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Rio de Conflitos

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Rio de Conflitos

Episódio 02

Smuggling of ideas

0:00faltam 39 min39:26

Transcrição

Oi! Segura firme aí que hoje a gente está dentro de um navio que saiu de Portugal e está quase

  1. 0:00Oi! Segura firme aí que hoje a gente está dentro de um navio que saiu de Portugal e está quase chegando no Porto do Rio de Janeiro, só que em 1794. Nessa época tudo no Rio girava em torno
  2. 0:30do Porto. A região do Valongo concentrava o desembarque de africanos escravizados desde 1774, os viajantes e mercadorias chegavam por outro porto, no Lago do Carmo, que hoje a gente conhece como a Praça XV. Esse navio aqui, por exemplo, passou várias semanas cruzando o Oceano Atlântico com caixas e mais caixas de produtos manufaturados da metrópole e que vão ser vendidos na colônia.
  3. 1:00E o que interessa pra gente é uma caixa específica, que tá bem ali escondidinha entre as pilhas de tecido e os sacos de farinha. Aquela caixa tem um potencial explosivo enorme, suficiente para deixar a coroa portuguesa morrendo de medo. Já já você vai saber o que tem ali dentro. Mas antes, enquanto o navio não chega, deixa eu te situar direitinho em 1794. Arruma uma posição confortável aí pra você não enjoar, porque o mar tá agitado.
  4. 1:30Primeiro, deixa eu te lembrar que cinco anos antes, em 1789, aconteceram dois eventos bem importantes, um de cada lado do Atlântico. Na Europa, a Revolução Francesa feriu de morte a monarquia absolutista que governou o país durante séculos. Só que antes disso, naquele mesmo ano, uma conspiração já tinha se levantado na capitania
  5. 2:00de Minas Gerais para combater o domínio português. Era a Conjuração Mineira, ou, como você deve conhecer, a Inconfidência Mineira. O maior símbolo desse movimento, você sabe quem é, eu sei que você aprendeu na escola. É Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Ele foi preso e, depois de um longo processo, acabou condenado à morte e enforcado em 1792, no Rio de Janeiro. Dois anos depois, pronto, a gente está aqui, chacoalhando nesse navio.
  6. 2:30Esse imaginário de liberdade, nascido na França, rapidinho passou a circular pela América Portuguesa. E a coroa, claro, tratou de blindar suas colônias para sufocar qualquer conversa conspiratória. Os funcionários do império chamavam essas ideias revolucionárias de francesias. E a censura rolava solta. As obras de pensadores e filósofos franceses, como Voltaire, Rousseau, Montesquieu,
  7. 3:00nada disso podia entrar no Brasil. A mesma proibição valia para os jornais europeus, que tinham feito uma cobertura ampla das assembleias de Paris, onde essa vocação libertária ganhou força. A coroa portuguesa se apavorava só de pensar na Gazeta de Lisboa, no Correio de Londres, no Mercur de France. O problema é que, naquela época, não era fácil controlar o que vinha do mar.
  8. 3:30O comércio transatlântico era frenético, com mercadoria de todo tipo desembarcando no porto do Rio. Por isso aquela caixa dentro do navio é tão importante. A essa altura, você já imagina o que tem lá dentro, né? Ela tá cheia de livros censurados e jornais clandestinos.
  9. 4:00Os marujos traziam esse contrabando de Portugal porque eles sabiam que quando o material chegasse no porto, a venda era certa. Aquela era a matéria-prima da Conjuração do Rio de Janeiro. Uma revolução de ideias que se espalhou pela cidade em 1794 enfrentou a repressão da coroa e criou um esquema complexo para fazer o conhecimento circular.
  10. 4:30Eu sou a Gabriela Montoni e esse é o segundo episódio do podcast Rio Memórias. A cada semana eu vou te levar para conhecer conflitos históricos que aconteceram na cidade. Se você ainda não ouviu o primeiro episódio, depois busca aí no seu celular. É a história da revolta da vacina em 1904.
  11. 5:00Hoje a gente dá um salto para trás no tempo. Você vai descobrir como os cariocas inventaram uma espécie de rede social revolucionária há mais de dois séculos, quando ainda não existia nem telefone. Isso aí a gente não vai contar para o pessoal, mas eu acho que os cariocas inventaram as redes sociais lá no século XVIII, em 1794. A gente não pode contar isso para os cariocas, porque eles vão ficar convencidos.
  12. 5:30Tudo bem que fica só entre nós. Essa é a historiadora e escritora Heloísa Starling, autora do livro Ser Republicano no Brasil Colônia, A História de uma Tradição Esquecida, e coordenadora do Projeto República na Universidade Federal de Minas Gerais. É ela que vai guiar a gente por essa trama em que o conflito não é de armas, é de ideias.
