto Houve-se um tiro nos corredores do palácio Os familiares correm para o quarto E encontram Getúlio deitado na cama, um corpo meio fora da cama, com um revólver ainda fumegante e um buraco no peito, no pijama de listas bordô e a altura do monograma GV e havia uma mancha enorme de sangue.
- 19:30A família o rodeia, a Alzira tenta falar com ele, e ali ele, sem dizer nada, mas deixando nitidamente que estava reconhecendo a filha e tudo mais, dá os seus últimos suspiros e morre.
- 20:00Na cabeceira da cama, a Alzira encontra a carta. Sabendo que o pai não datilografava, ela vai direto no Maciel. E o Maciel explica-se, dizendo que Getúlio foi tão inteligente, inteligente, foi tão astuto, que dizia para ele que aquilo não era uma carta de suicida, mas sim uma carta de resistência. Se lermos hoje a carta
- 20:30testamento nesta perspectiva, dá para ter esta dupla interpretação, ou seja, de um homem que ia resistir, e se os soldados invadissem o palácio, ele morreria de armas na mão, ou seja, não era uma carta de um suicida, era alguém que morreria em pé, que morreria de arma na mão contra os seus inimigos, que iriam usurpar-lhe o poder.
- 21:00Você que está ouvindo, você já tinha pensado nisso? A complexidade dessa carta, que realmente pode ser lida como uma declaração de quem estava disposto a enfrentar os militares caso eles invadissem o palácio. De todo modo, essa carta passa como talvez um dos documentos mais importantes da história do Brasil, e curiosamente não foi escrita pelo Getúlio, foi escrita pelo secretário, pelo Maciel, mas o teor da carta e o significado do gesto
- 21:30foi tão eloquente que desmontou o golpe que já estava na rua. Os militares já estavam se considerando donos do poder. Lacerda, segundo o relato do próprio Lacerda, já havia estourado uma garrafa de champanhe, apesar de ser de manhã, para comemorar a deposição do presidente. Só que, a partir dali, tudo mudou.
- 22:00É sempre bom lembrar que o ato do suicídio em si nunca pode ser exaltado como um fator de mudanças. O que virou o país do avesso foi a manobra política idealizada por Getúlio. Ele vinha perdendo apoio popular e a comoção gigantesca levou o povo às ruas no Rio de Janeiro e em outras capitais do país. Os militares, que estavam prontos para arrancar o presidente do palácio e assumir o poder, tiveram que recuar.
- 22:30E o próprio Lacerda, que já estava abrindo champanhe, passou de herói a vilão. Para ajudar a gente a entender essa virada de jogo, eu vou chamar mais um especialista em Vargas, o historiador Jorge Ferreira. Muito bem, estou a postos. Ele é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo Professor da Universidade Federal Fluminense E autor do livro O Imaginário Trabalhista Getulismo, PTB e Cultura Política Popular
- 23:00O próprio Lacerda, quando ele vê o que aconteceu, diz o seguinte Mais uma vez Vargas nos derrotou Porque ele ficou para o resto da vida com a pecha de que ele foi o assassino de Vargas E a UDN também O jornal Última Hora, maior concorrente da tribuna da imprensa de Lacerda Foi o único a circular no dia 24, com uma edição extra que teve tiragem de 800 mil exemplares
- 23:30A capa tinha uma manchete em letras garrafais Matou-se Vargas, o presidente cumpriu a palavra, só morto sairei do catete Às 8h30 da manhã de hoje, o maior líder popular que o povo brasileiro já conheceu e encerrou de modo dramático sua grande vida. Um tiro no coração. Antes mesmo da edição extra chegar nas bancas, os repórteres da Última Hora foram às ruas para repercutir o fato e muita gente ainda nem sabia da notícia.
- 24:00Ali, na manhã do dia 24, já foi ficando nítido que haveria uma grande comoção. E o povo já tinha um alvo escolhido, como disse um ferroviário entrevistado pelo jornal. Ah, foi tudo graças à camarilha de Lacerda e aos reacionários da UDN que o cercam. Eles roubaram do Brasil seu mais expressivo homem público. Jamais conseguirão substituído. Houve grandes explosões de revoltas populares, sobretudo no Rio de Janeiro e em Porto Alegre.
