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Rio Desaparecido
Episódio 04
Palácio Monroe
0:00faltam 36 min36:04
Transcrição
Tá gravando, gravando.
- 0:00Tá gravando, gravando. Aqui tá ligado já? Já, já tá aí, já tá gravando. Tem mais de um ano que eu não venho aqui pra parte da Cinelândia. Esse é um chafariz do século XIX, se não me engano, comprado pelo Dom Pedro II. É vazio. E é isso, a praça tá vazia, tem algumas pessoas que moram aqui. Quer dizer, tirando essas pessoas aqui que tá vazia, né, mas tem pessoas. Tem alguns entregadores que estão também dando uma descansada.
- 0:30Na sombra. Na sombra. Muito sol. Muito sol. Não tem muita sombra, né? A praça é meio árida, assim. Tem esses chafariz no meio seco e não tem... Ela tem um paisagem meio de palmeiras. As árvores não têm as copas muito largas, assim. Então não é um lugar muito legal de ficar. Os bancos ficam todos expostos ao sol. Ela é um lugar realmente nem um pouco convidativo, assim.
- 1:00Oi! Se você mora no Rio de Janeiro, você sabe bem o que é um sol de 35 graus fritando a sua cabeça no centro da cidade, né? Daqui a pouco eu te conto que praça é essa. Por enquanto, pode ficar bem confortável aí, de preferência na sombra, e ajusta direitinho o seu fone de ouvido pra captar todos os sons. Porque, olha, hoje eu vou te contar uma história que parece até mentira. A história de um palácio gigante que viajou de um país pro outro. Já viu um negócio desse?
- 1:30Uma construção imponente que ganhou prêmio internacional e foi sede do Senado durante décadas, mas sumiu sem muita explicação e deixou pra trás só um chafariz e uma praça vazia. Hoje eu vou te contar a história do Palácio Mungo. Eu sou a Gabriela Montoni e essa é a segunda temporada do podcast Rio Memórias,
- 2:00com seis episódios que exploram a Galeria Rio Desaparecido do Museu Virtual riomemórias.com.br. Aqui a gente recria lugares e símbolos da cidade que não existem mais. Só que hoje tem uma diferença. Pela primeira vez, a nossa história começa bem longe do rio. Longe no espaço e longe no tempo também. Esse som aí da água batendo tem uma explicação.
- 2:30Eu vou te colocar agora dentro de um navio que está se aproximando do porto de Nova York. É o ano de 1903. Não vai nem dar tempo de enjoar com o balanço do mar, porque a gente já está chegando. Capítulo 1. Um palácio para americano ver. Eu vou começar te apresentando um personagem que está dentro desse navio
- 3:00E aqui no Rio Memórias a gente vive trombando com o nome de rua, de viaduto Mas hoje a gente vai trombar com o nome de hospital Aliás, aquela praça vazia lá no centro do Rio Ela não fica muito longe do Souza Guiar, o hospital municipal Se você é do Rio, você sabe do que eu estou falando Pois quem está no navio é o próprio Souza Guiar O hospital só seria inaugurado alguns anos depois mas o engenheiro e político Francisco Marcelino de Souza Guiar tinha uma missão. Ele era o chefe da Comissão Brasileira na Feira Mundial de St. Louis,
- 3:30que aconteceria no ano seguinte, em 1904. Você tem ideia do que era uma feira mundial no início do século XX? Eu vou te contar. Mas antes, para entrar no clima, deixa eu tirar a poeira aqui da vitrola para a gente ouvir uma gravação original daquela época.
- 4:00Essa é a música Meet Me in St. Louis, ou Me Encontre em St. Louis,
- 4:30Composta por Carrie Mills e Andrew Sterling Interpretada por Billy Murray Um cantor americano muito popular na primeira metade do século XX A gravação é de 1904 mesmo Quando a feira juntou representantes de várias partes do mundo Para exaltar os avanços da época na tecnologia, na indústria, na economia, na política E em vários campos do conhecimento Era uma grande celebração do progresso numa área de 5 quilômetros quadrados, com estandes de 60 países,
- 5:00recebendo mais de 19 milhões de visitantes. Os pavilhões eram grandes palácios. E o Lauro Miller, que não é nome de hospital, mas é nome de rua em Botafogo, no Rio, na época ele era o ministro da Indústria, Aviação e Obras Públicas do governo de Rodrigues Alves, que também virou nome de avenida, né? O Lauro Miller mandou o Souza Guiar para os Estados Unidos com essa missão de projetar a estrutura temporária do Brasil na feira. E deixou bem claro nos documentos da época.