  13. 6:00Aqui no Brasil, eles falavam que eram as francesias, são os princípios revolucionários, são os princípios sediciosos. Então, do ponto de vista de Portugal, chegarem no Brasil as ideias da Revolução Francesa significa colocar em risco a própria colônia. Porque na França essas ideias tiveram um efeito devastador para a monarquia. As ideias da França, as ideias da Revolução Francesa trazem tanto a ideia de república quanto um programa, digamos, republicano,
  14. 6:30no sentido de pensar igualdade, no sentido de pensar um outro conceito de liberdade. Bom, e a Revolução vai depor o rei, julgar o rei. É a segunda vez na história europeia que isso acontece. A primeira vez que um rei foi julgado foi na Inglaterra, na Revolução Inglesa do século XVII, e depois na França, na Revolução Francesa. E o rei vai ser condenado à morte, tanto ele quanto a rainha.
  15. 7:00Então, diante da Revolução Francesa, a monarquia portuguesa entra em pânico. As ideias estão fervendo dentro do Atlântico e desembarcando no Brasil, clandestinamente ou não, mas estão desembarcando. Então, vamos voltar ali para o Porto, porque muita coisa está acontecendo na Europa e esses jornais vão chegando de navio.
  16. 7:30Então, vem as notícias. O que a Assembleia Francesa está decidindo? A prisão do rei. Tudo isso chegava na mão dos letrados brasileiros, que eram médicos, escritores. Daqui a pouco eu vou te contar mais sobre eles. Você tem letrados médicos que vão participar da conjuração e que, digamos, são assinantes, combinam com os navios para esse material chegar, porque o cara, o capitão do navio, ele ganha com isso.
  17. 8:00Então, você tem um contrabando no Rio de Janeiro das ideias sediciosas, das francesias, como diziam os portugueses, as autoridades portuguesas. Mas também pense que isso chega na boca dos marinheiros, sabe? A verdade é que ninguém resiste a uma boa fofoca. Os marieiros que vinham da Europa e passavam pelas outras colônias também iam contando o que eles tinham visto. Por isso que os portugueses começaram a censurar tudo na esperança de que essas ideias não cruzassem o Atlântico.
  18. 8:30Eles queriam evitar no Brasil o que já tinha começado a acontecer, por exemplo, na ilha de São Domingos, que hoje é o Haiti. Ali já nascia uma revolução liderada pelos escravizados, que tinham destruído centenas de engenhos de açúcar, num movimento que, anos depois, levaria à abolição e à independência. Por aqui, em 1792, o Bernardo José de Lorena, que governou a capitania de São Paulo durante nove anos,
  19. 9:00recebeu uma carta com uma das previsões meio apocalípticas do ministro português dos negócios da Marinha e domínios ultramarinos, o poderoso Martinho de Melo e Castro. Os clubes estabelecidos em França atearam nas colônias francesas o fogo da revolta e da insurreição, fazendo levantar os escravos contra os seus senhores e excitando na parte francesa da ilha de São Domingos uma guerra civil entre uns e outros, em que cometeram as mais atrozes crueldades que jamais se praticaram.
  20. 9:30Então, esses jornais são proibidos. Quer dizer, você tem uma proibição, uma censura forte em Portugal e no Brasil. Mas não adianta, né? Porque o contrabando de ideias acontece bem ali no porto, na Praça XV. Ainda não existiu o aterro do Flamengo, então os navios atracavam ali, nas barbas da sede do poder. Eu acho que é muito bacana você pensar nas ideias sendo contrabandeadas.
  21. 10:00Eu queria ser uma contrabandista de ideias. E é muito legal, no caso do Rio de Janeiro, porque eles desembarcam clandestinos em frente ao Palácio do Governador. em frente ao palácio do Conde de Resende o Conde de Resende se você gosta de histórias com heróis e vilões, pronto esse é o nosso vilão
  22. 10:30a autoridade portuguesa mais poderosa no Brasil naquele momento ele é o vice-rei do Brasil ele toma posse aqui em 1790 se chama José Luiz de Castro é o Conde de Resende José Luiz de Castro foi o 13º vice-rei do Brasil. Ficou 11 anos nesse cargo como representante direto da coroa portuguesa. E conde de Resende era um título de nobreza criado pelo rei José I
  23. 11:00para o Antônio José de Castro, pai do José Luiz. O conde está acima do visconde e abaixo do marquês. Mas, na verdade, é só um título pomposo. O que importa mesmo é que o José Luiz de Castro era o vice-rei. E você quer uma prova de que esse Conde de Resende era um vilão de verdade? E é ele que comanda o enforcamento do Tiradentes como esse grande espetáculo público para que as pessoas se assustassem.
