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Rio Atlântico
Episódio 03
The other bank
0:00faltam 36 min36:20
Transcrição
Hoje a nossa história começa dentro de um grande engenho de açúcar.
- 0:00Hoje a nossa história começa dentro de um grande engenho de açúcar. Esse carro de boi que acabou de chegar trouxe a cana que foi plantada durante quase um ano.
- 0:30Além das plantações, um lugar como esse tem uma área construída enorme, dividida em quatro partes. A casa grande, onde mora o senhor de engenho com a sua família. A senzala, onde ficam os escravizados. uma capela e a casa de engenho propriamente dita, que é onde se fabrica o açúcar. O primeiro passo da produção acontece na moenda.
- 1:00Nos engenhos maiores, a cana pode ser moída num sistema hidráulico, mas as moendas menores são movidas por força animal ou operadas por pessoas escravizadas. Tem uma pintura do Debré que mostra bem essa moenda manual, com dois homens negros fazendo girar o mecanismo, enquanto outros dois vão colocando a cana para moer nos tambores. O risco de acidente ali é alto, porque se a mão for puxada para dentro do tambor junto com a cana,
- 1:30a ordem é amputar imediatamente. E isso não é um cuidado médico com o escravizado. É só uma medida de emergência para evitar o prejuízo que seria danificar ainda mais a máquina. O passo seguinte é tirar o caldo e ferver nas fornalhas. O líquido é colocado em grandes caldeiras de cobre com temperaturas altíssimas até se transformar em melaço de cana.
- 2:00Ali, o risco é de queimadura na hora de manusear o material. Esse melaço é colocado em vasos de barro com formato de sino. Na base do vaso tem uma abertura pequena por onde escorre o melaço e dentro do recipiente ficam só os cristais de açúcar. A secagem é feita com esses vasos expostos ao sol
- 2:30e dali sai o chamado pão de açúcar, que acabaria dando nome ao ponto turístico no Rio de Janeiro, por causa do formato do morro. Depois é separar o açúcar, armazenar e transportar a carga para exportação. Agora eu te pergunto. Enquanto você ouvia essa cena, onde você estava se imaginando? Em qual cidade? Em qual país? Em qual período?
- 3:00Eu chutaria que você pensou no Rio de Janeiro colonial, acertei? Ou na Bahia, ou em Pernambuco, que produziam bastante açúcar. Bom, o período é quase esse. Na verdade, um pouco antes. A gente tá falando do século XV, quando os portugueses ainda não tinham chegado por aqui. E o lugar? É, esse lugar é bem longe do rio. É do outro lado do Oceano Atlântico. Essa é uma cena que acontecia com muita frequência na ilha de São Tomé e Príncipe.
- 3:30O engenho que a gente recriou aqui em áudio se chama Praia Melão e era o mais importante da colônia portuguesa de São Tomé. Na década de 1530, aquela pequena ilha na costa ocidental da África, bem pertinho da linha do Equador, já tinha se tornado a maior produtora de açúcar no mundo. Com ensaios exaustivos de cada etapa e estudos para ver qual processo dava mais lucro,
- 4:00São Tomé foi uma espécie de laboratório para os engenhos que, quase um século depois, se espalhariam pelo Brasil, principalmente na região Nordeste, mas também no Rio de Janeiro. E foi a produção açucareira que consolidou por aqui a substituição da mão de obra escrava indígena pela africana.
- 4:30Eu sou a Gabriela Montoni e esse é o terceiro episódio da temporada Rio Atlântico, inspirada na galeria que você encontra no nosso museu virtual em ilmemorias.com.br. Hoje a gente vai te levar para outra margem do oceano. Você vai conhecer portos, regiões e personagens africanos que de alguma forma se conectaram com o Rio de Janeiro numa relação marcada pela violência dos europeus e pela memória de quem cruzou o mar.