- 5:30Na construção do pavilhão, se terá em vista aproveitar toda a estrutura de modo a poder se reconstruí-lo nesta capital. Pois é. Não era só botar o palácio de pé. Ele teria que ser todo remontado no Rio de Janeiro. Uma trabalheira em dobro. Depois de 26 dias dentro do navio, Souza Guiard desembarcou no Porto de Nova York no dia 28 de agosto de 1903,
- 6:00levando na bagagem boa parte do material da exposição. A República no Brasil estava entrando na adolescência e não tinha nem completado 14 anos e o país ainda tentava se livrar da imagem do Império. Até porque numa feira anterior, na Filadélfia, em 1876, a gente tinha passado vergonha. Os americanos já tinham abolido a escravidão uma década antes e o Brasil só faria isso mais de uma década depois. Dom Pedro II acabou sendo ridicularizado em charges e caricaturas e aquilo pegou muito mal.
- 6:30Então, a ideia era mostrar na feira os avanços republicanos. O Sousa Guiar chegou em agosto. O projeto do pavilhão brasileiro foi aprovado e as obras começaram em novembro. Dos 600 mil dólares que o governo gastou para participar do evento, 135 mil foram gastos na construção do palácio. E mesmo assim, ele não ficou pronto a tempo da abertura da exposição,
- 7:00que começou em abril de 1904 e durou oito meses. A inauguração do pavilhão do Brasil foi no dia 24 de maio, com uma cerimônia para 1.500 visitantes. Foi só a primeira. Depois vieram outras recepções e algumas recebendo visitantes ilustres, como o aviador Santos Dumont e o então presidente americano Theodore Roosevelt. E a essa altura, eu sei que você já está pensando aí. Como é que era aquele lugar? O que tinha de tão interessante por fora e por dentro? Então, a gente vai ouvir uns trechinhos de um livro escrito tempos depois pelo filho do Souza Aguiar,
- 7:30que nasceu exatamente no ano da feira e não por acaso ganhou o nome de Luiz Aguiar. Nas linhas gerais, o edifício lembra o estilo adotado pelos arquitetos franceses à época do Renascimento, sem que a ornamentação seja profusa. Sobre as pilastras, ladeando as escadas principais de ambas as fachadas, dois leões simbolizando a força, a solidez e a grandeza da construção.
- 8:00Pondo em destaque a cúpula central, havia duas vigias em cada face, adornadas de palmas e pequenos escudos. O edifício era constituído de dois pavimentos, um mezanino e o porão, utilizado em parte para guardar objetos e o preparo do café servido diariamente aos visitantes. No andar inferior, ao centro, erguia-se um verde pé de café com frutos. No segundo pavimento estavam o Salão Nobre, as salas das senhoras, as dos membros da comissão e o escritório.
- 8:30Foram assintemente preparados com todo o luxo, finas tapeçarias, cortinas e custosos móveis, como convinha a importância de seu destino. O Brasil tinha outros estandes menores espalhados pela exposição, mas a grande estrela da comitiva, claro, foi o Palácio Erguido por Souza Guiar. Tanto que ele recebeu do júri a medalha de Grande Prêmio de Arquitetura na feira. A primeira parte da missão estava cumprida, o evento foi um sucesso. Agora era só encaixotar aquilo tudo e mandar de volta para o Brasil.
- 9:00A exposição terminou no dia 1º de dezembro de 1904 e durante três meses o Souza Guiar ficou empacotando e despachando de navio os pedaços do palácio. Ele mesmo só embarcou de volta para o Brasil no dia 26 de fevereiro de 1905. Na chegada, encontrou aquele Rio de Janeiro que a gente já visitou várias vezes aqui no Rio Memórias. Uma cidade mergulhada na reforma urbana do prefeito Pereira Passos. Poucos meses antes tinha explodido a revolta da vacina, que aliás é o nosso primeiro episódio.