  24. 11:30Pois é. Dois anos antes da Conjuração Carioca, ele comandou em praça pública a execução do líder da Conjuração Mineira. Foi no Rio de Janeiro, num sábado 21 de abril de 1792. Tiradentes foi levado da prisão até o local do enforcamento numa procissão pelas ruas A leitura da sentença durou 18 horas Justiça que a rainha Nossa Senhora manda fazer a este infame réu Joaquim José da Silva Xavier
  25. 12:00Pelo horroroso crime de rebelião e alta traição de que se constituiu chefe e cabeça na capitania de Minas Gerais com a mais escandalosa temeridade contra a real soberana e suprema autoridade da mesma senhora que Deus guarde. Tiradentes foi enforcado e esquartejado diante de uma população chocada com aquela violência. Sua cabeça foi colocada num poste.
  26. 12:30Aquele era um recado claro do conde de Resende. Olha o que acontece com quem conspira contra o rei de Portugal. É muito impressionante porque é no Rio de Janeiro. E ele cria algo que é para as pessoas verem, sabe aquela coisa espetacular, para você ver e pensar assim, olha o que acontece com quem conspira. Só que dois anos depois daquele enforcamento, a conspiração vai se tornando inevitável e a pressão é enorme.
  27. 13:00Ele está muito preocupado com essas ideias em circulação, porque ele está recebendo pressão de Portugal, que está dizendo, olha, as autoridades lá em Lisboa estão dizendo, olha, fica atento, tem problemas, olha a França, vai que a França resolve desembarcar aí no Rio de Janeiro, atacar o Rio de Janeiro. Então, tem uma pressão que vem de Lisboa avisando a ele, olha o que está acontecendo no Haiti, tem umas cartas que ele vai recebendo, uma correspondência. Mas até ali não tinha nada oficial.
  28. 13:30Um belo dia, o vice-rei está lá no seu gabinete e entra um sujeito com uma correspondência. Ele recebe a denúncia, ele recebe uma denúncia escrita. Demorou, mas aconteceu. Um dedo duro oficial. O Conde de Resende fica sabendo disso porque tem uma delação.
  29. 14:00No Brasil tem muito delator. Ô, se tem. E aí o cara vai lá e delata. Fala, ó, estão discutindo coisas desse tipo. Contra a religião, né? A presença dos padres, ideias republicanas, ideias de que o conhecimento tem a ver com o lugar que nós estamos e não com a matriz portuguesa. Depois viriam outras delações, mas essa era a primeira vez que alguém detalhava as reuniões clandestinas
  30. 14:30para discutir essas ideias revolucionárias. Citava até os livros franceses que chegavam por contrabando nos navios. Esse delator, ele fala para o Ponte Resende assim, olha, e eles estão discutindo um sujeito horroroso, que é contra os padres, que é contra a igreja, que é contra a monarquia, um tal de Voltaire. É Voltaire. E aí está escrito lá Voltaire. Côde de Resende enlouquece. Voltaire, Voltaire, Voltaire. Puts, grila. Vai lá e fecha tudo.
  31. 15:00Na hora que o Côde de Resende recebe a notícia de que está tendo uma conspiração no Rio, está tendo uma conjuração. E aí ele fica apavorado porque, além dessas ideias da conjuração mineira, daquilo que está vindo do Atlântico, ele fala, mas no Rio de Janeiro não dá, né? Aí ele fala, vamos reprimir. Ele começa a aprender. O vice-rei se lança numa cruzada contra as ideias. Uma devassa que mira nas pessoas, mas não se dá conta
  32. 15:30de que é impossível prender o conhecimento. Para te mostrar como nasce esse conhecimento e quem são essas pessoas, eu te convido para mais um passeio pelo centro do Rio. Eu quero te levar para a sede da Sociedade Literária, um lugar fundamental nessa história que a gente está contando aqui. Ela ficava na Rua do Cano, que hoje é a 7 de setembro, com essa barulheira aí de trânsito o dia inteiro.
  33. 16:00Eu estou aqui na Rua 7 de setembro, na antiga Rua do Cano, bem onde ficava a sede da Sociedade Literária. Essa é a Jamile Boulê, a nossa repórter e produtora. Estou com a voz abafada porque estou falando de máscara por conta da pandemia. Mais de dois séculos depois, a Jamile não encontrou nenhum vestígio da Sociedade Literária ali na 7 de setembro. Mas é estranho imaginar aquela realidade, porque agora que a gente vê VLT, muitos entregadores, muitas pessoas de bicicleta, muita gente saindo do trabalho naquela correria para voltar para casa,
  34. 16:30é totalmente diferente. Então vamos tentar mexer um pouquinho nesse som? Tirar os carros, as sirenes, colocar as carroças passando. Agora, sim, a gente está na Rua do Cano. Ela era uma transversal da Ladeira da Misericórdia, que foi a primeira via pública aberta no
