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Rio Atlântico
Episódio 06
The Invention of African Rio
0:00faltam 35 min34:37
Transcrição
Oi, hoje é dia de sair de casa e caminhar pelo Rio de Janeiro.
- 0:00Oi, hoje é dia de sair de casa e caminhar pelo Rio de Janeiro. Esse som que você está ouvindo é real. É a Jamile Boulay, a nossa produtora, saindo para te levar num passeio muito simbólico.
- 0:30Ao longo da temporada, a gente explorou a relação da cidade com o Oceano Atlântico. E é claro que essa relação se estende até a outra margem, a África. Um vínculo marcado pela dor, mas também pela resistência, pela reinvenção, pela memória. A gente conheceu os portos africanos, a travessia dos escravizados nos porões dos navios, os pontos de desembarque no rio e até a aventura de quem fez o caminho de volta para casa.
- 1:00Você lembra, né? Imagino que não existia um lugar mais horrível em toda a criação do que um porão de um navio negreiro. Esse é um momento de grande incerteza. Essa civilização chega pós essa passagem degradante, mas esse pós existiu e essas pessoas se reinventaram. A verdade no Rio de Janeiro no século XIX é negra. Muitos grupos saindo aqui do Rio de Janeiro
- 1:30e eles vão para diferentes partes da África, são histórias extraordinárias. Durante cinco séculos, o Atlântico e a África marcaram a cidade de maneira profunda. E não foi só uma influência cultural. Foi, de fato, a formação do rio como a gente conhece hoje. Não faz sentido pensar na alma carioca sem pensar nos africanos, nas africanas e nos seus descendentes.
- 2:00É por isso que a Jamile está indo para um dos lugares onde essa presença é mais notável. Ela vai acompanhar um passeio do Rio Memórias com estudantes num pedaço do centro do rio que a gente já citou várias vezes aqui no podcast. E aí, Gabi? Estou aqui saindo de casa agora. Hoje eu vou me infiltrar num passeio escolar do Rio Memórias,
- 2:30na Pequena África. Estou indo para lá agora. Daqui a pouco eu te chamo então, beleza? Beleza, Jamile. Combinado. A Pequena África é uma região da zona portuária que abrange os bairros da Saúde, da Gamboa, do Santo Cristo. É uma espécie de endereço histórico da comunidade afro-brasileira. Ali fica o Cais do Valongo, a Pedra do Sal, o Largo de São Francisco da Prainha. Não tem lugar melhor para a gente entender a invenção do rio africano.
- 3:00Mas segura a ansiedade aí, porque a Jamília ainda está a caminho. Enquanto ela não chega, eu quero te contar umas histórias. E eu sei que você gosta de ouvir histórias, né? Eu sou a Gabriela Montoni e esse é o episódio final da temporada Rio Atlântico, inspirada na galeria do nosso Museu Virtual em ilmemorias.com.br.
- 3:30Se a cidade foi forjada pelo mar durante mais de 500 anos, hoje a gente vai encontrar os sons, as imagens, os sabores e até as palavras que saíram da África, cruzaram o oceano e se instalaram por aqui. A nossa viagem hoje começa com um elemento fundamental na cultura de diversos povos africanos
- 4:00A oralidade Várias histórias que você escutou nos episódios anteriores Só chegaram até a gente graças à tradição oral E nesse processo os idiomas vão se entrelaçando A nossa língua, claro, é o português com origem no latim E até o Ney Lopes, um mestre das palavras, já brincou com isso numa canção.
- 4:30Entendeu tudo? Essa é uma apresentação do Ney Lopes no programa Todas as Bossas, da TV Brasil, em 2019.
- 5:00Na música Águia de Aia, ele conta a história de um personagem que é possuído pelo espírito do jurista Rui Barbosa e desanda a falar juridiquês com termos em latim. Bem nesse trecho que a gente ouviu, o espírito abandona o homem. O Neylope se diverte com o latim, mas o olhar dele sempre esteve voltado para outros idiomas no lado de lado atlântico.
- 5:30Como a gente já contou aqui nessa temporada, ele é autor da Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana e do novo Dicionário Banto do Brasil, uma obra pioneira na investigação das línguas da África. Você já parou para pensar sobre a origem das palavras que você fala no dia a dia? Ginga, dengo, cavané, sapeca, caçula, cochilo, brancojô. O português do Brasil é um idioma contagiado pelas expressões de origem banto.
