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Rio de Conflitos

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Rio de Conflitos

Episódio 03

Not 20 réis, not 20 cents

0:00faltam 41 min40:53

Transcrição

Opa, tudo bem aí? Cheguei, pode vir, pode vir.

  1. 0:00Opa, tudo bem aí? Cheguei, pode vir, pode vir. Tá vazio o ônibus, pode entrar. Escolha aí o seu assento, fica à vontade que a gente já vai sair. Mas antes, deixa eu te perguntar, quanto tempo você acha que leva uma viagem pro passado, saindo de 2013, passando por 1956 e depois voltando mais ainda até 1880?
  2. 0:30Você tá fazendo conta aí, né? Tá abrindo a calculadora do celular que eu te conheço Mas não precisa não, eu te ajudo São 133 anos É basicamente essa viagem que a gente vai fazer hoje E eu sei que você já tá pensando 133 anos dentro de um ônibus, ninguém aguenta E você tem razão, mas não vai ser de ônibus não
  3. 1:00E olha, eu vou te falar que tem meio de transporte que demora mais ainda Se você embarcar num bonde, tipo aqueles elétricos dos anos 50 aí você vai ver o que é demora se bem que demorado mesmo é aquele bonde do século XIX com tração animal puxado por burros mas eu nem sei
  4. 1:30porque eu estou te falando isso a gente não vai nem de ônibus nem de bonde pra sua sorte o nosso meio de transporte hoje é o áudio é esse podcast aqui e vai dar tempo de testemunhar três momentos no Rio de Janeiro em que o transporte público foi o estopim de conflitos históricos Você vai perceber que, no fim das contas, não era por causa de bonde ou de ônibus,
  5. 2:00não era por causa de 20 réis ou 20 centavos. Mas alguns protestos contra reajustes nas passagens já fizeram a cidade explodir em tumultos, com reações violentas da polícia, quebra-quebra e uma confusão danada. E mais que isso, foram revoltas com efeito direto na política do país.
  6. 2:30Hoje a gente começa com a população irritada em 1880, quando a gota d'água foi um imposto na tarifa dos bondes, aqueles que eram puxados pelos burros. A insatisfação contra o império ganhou força na Revolta do Vintém e acabou arranhando a imagem do Dom Pedro II e da monarquia brasileira.
  7. 3:00Depois, a gente dá um pulo em meados do século XX, quando o governo tentou emplacar um aumento de 100% na passagem do bonde, e ali já eram os elétricos. A Revolta do Bond, em 1956, teve uns protestos bem inusitados, com piano e mesa de ping-pong bloqueando os trilhos. Aquilo deixou o presidente Juscelino Kubitschek em estado de alerta. Mas teve muita truculência também. Assim como em 2013, e isso eu sei que você lembra.
  8. 3:30As famosas jornadas de junho começaram por causa de um aumento de 20 centavos, mas isso foi só a ignição de um processo muito mais complexo, que não tinha nada a ver com transporte. Os efeitos políticos daquelas manifestações a gente vê até hoje no Brasil.
  9. 4:00Eu sou a Gabriela Montoni e esse é o terceiro episódio do podcast Rio Memórias. A cada semana você vai mergulhar em conflitos históricos que aconteceram na cidade. E se você ainda não ouviu os dois primeiros, sobre a revolta da vacina em 1904 e a conjuração carioca em 1794, depois busca aí no seu celular. Não precisa ouvir na ordem não, fica à vontade. Mas agora, se ajeita aí na poltrona, de preferência coloca o seu fone de ouvido
  10. 4:30e nem precisa se preocupar em separar o dinheiro da passagem. Relaxa que hoje é por minha conta. Bom, vamos começar do começo, né?
  11. 5:00A gente tá em dezembro de 1879. O Rio de Janeiro era a capital do Império e boa parte da cidade era coberta pelos bondos. O bonde puxado a burros era o grande transporte coletivo. Todo mundo no Rio andava nele.
  12. 5:30Esse é o Franklin Martins, jornalista e autor da série de livros Quem Foi Que Inventou o Brasil? Os bondes eram, na época, um grande ponto de encontro da cidade. O bonde puxado a burro ainda não era elétrico, entende? Todo mundo usava os bondes no Rio. Não que a sociedade não fosse desigual, claro que era. A população naquela época crescia muito rápido, passando dos 500 mil habitantes. Os mais ricos reclamavam da multiplicação dos cortiços, onde viviam as pessoas mais pobres, os imigrantes italianos e portugueses,
  13. 6:00os negros libertos, todos em condições muito ruins de moradia. A gente falou disso aqui no episódio 1, lembra? Com a Operação Bota Baixo no comecinho do século XX. Ali, no fim do século XIX, essa tensão social já era grande. Mas os bondes eram usados por gente de todas as classes, porque os abastados se deslocavam até outros bairros para as atividades de lazer. E os mais pobres, que moravam longe do trabalho, precisavam do transporte para se deslocar.