  35. 17:00Rio de Janeiro. O nome era esse porque ela seguia um cano de pedra que jogava no mar as águas da Lagoa de Santo Antônio, onde hoje é o Largo da Carioca. E agora eu vou te levar até o primeiro andar de um sobrado para presenciar uma das reuniões semanais da Sociedade Literária. O dono do Sobrado era o poeta mineiro Manuel Inácio da Silva Alvarenga.
  36. 17:30Nascido em Vila Rica, filho de um músico negro e mãe desconhecida, ele saiu do Rio de Janeiro e foi estudar em Portugal, onde se formou em Direito pela Universidade de Coimbra e depois voltou. Esse poeta era professor no Rio de Janeiro. Ele era amigo de alguns letrados da Conjuração Mineira E depois ele deu aula para uma série de pessoas que vão participar da independência do Brasil. Então, o Antônio Cândido diz isso, olha, o Silva Alvarenga é o intermediário
  37. 18:00entre a conjuração mineira e a independência do Brasil. Legal, né? Legal demais. E mais legal ainda pensar que naquela época as sociedades literárias não eram só literárias. Mas são sociedades de letrados que estão preocupados em construir o conhecimento, a partir da realidade do lugar que eles estão. No Rio de Janeiro, o grupo tinha muitos médicos que, assim como Silva Varenga,
  38. 18:30também saíram para estudar no exterior. Esses médicos eram jovens e eles, então, estudaram na Europa, porque não tem universidade no Brasil. Estudaram em Montpellier. Então, obviamente, aprenderam o francês. E eles traduzem todas as notícias do que está acontecendo na França. E aí eles estão reunidos e estão dizendo que eles vão usar o conhecimento deles em prol da população do Rio de Janeiro.
  39. 19:00Eram vários papéis que não se sabe se eram gazetas, mas que eram escritas em folha de papel e na língua francesa, onde se tratava da Revolução da França. E havia vários discursos sobre a sua liberdade, sobre os quais fizeram várias reflexões tendentes a fazer odiosas as monarquias, mostrando uma grande paixão contra elas e inclinações às repúblicas, encarecendo a felicidade que os povos gozam nas mesmas.
  40. 19:30Esse é um trecho do depoimento do advogado José Bernardo da Silveira Frade, que frequentou várias reuniões da sociedade literária e depois contou tudo nos autos da Devaça, que documentaram todo o processo de perseguição aos letrados comandado pelo Conde de Rezende. E a ironia é que, anos antes, a mesma sociedade tinha sido comandada pelo vice-rei anterior. O que acontece no Brasil é que você tem o vice-rei muda,
  41. 20:00a sociedade literária do Rio de Janeiro fecha provisoriamente, porque a principal figura foi embora. E aí, quando ela retoma, os integrantes, os letrados, acham que devem retomar, mas eles retomam sem a presença do Estado. E aí eles criam novos regulamentos, e aí eles eliminam a censura e começam a discutir tudo o que eles quiserem discutir.
  42. 20:30Nem tudo ali era revolução. Eles contavam anedotas, conversavam sobre amenidades, mas tinha muita informação circulando. e o que conduzia aquelas conversas era a certeza de que o conhecimento deve ser usado em proveito da coletividade. Pela primeira vez no Brasil, se falava no conceito de bem comum. Bem comum é aquilo que a gente faz, em comum, para o nosso bem. A gente decide que é importante o que nós podemos fazer para o nosso bem
  43. 21:00para proteger a saúde. Então, vamos criar o SUS. Não é isso? A primeira vez que se falou em bem comum no Brasil, nesse conceito tão importante para a democracia e para a república foi na conjuração do Rio de Janeiro. Os médicos faziam estudos complexos, expedições científicas para mapear a flora brasileira e descobrir medicamentos naturais. O que nós vamos fazer? Nós vamos fazer um implasto? Nós vamos fazer uma pomada? Nós vamos fazer um chá? E aí ele ensina, ele faz o livro, publica o livro e ensina para os boticários.
  44. 21:30Isso é o bem comum. Esses médicos são sensacionais. Todas essas pesquisas tinham a mesma premissa. A produção de conhecimento servia à coroa, mas precisava ser útil à colônia. E nas reuniões da sociedade literária, a ciência andava de mãos dadas com as ideias políticas. A outra ideia que eles introduzem também, pela primeira vez no Brasil, é a ideia da democracia como igualdade.