- 6:00A ginga que a gente tanto usa para descrever o brasileiro vem do banto. O significado original, que é o movimento relacionado à capoeira, extrapolou para definir a nossa maneira de ser, o nosso jeito de lidar com as coisas. E assim foram chegando palavras de origem africana com uma conotação afetiva. O dengo, que tem sentido de aconchego, o cafuné, que remete ao carinho na cabeça, o caçula, que identifica o irmão mais novo.
- 6:30Se não fosse a influência africana, a gente chamaria o irmão mais novo de Benjamim, como fazem os portugueses. A gente usaria dormitar em vez de cochilar. Não é mais gostoso falar do nosso jeito? E ainda tem todo um vocabulário sacralizado que está até hoje no nosso cotidiano associado às religiões de matriz africana. Mas não é só a incorporação de palavras.
- 7:00A maneira de se expressar também foi mudando. Essa africanização do português falado é o que a escritora, antropóloga e ativista Lélia Gonzalez chamou de pretuguês. O ritmo do discurso, a predominância das vogais, a ausência de algumas consoantes como L e R, tudo isso é influência dos idiomas africanos. Aqui mesmo no podcast, você já reparou como eu falo? Você não vai me ouvir pronunciando os R no fim dos verbos.
- 7:30É falar, pensar, escrever. Por exemplo, eu acabei de falar ser em vez de você. Eu falo tá em vez de estar, reparou? Tudo isso a Lélia Gonzalez já identificava como pretuguês. E agora que a gente já entendeu melhor a presença africana na nossa oralidade, vamos mudar de assunto porque, olha, eu não sei se você tá com fome,
- 8:00mas chegou a hora de falar de comida. Capítulo 2 Os Sabores e os Sons Quando a gente pensa na invenção do Rio e do próprio Brasil como uma nação, é óbvio que as elites miravam nos modelos europeus.
- 8:30Mas a criação de uma identidade nacional também passava por um movimento de se afastar desses modelos. E aonde você vai buscar as pessoas que estavam trabalhando com essa perspectiva? A classe popular. Opa, deixa eu dar as boas-vindas para a nossa convidada de hoje. Então, eu sou a Lucimar Felisberto Santos, sou historiadora de formação, sou militante do Movimento Negro Unificado. A professora Lucimar trabalha na rede municipal em Duque de Caxias e Magé, na Baixada Fluminense,
- 9:00além de ser pesquisadora do Grupo Elos e comunicadora social da plataforma educacional Afrodiálogos. Como ela estava dizendo, a criação de uma identidade nacional passou pela classe popular. Foi ela que se constituiu cultura brasileira, porque precisávamos ter uma cultura que se chamasse nacional. Então, por conta disso, que os ritmos, as danças, sobretudo dos africanos e afro-brasileiros, elas foram pegando esse lugar e esse patamar de representante da nação brasileira.
- 9:30Não só isso como a comida, que outra comida iria representar o povo brasileiro, senão uma comida popular, que era uma questão mesmo de se inventar uma nação. A gente sabe que as nações são inventadas, mas para se inventar a nação brasileira, se recorreu a esses signos e símbolos populares. A gastronomia é um ponto central dessa invenção. A gente já falou bastante nessa temporada sobre as quitandeiras que se espalhavam pelo Rio de Janeiro nos séculos 18 e 19.
- 10:00Essas mulheres trouxeram para o Brasil não só alimentos tipicamente africanos, mas também os modos africanos de preparar a comida. E esses elementos estão aí até hoje. Meu nome é Jane, considerada a mulher giló, que não é de amargar. Essa é a Jane Pereira, que vem de giló frito, num vídeo produzido pelo jornal O Globo em 2018. Aí eu faço esse giló aqui já há mais de 20 anos. Aí eu transformei isso num giló que não fosse de amargar, que caísse na boca do povo, entendeu?
- 10:30Depois você vai provar. A reportagem foi feita na Feira das Iabás, que acontece no segundo domingo de cada mês, num bairro onde eu morei durante muito tempo, Madureira, na zona norte do Rio. Enquanto a Jamili não chega na pequena África, vamos dar uma passadinha na feira?
- 11:00Quem tá cantando é o sambista Marquinhos de Oswaldo Cruz, que criou esse encontro em 2008. É um evento gastronômico e musical que foi reconhecido em 2023 como Patrimônio Cultural e Material do Município. Um ótimo lugar para encontrar várias manifestações afro-brasileiras, como o samba e o jongo. Essa é uma apresentação recente do Jongo da Serrinha na Feira das Iabás.
