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Rio Atlântico
Episódio 04
The port city
0:00faltam 37 min36:32
Transcrição
Oi! Hoje a gente começa a nossa viagem dentro de um barco bem pequeno, uma canoa remo que vai avançando com calma na entrada da Baía de Guanabara.
- 0:00Oi! Hoje a gente começa a nossa viagem dentro de um barco bem pequeno, uma canoa remo que vai avançando com calma na entrada da Baía de Guanabara. As pessoas que estão dentro do barco acabaram de descer de um navio, porque os navios maiores não conseguem chegar mais perto, a profundidade da baía não é muito grande.
- 0:30Conforme a canoa vai se aproximando bem devagar, começam a aparecer as casinhas em tom pastel, com os telhados vermelhos. Tudo parece calmo e silencioso. E de vez em quando, aparece uma ou outra baleia. Ou golfinhos brincando bem perto do barco.
- 1:00A essa altura, eu sei que você está imaginando um cenário bem tranquilo, né? Mas deixa só eu te lembrar que a gente está no Rio de Janeiro, no início do século XIX. Então, se você olhar em volta enquanto a canoa passa, a visão pode ser a de um convés lotado de jovens africanos com a expressão assustada. A nossa passagem pareceu afetá-los muito pouco. Como nesse relato de um viajante inglês chamado Henry Ellis,
- 1:30que viu um navio com escravizados se aproximando em 1816. A maior parte desses seres infelizes estava no convés quase imóvel Embora não percebêssemos que eles estavam acorrentados Alguns dirigiam para nós um olhar de aparente indiferença Outros, com seus braços dobrados, pareciam acabrunhados pela tristeza E muitos, debruçados na amorada, olhavam para as ilhas verdes da Bahia As montanhas rochosas e toda a exuberância selvagem da paisagem sorridente
- 2:00A paisagem era sorridente, mas quem cruzou mais de 6 mil quilômetros dentro de um porão escuro não tinha motivo para sorrir. E se você ouviu os episódios anteriores, você não vai esquecer que a relação do rio com o Oceano Atlântico é também uma relação de dor.
- 2:30Hoje eu quero te guiar sem pressa pelas águas da Baía de Guanabara até fincar o pé em terra firme. firme. Eu quero que você experimente a chegada, o desembarque, a entrada e a vivência no alvoroço da cidade Porto. Eu sou a Gabriela Montoni e esse é o quarto episódio da temporada Rio Atlântico,
- 3:00inspirada na galeria do nosso museu virtual em riomemórias.com.br. Hoje você vai entender o que acontecia em cada ponto de desembarque, como era essa aproximação, o que era preciso para atravessar a alfândega. Quais eram os sons, as cores e os aromas de um Rio de Janeiro habitado por quitandeiras, pescadores e uma infinidade de personagens que movimentavam a zona portuária ao longo dos séculos.
- 3:30Capítulo 1. Terra à vista. Olha, ainda bem que eu tô em 2024. A Jamile Boulay, nossa produtora, tá andando pela Praça 15, no centro do Rio.
- 4:00Porque se fosse na primeira metade do século 19, bem aqui onde eu estou, eu não ia estar andando, eu ia estar nadando. Quem mora no Rio de Janeiro certamente já passou pela Praça 15. Ali onde tem a Estação das Barcas, onde fica o monumento de Dom João VI em cima de um cavalo, localizou? Perto do chafariz do Mestre Valentim. O mar chegava ali pertinho e a partir de meados do século XVIII a zona portuária foi sofrendo vários aterramentos. É literalmente o Rio de Janeiro
- 4:30Avançando em direção ao Oceano Atlântico A estátua de Dom João VI está por aqui Porque foi bem nesse lugar que a família real desembarcou em 1808 Quem é ouvinte do Rio Memórias Vai lembrar que a gente já passou por essa região algumas vezes E não é por acaso Durante muito tempo, esse foi o lugar mais importante da cidade A Jamile já fez a ponte com presente E eu vou seguir por aqui enquanto ela vai caminhar para um outro ponto de desembarque
- 5:00no centro do Rio. Daqui a pouco ela volta. Vai ser coisa de poucos minutos, é bem pertinho. Quando eu chegar lá, eu te chamo, Gabi. Enquanto eu vou andando, vocês vão conversando sobre essa região aqui, onde é a Praça 15. Combinado. E a Jamile falou vocês, porque, como sempre, eu vou ter uma companhia especial aqui no episódio. Meu nome é Marta Abreu, sou professora de História, vinculado ao Programa de Pós-Graduação de História da UF. A professora Marta também é pesquisadora do CNPq e da UERJ de São Gonçalo.