  45. 22:00A república precisa ser democrática e a democracia não é o governo da anarquia, não é nada disso. A democracia é a possibilidade de governarmos reconhecendo que somos todos iguais. Quatro anos depois, esse conceito inclusive vai ser ampliado na conjuração baiana. O Rio de Janeiro coloca o princípio da igualdade. A Bahia diz que a igualdade é a inclusão, o que é importante porque nós estamos lidando
  46. 22:30com uma sociedade profundamente desigual e com uma sociedade hierárquica e com escravizados. E essa importância que tem, pela primeira vez, você dizer, nesta sociedade, inclusive, em que você tem as camadas dos libertos, a população pobre, você dizer, olha, somos iguais. E ser igual significa que nós devemos obedecer a lei que nós mesmos fizermos. Esse é o pressuposto da conjuração do Rio de Janeiro.
  47. 23:00Não é à toa que o Conde Rezende quer prender todo mundo. E ele que lute, porque a rede social de dois séculos atrás não estava para brincadeira, não. Então, a primeira coisa que ele faz, o relator diz que é na sociedade literária, na casa, então ele prende, ele prende o Silvão Varenga. Ele queria botar um paradeiro na transmissão, e é impossível. Então ele vai prendendo, ele vai prendendo.
  48. 23:30Ele não entendeu que você não para uma rede social, você não consegue. A ideia dele, me parece, é essa. Eu vou conseguir, eu vou achar o centro disso e vou eliminar, tá? Mas o problema é que não tem mais centro. Os médicos da sociedade literária estavam criando novos remédios, Então, eles tinham uma relação muito próxima com os boticários, que eram os farmacêuticos da época.
  49. 24:00E todo mundo se conhecia. A população da cidade do Rio de Janeiro, que hoje é de quase 7 milhões de pessoas, em 1794 era de 43 mil, sendo 28 mil livres e 15 mil escravizados. De uma forma ou de outra, todo mundo passava pelas boticas. Você sabe o que é uma botica? Eu queria te convidar para entrar em uma delas, a Botica do Amarante, na Rua Direita, que depois virou a Primeiro de Março.
  50. 24:30Pode vir, fica à vontade. A botica é uma espécie de farmácia de manipulação, onde os boticários preparam os remédios ali na hora, enquanto o cliente espera no balcão. Todo mundo tem que ir na farmácia. E a farmácia, no século XVIII, ela demora porque o remédio é fabricado na hora, é artesanal.
  51. 25:00Então você encosta ali no balcão e o boticário vai te contando. Ó, na França o rei fez isso. Eu vou falar baixinho pra ninguém ouvir, porque é uma coisa meio escondida. Mas a Botica do Amarante promovia umas reuniões noturnas pra discutir política. Às dez da noite eles fechavam as portas e o papo ia até uma hora da manhã.
  52. 25:30Esse circuito de informação se repetia em várias boticas. Pertinho da sociedade literária tinha uma, a do Vitorino. A do José Luiz da Silva ficava no campo de São Domingos, bem perto do lugar onde Tiradentes tinha sido enforcado dois anos antes. Não por acaso, hoje a gente conhece esse lugar como Praça Tiradentes.
  53. 26:00A Boutica do Agostinho, na Rua dos Ourives, acabou virando a primeira farmácia homeopática do Brasil. Em cada um desses lugares, você comprava remédio, fofocava sobre a vida alheia e ainda ganhava de brinde uns ideais da Revolução Francesa. Por isso que os autos da devassa comandada pelo vice-rei têm vários relatos de testemunhas descrevendo cenas que aconteciam naqueles balcões. Aparecia um bacharel chamado Mariano, filho de um homem denominado pela alcunha Obiscoito,
  54. 26:30o qual trazia o Correio da Europa. E aí eu lia, mostrando a grande satisfação dos progressos que os franceses faziam, louvando-os de grandes homens e de grandes guerreiros. Algumas boutiques têm histórias no mínimo singulares, como uma na Rua da Quitanda. Naquela época se chamava Rua Sucuçarará, que muita gente acha que é um nome indígena. Mas não é, ouve só.
  55. 27:00Você tem uma boutique de um português, é uma boutique bacana, boutique do Lessa. E a boutique dele era especializada em tratamento de hemorróido. E aí ele levava o sujeito até a porta, o cliente, e dizia naquele português arrevesado, sucu-sarará, sucu-sarará, aos berros, para o cara ficar animado. E a rua passou a chamar sucu-sarará. E aí, na hora que eu ia olhar nos catálogos do Rio de Janeiro,
  56. 27:30falava assim, nome indígena, tal, tal, tal, tal, tal, entendeu? Não é legal? Então tem histórias incríveis, né? Bom, se sarou, se não sarou, a gente nunca vai saber. Mas o fato é que os boticários foram fundamentais nessa transmissão de conhecimento. Eu quero muito que a pandemia acabe, para eu ir ao centro do Rio de Janeiro,