- 11:30O jongo é uma dança que se faz em roda, com tambores e cantos.
- 12:00A preservação se deve muito ao Jongo da Serrinha, fundado na década de 1970 pela lendária vovó Maria Joana Rezadeira e pelo filho dela, o mestre Darcy do Jongo. A maior expoente foi Maria de Lourdes Mendes, a Tia Maria, uma das primeiras moradoras do Morro da Serrinha no início do século XX, quando o Madureira ainda era uma área rural. Boa noite, gente. Olha o Jongo aí. Quero todo mundo na roda, hein?
- 12:30Essa é a Tia Maria. Foi numa roda do Jongo da Serrinha em 2011 no Cordão do Bola Preta, registrada pelo canal Kutni TV, que se dedica à cultura negra.
- 13:00A rainha do Jongo morreu em 2019, poucos dias depois de receber o prêmio Sim à Igualdade Racial, num palco do Copacabana Palace. O legado dela está aí até hoje e a Feira das Yabás é um dos redutos dessa tradição. Aliás, já que a gente estava falando sobre as palavras,
- 13:30Yabás tem origem no Yorubá e significa o conjunto dos orixás femininos das águas. Um símbolo do matriarcado que acabou se tornando um cargo fundamental no âmbito do candomblé. A Yabacê ou Yabá, que faz o trabalho na cozinha. Então, nada mais justo que as barraquinhas espalhadas pela Praça Paulo da Portela para agradecer a contribuição das tias baianas e das quitandeiras.
- 14:00Uma herança gastronômica que não para por aí. É o Angudo Gomes, por exemplo. Outros dias a gente fez uma atividade na escola e falou vamos almoçar onde? Vamos almoçar no Angudo Gomes. O Angudo Gomes é um restaurante no bairro da Saúde, no centro do Rio. Mas a marca surgiu há quase sete décadas com o imigrante português Manuel Gomes. Ele teve a ideia de vender o anguabaiana com miúdos de porco e em latas de tinta. As carrocinhas de angu tomaram a cidade na segunda metade do século XX.
- 14:30Foi a continuidade de uma prática que vinha desde o século XIX, com as mulheres que serviam os angus na rua ou nas casas de zungu que a gente já visitou aqui nessa temporada. Um rio de dois séculos atrás que segue muito vivo em regiões como a Pequena África. A Pequena África sendo um lugar de visitação de muitos estudantes e vão sendo pensados em constituir lugares de memória em todo o Brasil. Não só de memória negra, mas de memórias mesmo de diversas outras tradições.
- 15:00Falando em Pequena África e estudantes, chegou a hora de reencontrar Jamile. Capítulo 3. O coração do Rio Africano. E aí, Gabi? Cheguei aqui na região da Pequena África. Me infiltrei entre os estudantes no passeio do Rio Memórias.
- 15:30Vou desbravar com eles aqui essa área. Estou com a Raquel e com a Alice nessa jornada. E daqui a pouco eu te chamo, beleza? Beleza. A Raquel Oliveira e a Alice Meirelles são as guias da oficina Rolé dos Estudantes. Esse passeio que o Rio Memórias faz em parceria com as escolas. Para se inscrever é só entrar em rio-memórias.com.br e ir na aba Para Escolas. Um dos roteiros é nessa região hoje conhecida como Pequena África,
- 16:00que ao longo dos séculos viu nascer o samba, viu as quitandeiras vendendo suas comidas, viu as casas das tias baianas. E aqui a gente não está falando só sobre comida e música. A gente está falando sobre a ocupação do espaço público com consciência racial. A gente tem a imagem da tia Ciata, como aquela mulher que organizou o samba no Rio de Janeiro. Mas muitos estudos sobre as quitandeiras mostram que elas também eram articuladoras em seus lugares de atuação.
- 16:30Além de estarem na rua, elas administravam, elas orquestravam várias situações sociais que acabavam até mesmo por oferecer esse acolhimento, essa proteção e, em última instância, a alforria para muitas pessoas. Eram redes de solidariedade que havia nas ruas do Rio de Janeiro, então elas tinham certa autonomia para estar negociando as suas mercadorias e sempre ocupando esse espaço de rua, da rua, como espaço, como grandes escritórios a céu aberto.