- 9:30Se você não ouviu, procura aí. Enfim, o Carioca estava na bronca com o governo, principalmente a população mais pobre, que teve as suas casas derrubadas para que o Rio abrisse aquelas ruas largas no estilo europeu. O maior símbolo da reforma era a Avenida Central, que hoje é Rio Branco. E bem ali, no fim da avenida, aquela estrutura inteira de St. Louis seria remontada.
- 10:00A ideia era inaugurar durante a Terceira Conferência Pan-Americana, que reuniria vários chefes de Estado e ministros de relações exteriores em julho de 1906. O Senado autorizou a construção às pressas, com o parecer do jurista Rui Barbosa, e em quatro meses estava de pé o Palácio São Luís, com esse nome, obviamente, em homenagem à cidade que sediou a Feira Mundial. Estava tudo ali. A cúpula imensa, as pilastras, as esculturas dos leões na entrada principal.
- 10:30O presidente Rodrigues Alves ficou feliz da vida. Olha a anotação que ele fez no diário. Teve lugar ontem a inauguração do terceiro Congresso Pan-Americano. A inauguração se deu no pavilhão São Luís, que ficou concluído no dia 21 por um prodígio de atividade do general Souza Aguiar. Havia completa incredulidade sobre a possibilidade de terminação das obras, e por isso a inauguração foi um sucesso. O Jardim Lateral foi outra maravilha, devido ao esforço do doutor Paulo de Fronten.
- 11:00Houve na avenida um grande, um extraordinário concurso de povo, e a impressão foi magnífica. O senhor Rio Branco fez um excelente discurso e toda a notícia dada pelos jornais do dia atestou a regularidade e o brilho da festa. Esse senhor Rio Branco era o barão de Rio Branco, ministro das relações exteriores que teve um papel importante na diplomacia com os americanos e conseguiu viabilizar a participação do Brasil na Feira de St. Louis. Essa relação ganhava cada vez mais força e, logo depois da feira, em janeiro de 1905,
- 11:30Joaquim Nabuco se tornou o primeiro embaixador brasileiro nos Estados Unidos Foi Nabuco que trouxe a Conferência Pan-Americana para o Rio Ele era um defensor ferrenho da doutrina Monroe Estabelecida quase um século antes pelo então presidente americano James Monroe Já ouviu falar no slogan América para os americanos? A doutrina era isso Totalmente contra a interferência europeia no continente Resultado Durante a Conferência Pan-Americana
- 12:00O Palácio São Luís Foi rebatizado como Palácio Monroe Nos seus primeiros anos, aquela joia de elegância no centro do Rio Foi o salão de festas oficial da capital Bailes, formaturas e congressos ocuparam o interior do palácio Até 1914, quando a política entrou em cena O edifício foi a sede da Câmara dos Deputados até 1922
- 12:30Aí a Câmara se mudou para o prédio da Biblioteca Nacional Porque o Monroe recebeu a exposição comemorativa do Centenário da Independência Pouco depois disso, veio uma reforma radical. Um novo andar foi instalado, surgiram elevadores, as laterais foram envidraçadas, tudo isso para receber um hóspede que chegaria para ficar, o Senado Federal. Foram 35 anos como sede do Senado.
- 13:00E eu já vou levar você para um momento marcante logo nos primeiros anos. Você deve estar se perguntando o que esses cavalos têm a ver com a história, né? É que, na Revolução de Outubro de 1930, o palácio virou o quartel das tropas gaúchas e os cavalos ficavam ali, pastando no jardim. Getúlio Vargas assumiu o poder depois que um golpe de Estado impediu a posse do presidente eleito, Júlio Prestes, e decretou o fim do período que depois ficou conhecido como República Velha. Tem até Marchinha contando essa história.
- 13:30Entregue a mão à palmatória Que vai um bom nos apanhar Não vem mais seu Julinho Porque o povo não quis Bico de Lacre, coitadinho Como tu foste infeliz
- 14:00Bico de Lacre era o apelido do Júlio Prestes. E essa é a marchinha Bico de Lacre não vem mais. composta por Oswaldo Santiago e gravada em 1930 pelo cantor Alvinho com a Orquestra Copacabana. Foi como sede do Senado que o Palácio testemunhou momentos marcantes da República, como a ditadura do Estado Novo, implantada por Vargas em 1937.