- 5:30Muito bom estar aqui também conversando, tendo essa conversa sobre memórias do Rio de Janeiro. E já que a gente começou falando da chegada na Baía de Guanabara, é sempre bom reforçar que essa chegada era diferente para cada grupo de pessoas, né? Um grupo de comerciantes europeus tinha uma percepção quando se aproximava da costa. Um grupo de africanos escravizados tinha outra. E se você passou pelo episódio anterior, você sabe que essas pessoas traziam da África experiências, histórias, memórias.
- 6:00E aí, sem dúvida, porque por mais que essas pessoas tenham vindo sem nada, físico, material, elas vieram com toda uma bagagem espiritual e a memória. A memória é a sobrevivência, é a vida da gente. Então, o primeiro instinto quando um navio que carregava escravizados se aproximava do rio era o instinto de sobrevivência.
- 6:30Muitos africanos cruzavam o Atlântico acreditando que seriam devorados por gigantes brancos canibais. Não era isso que acontecia, pelo menos não do ponto de vista literal. Mas o destino não reservava nada de agradável. Quando aparecia a paisagem carioca, eles já sabiam que aquele seria um lugar hostil. E eles só teriam uns aos outros para criar uma comunidade de resistência. E ela é impressionante. Ela é fundamental para a sobrevivência física e psíquica dessas pessoas
- 7:00que chegaram e vão fazer nessa cidade, vão reconstruir suas vidas numa cidade com pouquíssimas possibilidades de volta. E um monte de adversidades e violências que a gente já viu e vai continuar vendo nessa temporada. Por outro lado, quem vinha da Europa, da Ásia ou de outros pontos das Américas
- 7:30tinha perspectivas bem diferentes na chegada ao cais do porto. Era, acima de tudo, uma oportunidade. Oportunidade de fazer negócios, de ganhar dinheiro, de viver uma vida nova. Aquela imensidão de embarcações à vela ancoradas na entrada da cidade, cada uma vindo de um canto do planeta, era um cenário que deixava muito evidente. O porto ligava o Rio de Janeiro ao mundo.
- 8:00Por ali chegavam pessoas, mercadorias e ideias para abastecer o lugar que se tornou a capital da América Portuguesa em meados do século XVIII. E por ali também saíam produtos de outros lugares do Brasil. Produtos como o café, por exemplo, que percorria longos caminhos país adentro até chegar no porto antes de cruzar o Atlântico. Sem contar que a Baía de Guanabara é uma área extensa,
- 8:30então, diariamente, dezenas de barcos carregavam pessoas de uma ponta a outra da cidade. Aliás, não só pessoas. Uma ilustração do Jean-Baptiste Debré mostra quatro homens tentando embarcar um cavalo na beira da praia. O barco de madeira quase virando e dois outros cavalos já posicionados lá dentro.
- 9:00Tem até um cachorrinho observando a cena em cima da rampa. E ao fundo dá pra ver vários outros barcos com homens carregando mercadorias no pier. O debrê diz, na descrição da imagem, que os cavalos seriam levados pra Praia Grande, em Miterói, quando Dom João VI se instalou por lá no fim da década de 1810. A região do Cais do Porto ficou muito movimentada a partir de 1808
- 9:30Quando a família real chegou no Brasil Fugindo das tropas do Napoleão Bonaparte que tinham invadido Lisboa O desembarque foi bem ali onde a Jamile passou Onde fica a estátua de Dom João Com a abertura dos portos naquele ano A zona portuária do Rio cresceu numa velocidade assustadora E olha que a área onde hoje é a Praça XV e não era o único lugar de entrada para quem cruzava o Atlântico.
- 10:00Eu acho que a Jamile já chegou em outro ponto de desembarque. Gabi, eu estou em uma das construções mais antigas do Rio de Janeiro. É, e dessa vez você teve que subir um morro, né? Aqui do alto não dá para ver a Baía de Guanabara só porque tem uma vegetação no entorno que acaba escondendo, mas a gente está bem pertinho da baía. A Jamile está no Mosteiro de São Bento. Para quem não é do Rio ou não sabe onde fica, o Morro de São Bento é bem pertinho do Museu do Amanhã.