  57. 28:00andar ali e ficar imaginando as boticas e a sociedade literária. Com os letrados produzindo conhecimentos e distribuindo pelas boutiques, não tinha jeito. Por mais que o Conde de Resende continuasse prendendo um monte de gente, as francesias já estavam na boca do povo. E se você pensar que nas boutiques tem que ir todo tipo de gente, então não é uma circulação de ideias só dos letrados ou só do grupo tal.
  58. 28:30Não, ela está andando por todos os estratos da sociedade. A comunicação oral se espalhava pelo centro da cidade. Só na região da Praça XV, pertinho do porto onde chegavam os livros e jornais proibidos, eram vários pontos de encontro. As leis dos franceses são boas, pela igualdade que introduziram entre os homens. A guerra dos republicanos é justa. Os reis da Europa são todos uns ladrões.
  59. 29:00Ouça bem, meu caro relojueiro. Os franceses executaram o plano perfeitamente. A guerra foi um sucesso. A justiça feita aos homens de Minas, na verdade, foi injusta. Eles estavam lutando por ideias de liberdade, isso sim. Matar o rei não é pecado. A morte do rei da França foi justa. As leis dos franceses são boas pela igualdade que introduziam entre os homens. Peraí, gente, segura a fofoca aí um segundinho, senão o pessoal não vai conseguir me escutar. Uh, pronto. Agora melhorou, né?
  60. 29:30Era assim que funcionava. As pessoas assimilavam aquelas informações, discutiam em grupo, dispersavam rapidinho para fugir da repressão e passavam as ideias adiante. Esse circuito se forma no Largo do Carmo, na Praia de Dom Manuel, nas escadarias da Igreja do Hospício, no chafariz do Mestre Valentim e daqui a pouco a cidade toda já sabe o que aquele povo tanto conversava no sobrado da Rua do Cano. Enquanto isso, a devassa segue ouvindo dezenas de testemunhas.
  61. 30:00Está tudo registrado. Tem uma cena lá que é sensacional porque o cara diz para os juízes assim, não, eu falei lá na praia, eu falei das ideias das francesias mas muito pior foi fulano de tal que estava conversando com o ciclano no chafariz do mestre Valentim, eu escondi atrás do chafariz, ouvi a conversa e eles estavam falando mal do rei esse cara era o
  62. 30:30Manuel Pereira Landim, que trabalhava com marcenaria e era um tremendo de um fofoqueiro. Toda hora ele aparece nos autos. Diz Manuel Pereira Landim que ouviu dizer a um pardo chamado Gregório do Amaral que tinha ouvido dizer a um alfaiate, também pardo, aonde costuma ir o médico Jacinto, que o dito médico tinha suas cartinhas de Lisboa, de onde sabia melhor as novidades da França. Landim não escondia nada. Era a alegria do conde de Resende, né?
  63. 31:00Então, veja, e aí ele vai prendendo, vai prendendo, vai prendendo, mas não consegue, como é que vai fazer? O estrago já estava feito. Aí ninguém segura. Olha se eles não inventaram as redes sociais. O vice-rei fez o que pôde. Logo depois daquela primeira delação, ele iniciou a devassa, interrogou bastante gente, fechou a sede da Sociedade Literária e trancou 11 integrantes do grupo durante dois anos na Fortaleza da Conceição,
  64. 31:30incluindo o líder Silva Alvarenga. Aliás, a Fortaleza continua lá, tombada pelo patrimônio histórico e artístico nacional no alto do Morro da Conceição, no bairro da Saúde. Mas as prisões não impediram a circulação das ideias e os presos mal podiam ser julgados porque não tinham uma ação, um crime. Essa é outra dificuldade de você criminalizar ideias porque você não tem um fato, entendeu? Então, ao mesmo tempo, por exemplo, no caso do Silvão Varenga,
  65. 32:00ele sai destruído da prisão. Não deve ser fácil você ficar dois anos na prisão aí, mas não tinha como manter as pessoas presas, porque eram só ideias. E a Heloísa cita um livro chamado O Romanceiro da Inconfidência, com poemas da Cecília Meirelles. É o livro mais bonito que existe sobre a Conjuração Mineira. Lá tem um poema que diz assim. Ai palavras, ai palavras, que estranha potência a vossa.
  66. 32:30Sois de vento e desnovento, no vento que não retorna. E em tão rápida existência, tudo se forma e transforma. Entendeu? Então, você não prende palavra. Não tem crime aí. A colônia não foi emancipada, a monarquia não caiu, mas a conjuração do Rio de Janeiro teve um efeito explosivo naquele cenário do fim do século XVIII. Assim como as outras conjurações que vieram na sequência A Baiana, em 1798
  67. 33:00E a Revolução Pernambucana, em 1817 Não tem uma relação direta Entre nenhuma dessas três conjurações E os projetos de independência Mas as relações indiretas Porque você construiu uma linguagem E essa linguagem política vai ser apropriada No Rio de Janeiro de diferentes maneiras Então, as ideias de república, de democracia, de constituição, de liberdade, estão em circulação no Brasil.