- 17:00Essa imagem é boa, né? De pensar assim. O espírito associativo da população negra sempre marcou essa região no centro do Rio. Pessoas que vieram de diferentes nações africanas eram acolhidas nos ungus, compartilhavam saberes, trocavam informações sobre os seus ofícios. E vendo que as pessoas tinham uma habilidade de ferreiros, trabalhavam com madeiras, talhavam a madeira.
- 17:30Então, são conhecimentos ancestrais que eles carregaram em suas malas, porque a gente sabe que essas experiências culturais de aprendizado, o saber é uma coisa que está conosco. Então, foram reproduzidos aqui no Brasil ao longo do período colonial, imperial. Um exemplo dessa bagagem cultural são os símbolos Adinkra, que estão em grades e portões da cidade até hoje. Eles também são uma espécie de escrita,
- 18:00porque cada símbolo tem o seu significado. Assim como os hieróglifos, também egípcios e gregos, guardavam toda uma narrativa na sua imagem, as adinkras também fazem isso, elas têm uma narrativa a ser contada. E voltando para o Rio de Janeiro, quando a gente olha nos prédios antigos, a gente consegue identificar muitas formas de adinkras que eram feitas pelos ferreiros
- 18:30e deixaram as suas marcas nas construções do Rio de Janeiro. Então acho que isso também é muito importante para a gente que conhece as Adinkras prestar um pouco atenção nisso que permaneceu ainda, que foi o registro, que sim, os africanos tinham uma escrita, essa é a que a gente conseguiu resgatar, mas tem outras, mas que é legal a gente prestar atenção nas Adinkras. Você que está ouvindo, você já viu por aí alguma grade de ferro com um símbolo que parece um coração?
- 19:00É uma das representações do Sankofa, um símbolo adinkra que a gente já citou algumas vezes aqui no Rio Memórias. São muitos. O Sankofa é o mais conhecido, mas são muitos. E é muito importante, nessa caminhada que se faz pelo Rio de Janeiro, a procura de legados ancestrais, prestar atenção nas figuras que aparecem nas ferragens. Aliás, quando você terminar de ouvir, dá uma olhada na descrição do episódio aí no seu aplicativo,
- 19:30que tem um link do Ipeafro, o Instituto de Pesquisa e Estudos Afro-Brasileiros, com vários símbolos adinkra para você conhecer os significados. E toda vez que você se deparar com um sancofa num portão ou numa grade, você vai lembrar que essa é uma marca africana na paisagem urbana carioca. Porque assim, a mão de obra era escrava, a mão de obra era negra. Então, nada mais comum do que esses artefatos terem sido construídos por quem, de fato, tinha habilidade.
- 20:00A gente pode falar em expertise, pode falar em know-how, mas a questão é habilidade, né? Quem tinha habilidade? Habilidade é o que não falta em todas as áreas. Quer um exemplo? A gente acabou de chegar aqui no Largo São Francisco da Prainha. Estou aqui de frente para aquela estátua da Mercedes Batista. Se o pessoal não está familiarizado com a figura da Mercedes, é aquela estátua de uma mulher dançando de turbante e com os panos de moda africana.
- 20:30E ela foi a primeira bailarina negra a integrar o corpo do baile do Teatro Municipal do Rio. Isso foi em 1948. Olha que legal. Baita homenagem, né? Merecida. Mercedes Batista nasceu em 1921, em Campos dos Goitacazes, no norte do estado do Rio. E, além desse feito de ter sido a primeira bailarina negra no teatro municipal, ela foi a grande responsável por consolidar, em meados do século XX,
- 21:00a identidade da dança afro-brasileira. Esse é um registro do balé folclórico Mercedes Batista, na década de 1970. No filme Balé de Pé no Chão, dirigido em 2005 por Lilian Solá Santiago e Mariana Monteiro,
- 21:30a própria Mercedes, já com mais de 80 anos, conta várias histórias. Como no dia em que ela própria fez a primeira sapatilha de pano para usar no balé. Uma sapatilha que não durou muito tempo. Fiz uma pra mim, ensaiar, levei, fui de sapatilha.