  14. 6:30Esse tráfego intenso e desordenado deixava a cidade meio caótica. Ok, bastante caótica. Ouve só essa crônica da época escrita pelo ator e dramaturgo Francisco Correia Vazques na Gazeta da Tade Nem a febre amarela, nem a bexiga, nem a cólera podem competir com os estragos desse mal que nos acompanha por toda parte Qual a razão de semelhante desprezo por uma epidemia que ameaça a todo momento as nossas vidas?
  15. 7:00Os leitores já devem ter adivinhado aonde eu quero chegar Eu falo do bonde Quem transita num desses espatifadores da humanidade ou anda a pé por essas ruas não tem licença para pensar nos seus negócios. Não pode ter um momento de distração. Muita gente morria atropelada pelos bondes. Os bondes andavam em cima de trilhos, mas com burros, quer dizer, puxando. E, às vezes, quando o cocheiro queria frear, não conseguia.
  16. 7:30Então, volta e meia, morria alguém atropelado. Então, não era uma coisa simples. Entendo. E, para entender ainda melhor, eu vou chamar mais uma especialista aqui para a nossa conversa. A socióloga Ângela Alonso, professora da USP e autora dos livros Ideias em Movimento, a geração 1870 na crise do Brasil Império e Flores, Votos e Balas, o movimento abolicionista brasileiro. Falando em flores e balas, a Ângela já começa lembrando que fazer manifestação não era nenhuma novidade no século XIX.
  17. 8:00A opinião pública tem uma imagem muito equivocada do Brasil Império Quando pensa numa sociedade amorfa, pacata, é uma sociedade que está se manifestando o tempo todo. E as impaciências já vinham bem antes de 1880. Porque, na verdade, vinham vindo desde a década anterior. Tem uma grande insatisfação contra o império. Então, tem as manifestações abolicionistas, tem as manifestações republicanas,
  18. 8:30tem as manifestações científicas, anticlericalistas, digamos assim, além de manifestações de tipo cultural, etc. Durante as décadas de 70 e 80 no Império, você tem uma grande mobilização da sociedade em eventos públicos, coletivos, manifestações. Aí, no dia 13 de dezembro de 1879,
  19. 9:00essa sociedade que já acumulava aborrecimentos recebe a notícia de que, na virada do ano, em 1º de janeiro de 1880, entraria em vigor um novo imposto. Para aliviar a situação no orçamento da coroa, o ministro da Fazenda, Afonso Celso de Assis Figueiredo, teve a brilhante ideia de cobrar uma taxa de 20 réis, ou 1 vintém, em cima do preço da passagem do bonde. Na prática, era um aumento de 10% na tarifa,
  20. 9:30um tributo que ia direto no bolso dos passageiros. E não importa se a pessoa mora numa linda chácara em Botafogo ou num cortiço no centro. Todo mundo ia ter que pagar um vintém a mais para subir no bonde. Ficou com esse nome, Revolta do Vintém, né? Mas eu acho que ali tem uma questão mais geral, que é sobre a maneira pela qual o Estado está se relacionando, e aí, nesse caso, naquele momento, o governo liberal,
  21. 10:00está se relacionando com a distribuição de bens, recursos, propriedades no império. Quem é que eles estão resolvendo taxar? Então eu acho que tem muito mais a ver com essa distribuição da taxação dos impostos em geral do que com a questão diária. Alguns dias antes daquele 13 de dezembro, quando o imposto ainda estava sendo discutido no parlamento, parte da imprensa começou a repercutir o caso e criticar a intenção da Coroa.
  22. 10:30Depois do anúncio oficial, essa reação cresceu E quando chegou o Natal, já havia quase um consenso nos jornais De que aquela medida era uma lambança Os mais conservadores, como o Jornal do Comércio Já colocaram as barbas de molho pedindo que a população evitasse sair às ruas O governo também armou a retranca e soltou logo uma nota oficial Proibindo reuniões públicas Mas não teve jeito Eu quero que você se imagine no campo de São Cristóvão
  23. 11:00Ali onde hoje tem o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, a famosa Feira de São Cristóvão. Só que a gente está em 28 de dezembro de 1879, com umas 5 mil pessoas aglomeradas para ouvir um discurso. Porque o dono do microfone ali, o microfone imaginário no caso, é o José Lopes da Silva Trovão, o Lopes Trovão. Que, aliás, hoje é o nome de uma rua importante em Niterói.
  24. 11:30Ele era um jornalista muito conhecido e o maior editador republicano daquele momento. Como ainda não tinham inventado uma caixa de som potente, ele vai na garganta mesmo. Abre a janela de um sobrado às cinco da tarde e dali faz um discurso para o povo. Depois de ler uma petição que pedia a revogação do imposto do bonde sob aplausos, ele sugere que a multidão marche de forma pacífica até o Paço da Boa Vista para entregar a petição a ninguém menos que o imperador Dom Pedro II.