- 24:30Em outras capitais também ocorreram. Nas capitais do Nordeste, houve passeatas, encontros de populares chorando nas ruas. Em São Paulo ocorreram algumas greves, mas no Rio de Janeiro a população ficou dois dias nas ruas, não apenas no centro da cidade, mas nos subúrbios também. Então agora a gente vai levar você para o meio da ação durante esses dois dias de tumulto no Rio de Janeiro.
- 25:00O movimento começa no centro, com pelo menos três grandes grupos de populares indignados carregando paus e pedras. No meio da manhã, esses grupos se encontraram. Ali já eram milhares de pessoas revoltadas, gritando, arrancando qualquer material político colado nos postes e ateando fogo. Os jornais que faziam oposição a Getúlio também foram atacados. Sobretudo o Globo, caminhões de jornais do Globo foram virados.
- 25:30O jornal Tribuno da Imprensa, a Notícia, o Mundo, também séries de partidos políticos de oposição e não apenas da UDN. comitês eleitorais, era uma época de eleição. Então, por exemplo, todas as rádios passaram a tocar música clássica em respeito à morte de vários. A Rádio Globo continuou com a programação normal. A população quis invadir a rádio em questão de respeito.
- 26:00As bandeiras foram colocadas a meio pau, mas no prédio do jornal Tribunal da Imprensa, não. A população quis invadir o prédio e obrigou uma negociação com a polícia. A polícia a polícia botou a bandeira a meio-pau. Quando deu meio-dia, a polícia já não conseguia conter a população. O Exército cercou os prédios dos jornais e das rádios para evitar as invasões. Nas ruas tinha a Polícia Militar, Polícia Civil e também a Polícia Especial, que era o batalhão de choque da época.
- 26:30Só que essa Polícia Especial tinha sido criada pelo próprio Getúlio em 1932. E era uma polícia violenta. não era apenas no cacetete, eles tinham metralhadoras, eles tinham bombas, não apenas de grama primogênia. Ocorre que eles tinham barbas como o seu patrono. E eles saíram dos quartéis com a taja preta no braço, muitos choravam, iam chorando. E o que acontecia? A polícia civil atacava os manifestantes, muitas vezes provocava os manifestantes.
- 27:00Então a polícia especial que saiu para reprimir o povo Acabou defendendo o povo da polícia civil Quer dizer, é uma coisa inusitada A polícia anti-motim sai às ruas para proteger os amotinados E os amotinados se identificam com a polícia anti-motim E o que unia eles é a figura de Getúlio Vargas Aquela altura o que também unia todos os manifestantes Era o ódio a Carlos Lacerda
- 27:30E o jornalista se refugiou na Embaixada dos Estados Unidos, que teve a fachada apedrejada. A cavalaria chegou, mas um soldado do Exército disparou um tiro de fuzil, que assustou os cavalos e criou um cenário de caos absoluto. A cena ficou ainda mais cinematográfica quando a multidão ameaçou invadir a Embaixada. Laceda subiu até o terraço do prédio.
- 28:00Um helicóptero da Força Aérea Brasileira pousou para resgatar o jornalista e tirou ele dali, levando até o navio cruzador Barroso, na entrada da Baía de Guanabara. É simbólico que Lacerda tenha sido salvo numa operação que uniu as três forças armadas. O exército evitando a invasão no prédio, a aeronáutica fazendo resgate de helicóptero e a marinha cedendo um navio como abrigo.