  68. 33:30A gente sempre pensa na independência do Brasil vista do Rio de Janeiro, mas, na verdade, nós temos dois projetos de independência. O vitorioso foi do Pedro I no Rio de Janeiro, mas esse que está em circulação é a outra independência, que está propondo república, federalismo, pensando liberdade, pensando democracia, pensando outro tipo de constituição. Então tem uma história aí muito rica, eu acho.
  69. 34:00Aliás, é legal a Heloísa explicar por que é que ela chama esse movimento de conjuração e não de inconfidência. A mineira, por exemplo, muita gente só conhece como inconfidência. A república tentou se apropriar da conjuração mineira e passou a chamá-los de inconfidentes. Mas, inconfidente é o crime. Todos eles são presos pelo crime de inconfidência, que é o crime de agir contra o seu soberano. Quando a gente chama de inconfidente,
  70. 34:30nós estamos dizendo que eles cometeram um crime. Eles se viam como conjurados. E conjuração é um negócio muito interessante, porque está lá no século XVI, Maquiavel fala o que é uma conjuração. Ele diz, olha, conjuração é um tipo específico de conspiração em que as pessoas conspiram para recuperar ou instaurar a liberdade e a república. Entendeu? E foi isso que eles fizeram.
  71. 35:00E se hoje a gente fala tanto em democracia no Brasil, é preciso olhar para quase 230 anos atrás. Para aqueles médicos, para o poeta Silvio Alvarenga, para os boticários, para quem se reunia no chafariz, para quem foi perseguido e preso? A democracia começa no Rio de Janeiro, com essa história. A ideia da democracia, isso que nós temos que proteger hoje, que nós temos que honrar a conjuração do Rio de Janeiro,
  72. 35:30por causa disso. A ideia de democracia como princípio da igualdade, a ideia do bem comum como aquilo que nós vamos fazer juntos para o nosso bem, isso nasce no Rio de Janeiro. Nós temos que ser dignos desses conjurados, você não acha, não? Isso porque a Heloísa abriu o nosso episódio dizendo que não queria deixar os cariocas convencidos com essa invenção precoce da rede social, lembra? Eu acho que a gente devia aprender com os cariocas.
  73. 36:00Eles inventaram o WhatsApp no final do século XVIII, fizeram muito bem feito e se esqueceram do serviço. então vamos lembrar os cariocas que beleza de WhatsApp que eles criaram no final do século XVIII e aí a gente podia retomar de onde eles pararam né? Combinado! A gente agradece demais a Heloísa Starling por essa aula no episódio de hoje
  74. 36:30Muito obrigada! Obrigada, viu Heloísa? Um beijo! Eu que te agradeço, um beijo pra você Funcionou? E você que tá aí ouvindo, se prepara porque no próximo episódio do podcast Rio Memórias, a revolução não vai ser só de ideias, não. A gente vai viajar pra três períodos da história do Rio em que o preço da passagem no transporte público foi
  75. 37:00o estopim pra revoltas muito maiores. Gostou da viagem de hoje? Conta pra mim o que você achou. A gente está no Instagram, na arroba rio-memórias, e você também pode visitar as galerias históricas no site
  76. 37:30rio-memórias.com.br Quer saber mais sobre a conjuração? Procure o livro da Heloísa, Ser Republicano no Brasil Colônia. Tem ainda o Inconfidência no Império, da Anitta Correia Lima de Almeida, e dá pra buscar na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP a tese de doutorado do Gustavo Henrique Tuna, com o título Silva Alvarenga, representante das Luzes, na América Portuguesa. Quem fez a entrevista
  77. 38:00com a Heloísa foi a Jamile Boulay, com acompanhamento técnico da Clara Costa, que também fez a montagem, a edição e a sonorização do episódio. Clara, alguma consideração aí? Eu tô ouvindo um retorno, tô tentando descobrir de onde é. A trilha sonora original foi composta pelo Gabriel Falcão. O roteiro é do Rodrigo Alves e do Thales Ramos. A pesquisa é da própria Luísa Starling e do Danilo Marques, do Projeto República da UFMG.
  78. 38:30O podcast Rio Memórias é uma produção da Escuta Aqui com coordenação do Rodrigo Alves. Eu sou a Gabriela Montoni e a gente tem um encontro marcado na próxima semana com o terceiro episódio. Obrigada e até lá! O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo, por meio da Lei de Incentivo
  79. 39:00à Cultura, e pelo banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremate, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS. Obrigado e até o próximo episódio.