  25. 12:00Assim que a multidão começa a se deslocar pela rua São Luís Gonzaga, surge outro personagem importante dessa história, o senhor Pindaíba. Era o segundo delegado de polícia da corte. Com uma linha de cavalaria e mais de uma centena de agentes armados com os cacetetes que eram carinhosamente chamados de bengalas de Petrópolis,
  26. 12:30o Sr. Pindaíba ordena que Lopes Trovão interrompa o percurso. O porta-voz da multidão não se intimida e a caminhada segue até a Rua do Imperador. Só que na entrada do palácio tinha um pelotão da cavalaria. Não dava para avançar. Com a noite caindo, a multidão foi se dispersando e horas depois apareceu do nada um mensageiro da coroa dizendo que, ok, o imperador aceitaria receber uma comissão com alguns líderes. Além de Lopes Trovão, essa comissão tinha nomes de peso, como José do Patrocínio, figura central do movimento abolicionista
  27. 13:00Mas a demora de Dom Pedro II já tinha feito a multidão desistir, muita gente já tinha ido embora Resultado, a petição não foi entregue Diante daquele impasse, os dias seguintes seriam bem mais agitados e violentos O ano novo chegou, o imposto do Vintém começou a vigorar e, olha,
  28. 13:30surpreendentemente, até que tudo parecia sossegado na manhã do dia 1º de janeiro de 1880. Algumas empresas de bonde até instruíram os condutores a não insistir na cobrança da taxa se a pessoa não quisesse pagar. Aí deu meio-dia naquela quinta-feira e quem reapareceu?
  29. 14:00Lopes Trovão. No chafariz do Largo do Passo, ele fez mais um discurso e pediu que a população resistisse de forma pacífica. As pessoas saíram dali e foram formando pequenos grupos pelo centro da cidade. Na Uruguaiana, na Carioca, no Largo de São Francisco. Aí chegaram as forças policiais e o cenário saiu do controle. A população começou a jogar pedras nos bondes, bater nos condutores e arrancar os trilhos do chão.
  30. 14:30Os destroços eram usados para formar barricadas nas ruas do centro. Colaborou muito para que isso pegasse fogo, o mesmo que também fez com que junho de 2013 também pegasse fogo, que é a repressão desproporcional. Porque a polícia veio feroz. Então você tem uma atitude do Estado em relação aos manifestantes
  31. 15:00que transcende o que o cidadão médio pode considerar de bom senso. O fato é que aqueles dias turbulentos no início de janeiro intensificaram o debate em torno do imposto, que foi perdendo força nos meses seguintes. O senador liberal José Antônio Saraiva criou um novo gabinete para discutir o tema e em abril as próprias empresas de bonde pediram ao governo que a taxa fosse abolida.
  32. 15:30Cada vez mais passageiros se recusavam a pagar o vintém até que em 5 de setembro o governo suspendeu de vez a cobrança. E como disse a Ângela, o que parecia ser uma revolta de transporte público acabou se tornando algo muito maior. No caso do vintém, parece, porque a gente sempre olha para o evento isolado, parece que acabou ali, resolveu ali. Mas aquele caldo vai dar nos grandes eventos pela abolição da escravidão,
  33. 16:00nos grandes eventos pela república. E pensar que Dom Pedro II tinha certeza de que aquele clima de insatisfação não ia respingar nele. No dia 2 de janeiro, no auge dos protestos, ele chegou a comentar com a Condessa de Barral, que foi sua grande paixão, Eu creio que as desordens não têm caráter político. Aham, vai achando. Não é casual que quem está na liderança da revolta do Vintém
  34. 16:30esteja depois na Procuração da República. Então você vê os mesmos personagens transitando. E 2013 é a mesma coisa, vai dar nas grandes manifestações dos anos seguintes que foram relevantes não só no processo do impeachment, como na eleição do Bolsonaro. Já já a gente vai completar essa ponte de 1880 até 2013 para lembrar as jornadas de junho.
  35. 17:00Mas antes, tem uma escala no meio dessa viagem, em 1956, para visitar um momento em que a população carioca se revoltou de forma bastante inusitada contra o aumento da tarifa do bonde. Lembrando que ali nos anos 50 já era o bonde elétrico. O Brasil era governado por Juscelino Kubitschek, cheque, o Rio de Janeiro era a capital da República. E os bondes continuavam sendo o grande meio de transporte coletivo
  36. 17:30junto com os trens. Aqui de novo o Franklin Martins. Para o subúrbio eram os trens. Para a Zona Norte e Zona Sul eram basicamente os bondes. Embora já também tinha ônibus na S-56, mas os bondes eram o principal transporte coletivo junto com os trens. A passagem do bonde custava um cruzeiro. Uma opção boa e barata. Mas, no dia 29 de maio de 1956, a prefeitura autorizou um reajuste de 100% na tarifa.