- 14:30Um ano antes, em março de 1936, o senador paraense Abel Sherman ocupou a tribuna para fazer um discurso fortíssimo. Ele pediu uma CPI para investigar torturas e assassinatos de presos políticos Não tem registro de áudio dessa época, mas os arquivos do Senado têm o texto do discurso Então a gente vai te mostrar O cano de borracha foi oficializado como processo interrogatório E as torturas chinesas praticadas sem cerimônia e com requintes de selvageria
- 15:00São processos comuns e repetidos Os réus, quaisquer que sejam seus crimes, se os tiverem não podem ser torturados e chacinados pela polícia que os detém. Os nossos códigos não permitem a surra ou o espancamento nem como pena. O crime contra eles cometido degrada a nossa civilização. Em 1937, com o Estado Novo instituído, Getúlio fechou o Congresso. O Senado só voltou ao prédio em 1946, com o fim do Estado Novo e a volta do regime democrático.
- 15:30Instalou-se o Senado Federal. Falando, o senhor Nereu Ramos congratulou-se pelo advento de nova fase em nossa vida constitucional Essa foi uma manchete do jornal Correio da Manhã no dia 25 de setembro de 46 Citando o discurso do senador Nereu Ramos na reabertura do Senado E quer saber uma ironia? Getúlio Vargas, o ditador deposto, foi eleito senador Mas ele mal pisou no palácio Já estava pensando em voltar para a presidência, o que de fato aconteceu E dessa vez no voto
- 16:00Aliás, o Rio Memórias também tem um episódio na primeira temporada sobre o fim da Era Vargas Depois vai lá ouvir Enfim, a Casa Legislativa se manteve ali na década seguinte Até que um grande acontecimento mudou a história daquele prédio para sempre Para as solenidades de inauguração, chega à Brasília o presidente Juscelino Kubitschek O doutor Israel Pinheiro recebe sua excelência no catetinho Onde se realizou a exposição dos primeiros automóveis JK
- 16:30A primeira dama do país quebra a garrafa de champanhe. A elegância sóbria e requintada dos novos carros desperta a admiração dos presentes. Em 1960, o Rio de Janeiro deixou de ser a capital do país, que se transferiu para Brasília. A seguir, o presidente Kuczyk, Dona Sara e o doutor Israel Pinheiro deixam o catetinho para dar início às primeiras solenidades inaugurais da nova capital.
- 17:00Em automóveis, chegaram a nova capital brasileiros de todos os rincões da pátria para assistir as sonoridades da mudança da capital. Capítulo 2 – O Trambolho A capital vai para Brasília, a presidência vai para Brasília e, claro, o Senado também vai para Brasília.
- 17:30O Palácio Monroe ainda fica sendo uma espécie de sucursal carioca, o Senadinho. Mas logo de cara surge um inimigo feroz. a imprensa. Na verdade, um jornal específico, o Globo. Há muito, o Palácio Monroe está condenado a desaparecer. Mesmo antes da mudança da capital, o Senado Federal cogitava a construção de uma nova sede que melhor atendesse aos seus serviços.
- 18:00Esse é um editorial publicado na primeira página do Globo no dia 10 de janeiro de 61, com o título Trambolho. Pelo estilo, pela localização e pelo traçado deficiente das suas instalações, O Monroe representa um trambolho que nada justifica a enfiar a cidade. Os técnicos em urbanismo traçaram planos para a demolição do antigo Senado, com a liberação de uma área destinada à ampliação da Praça Floriano e o embelezamento de um dos locais mais atraentes do Rio.
- 18:30É o que esperamos do governador Carlos Lacerda, cuja decisão deve ser inflexível no sentido de demolir o Monroe tão pronto seja o prédio entregue pelo Senado. O governo de Carlos Lacerda e os dois governos seguintes, de Negrão de Lima e Chagas Freitas, atravessaram o período de 15 anos em que o Rio de Janeiro se transformou no estado da Guanabara. De 60 a 75, com a arrecadação de muitos impostos, a paisagem urbana foi mudando.