- 28:30Enquanto isso, no Palácio do Catete, a multidão tentava chegar até o velório do presidente. Os jornais calculam que um milhão de pessoas tentou ver o Corpo de Vargas, Mas somente de 70 a 100 mil conseguiram Filas se formavam ao lado das quatro ruas do Palácio do Catete, imensas As pessoas, inconformadas com a demora, começavam a protestar E um locutor pedia calma pelos alto-falantes do palácio
- 29:00Só às cinco e meia da tarde, o caixão chegou ao salão do gabinete militar E, com a execução do hino nacional, a comoção explodiu Se você buscar por Velório de Getúlio Vargas na internet As fotos são muito impressionantes. Mas como aqui eu não consigo te mostrar as fotos,
- 29:30eu vou te ajudar a imaginar essas cenas dentro do palácio. Vamos lá. Um salão abarrotado de gente, um calor sufocante. Centenas de coroas de flores, das mais simples às mais sofisticadas. Homens e mulheres aos prantos, tentando chegar perto do caixão ou literalmente se jogando em cima dele. A visitação no Palácio do Catete foi uma cena dramática. Calcula que duas mil pessoas passaram mal dentro do Palácio do Catete,
- 30:00com crises nervosas, desmaios. Foi tudo muito inesperado, muito dramático. Esse clima atravessou a madrugada e foi até às oito da manhã do dia 25. Depois disso, o corpo foi levado para o aeroporto Santos Dumont, já que o enterro seria em São Borja, cidade natal de Getúlio Vargas, no Rio Grande do Sul. No trajeto pela Praia do Flamengo e pela Avenida Beira Mar, mais de um milhão de pessoas acompanharam o cortejo. No meio do caminho, o povo tirou o caixão de cima do carro de corpo de bombeiros e carregou.
- 30:30Tropas do Exército da Aeronáutica fizeram um cordão de isolamento na entrada do aeroporto, mas a multidão ficou concentrada na frente do quartel da terceira zona aérea, bem perto da pista de decolagem. Faltando cinco minutos para as dez da manhã do dia 25, o avião partiu. As pessoas choravam e balançavam lenços brancos. Assim como no velório, muita gente passou mal e desmaiou.
- 31:00Só que o avião foi sumindo no horizonte e as pessoas foram percebendo que lugar era aquele. O povo estava bem em frente a um quartel da aeronáutica que teve papel central na crise. Ninguém arredou pé dali e às dez e meia o clima já era muito tenso. Algumas pessoas discursavam contra os militares Outras atacavam verbalmente os soldados e oficiais que faziam o cordão de isolamento E a reação foi pesada
- 31:30Tiros de fuzil e morteiros foram disparados contra a multidão Correria, gritaria, mulheres com crianças no colo, gente sendo pisoteada Depois de 15 minutos de violência, um jovem morreu E mais de 40 pessoas ficaram gravemente feridas Dali, as manifestações se espalharam pelo centro da cidade. Na Cinelândia, um orador discursava na sede do Partido Trabalhista Brasileiro
- 32:00quando a Polícia Civil chegou com algumas caminhonetes e o brucutu, o carro-tanque usado para dispersar aglomerações. A multidão arrancou bancos das praças, montou barricadas e atiou fogo nas viaturas. A situação só se acalmou com a chegada da Polícia Especial, que se identificava com os ideais de Getúlio. O livro do Jorge Ferreira registra um apelo do policial Oscar Soares de Oliveira Que entregou seu revólver para um colega e com a taja de luto no braço
- 32:30Pegou um megafone e discursou Meus senhores, nós também estamos sentindo, nós também estamos de luto por nosso chefe, nosso líder Mas vão embora para as suas casas Tenham paciência, pelo amor de Deus O exército vai chegar e haverá muitos mortos A situação é triste, mas evitem o mal maior A população entendeu o pedido e, quando o exército chegou pronto para disparar seus morteiros, o protesto já tinha terminado.
- 33:00Eu falei com muitas pessoas que viveram na época de Getúlio e todas elas sabem onde estavam no dia 24 de agosto, quando receberam a notícia. Aqui, de novo, o jornalista Lira Neto. Eu perguntei uma vez isso à minha mãe, que, por acaso, tinha o mesmo nome da ex-mulher do Getúlio, por pura coincidência. ela era Darcy e a mulher do Teatro era Darcy Vargas, mas era a mesma grafia
- 33:30e ela disse eu estava indo para a escola no dia 24 de manhã quando o porteiro disse que a escola estava fechada porque o presidente tinha morrido e ela disse que volta pra casa e quando chega em casa o pai e a mãe dela estão ao pé do rádio chorando então assim há uma comoção nacional e no Rio de Janeiro por ser o epicentro dos acontecimentos, essa comoção foi ainda maior. Esses dois dias de comoção e conflitos no Rio e no Brasil foram um balde de água fria na oposição.