  37. 18:00Da noite para o dia, o valor ia dobrar de um para dois cruzeiros. Evidentemente, teve uma indignação monumental no Rio contra o governo e contra a Light, que era quem tinha o monopólio do transporte de bondes elétricos no Rio de Janeiro. O prefeito do Rio, na época, era o Negrão de Lima, que hoje dá nome a um famoso viaduto em Madureira, reduto da cultura black carioca. Mas além desses personagens históricos, que hoje são nomes de ruas e viadutos,
  38. 18:30a diferença é que a Revolta do Bond, em 1956, introduziu um novo ator nesse cenário político, a classe estudantil. Mais especificamente, a União Nacional dos Estudantes, que alguns anos depois teria um papel vital na luta contra a ditadura civil-militar. O dia seguinte ao anúncio do aumento era uma quarta-feira, 30 de maio, e os discursos contra a Light já estavam bem inflamados. A Uni tratou de capitalizar essa insatisfação e, já no fim da tarde,
  39. 19:00liderou universitários e secundaristas para paralisar vários pontos estratégicos por onde os bondes passavam. Muito parecido com o que foi feito lá na revolta dos empenhos. Com uma singela diferença. Lá eles tiravam os burros, espancavam os cocheiros. Aí eles fizeram o quê? Os estudantes usaram como armas a criatividade e o deboche. Eles botavam mesa de ping-pong na frente dos trilhos, ficavam jogando ping-pong e o bonde não podia passar.
  40. 19:30Botavam piano, ficavam tocando música, ficavam jogando butão, ficavam jogando xadrez. Ou seja, eles fizeram, criaram um clima de galhofa e de bagunça. que não só cumpriu a missão de impedir a passagem dos bondes, mas também desmoralizou o governo. Na esquina da Presidente Vargas, com a Avenida Passos, um piano foi colocado sobre os trilhos e os estudantes criavam ali, na hora, paródias para provocar o prefeito Negrão de Lima.
  41. 20:00Senhor Negrão, Senhor Negrão Eu vou chamá-lo de tubarão A um cruzeiro eu pago bonde A dois cruzeiros, não pago não O tabuleiro de xadrez foi usado nos trilhos do Lago do Machado Enquanto no Lago de São Francisco, você só ouviu o som das bolinhas de pingue-pongue Com a mesa instalada ali para interromper a passagem do bonde
  42. 20:30Na Praça Tiradentes, os estudantes interceptaram um dos bondes mais populares da cidade Da linha Itapiru Barcas E quem dava o show em cima dos trilhos era um cachorrinho amestrado acompanhado por um artista. Ou seja, tinha de tudo, era uma festa. O clima estava ótimo, não só entre os manifestantes, mas também entre os moradores das casas, que saíam para dar água e comida aos estudantes.
  43. 21:00Só a polícia que não estava achando muita graça naquilo. E a imprensa também. Os jornalões da época repercutiram bastante os acontecimentos. Correio da Manhã, O Globo, Última Hora deram manchetes e capas, mas naquela linha que a gente vê bastante até hoje, de destacar a desordem, a baderna, inclusive cobrando das autoridades uma repressão mais enfática. Quem saiu em defesa dos estudantes foi o jornal Imprensa Popular, ligado ao Partido Comunista Brasileiro, PCB,
  44. 21:30e não economizou nas tintas para condenar a violência da polícia. O chefe de polícia, general Magessi, desesperado diante da firmeza dos estudantes e do povo, não suportou esperar mais tempo para revelar a fisionomia de fascista e serviçal. Ao mesmo tempo que se dirigia para o catete para uma conferência com o prefeito Dalait, negrão de Lima, ordenava aos seus esbirros o ataque ao movimento pacífico dos estudantes
  45. 22:00e do povo, e iniciou o ataque contra os valentes estudantes de direito, mandando um choque da Polícia Especial destruir as mesas de xadrez que os estudantes haviam instalado sobre os trilhos. Eram cerca de 19 horas quando se deu a violência. Na sede da Uni, na Praia do Flamengo, teve aquela cena clássica do caixão para fazer o enterro simbólico do prefeito. A reação policial foi imediata. Batalhões de choque cercaram o prédio e atiraram bombas de efeito moral contra a multidão.
  46. 22:30E aqui eu chamo de volta o Franklin Martins Porque ele tem uma ligação bem familiar com essa cena Ali dentro do prédio, no meio desse clima tenso Um dos políticos da oposição era o pai dele O que aconteceu? A polícia tentou invadir o prédio da Uni Que era quem estava a União Nacional dos Estudantes Que o prédio funcionava ali na Praia do Flamengo Ela tentou invadir o prédio da Uni