- 5:00Porque a história do Rio é também a história da África. Bom, a gente tá chegando na metade de uma temporada chamada Rio Atlântico e até agora eu não te contei porque é que o oceano se chama Atlântico, né? Pode parecer um detalhe bobo, mas você vai ver que o ato de dar nome a um lugar
- 5:30tem a ver com a história daquele lugar. E também tem a ver com quem define esse nome. O nome Atlântico vem, claro, dos europeus. Mais especificamente, da mitologia grega. Heródoto, o geógrafo conhecido como o primeiro historiador da humanidade, viveu no século V a.C. Foi ele que relacionou o oceano com a divindade mitológica Atlas, o filho de Netuno. Atlas era um titã grego condenado por Zeus a carregar o peso dos céus por toda a eternidade.
- 6:00Também foi Heródoto que usou o termo Etiópia para se referir à porção da África que fica abaixo do deserto do Saara. É a maior parte do continente, reunindo hoje 48 países, inclusive a atual Etiópia, que fica ali no Nordeste, na região conhecida como o Chifre da África. Quase dois milênios depois de Heródoto, quando a dominação europeia já se espalhava pelo mundo, o Atlântico era dividido em duas partes, Norte e Sul.
- 6:30Essa parte Sul, que concentrava o tráfico de pessoas negras escravizadas rumo às Américas, passou a ser chamada de Oceano Etíope ou Etiópico, uma denominação dos brancos europeus a partir do seu projeto colonizador que ganhou um forte caráter simbólico. O Atlântico era o Oceano Etíope, o Oceano Negro, por onde os africanos circulavam de forma compulsória. Isso se refletiu e até hoje se reflete na margem do lado de cá.
- 7:00O Rio de Janeiro foi a maior cidade afroatlântica da história do mundo. E não olhar para esse lado da história é a gente abrir mão de uma herança que é riquíssima e que é nossa, que nos pertence como brasileiros. Nos pertence não no sentido da propriedade, mas de nos tornarmos pessoas mais completas mesmo. O Brasil precisa se aproximar mais da sua história africana.
- 7:30Essa é a professora Mônica Lima. Eu sou professora de História da África da UFRJ e hoje eu estou na coordenação de articulação de projetos e internacionalização do Arquivo Nacional. A professora Mônica é a curadora da Galeria Rio Atlântico no site do Rio Memórias. Então, eu recomendo muito que depois de ouvir cada episódio, você entre no site para navegar pelas memórias da África e da nossa relação com o oceano. E a África é muito mais que a história da escravidão.
- 8:00Isso parece óbvio a gente dizer, mas é muito mais. Mesmo os escravizados carregam uma história que é muito mais profunda, importante e complexa do que a experiência do cativeiro. As sociedades africanas tinham contato entre elas, elas trocavam conhecimentos, saberes. E tem muito mais a ser conhecido sobre a África. E para a gente que é brasileiro, que é o maior país de descendentes de africanos fora da África,
- 8:30é fundamental ter esse conhecimento. Depois de passar por São Tomé e Príncipe, a gente vai subir um pouco pelo Golfo da Guiné até chegar numa margem muito importante, a Costa da Mina. O que acontece com a Costa da Mina? Que é essa região ali da África Ocidental que fica mais ou menos entre, que é hoje o litoral da República de Gana. e até ali, vamos dizer, o litoral da Nigéria, a região do delta do Níger, sobretudo a chamada Costa da Mina, que também foi chamada muitas vezes de Costa dos Escravos.