- 34:00O próprio Lacerda, que sempre fazia discursos muito enfáticos, como você já ouviu aqui nesse episódio, foi obrigado a recuar. Eu quero que você ouça uma declaração dele à Rádio Globo no dia 28 de agosto, quatro dias depois do suicídio de Getúlio. A palavra é Carlos Lacerda. Repara como até o tom de voz já é mais baixo.
- 34:30Ele critica os protestos contra a imprensa e tenta se defender.
- 35:00Lacerda perdeu força e os militares também.
- 35:30Com o povo nas ruas, eles recuaram e o golpe, de fato, só foi acontecer uma década depois, em 1964. Mas o Jorge Ferreira lembra que Getúlio não adiou o golpe, como a gente costuma ouvir. Vargas não adiou golpe nenhum. Vargas sustou um golpe que estava em andamento. Quando você diz isso, quando se diz isso, Vargas adiou o golpe de 64 por 10 anos, em primeiro lugar, está se dizendo que o golpe de 64 era inevitável,
- 36:00ia acontecer, está escrito nas estrelas, o mapa astral do Brasil está lá, não tinha como, é inelutável, inevitável. Eu quero dizer que em história nada é inevitável, nada é inevitável. O golpe de 64 aconteceu, não tem jeito, não pode voltar atrás. Mas se ele aconteceu, ele poderia não ter acontecido. Ou poderia ter acontecido uma outra coisa que não sabemos.
- 36:30Mas não era inevitável. Tanto não era que foi evitado ali em 1954 a partir de um gesto extremo cometido por um político de extremos. É claro que aqui nesse episódio a gente tratou da segunda passagem de Getúlio pela presidência. Mas não dá para esquecer a primeira com a ditadura do Estado Novo. O que sobra de Getúlio, o que resta de Getúlio, o legado de Getúlio é exatamente isso, ou seja, este homem contraditório que fez o Brasil sair de um estágio de país eminentemente agrário, quase eu diria pré-capitalista, para um país que entrega a posteridade como país em vias de industrialização, um país moderno,
- 37:00com todos os percalços que foram acontecendo ao longo deste percurso, inclusive uma terrível ditadura, inclusive a terrível ditadura do Estado Novo. De um lado, talvez a historiografia ressalte mais o Vargas o ditador do Estado Novo,
- 37:30mas o que ficou do Vargas foi o trabalhismo. Trabalhadores do Brasil! Esse é o discurso do Getúlio no Dia do Trabalhador, em 1951, quando ele voltou à presidência depois de seis anos, agora eleito pelo povo. Depois de quase seis de afastamento, durante os quais nunca me saíram do pensamento a imagem e a lembrança do grato e longo convívio que mantive convosco,
- 38:00Eis-me outra vez aqui ao vosso lado Para falar com a familiaridade amiga de outros tempos E para dizer que voltei Assim de defender os interesses mais legítimos do povo
- 38:30E promover as medidas indispensáveis ao bem-estar dos trabalhadores é tentar compreender que Getúlio encarnou tudo aquilo que nós temos de melhor e de pior tudo aquilo que o Brasil tem de melhor e pior passa por ele eu agradeço muito ao Lira Neto, ao Jorge Ferreira
- 39:00e a você que ouviu até aqui fica a dica para procurar os livros dele se você quiser se aprofundar mais no assunto eu espero que você tenha gostado do episódio e só falta mais um No encerramento da série, a gente vai te levar numa viagem com várias escalas ao longo de um século inteiro. Você vai perceber na prática como a rua é um personagem fundamental na história política do Rio de Janeiro e do Brasil, desde as processões abolicionistas até os comícios pelas diretas.