  47. 23:00Nesse episódio, justamente para prender a liderança Intimidade, etc e tal e dois deputados que estavam ali que eram deputados da oposição um, Adalto Lúcio Cardoso outro, Mário Martins, que era meu pai estavam ali e disseram vocês não vão invadir o prédio da UNE, vocês não podem invadir vocês não têm o direito de invadir ficou aquele empurra, empurra acabou que os guardas agrediram os deputados, por exemplo, meu pai teve um braço quebrado com uma cacetada o que foi algo que só agravou
  48. 23:30a crise política, porque era a capital da república, e no dia seguinte Inclusive eu tenho a foto lá em casa O meu pai fazendo discurso na Câmara Denunciando a violência Com o braço engessado na tipoia E olha que o governo Juscelino Não era um governo que partia para repressão Aquilo ali teve muito a ver com A atitude do prefeito Negrão de Lima Que era quem tinha dado o aumento E que não conseguiu Segurar a crise política E acabou embarcando numa reação muito violenta O presidente JK Que vivia os primeiros meses de governo
  49. 24:00estava numa viagem a Belo Horizonte e voltou às pressas para o Rio quando soube dos confrontos entre manifestantes e policiais nos dias 30 e 31 de maio. Ele tinha medo, inclusive, que aquilo pudesse ser um pretexto para mais uma tentativa de golpe por parte da União Democrática Nacional, a UDN, como tinha acontecido no ano anterior, antes mesmo da posse, no episódio conhecido como Novembrada. Os protestos da revolta do bonde se espalharam por outras capitais do país
  50. 24:30e Juscelino, assombrado pelo fantasma golpista, recebeu os estudantes no palácio. Depois de muita negociação, o aumento de 100% foi revogado. A proposta caiu pela metade e o presidente ainda ordenou a soltura de todos os estudantes que tinham sido presos. Aparentemente, tudo resolvido. E agora já dá para a gente completar a nossa viagem pulando seis décadas para frente.
  51. 25:00No dia 6 de junho de 2013, em várias capitais do país, estudantes foram às ruas para protestar. Adivinha o motivo? Aumento das tarifas de transporte público. Começou em São Paulo, onde o valor da passagem subiu de R$ 3,00 para R$ 3,20. Ali no início, o objetivo dos protestos era bem claro. Ele é a redução da passagem, a revogação do aumento.
  52. 25:30Esse é o professor de História Lucas Monteiro de Oliveira, um dos líderes do movimento Passe Livre, sendo entrevistado no programa Roda Viva da TV Cultura. O movimento, de fato, ele defende uma pauta mais ampla, ele defende a tarifa zero. Ele acha que uma vez que o transporte é essencial para garantir outros direitos, é essencial para circular pela cidade, para as pessoas se apropriarem da cidade, Ele não deveria ser pago mediante tarifa Os protestos continuaram nos dias seguintes
  53. 26:00E conforme eles foram crescendo A pauta do movimento Passe Livre foi se misturando com outras pautas A começar pela insatisfação com o sistema político Durante o governo de Dilma Rousseff E não era só uma questão de corrupção Eu acho que pensar em termos de corrupção ou não corrupção Eu acho que não é uma boa maneira Porque é a maneira pela qual os próprios movimentos pensam Uma parte dos movimentos Eu acho que a gente tem que pensar aí mais em como a sociedade está vendo a gestão do Estado
  54. 26:30e para onde devem ir os recursos do Estado. Grupos que ocupavam lugares opostos no tabuleiro político foram às ruas ao mesmo tempo. Um lado diz assim, esse Estado, ele é corrupto, ele está sendo mal gerido, os recursos estão sendo desviados, então qual é a solução? é diminuir o Estado, tornar esse Estado mais enxuto para alguns grupos ou para outros.
  55. 27:00Ter uma direção mais autoritária do Estado, porque daí vai funcionar. E o que diz lá o outro lado, o campo socialista, autonomista, o que ele diz? Trata-se de gastar, o Estado deve ser grande, sim, o Estado deve gastar, só que ele está gastando no lugar errado. Então, eu acho que a disputa aí é mais pelo papel do Estado e pelo sentido que a intervenção do Estado deve ter na sociedade. Era como se houvesse uma guerra de nervos entre a administração pública e boa parte da sociedade.
  56. 27:30Esse é o jornalista e professor da USP, Eugênio Butti, autor do livro A Forma Bruta dos Protestos, das manifestações de junho de 2013 e a queda de Dilma Rousseff em 2016. Nessa guerra de nervos, o que transparecia era a qualidade ruim e a lentidão dos serviços públicos. Isso foi enervando, isso foi tensionando, foi provocando um acúmulo de raiva
  57. 28:00e aquilo não tinha para onde escorrer. Então, essa panela de pressão foi ficando mais e mais pressionada. O Eugênio lembra ainda de outro elemento que agitou essa panela de pressão. A Copa do Mundo, que aconteceria no Brasil no ano seguinte. E, claro, o dinheiro público usado na construção dos estádios.