- 22:00Só durou um dia só, né? Um ano. O legado da Mercedes Batista está na nossa arte até hoje. Chamada Dança Afro-Brasileira Moderna, ela vai trazer os orixás, o jazz moderno, técnicas ocidentais e africanas afro-brasileiras juntas, formulando uma nova dança. Por isso ela está retratada ali na estátua com aquela pose e com aquelas roupas que as pessoas às vezes pensam que é uma tia baiana, que é uma africana,
- 22:30mas é uma bailarina clássica que também é uma bailarina de dança afro-brasileira. Essa é a Raquel falando com um grupo de estudantes ali em frente à estátua no Largo de São Francisco da Prainha. Eu vou voltar lá para continuar ouvindo o que a Raquel está contando e daqui a pouco eu te chamo de novo, tá bom? Outra coisa que a gente vê aqui interessante, gente, é que aqui no número 13, do Largo da Prainha, a gente teve uma casa de zumbom, que era essa casa onde várias pessoas pretas estavam abrigadas
- 23:00sob a proteção de uma tia baiana. E a gente tem noção disso através de registro policial. Como eu falei, essas pessoas, eles muitos não sabiam ler, não sabiam escrever, trabalhavam através ali da oralidade, contando essa história oralmente. As roupas e o turbante na estátua da Mercedes Batista também são uma estética que cruzou o oceano. O jeito de amarrar os tecidos, a combinação de cores, os adornos, tudo isso já estava presente lá atrás.
- 23:30Mesmo numa época em que a identidade era arrancada à força. O comerciante veio e capturou todos nós, nos fez todos prisioneiros e nos levou para a costa. Houve só esse relato de 1849 de um homem chamado Augustino Ele foi escravizado e fez a travessia do Atlântico de Moçambique para o Brasil quando tinha 12 anos Aos 31, ele prestou um depoimento na Câmara dos Lordes Britânica sobre as condições do navio
- 24:00Olha o que ele fala sobre as roupas Nós ficamos lá por uma semana ou dez dias quando fomos colocados a bordo do navio As roupas de todos os negros a bordo foram tiradas até o último pano. No Brasil, os escravizados recebiam as vestes mínimas para trabalhar, mas muitas vezes conseguiam subverter esse apagamento fiando as próprias roupas. Ou do jeito que dava. A gente pensa na realidade da escravidão, naquela outra temporalidade,
- 24:30de uma maneira muito descolada da temporalidade de hoje. Por isso que a gente às vezes se espanta quando vê, por exemplo, Entre as minhas pesquisas, eu encontrei uma escravizada que rouba o dinheiro da patroa, da proprietária, e vai comprar um cor de fazenda para fazer uma roupa para o seu Amazio. O Amazio é o companheiro, o namorado. Eles iam participar de um evento e, para ela, era importante que ele fosse bem vestido.
- 25:00Pela leitura da documentação, eles tinham uma festa para ir e ela queria que o Amazio fosse com a roupa nova. são expectativas que nós temos hoje e que faz parte do universo do ser humano que a gente pode ler a documentação do século XIX, imaginando que também aquelas pessoas tinham de estar melhor vestidas em determinadas situações de marcar seu estado social a partir da vestimenta e até hoje a gente se arruma se enfeita, cuida da roupa
- 25:30do penteado desde as estratégias funcionais como as mulheres dobrando os tecidos no corpo para esconder objetos de valor ou guardando sementes nas tranças, até o próprio simbolismo do cabelo para as pessoas negras. O cabelo recobre a cabeça, o ori. E é aqui que a gente tem o axé, a força vital. Aqui, mais uma palavra para a gente aprender. O ori é o termo de origem iorubá que significa cabeça.
- 26:00Mas não só a cabeça fisicamente. Tem um sentido de essência do ser. E essa que você ouviu é a fotógrafa e pesquisadora Gabriela Isaías, no vídeo Cabelo é Poder, do Canal Preto. A Gabriela estuda estética na diáspora africana. Não à toa, nós não deixamos qualquer um tocar no nosso cabelo. Quando a gente recebe cafuné, geralmente é de uma pessoa querida, que a gente gosta. Agora, conta aqui pra mim.
- 26:30Quando você ouviu a Gabriela falando cafuné, Cafuné, você lembrou do começo do episódio? Pois é, a África tá nas palavras. Inclusive nesse tema que a gente tá tratando agora, o vestuário. Missanga, patuá, mochila, abadá, balangandã. A herança tá na roupa, no cabelo, na música, no samba.
- 27:00Esse é o tradicionalíssimo samba da Pedra do Sal, que arrasta um mar de gente pra pequena África de sexta a segunda. Oi, Gabi. Chegamos aqui na Pedra do Sal. Tem várias referências, vários murais, né?