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Todos os episódios

  1. 01Vaccine Revolt
    Duração 45:52

    In 1904, the decree of mandatory vaccination against smallpox transformed Rio de Janeiro into a war zone. Beyond the scientific denialism and the moralism of the time, the protests and riots in various neighborhoods reveal a population that was already at the limit with the authoritarian reforms of mayor Pereira Passos.

  2. 02Smuggling of ideas
    Duração 39:26

    In 1794, a group of doctors and intellectuals created a clandestine information network to dodge the crown's repression and spread throughout Rio de Janeiro concepts of freedom, the common good, and ideals inspired by the French Revolution.

  3. 03Not 20 réis, not 20 cents
    Duração 40:53

    We travel through three periods in which protests against public transportation fare prices evolved into movements that helped change the history of Rio de Janeiro and the country: the Vintém Revolt (1880), the Tram Revolt (1956), and the June Journeys (2013).

  4. 04Chibata Revolt
    Duração 42:26

    In 1910, João Cândido, the Black Admiral, leads a movement against the physical punishments imposed on ships. Sailors refuse to accept the legacy of slavery and take control of important vessels of the Brazilian Navy in a historic uprising.

  5. 05The End of the Vargas Era
    Duração 42:37

    In August 1954, the riots that followed Getúlio Vargas's suicide revealed the web of intrigue that dominated Brazilian politics in the 1950s. The president's extreme act and the population's outrage halted the coup d'état that was taking shape.

  6. 06The body and soul of the streets
    Duração 38:08

    From abolitionist processions to resistance against the dictatorship, Rio de Janeiro has always had the street as the protagonist of its political struggles. It is on the street, over several crucial moments, such as the Rally of March 13th at Central, the Passeata dos 100 mil (March of the 100,000), the Diretas movement, that the podcast's final episode takes place.