- 10:30E, saindo da Praça XV, dá uns 15 minutos andando. O mosteiro foi erguido em meados do século XVII e funciona até hoje. As duas torres da construção sempre fizeram parte da visão de quem chegava pela Baía de Guanabara. E olha que teve um tempo em que o mar chegava ainda mais perto do mosteiro. É. Ali, em meados do século XIX, alguns aterramentos ampliaram um pouquinho a faixa de terra. Esse lugar era um ponto muito disputado de desembarque e de transporte interno.
- 11:00Ficava ali um porto conhecido como Praia dos Mineiros. Quando chegamos ao ponto onde íamos tomar a embarcação, fomos assaltados por cerca de 50 barqueiros em tremenda concorrência, oferecendo botes ou canoas e enaltecendo os seus serviços. Todos reclamavam preferência e alardeavam a superioridade dos seus barcos. Esse é um relato do missionário norte-americano Daniel Kidder Que passou pelo Brasil duas vezes na metade do século XIX E fez esse registro sobre a agitação na Praia dos Mineiros
- 11:30Enquanto a Jamile desce o Morro de São Bento e já vai caminhando para outro porto muito relevante Escuta aí mais um trechinho do relato sobre os escravos de ganho que trabalhavam como barqueiros Esses homens pertencem à numerosa classe de escravos empregados no transporte de passageiros no interior da Bahia Dão-lhes botes e canoas pelos quais ficam pessoalmente responsáveis Assumindo perante seus senhores a obrigação de pagar certa diária É, portanto, perfeitamente explicável a ansiedade que demonstram em obter passageiros
- 12:00Não trabalham apenas para ganhar a vida Mas ainda para escapar ao castigo que lhes está reservado Caso não consigam entregar aos seus senhores a parcela estipulada Aliás, se você quiser visualizar essa cena em vez de só ouvir Eu quero te convidar para ir até a nossa galeria Rio Atlântico, em riomemórias.com.br. Lá tem uma ilustração feita na década de 1820 pelo alemão Johann Moritz Rugendas,
- 12:30chamada Porto da Praia dos Mineiros, no Rio de Janeiro. A imagem mostra duas canoas conduzidas por escravizados e o que parece ser algum tipo de discussão entre um comerciante e as autoridades locais. Lá no fundo da imagem, se você prestar atenção, você vai ver as casinhas com os telhados vermelhos. E, claro, as duas torres do Mosteiro de São Bento. A próxima parada da Jamília é num lugar bem perto de onde ficava a Praia dos Mineiros.
- 13:00E ela tá caminhando por toda essa região costeira, que era chamada de Prainha. Descendo do Morro de São Bento, passando pela Praça Mauá e pegando a Rua Venezuela até chegar na Avenida Barão de Tefé. Gabi, hoje é um dia de muito calor no Rio. E eu estou chegando aqui na última parada dessa minha caminhada. Um lugar muito importante para a história do Rio de Janeiro e do Brasil.
- 13:30Um lugar que a gente já visitou aqui no Rio Memórias. Eu estou agora no Cais do Valongo. E você deve estar ouvindo aí ao fundo, é o pessoal da Casa da Tia Ciata fazendo uma oficina de dança africana. Eu sei que a gente tem um episódio inteiro sobre o Valongo na segunda temporada. Mas não dava para não passar por ali hoje, já que a gente está falando do rio como cidade-porto. Foi esse porto que recebeu a maior quantidade de africanos escravizados nas Américas. O tráfico e a chegada no Valungo, o Valungo é um dos lugares,
- 14:00o maior local de chegada de africanos nas Américas. Isso é impressionante, né? Calculou-se que mais de um milhão de africanos chegaram entre o final do século XVIII e 1831, quando é assinado, 1830 quando é assinado esse primeiro acordo com a Inglaterra. O tráfico transatlântico de escravizados foi proibido por esse acordo, mas continuou de forma clandestina nas duas décadas seguintes. A construção do ancoradouro no cais do Valongo foi
- 14:30em 1811, mas antes disso já havia desembarque por ali numa estrutura mais improvisada desde o fim do século XVIII, como disse a professora Marta. E você lembra lá no início do episódio a descrição do viajante inglês que viu os jovens negros no convés de um navio. Depois, até vão chegar mais jovens, quando eu digo mais jovens entre 12 e 18 anos, mas quem está chegando no Valongo deve ter entre 20 e 30 anos. São muito jovens, mulheres e jovens, que são arrancados
- 15:00nessa violência. E aí eu acho que é importante também nessa área do Valongo, que é uma área que hoje se tornou um símbolo para a gente contar essa história, para a gente não esquecer. Por isso, esse lugar de desembarque, ali na Avenida Barão de Tefé, entre as ruas Sacadura Cabral e Coelho e Castro, recebeu o título de Patrimônio Histórico da Humanidade.