  58. 28:30Havia essa construção dos estádios faraônicos em cidades onde aquilo absolutamente não fazia o menor sentido. Você vai lembrar. No meio dos protestos em junho, viralizou um vídeo gravado um ano e meio antes pelo ex-jogador Ronaldo Fenômeno, que na época era membro do comitê organizador da Copa de 2014. Está sendo gasto também muito dinheiro em saúde, em segurança, mas a gente vai receber a Copa do Mundo.
  59. 29:00Sem estádio, não faz Copa do Mundo, amigo. Não faz Copa do Mundo com hospital. Com o país virado do avesso, começou a Copa das Confederações no dia 15 de junho. No primeiro jogo do Brasil, Dilma foi vaiada pela torcida no estádio Mané Garrincha. Ela estava ao lado do então presidente da FIFA, o Josef Blatter, que fez o discurso de abertura.
  60. 29:30Ou seja, àquela altura, a insatisfação já não tinha nada a ver com os 20 centavos de aumento da passagem.
  61. 30:00A gente achou super interessante, a gente expôs a nossa insatisfação com o que está acontecendo nessa passeata, e por isso a gente está aqui, assim como a maioria dos jovens que estão aqui hoje. Tudo que está errado, a corrupção, a grana gastada nos estádios, Essa Copa, a grana absurda e a galera passa fome no país. A coisa assumiu uma proporção espantosa, porque o volume de pessoas que foi para a rua, em várias cidades ao mesmo tempo, as multidões tomavam as ruas vindas de lugar nenhum.
  62. 30:30Isso é muito importante, não havia uma coordenação, não havia palanque, Em muitos casos não havia sequer um carro de som, as multidões escorriam dos prédios, das periferias e iam para a cidade. Muito se falou na época que era um movimento sem partido.
  63. 31:00E a gente até via bandeiras aqui e ali, principalmente dos partidos pequenos. O que não tinha era uma coordenação geral. O que levava aquelas multidões para as ruas era uma coisa que não existia nem em 1956, com a Revolta do Bond, e muito menos em 1880, com a Revolta do Vintém. Era a força das redes sociais. Uma coisa que começou por causa da passagem do ônibus foi tudo aquilo que estava represada,
  64. 31:30a indignação, as pessoas se sentindo desaforadas, esquecidas, desprezadas. Essa energia represada começou finalmente a encontrar um caminho de escoamento, de vazão. E sim, o contato, o elemento precipitador, o que conseguia organizar eram as redes sociais.
  65. 32:00Mas organizar, sim. Vamos para a rua, como se dizia. As ruas do país inteiro foram tomadas pelos manifestantes ao longo daquele mês. E o Rio de Janeiro teve momentos de grande protagonismo nessa história. No dia 17 de junho, a cidade viveu uma espécie de nova passeata dos 100 mil, lembrando a famosa manifestação contra a ditadura, que também ocorreu no mês de junho, só que em 1968.
  66. 32:30Em 2013, a multidão tomou a Avenida Rio Branco num protesto que começou pacífico e terminou, já de noite, num conflito violentíssimo que ficou conhecido como a Batalha da Alérgia. A Assembleia Legislativa era o símbolo de um sistema político corroído pela corrupção no estado do Rio de Janeiro. Vale lembrar que o então governador Sérgio Cabral Filho seria preso três anos depois pela Polícia Federal
  67. 33:00por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Naquela noite de 17 de junho, um grupo tentou invadir a sede da Alege, no Palácio Tiradentes, jogando pedras, coquetéis Molotov e fogos de artifício na direção do prédio. A polícia militar reagiu com tiros para o alto, bombas de gás e balas de borracha. Mais de 30 pessoas ficaram feridas naquela noite, incluindo muitos policiais
  68. 33:30que se posicionaram nas escadarias para impedir a entrada dos manifestantes. A violência foi uma marca das jornadas de junho. E ali surgiu um personagem novo, anônimo, mascarado, que partia para o confronto com a polícia. Eram os Black Blocs. Mas, assim como nas revoltas do Vintém e do Bondi, a repressão do Estado também foi brutal em várias capitais do país em 2013,
  69. 34:00como lembra o Eugênio Butti sobre os protestos em São Paulo. A polícia foi para a rua reprimir e aí agiu com uma violência que deixava no chinelo tudo o que podia ser chamado de violento nas manifestações. Foi uma coisa horrorosa. Vários jornalistas foram às manifestações e viram que a polícia batia de forma indiscriminada.