- 9:00E não sem razão. Só para você não se confundir, aquele pedaço do mapa era chamado de Guiné, provavelmente em referência à Gana, que era como os nativos chamavam a área ocupada pelo então Reino do Mali. Mas era um território enorme, com vários países, países, incluindo onde hoje ficam a Guiné e a Guiné-Bissau. A costa da mina pegava a região onde hoje ficam Gana, Togo, Benin e Nigéria. Foi uma região muito importante, sobretudo no comércio escravagista, para as regiões
- 9:30do Nordeste do Brasil, Porto de Salvador, e também para as regiões do Caribe, mas também para o Rio de Janeiro. A negociação de escravizados já era praticada naquela região antes da chegada dos portugueses. Os árabes dominavam uma extensa rede de comércio por ali A escravidão existe em várias partes do mundo E existiu desde a antiguidade Enfim, é uma longa história a presença da escravidão
- 10:00E de várias modalidades de escravidão A África não está fora dessa experiência extremamente desumanizadora Seja ela de qualquer modalidade for Que a humanidade viveu em seus diferentes continentes e sociedades E a segunda coisa que sim havia escravidão na África de vários tipos, escravidões que iam desde a escravidão temporária até situações que alguns, hoje, alguns estudiosos interpretam muito mais como uma servidão do que como uma escravidão. Então, tem uma série de modalidades de experiência de cativeiro
- 10:30e escravização, trabalhos forçados no continente africano. Quando os portugueses chegaram em 1446, o interesse maior ali era nas riquezas. Tinha ouro, marfim, especiarias, tecidos, artefatos de metal. Então, de início, o tráfico de escravizados nem era o foco principal dos colonizadores. Mas dali pra frente, a coisa foi só aumentando.
- 11:00Sete anos depois do início da ocupação portuguesa, foi publicado um livro chamado Crônica do Descobrimento e Conquista de Guiné, escrito pelo cronista português Gomes de a pedido do rei de Portugal, Afonso V. A ideia ali era justificar a escravidão baseada na cor da pele. Com o conceito de que a raça dos africanos era inferior, essa foi a primeira articulação formal de ideias racistas publicada oficialmente.
- 11:30Esse documento ajudou a validar as várias modalidades de escravidão na época. A principal modalidade de obtenção de uma obra escravizada, de se produzir pessoas escravizadas para a escravidão, aí sim a Atlântica, que chega às Américas, é a guerra. A principal é a guerra, a segunda é a captura. E a terceira são, aproveitando-se dessas diferentes modalidades da escravidão, obter essas pessoas que já estavam em situação de subordinação como pessoas escravizadas para o comércio atlântico.
- 12:00São essas modalidades que existem e essas vão funcionar ligadas ao mundo atlântico. O que vai acontecer com a escravidão atlântica é que vai ampliar muito em dimensão, vai ser acrescentada a ela uma série de aspectos que vão reforçar esse grau de desumanização e vai criar, e essa sim, uma empresa escravista.
- 12:30Como a gente viu no primeiro episódio da temporada, essa desumanização incluía o apagamento da identidade dos escravizados. Pessoas que eram capturadas em diferentes regiões da África e embarcavam na costa da mina tinham seus nomes apagados, eram rebatizadas e acabavam classificadas dentro do guarda-chuva genérico de pretos e pretas minas. Eles têm uma experiência que tem a ver com a realidade local,
- 13:00É uma experiência urbana muito forte. Essa é uma região muito urbanizada da África, com cidades muito antigas. E ali vão ser produzidos aglomerados urbanos, cidades, cidades grandes, cidades pequenas, que orbitam em torno dessas cidades grandes. E essa experiência urbana desses africanos e africanas de mina vai fazer com que eles, muitas vezes ocupem, que eles dominem certas habilidades, certas competências da vida urbana,
- 13:30que vai ser muito importante para uma cidade que está crescendo como o Rio de Janeiro no final do 18 e início do 19. É uma cidade que cresce como porto exportador da mineração, mas que depois vai virar um porto também de entrada de africanos escravizados. No início do 19 vai ser o principal porto de entrada desse infame comércio. E esses africanos e africanas, com essa sua experiência urbana, eles vão atender a uma série de demandas que uma cidade portuária está apresentando.
- 14:00Capítulo 2. Angola e a Rainha Negra que enfrentou Portugal.