- 19:00Surgiram túneis como o Rebouças e o Santa Bárbara, a via expressa do Aterro do Flamengo e o crescimento para áreas até então pouco habitadas, como a Zona Oeste e a Baixada de Jacarepaguá. A ideia de demolir o palácio foi ganhando corpo e os ataques vinham de todos os lados A obra do metrô ia passar bem ali, mas acabou havendo um desvio no trajeto O setor imobiliário pressionava e até a arquitetura, que tinha rendido prêmio nos Estados Unidos, virou motivo para derrubar Lúcio Costa, o modernista que projetou Brasília, não gostava do estilo eclético do Monroe
- 19:30e engrossou a campanha falando em uma, abre aspas, presença estorvante que não se justifica, fecha aspas. Era uma sobreposição de forças contra o palácio. Essa sobreposição é que viabilizou que o palácio fosse demolido, porque ele, ao mesmo tempo, acumulava muitos valores, né? Bom, você viu que a gente voltou agora para o centro do Rio, ali pela Cinelândia, pertinho daquela praça vazia do início do episódio.
- 20:00E esse que você ouviu é o Eduardo Hades, cineasta e diretor do documentário Crônica da Demolição. É um filme que conta a história da demolição do Palácio Morro. Esse é o fio condutor principal do filme, na verdade, mas o filme também vai falar sobre as transformações urbanas do Rio de Janeiro ao longo de todo o século XX. A nossa equipe convidou o Eduardo para uma conversa bem ali no lugar onde ficava o palácio. Então, a Jamile Boulay, o Rodrigo Alves e o Thales Ramos sentaram com ele nas cadeirinhas de plástico de um boteco na calçada
- 20:30para tentar entender por que tanta gente queria aquela demolição. Existia um simbolismo muito grande do seu valor republicano, de ter sido sede do Senado. Tinha um valor estético que era negado pelos modernistas, mas ele foi o primeiro prêmio internacional da arquitetura brasileira. Então, assim, tinha motivos de sobra para ele ficar lá onde ele estava. Então, com tantos motivos para mantê-lo no local, tinha que ter também muitos motivos para tirá-lo do local.
- 21:00Existia uma pressão imobiliária, o centro da cidade estava também investindo muito, especialmente em função das obras do metrô. As obras do metrô mexem muito na estrutura fundiária do Rio. Muitos prédios foram demolidos, então criou muitos vazios e as construtoras ficaram muito atentas, especialmente no centro do Rio. O centro se valorizou muito nesse momento. Ali na primeira metade da década de 70, o Brasil já vivia os anos de chumbo da ditadura.
- 21:30Em 74, Ernesto Geisel se tornou o quarto presidente do regime militar e o Palácio ganhou mais um inimigo. Houve só esse trechinho de um despacho do ministro da Justiça da época, o Armando Falcão, admitindo uma ação coordenada com a imprensa. Dentro do pensamento do senhor presidente, com referência ao destino do Palácio Monroe, no Rio, De fato, alguns jornais foram nessa linha.
- 22:00O Globo continuava em campanha. Olha só esse artigo no dia 6 de julho de 74. O Palácio Monroe no Rio de Janeiro não passa de um monumento ao equívoco. Chamar de palácio esse amontoado de cópias arquitetônicas não chega a ser um exagero
- 22:30porque há, no caso, um compromisso anterior com a piléria. O fato de se terem desenvolvido ali acontecimentos e atividades de relevo na vida do país de modo algum redime o Monroe de sua qualificação de monstrengo. Um ano depois, em julho de 1975, o jornal Última Hora foi no caminho oposto e fez uma enquete no centro do Rio ouvindo as pessoas que circulavam por ali. O resultado foi uma reportagem com o título O Povo é Contra a Demolição. Mas não adiantou nada. Em outubro daquele ano, Geisel autorizou o patrimônio da União a derrubar o edifício.
- 23:00Não teve um decreto presencial formal, mas a decisão estava tomada. Sete décadas depois de ser desmontado nos Estados Unidos e remontado no Brasil, o Palácio Monroe viria abaixo. A empresa demolidora Agil, que ganhou a licitação Abriria os trabalhos numa segunda-feira, dia 5 de janeiro de 76
- 23:30Dois dias antes, no sábado Um professor de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro Resolveu tentar a sorte para fazer um último registro do palácio Polínio Coelho pegou sua câmera fotográfica e foi até o prédio que já estava fechado Assim, consegui entrar no edifício por uma referência muito especial do demolidor. Esse é um depoimento do Olíneo numa reportagem recente do jornal O Globo, feita por Alessandro Alvim e Antônio Scorza.