- 15:30É nesse lugar que a Jamili está agora. Esse lugar hoje é um sítio arqueológico que foi descoberto em 2011, na obra de revitalização aqui da zona portuária. Durante as escavações, foi encontrada uma grande quantidade de objetos originários do Congo, de Angola e de Moçambique. Muitos até conseguiam trazer um amuleto, um fetiche, os trabalhos arqueológicos do Valongo têm mostrado. Eles conseguiam trazer algum colar, alguma coisa que lembrasse o templo ou que fosse uma peça religiosa.
- 16:00Muitas dessas peças foram encontradas, assim como o registro de que ali ficava não só o cais do Valongo, mas um outro cais construído por cima dele e batizado em 1843 como Cais da Imperatriz. Era uma estrutura preparada para receber a última imperatriz-consorte do Brasil, Teresa Cristina, prometida ao imperador Dom Pedro II. Essa área hoje está preservada e vai de uma esquina até a outra.
- 16:30É uma área céu aberto, cercada por uma grade e na parte interna ficam os degraus e o piso de pedra. Sempre tem muita gente circulando por aqui E nem todo mundo percebe que está passando por um lugar tão importante Mas as iniciativas como essa da Casa da Tia Ciata Mostram que esse local também é uma área de preservação de memória Obrigada, Jamile E eu adorei que você conseguiu captar o batuque da oficina E as oficinas rolam toda sexta-feira, viu? Todo mundo pode participar Combinado, fica a dica O legado da Tia Ciata está presente nessa região até hoje
- 17:00A sambista, quitandeira e mãe de santo Hilária Batista de Almeida Foi a mais conhecida das tias baianas Que se tornaram símbolos de resistência cultural do povo preto Na região hoje conhecida como Pequena África Nascida em 1854 em Santo Amaro da Purificação, na Bahia Ela se mudou para o Rio de Janeiro aos 22 anos A casa dela, na Praça 11, ficou famosa pelas festas que reuniam os pioneiros do samba
- 17:30A memória está preservada com uma exposição permanente no Centro Cultural Casa da Tia Ciata, que fica na Rua Camerino nº 5. Vale a sua visita. Falando em visita, você reparou que todos esses pontos que a Jamile visitou são áreas que passaram por aterramentos? Ou seja, ao longo dos séculos, o mapa da cidade foi avançando para dentro da Baía de Guanabara.
- 18:00E agora que a gente já passou pelos pontos mais relevantes, está na hora de saber o que acontecia na chegada propriamente dita. Porque antes de entrar na cidade-porto, era preciso encarar um processo rigoroso para registrar tudo o que era considerado mercadoria. Tudo mesmo. Inclusive pessoas. Capítulo 2 – Alfândega O Rugendas, que a gente citou ainda há pouco,
- 18:30também produziu uma imagem muito conhecida mostrando uma pequena embarcação atracada bem na entrada marítima da alfândega. Dá pra ver um marinheiro negro conduzindo o barco e alguns escravizados com as cabeças raspadas subindo pra uma estrutura onde era feito o controle aduaneiro. Todos passavam pela aduana, todos eram registrados passando pelas agências de controle.
- 19:00Tem que registrar. E aí, por isso que a gente hoje sabe quantos entraram, os navios que chegaram, porque havia todo esse registro no porto. Na imagem também aparecem os capatazes, os traficantes de escravizados e dois oficiais alfandegários usando chapéus. Um está de pé e outro está sentado de frente para uma mesa onde era feito o registro.