- 14:30Em 1482, quase quatro décadas depois daquele primeiro contato com a Guiné, uma frota portuguesa comandada pelo navegador Diogo Cão desceu pela costa africana, passou por São Tomé e Príncipe, cruzou a linha do Equador e, já no Atlântico Sul, o Oceano Etíope, chegou na foz do rio Congo. Quando os portugueses chegam em Banza Congo, que era a capital do antigo reino do Congo, eles ficam impressionados com essa cidade,
- 15:00que eles nomeiam depois de São Salvador. Começava ali a relação de Portugal com a região onde hoje fica Angola. E a colônia só seria instalada quase um século depois, em 1575, com a criação de uma feitoria em Luanda. a população da região congangola tinha uma organização socioespacial que era um pouco mais dispersa, o que não quer dizer de forma nenhuma que era menos desenvolvida ou que era menos sofisticada, muito ao contrário
- 15:30a organização dispersa, ela tinha uma lógica na relação com a natureza, com aquela terra com aquele espaço e isso fazia com que eles tivessem uma vida também com toda a sua complexidade o seu desenvolvimento e com estados que tinham seus exércitos dentro dessa organização espacial e social diferente da Costa da Mina. Foi desse pedaço da margem que partiu a maioria dos africanos escravizados
- 16:00rumo ao Rio de Janeiro, principalmente a partir do início do século XVII até o século XIX. E hoje em Banza Congo, inclusive, tem uma área que é patrimônio mundial também, que foi reconhecida na mesma Assembleia Geral em que o Cais do Valongo foi reconhecido como patrimônio mundial. Vamos dizer assim, duas pontas dessa história, nas margens. A gente vai voltar a falar do Cais do Valongo no próximo episódio. Mas agora eu quero te levar para aquela região da África
- 16:30muito antes dela ser chamada de Angola. A gente vai para o reino do Indongo. No início do século XVI, aquele reino pré-colonial ao sul do Congo era habitado pelo povo Umbundo, de origem banto, e a população se dividia entre Murinda e Kijiku. Murinda eram as pessoas livres e organizadas, e Kijiku eram os não livres, que viviam em aldeias.
- 17:00O rei do Indongo era chamado pelo título de Ingola, daí veio o nome Angola. A tradição começou com o Ingola Mussuri, o rei serralheiro ou rei ferreiro. Ele ganhou o respeito do povo porque dominava a técnica de preparar o ferro para fabricar machados, machadinhas, facas e setas, ferramentas fundamentais na caça e nas guerras. O Ngola governava um estado hierarquizado com uma organização social complexa.
- 17:30As autoridades locais eram os sobas e, no século XVI, havia mais de 700 sobas na região. Mas o reino do Ndongo era tributário ao reino do Congo, governado por uma autoridade que tinha o título de Manicongo. Era o Manicongo que controlava o porto fluvial de Impinda, perto daquela fosa onde os portugueses chegaram em 1482. O porto era a principal conexão atlântica naquele período.
- 18:00A colônia de Angola foi fundada em 1575 e, no ano seguinte, foi estabelecida a cidade de São Paulo de Assunção de Luanda, se tornando a margem africana mais relevante para o Rio de Janeiro. Os portugueses vinham há décadas estabelecendo parcerias com o reino do Indongo, inclusive com auxílio militar nas guerras de independência e expansão. Mas logo depois do estabelecimento da colônia, ficou nítido que aquele era um projeto de domínio dos brancos.
- 18:30Em 1579, Portugal entrou em guerra com o Indongo. Essa caminhada que você está escutando é um momento marcante nessa relação. A coroa portuguesa, achando que aquela guerra beneficiava mais as autoridades coloniais do que a matriz europeia, derrubou o governador-geral Luís Mendes de Vasconcelos
- 19:00e pediu um tratado de paz em 1621. Para negociar pelo lado do Indongo, o Ngola Mbandi enviou sua irmã mais velha como embaixadora. E os portugueses nem desconfiavam que aquele seria o primeiro contato com uma inimiga poderosa. Uma mulher que viajou mais de 400 quilômetros da capital do Indongo até a cidade de Luanda de forma majestosa, carregada nos ombros dos seus subordinados.