- 24:00Quando o professor entrou no palácio, encontrou um cenário degradante. Muita sujeira pelo chão, arquivos estragados, papéis, cadeiras quebradas. A sensação que eu tive foi uma sensação de muito pesar Consegui fazer 49 fotos A ansiedade por vê-las reproduzidas foi muito grande Tivemos naquela ocasião, esperamos quase que 3, 4, 5 dias Para uma revelação ficar pronta
- 24:30E a nossa surpresa foi maior ainda Porque a gente viu em detalhes A gente viu em detalhes o quanto era essa destruição Quando eu saí da demolição Eu não digo da demolição. Demolição eu acho que é um negócio tranquilo. Eu digo da destruição. Eu cheguei em casa muito, muito mosternado. Muito triste, realmente. O Olívio morreu em setembro de 2021.
- 25:00Ele sempre lutou pela preservação histórica. Chegou a chefiar o patrimônio da Guanabara e elaborou o decreto do tombamento do Parque Lage. Mas com o Monroe não teve jeito. Naquela segunda-feira, 30 operários começaram um trabalho pesado, desmontando muita coisa na mão, já que a estrutura metálica desaconselhava o uso de explosivos. Era na base da marreta mesmo. Os vitrais do plenário, feito pelo pintor Henrique Campos Cavaleiro,
- 25:30foram retirados e vendidos. Assim como outras obras de arte, mobiliário interno, os pisos, as portas e os elevadores. Quase 2 mil metros quadrados de assoalho foram comprados por um grupo de japoneses e os pedaços da escadaria de ferro em Caracol foram parar em casas de gente rica da época. Muito material ficou encaixotado e guardado por quase quatro décadas, até ser descoberto pelo Museu do Senado em Brasília. Eu assumi o museu em 2013, mas acontece que existiam 16 caixas fechadas
- 26:00desde 1976 guardadas no depósito do patrimônio. Esse é o coordenador do museu, Alan Silva, num depoimento ao canal do Senado no YouTube em 2015. No vídeo dá para ver os funcionários abrindo as caixas de madeira.
- 26:30A maioria esmagadora dessas caixas continham lustres, lustres que pertenceram ao Palácio Monroi e que agora, depois de tanto tempo guardadas, essas peças estão oxidadas, um pouco danificadas. A ideia agora é nós recuperarmos cada uma delas para eventuais exposições no futuro, para, enfim, compor em espaços, ou, pelo menos, que elas recuperem essa dignidade porque elas estavam encaixotadas ao longo de muitos anos, isso não é possível. Além dos lustres, o Museu do Senado em Brasília também abriga hoje as bancadas do plenário,
- 27:00com os microfones originais. Mas de tudo o que havia no palácio, a história mais impressionante é a dos leões esculpidos em mármore que ficavam na entrada principal. E para entender essa história, a gente vai fazer uma visita rápida ao documentário do Eduardo Hades. O filme Crônica da Demolição começa com o depoimento de um fazendeiro chamado Luiz Carlos Franco O pai do Luiz Carlos era um pecuarista de Minas Gerais que se mudou para o Rio a convite de Getúlio Vargas E sempre que a família passava em frente ao palácio, o pai elogiava os leões
- 27:30Dizia que eram peças raras, de mármore, e ainda fazia questão de lembrar que leão era o signo dele Aquilo ficou na memória do filho Eu sou muito, eu tenho muita intuição, muita observação, assim, parece que alguma coisa me avisa. Velho, meu pai falava tanto desses leões aí, o signo dele, né? Eu vou comprar esses leões, eles vão demolir esse palácio. Alguém me avisou, não sei de onde.