- 19:30Primeiro, as autoridades da alfândega faziam uma contagem, dividindo as pessoas por sexo. Os traficantes tinham que pagar imposto para cada escravizado acima de 3 anos de idade. E até os menores de 3 anos eram registrados. Os bebês como crias de peito e os que já andavam como crias de pé. Como a professora Marta já disse, muitos africanos que chegavam na Baía de Guanabara eram jovens ou adolescentes.
- 20:00A ilustração do Rugendas mostra africanos bem jovens. Com o imposto pago e o registro feito, os escravizados ou as peças, como eles eram chamados, podiam atravessar a alfândega. Alguns eram levados para um armazém ali perto para serem vendidos. Outros, que estavam mais debilitados, passavam por um período de quarentena no Lazareto. A alfândega já existia no Rio desde o século XVI,
- 20:30criada como um setor da Provedoria da Fazenda Real, em 1566. Ao longo do tempo, ela foi ganhando mais relevância como um símbolo da conexão entre o poder administrativo local e a coroa portuguesa. Até porque o recolhimento de impostos era uma grande fonte de riqueza governamental. O processo com os escravizados se aplicava também às mercadorias que chegavam pelo Atlântico. A partir do século XIX, com a transferência da corte para o Rio de Janeiro,
- 21:00a cidade passou por uma transformação enorme e virou um mercado consumidor muito expressivo. Havia uma grande demanda dos novos moradores por produtos industrializados que vinham de outros países. Aí a função da aduana era identificar objetos, descrever, registrar as quantidades e estabelecer os valores. Resultado, os armazéns na região da alfândega começaram a ficar pequenos para tanta coisa que chegava pelo mar.
- 21:30Era assim no porto da atual Praça XV, era assim no entorno do Cais do Valongo. Na medida que o Porto é cidade, como cidade atlântica, maior cidade atlântica, vai crescendo a expansão para essa área que hoje a gente conhece como Porto a partir ali da Praça Mauá. Mas a área foi inicialmente, quer dizer, ela sempre teve um movimento de pescadores,
- 22:00de um pequeno comércio, mas a partir da mudança do local, da mudança da área da chegada de africanos para o Valongo, aquela área começa a centralizar uma série de atividades para a recepção desses africanos. Você perceba, se já estão precisando de um local, de um outro local para a chegada de africanos, porque esse volume vai aumentar.
- 22:30E aquela área passa a ser muito movimentada, porque na medida que os africanos chegam, eles têm que ser recebidos. Você passa a ter uma economia que gira em torno, mas é também um local de muitas trocas, porque também na medida que estão chegando africanos, por ali também vai ter todo o comércio do café. É a maior riqueza do século XIX. Tudo isso passando pela alfândega não só na chegada, mas também na saída. As atividades do porto que envolvem a chegada do café, porque o café ele chega e ele sai.
- 23:00E aí todo esse sistema de transporte é fundamental ali na região, por isso que a gente vai ter várias companhias, vários pequenos negócios do transporte das carretas, consertar navios, consertar carretas, o transporte dos sacos, ensacamento, madeireiras, oficinas, passa a ser uma área muitíssimo movimentada.
- 23:30Então, você tem um movimento de muitos negócios. E aí, como o trabalho no Brasil é fundamentalmente baseado no trabalho escravo, a presença de africanos escravizados é enorme ali na região. E esse trânsito aí, a gente começa a pensar, onde eles moravam? Eles estão trabalhando ali. Onde eles moravam? Como eles dormiam? Onde eles comiam? Onde eles se encontravam?
- 24:00É a cidade-porto como um espaço ocupado pela população negra. E não só pelos escravizados, mas pelos negros livres e libertos que trabalhavam e circulavam por ali. A liberdade no Rio de Janeiro, no século XIX, é negra. E é por isso que a gente vai encontrar nessa área do porto pessoas negras que têm casas, seus pequenos negócios, ou morar em casas coletivas, exercendo a sua liberdade de ir e vir.
- 24:30E os escravizados se confundem também com essa população livre ou liberta negra e, sem dúvida nenhuma, transforma essa cidade do Rio de Janeiro. Uma pequena África mesmo. A ideia dessa utopia de uma África em miniatura, uma África pequena, ela expressa muito bem o que essa população africana escravizada fez na região.