- 19:30Uma mulher chamada Nzinga Mbandi. A irmã do rei entrou na embaixada acompanhada por um secto numeroso, incluindo oficiais, donzelas e escravizados. O novo governador-geral, João Corrêa de Souza, se impressionou com a delegação liderada por aquela mulher negra coberta de joias preciosas, colares, penas de várias cores e um adorno na cabeça.
- 20:00Sua Alteza Princesa Ginga me mande. O meu nome é João Correia de Sousa. Como governador da cidade de São Paulo de Luanda e em nome do rei de Portugal, eu quero dar-lhe as boas-vindas. A si e à sua embaixada. Esse é o filme Inzinga, Rainha de Angola, de 2013, dirigido pelo português Sérgio Graciano e estrelado pela atriz angolana Lesliana Pereira. Depois das boas-vindas, a cena continua com o famoso episódio da cadeira. O salão tinha uma poltrona luxuosa para o governador se sentar,
- 20:30mas não tinha cadeira para a embaixadora, só um tapete. Nzinga faz um sinal para uma das suas donzelas, que se agacha no chão para servir de cadeira e assim permanece durante toda a audiência. Senhor governador, o sangue derramado nas terras do Ndongo tem feito grande mal a todos. O meu irmão Golambandi, rei do Ndongo, deseja encontrar a paz Que vai agradar tanto aos portugueses como a nossa gente
- 21:00O governador diz que assina a trégua Desde que o rei do Ndongo aceite o batismo cristão Se submeta ao rei de Portugal e pague um tributo à coroa portuguesa Nzinga se recusa a assinar O reino do Ndongo é soberano Não pode ser vassalo de outro Ela impõe várias condições, mas aceita ser batizada no cristianismo. Foi uma estratégia para negociar o recuo das tropas portuguesas e manter o Indongo como um estado livre e independente de Portugal.
- 21:30Eu acho que a Nzinga é um personagem resistente, mas ela é humana e ela também é um personagem do seu tempo com todas as suas contradições e aspectos. A gente está olhando com esse olhar de hoje, para trás e tal, mas vamos pensar, Nzinga, primeiro uma mulher soberana, comandando exércitos, isso é importante frisar Inzinga resiste às incursões portuguesas no seu território mas ao mesmo tempo ela negocia e negociar com os portugueses para proteger o seu povo
- 22:00significava, por exemplo, escravizar vizinhos inimigos e entregar como prisioneiros de guerra a participação nesse comércio escravista era uma forma de defesa das pessoas sob o seu comando, sobre a sua proteção. Inzinga faz esse papel, inegavelmente, mas ela se impõe muito. Há vários relatos e várias imagens também que foram produzidas sobre ela. Tem um frado de Capuchinho chamado Cavase, que produz uma série de imagens muito bonitas e muito fortes
- 22:30a respeito dessa figura histórica, dessa rainha. Sobre a reunião com o governador, o Capuchinho Cavate escreveu assim. Os presentes admiraram todos pasmados esta presteza em sair-se bem e a vivacidade da sua inteligência. Nunca era esperado de uma mulher que tivesse tanta desenvoltura. Nzinga assumiu como regente do Indongo em 1624, quando seu irmão morreu e o seu sobrinho ainda não tinha idade para assumir.
- 23:00Em 1626, o sobrinho também morreu e ela virou rainha. Como rainha, ela se tornou uma das principais inimigas dos portugueses na África Era temida e venerada
- 23:30Liderou negociações, comandou o exército nos campos de batalha E conteve a expansão lusitana na região atacando e desarticulando pontos estratégicos do tráfico escravista. Essa rainha, com o tempo, as representações que foram sendo construídas sobre ela são muito importantes. A gente pode dizer, do ponto de vista da história, quase tão importante quanto o papel histórico da Nzinga, oferecendo resistência aos portugueses para entrar no seu território, impondo limites, até aqui não vai,
- 24:00e negociando no que ela podia negociar. pronto, a coisa está difícil, então eu vou me converter ao cristianismo vou lá, me deixo ser batizada e aí eu mantenho, continuo mantendo sou reconhecida como rainha no meu território tudo isso, desse personagem histórico, também deságua nas representações que foram feitas sobre ela, então ela vira personagem do Congado ela fica personagem da cultura africana na diáspora ela vai representar em Angola
- 24:30uma força anticolonial Não é à toa que tem a estátua dela. Ela está entronizada na cidade de Luanda com uma estátua enorme. Na segunda metade do século XVII, com uma marinha poderosa e os olhos voltados para o comércio de açúcar, os holandeses começaram a atacar várias regiões de presença portuguesa pelo mundo. A gente tem aqui no Brasil a chamada invasão holandesa no Nordeste, Maurício de Nassau, o Recife holandês, aquela história toda.