- 28:00Lá no próprio palácio, tinha um português chamado Silva, de bermuda, sem camisa, de tamanco, uma marreta na mão quebrando tudo que tinha direito e que não tinha uma firma chamada, a firma ali chamava Gil acho que era Gil seu Silva eu olhei, ele falou assim o dono do palácio é esse aqui seu Silva
- 28:30olhei assim e falei, mas não pode o coronel está brincando comigo isso é brincadeira não para Luiz Carlos Aí, você não quer comprar os leões? Falei, quero Quanto é que são os leões? Ele vai dar o preço Seu Silva, fala com ele aí Então eu levei portão, levei o anjo Levei os leões, levei muito mármore Madeira E juntei tudo isso lá em Uberaba
- 29:00E agora organizamos tudo Ficou bonito Meu irmão fez lá uma entrada bonita com os portões Um escudo grande, um emblema grande De ordem e progresso Muito bonito eram peças raras, né? Eram quatro leões. O Luiz Carlos comprou dois do Seu Silva, que era o Antônio Gonçalves da Silva, o representante da demolidora. E pelo pacote todo, ele pagou 400 mil cruzeiros, que na época era uma pechincha pra um material tão valioso. Se você procurar
- 29:30no Google, você acha uma foto impressionante de um caminhão com as duas estátuas enormes na carroceria, indo pra fazenda em Uberaba. Os outros dois leões já tinham sido levados por um fazendeiro de Teresópolis. Mas o Luiz Carlos estava tão obcecado que, tempos depois, ele comprou esses dois também. Ele acabaria revendendo para um morador de Ibiúna, no estado de São Paulo, e, no fim das contas, essas duas estátuas foram parar em Recife, adquiridas pelo Instituto Ricardo Brenan. O Luiz Carlos morreu em novembro de 2021, aliás,
- 30:00dois meses depois do Aline Coelho, que a gente ouviu ainda há pouco. Então, dois leões continuam na fazenda em Uberaba, e os outros dois estão em exibição no Museu do Instituto Brenan em Pernambuco. A verdade é que tem partes do Palácio espalhadas por vários lugares. E no centro do Rio de Janeiro, o que sobrou foi uma praça vazia. Capítulo 4. O Chafariz sem Água.
- 30:30Eu conheci a história desde pequeno. Meus pais são arquitetos. Eu adorava vir a Cinelândia. Eu achava incrível vir para o centro da cidade. E minha mãe sempre comentava. Eu vinha mais com a minha mãe para o centro. Ela sempre comentava assim, ah, ali tinha um palácio que foi sanado e tal. Então isso já fazia parte do meu imaginário depois da conversa na mesinha do boteco, a Jamília e o Rodrigo e o Tales levaram o Eduardo Hades pra caminhar bem ali no espaço que abrigou o Palácio Monroe durante 70 anos hoje aquela é a Praça Mahatma Gandhi, que inclusive tem
- 31:00uma estátua do ativista indiano bem no meio dela fica um grande chafariz de ferro fundido que Dom Pedro II comprou numa exposição na Áustria em 1878 o chafariz fica desligado e embaixo dele funciona um enorme estacionamento subterrâneo explorado por uma empresa privada. Eu nunca vi esse safari com água. Acho que, pelo menos, não estou me lembrando de ter esse safari ligado. E a gente tem ali as saídas do estacionamento. É a gente imaginar que aqui
- 31:30embaixo de onde a gente está agora tem um estacionamento subterrâneo. As primeiras imagens que aparecem no filme do Eduardo são justamente dos carros no estacionamento. Ele vai intercalando esses registros do presente e do passado inclusive com imagens raras e muito marcantes dos operários derrubando o palácio. Sair do passado e trazer para o presente nesse mesmo espaço, você entende mais uma camada de história daqui, desse local. Então é meio isso, a gente traz para o presente,
- 32:00para a pessoa trazer o que ela está ouvindo para o momento atual. No início a gente começa focalizando mais essas saídas dos carros, e é muito carro, porque a gente não se dá conta, mas toda hora você está saindo do carro dali, E depois a gente vai começar a ver o que está acontecendo na praça e a cada vez você percebe coisas diferentes mesmo sobre esse espaço. Na época ainda a praça inclusive era cercada, tinha as grades. Hoje em dia já tiraram, graças a Deus, porque não faz o menor sentido uma praça colada na Cinelândia com grade.