  70. 34:30A cobertura da grande imprensa por motivos de segurança muitas vezes era feita de longe, mostrando as imagens lá do alto do helicóptero. Neste momento, a tropa do batalhão de choque da Polícia Militar está em frente à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e vai ficar ali durante toda a madrugada por questões de segurança. Aí entra em cena o jornalismo independente, que passou a reportar e fazer transmissões ao vivo pela internet no meio da confusão.
  71. 35:00Muitas vezes enfrentando a repressão da polícia com direito a repórter preso, como aconteceu com a mídia ninja. Estão me levando aqui, não tem nada na mochila, não tem nada na mochila, estão me levando aqui para algum lugar. Estão me levando para onde, cara? Qual que é o procedimento? Os protestos eram um ambiente abespinhado, era um ambiente em que nem todo mundo era bem-vindo. E a Globo, especialmente, tinha dificuldades, mas a Record também.
  72. 35:30Nós tivemos em São Paulo um episódio em que se incendiou um carro de reportagem de uma emissora de televisão. A imprensa de televisão não conseguia cobrir e a mídia ninja conseguia cobrir. Eles tinham um celular, levavam quando era um equipamento um pouco mais pesado, levavam na mochila ou num carrinho de supermercado. E era com isso que eles filmavam, gravavam tudo. No dia 20 de junho, o movimento chegou ao ápice no país todo.
  73. 36:00No Rio de Janeiro, a contagem variava de 300 mil até mais de um milhão de pessoas tomando a Avenida Presidente Vargas na maior manifestação da história da cidade, que transcorreu pacífica até um confronto com a polícia em frente à sede da prefeitura. Muita correria, bombas de gás, os manifestantes lançam fogos de artifício.
  74. 36:30Olha, e a correria continua. A cada momento que há uma correria em frente à prefeitura, todo mundo corre aqui, longe do prédio, tentando se proteger de alguma maneira. Naquele momento, o aumento das tarifas já tinha sido revogado em várias capitais. Ou seja, ficava claro que a situação do transporte tinha sido só a ignição dos protestos. No dia 24, Dilma recebeu governadores e prefeitos e firmou um pacto para melhorar os serviços oferecidos pelo Estado. As manifestações já começavam a diminuir, mas os efeitos na política do país estavam só começando.
  75. 37:00É como se o curso de um rio tivesse começado num sentido único, mas a partir daquele momento... As coisas começaram a se bifurcar. Saiu daquilo um rio de direita que pouca gente esperava que fosse ocorrer. E saiu um rio também à esquerda. O rio de direita vestido de amarelo e o rio de esquerda vestido de vermelho.
  76. 37:30No início é uma inundação espontânea de multidões e essa inundação se bifurca nesses dois rios, que vão desaguar lá em Brasília, três anos depois. E de 2016 para cá a gente sabe o que aconteceu. Então, seja no século XXI com Dilma Rousseff,
  77. 38:00no século XX com Juscelino Kubitschek, No século XIX, com Dom Pedro II, não importa. Protestos que começaram motivados pela insatisfação com o transporte público se transformaram em movimentos muito maiores, abraçando outros temas. E todos eles, uns mais, outros menos, mas todos eles ajudaram de uma forma ou de outra a mudar os rumos da política brasileira. A gente agradece demais a Angela Alonso, ao Franklin Martins e ao Eugênio Butti.
  78. 38:30E na semana que vem a gente vai voltar para o comecinho do século XX. Você vai saber tudo o que aconteceu na Revolta da Chibata quando João Cândido, almirante negro, se rebelou contra as práticas violentas e racistas da Marinha no período do imediato pós-abolição. Eu dispunha de todos os poderes, como dispus dentro da revota de todos os poderes do Brasil.
  79. 39:00Parei o Brasil. Durante seis dias, parei o Brasil. Conta pra mim o que você achou da nossa viagem de hoje. A gente tá no Instagram, na arroba RioMemórias, e você pode navegar pelas galerias no site riomemórias.com.br. Quem fez as entrevistas desse episódio foi a Jamile Boulay.
  80. 39:30A Clara Costa fez a montagem, a edição e a sonorização. O Gabriel Falcão é o compositor da trilha sonora original. O roteiro é do Rodrigo Alves e do Tales Ramos. E a pesquisa é do Danilo Marques, do Projeto República, da UFMG. Hoje você ouviu áudios de Rede Globo, TV Cultura, TV Câmara e Mídia Ninja. O podcast Rio Memórias é uma produção da Escuta Aqui, com coordenação do Rodrigo Alves.
  81. 40:00Eu sou a Gabriela Montoni e a gente se encontra de novo na semana que vem com o quarto episódio Combinado? Obrigada, até lá! O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo por meio da Lei de Incentivo à Cultura e pelo Banco BTG Pactual Adam Capital e Concremate por meio da Lei Municipal de Incentivo
  82. 40:30a Cultura, Lei do ISS. Obrigado e até o próximo episódio.