- 25:00Só que logo depois eles também ocupam Luanda com o apoio de Nzinga, que se aliou a eles contra os portugueses. Dentro das contradições da rainha, ela ajudou a articular o tráfico de escravizados com os holandeses nesse período. Em 1641, também com Maurício de Nassau, a Holanda toma Luanda de Portugal e passa a controlar não só a produção de açúcar no Nordeste brasileiro, como também a principal fonte de escravizados para esses engenhos, que era o porto de Luanda.
- 25:30Quem vai, digamos como se diz, libertar Luanda dos holandeses, ou seja, retornar Luanda para o controle português, será uma esquadra que sai do Rio de Janeiro, boa parte dela financiada com capital de comerciantes estabelecidos no Rio de Janeiro, tem uma pequena participação portuguesa, que cruza o Atlântico, comandada por Salvador de Sá, e que consegue, levando nas suas tropas pessoas africanas, como soldados,
- 26:00seus descendentes diretos e indígenas, que vão compor esse exército que vai recapturar Luanda para o lado português. Depois disso, Luanda fica ligada ao Rio de Janeiro de uma maneira incontornável. Rio e Luanda estreitam seus laços nas rotas da escravidão. Do porto da atual Angola veio a maior parte dos cativos que desembarcaram em terras cariocas. E com eles também vieram as memórias e as histórias da África.
- 26:30Nzinga viveu até 1653. Morreu aos 82 anos. Mas o imaginário em torno da sua figura atravessou o Atlântico. No Rio de Janeiro tem até uma escola de nome homenageando a rainha Nzinga. É o CIEP 173, Rainha Inzinga de Angola, uma escola estadual que fica na Avenida Pastor Martin Luther King, em Acari, na zona norte do Rio. Um lugar a mais de 6 mil quilômetros de onde ela realizou seus feitos, onde a história dela pode ser contada para as crianças na sala de aula.
- 27:00Graças à memória e à oralidade de tantos imundos escravizados que fizeram a travessia do Oceano Etíope. 16 anos depois de desembarcar na região Congo-Angola
- 27:30e mais de meio século depois da ocupação da Guiné os portugueses chegaram em Moçambique A expedição de Vasco da Gama aportou em 1498 e encontrou ali traços culturais bem diferentes A gente está falando do outro lado do mapa no sudeste da África, banhado pelo Oceano Índico.
- 28:00O povo banto que habitava aquela região tinha uma relação comercial estabelecida com os árabes, daí o contato com as culturas islâmica e hindu. O próprio nome Moçambique é um aportuguesamento de Musabimbique, um emir árabe e comerciante muito bem sucedido que comandava a região antes da chegada dos colonizadores. Logo depois, ele foi destituído.
- 28:30A região portuária de Sofala, uma das mais relevantes da costa africana, também tinha nome de origem árabe. As atividades comerciais daquela área estavam estabelecidas desde o século X, quando o poderoso estado africano de Monomotapa negociava com árabes e indianos. Por isso, Vasco da Gama se depara com uma sociedade desenvolvida e de intenso comércio no século XV. Os árabes traziam mercadorias adquiridas na Índia, como tecidos e miçangas, e trocavam por ouro, marfim e outros produtos.