- 32:30Em 2021, a Prefeitura retirou as grades e anunciou um projeto de revitalização em várias etapas é que esse lugar ganhe mais circulação e deixe de ser um símbolo do esvaziamento do centro da cidade. Eu acho que é um lugar que representa o vazio mesmo. O centro da cidade está muito vazio por conta da pandemia, da crise econômica que o país nos últimos anos está tendo. E especialmente essa área da Cinelândia, essa área toda do Largo da Carioca para cá,
- 33:00está muito vazia. Também a Praça XV está desértica. Esse palácio se estivesse aqui certamente teria contribuído para a ocupação do centro Ele teria um movimento que ajudaria a retomar o movimento do centro da cidade Da Cinelândia especialmente Então você vê o desperdício do espaço urbano Essa demolição ajuda muito a esvaziar a Cinelândia Foi o que aconteceu em 1970 E a ausência dele ajuda, também colabora para que a Cinelândia não volte a ter vida
- 33:30Durante mais tempo Vai demorar bastante Depois da pandemia Para a cidade crescer Seria um espaço super importante Para atrair a população E não temos É isso Eduardo Obrigado demais por ter topado E aqui nesse dia de muito sol Gravar com a gente E espero que você goste Parabéns pelo filme Valeu, obrigado É isso gente Eu parei de lado aqui
- 34:00Estava queimando minha orelha Eu agradeço demais ao Eduardo Ades e se você quiser saber mais sobre essa história vai atrás do filme Crônica da Demolição Esse foi mais um episódio da segunda temporada do Rio Memórias sobre lugares e símbolos da cidade que não existem mais
- 34:30Procura aí os episódios anteriores e dá um pulo no Museu Virtual em www.riomemórias.com.br Lá você pode explorar a Galeria Rio Desaparecido e várias outras Conta pra gente o que você tá achando da temporada e nem preciso dizer, né? Se você passar pela Praça Mahatma Gandhi, faz uma foto ou um vídeo lá no Chafariz e marca o nosso Instagram, arroba rio-memórias. Esse podcast é uma produção da Escuta Aqui, com coordenação do Rodrigo Alves,
- 35:00que também escreve os roteiros. A supervisão de roteiro é do Thales Ramos e a produção é da Jamile Boulay. A Clara Costa faz a edição e a sonorização e o Gabriel Falcão compõe a trilha sonora original. A pesquisa histórica é do Danilo Marques e do Davi Arueira, do Projeto República da UFMG. Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora do Rio Memórias. Obrigada e até o próximo episódio. O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura,
- 35:30pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, e pelo Banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremate por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS. Obrigado e até o próximo episódio.
Disponível em
Todos os episódios
- 01Marielle, Amarildo, Stuart e Rubens: presentes!Duração 44:44
Na estreia da 2ª temporada, o Rio Memórias conecta quatro trajetórias que foram interrompidas no Rio de Janeiro e viraram símbolos de resistência: Marielle Franco, Amarildo de Souza, Stuart Angel e Rubens Paiva. Entrevistado neste episódio: Mário Magalhães.
- 02Morro do CasteloDuração 38:50
Um símbolo da fundação do Rio de Janeiro literalmente caiu por terra no início do século 20 e sumiu do mapa. A história do Morro do Castelo, contada com a ajuda de um depoimento histórico de dois moradores. Entrevistado neste episódio: Alberto Mussa.
- 03Cinemas de RuaDuração 32:52
Ao longo de um século, o Rio de Janeiro viveu uma história feita de salas deslumbrantes, telas enormes, pipocas saborosas e filmes que marcaram as nossas vidas: a magia dos cinemas de rua.
- 04Palácio MonroeDuração 36:04
A incrível história do Palácio Monroe, uma construção majestosa que viajou de um país para outro, se instalou no Centro do Rio, foi sede do Senado e sumiu deixando para trás uma praça vazia com um chafariz sem água. Entrevistado neste episódio: Eduardo Ades.
- 05Rádios que se foramDuração 38:34
No ano que marca o centenário do rádio no Brasil, uma viagem por emissoras que deixaram saudade: a magia das radionovelas, o poder dos noticiários, o fanatismo pelas grandes cantoras e a força das transmissões esportivas. Entrevistado neste episódio: Edson Mauro.
- 06Cais do ValongoDuração 37:25
No encerramento da 2ª temporada, a história do Cais do Valongo, maior ponto de entrada de africanos escravizados nas Américas, e as seguidas tentativas de apagamento dessa memória. Entrevistada neste episódio: Eliana Alves Cruz.