- 25:00A população negra que trabalha na cidade de Porto, seja conduzindo barcos pela Baía de Guanabara ou cumprindo funções no embarque e desembarque de mercadorias. É essa população que vai definir a dinâmica da Zona Portuária Carioca ao longo dos séculos. Se a gente já entendeu como era a chegada nos pontos de entrada e como era a passagem pela alfândega, chegou a hora de finalmente entrar no Rio de Janeiro para perceber esses sons, esses aromas, essas cores.
- 25:30Capítulo 3. O lugar onde tudo acontece. Eu quero que você se imagine no coração do Rio de Janeiro, ali na virada do século XVIII para o XIX. Naquela região por onde a gente passou no começo do episódio, o Cais do Porto, da atual Praça 15. Ali pertinho fica o chafariz do Mestre Valentim, que na época era fundamental para o abastecimento de água na cidade.
- 26:00Aliás, cuidado para ninguém esbarrar em você, porque o movimento ali é intenso. Toda hora chega um marinheiro para encher um tonel de água, colocar numa canoa e levar até alguma embarcação que não conseguiu atracar mais perto. e o abastecimento de água não era só para os navios, era para várias partes da cidade.
- 26:30Imagina a confusão que é, e quem vai tirar? São as mulheres, são os homens escravizados, libertos, que vão lá pegar água e levar para as casas onde eles trabalham. Inaugurado em 1789, o chafariz do mestre Valentim substituiu outro chafariz que estava ali desde 1747. E ele tinha uma função que ia além de fornecer água. Era o grande ponto de encontro da população carioca. O Debré tem uma obra que mostra essa região, já no século XIX, lotada de gente.
- 27:00Mulheres e homens negros, trabalhadores carregando tonéis de água, pessoas descansando à beira-mar, comerciantes vendendo suas mercadorias. Todo mundo circulava por ali. Por volta das quatro horas da tarde, se veem os pequenos capitalistas chegarem de todas as ruas adjacentes para se sentarem nos parapeitos do cais, onde tem o costume de vir sentir a brisa fresca até a hora da ave maria. Em menos de meia hora, todos os lugares estão tomados.
- 27:30E tinha uma categoria que aproveitava muito bem essa movimentação. As quitandeiras. Ah, os chafarizes. É onde essas quitandeiras também ficam. Do fim do século XVIII até meados do XIX, uma das atividades comerciais mais praticadas no Rio era a das quitandeiras. Elas já existiam antes e na virada do século já eram mais de 300 espalhadas pela cidade Muitas ali na zona portuária abastecendo todo mundo Os traficantes escravizados que desembarcavam no cais
- 28:00Os escravocratas que estavam ali atrás de mão de obra As autoridades que trabalhavam na região As quitandeiras negras estão na cidade inteira Na cidade do Rio de Janeiro inteira, não só ali, inclusive no mercado A gente tinha esse mercado da Praça 15, elas ocupam, apesar de ser dominado por homens brancos, elas ocupam várias barracas do mercado, tem também o mercado da Harmonia, tem outros mercados. Essas mulheres conheciam como ninguém as ruas, os caminhos e os hábitos do Rio.
- 28:30Elas se tornaram personagens centrais no funcionamento da cidade. E elas são lideranças, lideranças religiosas, lideranças culturais e que estruturam muito as referências dessa comunidade. E elas também ganham dinheiro. Muitas delas acumularam um belo dinheiro, compraram as suas liberdades, compraram a liberdade de parentes, davam a liberdade. Elas têm uma importância dentro da comunidade negra.
- 29:00Enquanto você pensa nas quitandeiras, eu quero que você tente imaginar não só o cenário onde elas trabalhavam e os sons dessa movimentação, mas também os aromas, o cheiro da comida, das frutas, dos peixes que eram vendidos ali. Conforme esses vendedores e vendedoras foram ampliando as suas redes de influência,
- 29:30é claro que o poder público ligou um sinal de alerta, né? Quem regulava todo o funcionamento da capital era a Câmara dos Vereadores, por meio de um código de posturas. E é ali que se regula tudo, tudo. Assim, barraca que pode montar, que não pode, festa que vai ter, que não vai ter, licença. É a Câmara que dá licença para as pessoas trabalharem, para as pessoas se movimentarem, para montar qualquer coisa. Ah, vai ter festa, vai botar uma barraca, vai ter fogos, não vai ter.