- 29:00A cultura islâmica ainda fica marcada no território de Moçambique até o século XIX, quando a colonização portuguesa se impõe de forma mais veemente, inclusive no fornecimento de escravizados para o Rio de Janeiro. Antes de intensificar a relação com o rio, muita memória foi produzida ali. Assim como a rainha Nzinga se tornou um personagem quase mitológico em Angola,
- 29:30Moçambique também deu origem a uma figura lendária. Foi lá que nasceu Yasuke, o Samurai Negro. E olha só pra você, Yasuke. De servo a Samurai. Essa é a série Yasuke, um anime em seis episódios, feito em coprodução por Japão e Estados Unidos. É a história do homem negro que nasce em Moçambique e é levado no Manaus português até o Japão
- 30:00como o criado de um missionário jesuíta. Portugal usava aquela região da África como o entreposto comercial para os navios em direção à Ásia. Yasuke chega ao Japão em 1579, se torna um guarda-costas de um daimyo, uma espécie de senhor feudal, e acaba elevado ao posto de samurai. Maldito samurai negro!
- 30:30Você sempre será um serviçal. Não importa a armadura que use Não sirvo a ninguém A história do samurai negro tem poucos registros escritos Mas a lenda também ganhou força pela oralidade africana
- 31:00Que carregou sua memória de Moçambique para outras partes do mundo Inclusive para o Rio de Janeiro No século XVII já se tinha notícia de escravizados moçambicanos chegando ao Rio mas essa prática só cresceu de fato no início do século XIX. Quando a família real portuguesa fugiu das tropas de Napoleão Bonaparte e chegou ao Brasil em 1808, a abertura dos portos permitiu um número maior de expedições até Moçambique para capturar escravizados.
- 31:30O porto de Kelimane passou a ser uma margem africana muito relevante. Durante duas décadas, no início do século XIX, o sul da África viveu o período conhecido como um fecane. Foi um momento de convulsão social, marcado por guerras, fome e migrações forçadas. Na década de 1820, Moçambique recebeu um fluxo migratório intenso vindo da Zululândia, região onde hoje fica a África do Sul.
- 32:00Esse movimento alterou as dinâmicas internas e aumentou a oferta de escravizados para o comércio transatlântico. Em 1830, 60% dos navios que saíam do porto de Kelimani tinham o Rio de Janeiro como destino. Nos porões desses navios, a travessia dolorosa também trazia memória moçambicana. Uma memória diferente daquela que saía da costa da mina
- 32:30e diferente da que saía de Congo-Angola. Um reflexo de uma complexidade imensa De uma amplitude que diferencia cada africano trazido para o Rio de Janeiro Com certeza, é tudo isso que você falou da amplitude É isso, que a amplitude vai sinalizar uma característica Que é importantíssima se pensar nas pessoas africanas Que é a diversidade Isso também existia aqui no Brasil Existiu diversidade entre os africanos escravizados
- 33:00E os africanos escravizados que foram trazidos para cá Eles viveram experiências na escravidão diversas Você não tem algo que possa resumir Claro que tem um eixo constitutivo da história da escravidão Que é a violência Esse é um eixo constitutivo A violência, a desumanização são eixos que vão definir essas experiências Mas elas vão ser vividas de formas muito diferentes E tem a ver não apenas com a maneira como eles se relacionam
- 33:30com a sociedade colonial imperial aqui, mas com as suas próprias trajetórias em África, que são diversas. Eu quero agradecer demais a professora Mônica Lima. Ela ainda vai voltar mais adiante para continuar ajudando a gente a entender essa relação do Oceano Negro e da própria África com o Rio de Janeiro. Então, essa é uma cidade em que pessoas também iam e vinham do continente africano, traziam notícias, traziam
- 34:00cartas, eventualmente, traziam outras mercadorias para além das mercadorias relacionadas especificamente à escravização. Então, acho que a gente também precisa pensar nessas idas e vindas de como que a gente olha hoje a região portuária do Rio de Janeiro e pensa nesse Atlântico como um espaço em que circulavam essas pessoas.