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Todos os episódios

  1. 01Vaccine Revolt
    Duração 45:52

    In 1904, the decree of mandatory vaccination against smallpox transformed Rio de Janeiro into a war zone. Beyond the scientific denialism and the moralism of the time, the protests and riots in various neighborhoods reveal a population that was already at the limit with the authoritarian reforms of mayor Pereira Passos.

  2. 02Smuggling of ideas
    Duração 39:26

    In 1794, a group of doctors and intellectuals created a clandestine information network to dodge the crown's repression and spread throughout Rio de Janeiro concepts of freedom, the common good, and ideals inspired by the French Revolution.

  3. 03Not 20 réis, not 20 cents
    Duração 40:53

    We travel through three periods in which protests against public transportation fare prices evolved into movements that helped change the history of Rio de Janeiro and the country: the Vintém Revolt (1880), the Tram Revolt (1956), and the June Journeys (2013).

  4. 04Chibata Revolt
    Duração 42:26

    In 1910, João Cândido, the Black Admiral, leads a movement against the physical punishments imposed on ships. Sailors refuse to accept the legacy of slavery and take control of important vessels of the Brazilian Navy in a historic uprising.

  5. 05The End of the Vargas Era
    Duração 42:37

    In August 1954, the riots that followed Getúlio Vargas's suicide revealed the web of intrigue that dominated Brazilian politics in the 1950s. The president's extreme act and the population's outrage halted the coup d'état that was taking shape.

  6. 06The body and soul of the streets
    Duração 38:08

    From abolitionist processions to resistance against the dictatorship, Rio de Janeiro has always had the street as the protagonist of its political struggles. It is on the street, over several crucial moments, such as the Rally of March 13th at Central, the Passeata dos 100 mil (March of the 100,000), the Diretas movement, that the podcast's final episode takes place.