- 30:00Ainda no século XVII, a Câmara já tinha tentado apertar o cerco ao trabalho das quitandeiras e dos peixeiros na zona portuária A ideia era que eles ficassem separados As quitandeiras ficariam na Sé e os peixeiros iriam para a Praia do Peixe, na altura da Candelária Mas, como toda tentativa de opressão também gera resistência, não deu muito certo Os vendedores continuaram operando em diversos lugares Inclusive no mar
- 30:30Existia, na época, a figura do quitandeiro de balsa, que ia remando até os navios maiores e vendia comida para quem não conseguia desembarcar. Era mais uma dessas figuras muito comuns no meio de tantos trabalhadores que faziam o porto funcionar. E, falando em trabalhadores do porto, não dá para esquecer de uma categoria crucial, os estivadores.
- 31:00É importante a gente pensar nessa ebulição política no porto, sabe? Ali em torno da praça, a Praça dos Estivadores é central, é entre a Praça Mauá e a Estrada de Ferro, e você vê o nome, Praça dos Estivadores, então o local que os estivadores, a maior parte negra tem uma força política muito grande, e pressionavam deputados, vereadores, para atender as suas demandas e a sua presença na cidade do Rio de Janeiro.
- 31:30Os maiores sindicatos de estivadores são fundados pela população negra, por esses trabalhadores negros libertos, livres, descendentes de africanos, como o Sindicato Resistência, fundado em 1905. Os estivadores negros lutam o tempo inteiro por melhores condições de trabalho. E conseguem. Eles param a cidade do Rio de Janeiro algumas vezes. Imagina um sindicato negro parando o movimento do Porto.
- 32:00Imagina o entupimento que foi aquilo ali. Não chega mais nada, ninguém mais tira mais café, ninguém mais manda café para fora, para tudo, não tem carroça que vá lá na estrada de ferro pegar as coisas, para! Para conseguir melhor as condições de trabalho. Acho que você percebeu, ao longo do episódio, que não dá para entender a dinâmica da cidade-porto sem falar da população negra do Rio de Janeiro. E aí, os zungus, eles são fundamentais, porque eles são local de encontro.
- 32:30Pois é, os Zungus que a gente já visitou lá no início da temporada, lembra? E aí todo mundo se encontra e conversa, arranja namorada, ou briga, ou planeja fuga, ou combina uma festa em outro lugar, ou troca oportunidade de trabalho, de dinheiro. Então é um mundo que acontece nos Zungus. E também é um local onde várias diferentes procedências de africanos se encontram.
- 33:00e estabelecem laços muito importantes de solidariedade. Nas casas, nas ruas, na beira do cais, os africanos e seus descendentes foram se unindo e se reinventando. Esses locais de encontro, onde além da comida você tem também as trocas religiosas, a fundação dos primeiros associações religiosas estão nessa região do Porto, porque é onde estão os trabalhadores, é onde eles moram. Mas essa cidade negra, claro, essa cidade negra não é só no Porto, é em toda a cidade do Rio de Janeiro.
- 33:30Mas ali, como é um lugar de atração, de trabalho, sem dúvida nenhuma, reúne muita gente. Você que costuma circular pela zona portuária do Rio hoje em dia, ou até você que nunca passou por ali, deu para imaginar como era esse lugar dois, três, quatro séculos atrás? Acho que a nossa jornada de hoje só confirma uma certeza que tem atravessado essa temporada. O Oceano Atlântico não só separa o Rio da África, ele também une as duas margens.
- 34:00Então, essa população afro-brasileira no porto, ela é fundamental para a gente contar a história do Brasil. Eu quero agradecer a professora Marta Abreu por ter ajudado a gente a explorar os portos do Rio de Janeiro. E quero te convidar para pegar o caminho de volta no próximo episódio. porque a gente vai conhecer histórias de africanos e africanas que fizeram a travessia de maneira forçada
- 34:30mas deram um jeito de voltar para casa eu sou a Gabriela Montoni historiadora e apresentadora do podcast Rio Memórias se você quiser se aprofundar mais nesse conteúdo eu te convido a navegar pela Galeria Rio Atlântico no nosso museu virtual em rio-memórias.com.br A realização do podcast é da produtora Escuta Aqui,
- 35:00com coordenação e roteiros do Rodrigo Alves, que também grava as locuções adicionais. O Tales Ramos faz a supervisão dos roteiros. Hoje você ouviu bastante os sons do Rio Antigo. Quem cria essas sonorizações e esses ambientes sonoros é a Clara Costa, responsável pela edição e pela montagem dos episódios. A assistente de edição é a Giovanna Orsini. Mas você também ouviu os sons atuais da Zona Portuária, captados pela Jamile Boulay, a nossa produtora.