- 34:30O Rio de Janeiro como cidade-porto é o tema do nosso próximo episódio. A temporada chegou na metade. Conta pra gente o que você está achando. A nossa arroba é riomemórias no Instagram. Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora desse podcast. A realização é da produtora Escuta Aqui, com coordenação e roteiros do Rodrigo Alves, que também grava as locuções adicionais. A supervisão
- 35:00dos roteiros é do Tales Ramos. As entrevistas são feitas pela Jamile Boulê. Ela conversou com a professora Mônica no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro, com a supervisão técnica do Dani Di. As minhas locuções são gravadas no Estúdio Frango no Bafo, em Belo Horizonte. A pesquisa histórica é do Davi Arueira. Quem faz toda a edição, a montagem e a sonorização das cenas é a Clara Costa, com assistência da Giovanna Orsini. A trilha sonora original é composta pelo Gabriel Falcão.
- 35:30Obrigada e até mais. Essa temporada do podcast é patrocinada pelo Ministério da Cultura por meio da Lei de Incentivo à Cultura e pelas empresas Norsul, Modal, Impulso e Casnar Leonardo. Até o próximo episódio.
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Todos os episódios
- 01Arrivals and RebirthsDuração 35:02
Starting in the 16th century, Rio de Janeiro received a multitude of peoples who crossed the Atlantic - some by choice, others, in the case of Africans, confined in the holds of ships. In the opening of Season 5: the disembarkation, the stolen identity, the feeling of banzo, the reinvention in the zungus and in the religious brotherhoods of a Rio de Janeiro africanized and forged by the ocean. Interviewee in this episode: Eduardo Possidônio.
- 02CrossingDuração 44:08
In the second episode of the Rio Atlântico season, the most painful part of the relationship between Rio de Janeiro and the ocean: the crossing of the enslaved. The overland journey from the African hinterland to the coast, the long voyage in the ship's hold, and the arrival in an unknown land. With excerpts from the account of a formerly enslaved man who went through each of these stages. Interviewed in this episode: Nilma Teixeira Accioli. ||| Rio Memórias. Stories of Rio to listen to. In the Rio Atlântico season: the traumatic crossing, the other shore, the port city, the reinventions, and the cultural legacies. Visit the gallery in the virtual museum riomemorias.com.br to dive deeper into the themes. Follow @riomemorias on Instagram. ||| Hosted by: Gabriela Montoni. Coordination, scripts, and additional narration: Rodrigo Alves. Additional readings in this episode: Thiago André, from the podcast História Preta. Script supervision: Thales Ramos. Production and interviews: Jamille Bullé. Research: Davi Aroeira. Editing and sound design: Clara Costa. Editing assistance: Giovanna Orsini. Original soundtrack: Gabriel Falcão. Recordings: Estúdio Rastro (RJ) and Estúdio Frango no Bafo (MG). Executive direction: Lívia Baião.
- 03The other bankDuração 36:20
In the third episode of the Rio Atlântico season, the African shore of the ocean. Costa da Mina, Congo-Angola, Mozambique: the points from which the most enslaved people departed toward Rio de Janeiro, and the memories these people carried on the ship. Interviewed in this episode: Monica Lima.
- 04The port cityDuração 36:32
In the fourth episode of the Rio Atlântico season, the story of Rio de Janeiro's port district. The podcast invites you to arrive via Guanabara Bay, discover the different disembarkation points over the centuries, pass through customs, and take in the sounds, images, and aromas of the port city. Interviewed in this episode: Martha Abreu.
- 05The way backDuração 35:45
In the fifth episode of the Rio Atlântico season, the stories of African men and women who not only won their freedom but also managed to return home by crossing the ocean once again. Interviewed in this episode: Monica Lima.
- 06The Invention of African RioDuração 34:37
In the season finale of Rio Atlântico, the African heritage in everyday carioca life. The words we use daily, the flavors, the sounds, the music, and a stroll through the most African place in Rio de Janeiro. Interviewed in this episode: Lucimar Felisberto dos Santos. Additional narration: Theo Ramos.