- 27:30Arlindo Cruz, tem o mural da Tia Ciata, então é uma história bem interessante aqui. E era um espaço para a difusão cultural afro-brasileira e isso continua até hoje, né? Porque aqui na Pedra do Sal, acho que boa parte da galera que está ouvindo conhece esse samba aqui. E é isso, né? É um pouco dos valores que ainda são perpetuados até hoje. Aqui a região tem esse nome Pedra do Sal por conta da pedra, mas também porque aqui era um pequeno porto, um pequeno trapiche,
- 28:00que recebia todo o sal que abastecia a cidade do Rio de Janeiro. Então, por isso que é Pedra do Sal. Em 2005, a Pedra do Sal ganhou da Fundação Palmares a certificação de quilombo urbano. Era uma reivindicação que vinha desde o século XIX e, aliás, continua até hoje, porque a comunidade ainda luta pela titulação efetiva do terreno. Isso tem acontecido com muitas populações tradicionais no Rio e no Brasil inteiro
- 28:30A gente vive num momento de resgate da valorização da ancestralidade negra e também afro-indígena Muito interessante que, para além da gente ainda poder identificar saberes que navegaram desde a África até aqui A gente está num momento que as pessoas entenderam que isso é um elemento importante que as pessoas estão se apropriando de uma forma muito potente de todos esses seus saberes ancestrais.
- 29:00Começou um movimento muito bonito deles, principalmente dos quilombolas, quando eles começaram a ser alvo de estudos, de pesquisas de acadêmicos, de variados. Não fale de nós sem nós. Ali na pequena África, viveram ou circularam figuras essenciais da nossa história, Como o Machado de Assis e João da Baiana Só pra citar dois gênios da literatura e da música Um lugar que reúne construções fundamentais pra nossa memória Como o Cais do Valongo e o Cemitério dos Pretos Novos
- 29:30E como não dá pra falar dos quilombolas sem ouvir os quilombolas Como lembrou a professora Lucimar Vamos ouvir a Marilúcia Luzia Quilombola da Pedra do Sal Num depoimento ao canal SOS Brasil Soberano em 2017 Nós costumamos dizer que o Cais do Valongo vem a ser um símbolo Ali era o cais, ali chegavam os negros, ali eram distribuídos O cemitério dos Espíritos Novos é um cemitério a nível de ficar os mortos
- 30:00E aqui na Pedra do Sal estão os descendentes de escravos vivos, que somos nós Então essa nossa preservação de memória, essa nossa resistência viva é muito importante Gabi, mais uma vez batendo ponto aqui no Cais do Valongo A gente já veio algumas vezes aqui Hoje eu estou aqui com os estudantes no passeio do Rio Memórias
- 30:30Dessa vez não vim sozinha E essa vai ser a última parada na Caminhada da Jamile pela Pequena África Hoje eu queria destacar uma parte que eu acho que a gente ainda não falou Tem um monumento aqui no Valongo Que representa os diferentes povos que vieram da África E desembarcaram aqui. Cais do Valão foi o porto com o maior número de desembarques de escravizados no Brasil. E aqui tem um monumento que mostra pessoas carregando uma bagagem.
- 31:00E aqui é uma bagagem simbólica. São esses valores que a gente falou ao longo desse episódio de hoje. São os saberes, são as crenças. Então essa obra destaca isso. E o mais bonito é que quando você se distancia um pouquinho dela, você vê o formato do continente africano então, uma obra muito bonita muito legal, aqui no Cais do Balongo eu espero que você tenha gostado de acompanhar essa jornada aqui pela Pequena África
- 31:30eu com certeza gostei e eu passo a bola pra você, Gabi um beijo e até a próxima eu quero agradecer a Jamile que levou a gente pra conhecer um lugar tão especial e a professora Lucimar Felisberto que ajudou a gente a entender melhor a invenção do rio africano. Também quero agradecer a você
- 32:00que me acompanhou ao longo de toda a temporada Rio Atlântico. Você gostou? Deu pra perceber melhor a relação da cidade com o oceano? Olha, eu acho que na próxima vez que você for à praia, você vai olhar pro mar e vai lembrar que lá do outro lado tem muita história. Uma história que também é nossa. Eu sou a Gabriela Montoni
- 32:30Historiadora e apresentadora do podcast Entra lá no nosso museu virtual em ilmemorias.com.br Tem muito conteúdo pra você explorar nas galerias Se você ouve no Spotify, deixa um comentário e marca a gente no Instagram A arroba é ilmemorias A realização dos episódios é da produtora Escuta Aqui O Rodrigo Alves é o responsável pelo roteiro, pela coordenação e pelas locuções adicionais.