- 35:30Também foi a Jamile que gravou a entrevista com a Marta Abreu no Estúdio Rastro, com a supervisão técnica do Dani Dinho. As minhas locuções são gravadas no Estúdio Frango no Bafo, em Belo Horizonte. A pesquisa do podcast é do historiador Davi Arueira, e as músicas que você ouve são composições originais do Gabriel Falcão. Se você está curtindo a temporada, conta para a gente no Instagram, arroba Rio Memórias. E se você ouve no Spotify, avalie a gente com as estrelinhas e deixe um comentário aí no aplicativo.
- 36:00Obrigada e até mais! Essa temporada do podcast é patrocinada pelo Ministério da Cultura, por meio da Lei de Incentivo à Cultura e pelas empresas Norsul, Modal, Impulso e Cajnar Leonardo. Até o próximo episódio!
Disponível em
Todos os episódios
- 01Arrivals and RebirthsDuração 35:02
Starting in the 16th century, Rio de Janeiro received a multitude of peoples who crossed the Atlantic - some by choice, others, in the case of Africans, confined in the holds of ships. In the opening of Season 5: the disembarkation, the stolen identity, the feeling of banzo, the reinvention in the zungus and in the religious brotherhoods of a Rio de Janeiro africanized and forged by the ocean. Interviewee in this episode: Eduardo Possidônio.
- 02CrossingDuração 44:08
In the second episode of the Rio Atlântico season, the most painful part of the relationship between Rio de Janeiro and the ocean: the crossing of the enslaved. The overland journey from the African hinterland to the coast, the long voyage in the ship's hold, and the arrival in an unknown land. With excerpts from the account of a formerly enslaved man who went through each of these stages. Interviewed in this episode: Nilma Teixeira Accioli. ||| Rio Memórias. Stories of Rio to listen to. In the Rio Atlântico season: the traumatic crossing, the other shore, the port city, the reinventions, and the cultural legacies. Visit the gallery in the virtual museum riomemorias.com.br to dive deeper into the themes. Follow @riomemorias on Instagram. ||| Hosted by: Gabriela Montoni. Coordination, scripts, and additional narration: Rodrigo Alves. Additional readings in this episode: Thiago André, from the podcast História Preta. Script supervision: Thales Ramos. Production and interviews: Jamille Bullé. Research: Davi Aroeira. Editing and sound design: Clara Costa. Editing assistance: Giovanna Orsini. Original soundtrack: Gabriel Falcão. Recordings: Estúdio Rastro (RJ) and Estúdio Frango no Bafo (MG). Executive direction: Lívia Baião.
- 03The other bankDuração 36:20
In the third episode of the Rio Atlântico season, the African shore of the ocean. Costa da Mina, Congo-Angola, Mozambique: the points from which the most enslaved people departed toward Rio de Janeiro, and the memories these people carried on the ship. Interviewed in this episode: Monica Lima.
- 04The port cityDuração 36:32
In the fourth episode of the Rio Atlântico season, the story of Rio de Janeiro's port district. The podcast invites you to arrive via Guanabara Bay, discover the different disembarkation points over the centuries, pass through customs, and take in the sounds, images, and aromas of the port city. Interviewed in this episode: Martha Abreu.
- 05The way backDuração 35:45
In the fifth episode of the Rio Atlântico season, the stories of African men and women who not only won their freedom but also managed to return home by crossing the ocean once again. Interviewed in this episode: Monica Lima.
- 06The Invention of African RioDuração 34:37
In the season finale of Rio Atlântico, the African heritage in everyday carioca life. The words we use daily, the flavors, the sounds, the music, and a stroll through the most African place in Rio de Janeiro. Interviewed in this episode: Lucimar Felisberto dos Santos. Additional narration: Theo Ramos.