- 39:30O velador, uma primeira avaliação sua do comício aqui no Rio. Bom, eu considero que foi um grande acontecimento, que nos orgulha, nos enche de conforto moral, Pela ordem que existiu, por tudo que ocorreu aqui, a população do Rio de Janeiro realmente correspondeu ao que o Brasil estava esperando dela. Mesmo com tantas setas, tantas mutretas, com tantas tetas, com tantas metas, a gente vai levando, a gente vai levando.
- 40:00A gente vai levando A gente vai levando as diretas Conta pra mim, você tá gostando do podcast? A gente tá no Instagram, no arroba Rio Memórias E no Museu Virtual, riomemórias.com.br Onde você pode navegar pela Galeria Rio de Conflitos
- 40:30E por vários outros momentos da história da cidade Eu sou a Gabriela Montoni E esse podcast é uma produção da Escuta Aqui com coordenação do Rodrigo Alves, que também grava as locuções adicionais e escreve o roteiro. A supervisão de roteiro é do Thales Ramos. A pesquisa é do Danilo Marques, do Projeto República. Porque eu já estou com a pesquisa dos motins já mais engrenada, sabe? Sei bem, Danilo. Eu adorei a pesquisa. No início do episódio, você lembra?
- 41:00Teve a carta-testamento do Getúlio. Quem leu os trechos pra gente foi o Gustavo Gonçalves. As entrevistas foram feitas pela Jamile Boulê, A montagem, edição e sonorização são da Clara Costa e quem compõe a nossa trilha sonora original é o Gabriel Falcão. Aliás, vocês precisam ouvir os áudios que a Clara e o Gabriel trocam para combinar as músicas. Eu nem sei como é que eles se entendem. É só para ver se rola esse acréscimo desse instrumento que eu não estou sabendo falar o nome.
- 41:30É uma atmosfera, sabe? Um negócio um pouco mais... Como que eu explico? Um negócio mais airado, assim, sabe? Ih, não entendi nada. Mas funcionou, né? Isso que importa. Aliás, o que você tá achando da trilha? Comenta lá no nosso Instagram e compartilha o podcast por aí. Não esquece. A gente tá em todos os tocadores. Deezer, Spotify, Apple, Orelo, Google. É só escolher.
- 42:00Obrigada e até o próximo episódio. O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, e pelo Banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremate, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS. Obrigado e até o próximo episódio.
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- 01Vaccine RevoltDuração 45:52
In 1904, the decree of mandatory vaccination against smallpox transformed Rio de Janeiro into a war zone. Beyond the scientific denialism and the moralism of the time, the protests and riots in various neighborhoods reveal a population that was already at the limit with the authoritarian reforms of mayor Pereira Passos.
- 02Smuggling of ideasDuração 39:26
In 1794, a group of doctors and intellectuals created a clandestine information network to dodge the crown's repression and spread throughout Rio de Janeiro concepts of freedom, the common good, and ideals inspired by the French Revolution.
- 03Not 20 réis, not 20 centsDuração 40:53
We travel through three periods in which protests against public transportation fare prices evolved into movements that helped change the history of Rio de Janeiro and the country: the Vintém Revolt (1880), the Tram Revolt (1956), and the June Journeys (2013).
- 04Chibata RevoltDuração 42:26
In 1910, João Cândido, the Black Admiral, leads a movement against the physical punishments imposed on ships. Sailors refuse to accept the legacy of slavery and take control of important vessels of the Brazilian Navy in a historic uprising.
- 05The End of the Vargas EraDuração 42:37
In August 1954, the riots that followed Getúlio Vargas's suicide revealed the web of intrigue that dominated Brazilian politics in the 1950s. The president's extreme act and the population's outrage halted the coup d'état that was taking shape.
- 06The body and soul of the streetsDuração 38:08
From abolitionist processions to resistance against the dictatorship, Rio de Janeiro has always had the street as the protagonist of its political struggles. It is on the street, over several crucial moments, such as the Rally of March 13th at Central, the Passeata dos 100 mil (March of the 100,000), the Diretas movement, that the podcast's final episode takes place.