- 33:00O Tales Ramos faz a supervisão de roteiro. E o filhinho dele, o Théo, foi quem gravou pra gente as palavras de origem africana ao longo do episódio. Não ficou fofo? Obrigada, Théo. Obrigado, Xagabi. Eu que agradeço, Théo. Quem faz toda a montagem, a edição e as sonorizações é a Clara Costa, com a assistência da Giovanna Orsini. Hoje você ouviu bastante a voz da Jamile. E também foi ela que gravou a entrevista com a professora Lucy Mar no Estúdio Rastro
- 33:30no Rio de Janeiro, com a supervisão técnica do Dani Di. As minhas locuções foram gravadas no Estúdio Frango no Bafo, em Belo Horizonte. A trilha sonora do Rio Memórias é original, toda composta pelo Gabriel Falcão. E as pesquisas dos episódios são feitas pelo historiador Davi Arueira. Obrigada pela companhia e até mais. Essa temporada do podcast foi patrocinada pelo Ministério da Cultura, por meio da Lei de Incentivo à Cultura e pelas empresas Norsul, Modal, Impulso e Cajnar Leonardos.
- 34:00Obrigado!
Disponível em
Todos os episódios
- 01Arrivals and RebirthsDuração 35:02
Starting in the 16th century, Rio de Janeiro received a multitude of peoples who crossed the Atlantic - some by choice, others, in the case of Africans, confined in the holds of ships. In the opening of Season 5: the disembarkation, the stolen identity, the feeling of banzo, the reinvention in the zungus and in the religious brotherhoods of a Rio de Janeiro africanized and forged by the ocean. Interviewee in this episode: Eduardo Possidônio.
- 02CrossingDuração 44:08
In the second episode of the Rio Atlântico season, the most painful part of the relationship between Rio de Janeiro and the ocean: the crossing of the enslaved. The overland journey from the African hinterland to the coast, the long voyage in the ship's hold, and the arrival in an unknown land. With excerpts from the account of a formerly enslaved man who went through each of these stages. Interviewed in this episode: Nilma Teixeira Accioli. ||| Rio Memórias. Stories of Rio to listen to. In the Rio Atlântico season: the traumatic crossing, the other shore, the port city, the reinventions, and the cultural legacies. Visit the gallery in the virtual museum riomemorias.com.br to dive deeper into the themes. Follow @riomemorias on Instagram. ||| Hosted by: Gabriela Montoni. Coordination, scripts, and additional narration: Rodrigo Alves. Additional readings in this episode: Thiago André, from the podcast História Preta. Script supervision: Thales Ramos. Production and interviews: Jamille Bullé. Research: Davi Aroeira. Editing and sound design: Clara Costa. Editing assistance: Giovanna Orsini. Original soundtrack: Gabriel Falcão. Recordings: Estúdio Rastro (RJ) and Estúdio Frango no Bafo (MG). Executive direction: Lívia Baião.
- 03The other bankDuração 36:20
In the third episode of the Rio Atlântico season, the African shore of the ocean. Costa da Mina, Congo-Angola, Mozambique: the points from which the most enslaved people departed toward Rio de Janeiro, and the memories these people carried on the ship. Interviewed in this episode: Monica Lima.
- 04The port cityDuração 36:32
In the fourth episode of the Rio Atlântico season, the story of Rio de Janeiro's port district. The podcast invites you to arrive via Guanabara Bay, discover the different disembarkation points over the centuries, pass through customs, and take in the sounds, images, and aromas of the port city. Interviewed in this episode: Martha Abreu.
- 05The way backDuração 35:45
In the fifth episode of the Rio Atlântico season, the stories of African men and women who not only won their freedom but also managed to return home by crossing the ocean once again. Interviewed in this episode: Monica Lima.
- 06The Invention of African RioDuração 34:37
In the season finale of Rio Atlântico, the African heritage in everyday carioca life. The words we use daily, the flavors, the sounds, the music, and a stroll through the most African place in Rio de Janeiro. Interviewed in this episode: Lucimar Felisberto dos Santos. Additional narration: Theo Ramos.