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Rio Desaparecido
Episódio 06
Cais do Valongo
0:00faltam 37 min37:25
Transcrição
Oi! Se você ouve o Rio Memórias desde o início, eu acho que você se lembra desse som, né?
- 0:00Oi! Se você ouve o Rio Memórias desde o início, eu acho que você se lembra desse som, né? Foi exatamente assim que começou nosso episódio de estreia sobre a revolta da vacina lá na primeira temporada. Lembra dessa carroça dando um susto na gente? Aquele episódio se passava em 1904, durante a reforma urbana promovida no centro do Rio de Janeiro,
- 0:30pelo então prefeito Pereira Passos. Para abrir aquelas avenidas largas no estilo europeu, a prefeitura simplesmente saiu derrubando os cortiços. Na operação conhecida como Bota Baixo, a população mais pobre, para variar, foi quem mais sofreu. Em vários episódios do podcast, a gente te levou de volta para esse período,
- 1:00porque ele marca uma mudança drástica na paisagem urbana carioca. E hoje, no encerramento da segunda temporada, que explora a Galeria Rio Desaparecido do Museu Virtual, memórias.com.br, a gente parte daquele mesmo lugar, só que numa época mais recente. O ano é 2011, naquela que foi a maior transformação no centro da cidade desde o Bota Baixo do
- 1:30Pereira Passos. Então, saem as picaretas e os martelos, entram as britadeiras e os tratores. De olho na Olimpíada de 2016, o Projeto Porto Maravilha foi colocado em prática em junho de 2011, com verbo inicial de 8 bilhões de reais, para transformar a Zona Portuária
- 2:00do Rio num grande polo comercial e turístico. Aqui no Rio, a Zona Portuária é uma região que está passando por uma imensa transformação, uma grande revitalização está sendo feita para as Olimpíadas de 2016 e será dado mais um passo. Assim como em 1904, a população mais pobre também reclamou que não houve um plano para cuidar das necessidades básicas da região e implantar moradias populares. Mas esse episódio nem é sobre a reforma em si.
- 2:30É sobre o que ela encontrou escondido no subsolo. No Rio de Janeiro, a área do Porto está em obras para a Olimpíada de 2016. E nesse trabalho, arqueólogos acabaram se juntando aos peões, porque um capítulo muito importante da história do Brasil está enterrado ali. Eu sou a Gabriela Montoni e eu vou te contar hoje a história do Cais do Valongo,
- 3:00o maior porto de desembarque de africanos escravizados das Américas, que funcionou durante o período de intenso tráfico escravista nos séculos XVIII e XIX. Uma memória que foi soterrada pelo Império, foi soterrada pela República e até hoje tenta sobreviver ao apagamento. Capítulo 1 – Desenterrando a História
- 3:30Bem, estamos aqui no Cais do Valongo, no antigo Cais do Valongo. É um lugar muito emblemático, muito importante para a história do Brasil, do Rio de Janeiro e do Brasil. Essa é a Eliana Alves Cruz, escritora, jornalista e roteirista, autora do livro O Crime do Cais do Valongo e de outros livros que eu também vou te indicar no fim do episódio. Eu tive a honra de encontrar a Eliana ali nas escadinhas do que hoje é o sítio arqueológico do Valongo,
- 4:00onde o cais funcionava até dois séculos atrás. Temos aqui um resquício das rampas, da rampa que dava acesso à rua, ao cais propriamente dito Onde nós estamos sentados aqui numa escadaria, antigamente era o mar, estamos sentados sobre as águas Imagina quanta gente passa por ali todos os dias, indo e voltando do trabalho, sem ter ideia da importância desse lugar Foi exatamente ali que desembarcaram, ao longo de mais de 50 anos, cerca de um milhão de africanos sequestrados
- 4:30Primeiro num local improvisado, a partir de 1774, quando o vice-rei Marquês de Lavradio transferiu o mercado de escravizados ali para o litoral norte da cidade Antes disso, o desembarque era na região do então Paço Colonial, onde hoje é a Praça XV Para tirar aquele comércio humano da área mais nobre do rio, arrumaram uma ponte de madeira na freguesia de Santa Rita, uma área perto dos morros de São Bento, da Conceição, do Livramento e da Providência.
- 5:00Quase quatro décadas depois, em 1811, foi construído o Cais do Valongo propriamente dito, com um ancoradouro que funcionou oficialmente até 1831 e depois foi substituído pelo Cais da Imperatriz, construído por cima do Valongo para receber, em 1843, A mulher escolhida para ser esposa de Dom Pedro II, a imperatriz Tereza Cristina de Bourbon, duas Sicílias. O cais tem pedras mais regulares em cima e algumas irregulares por baixo.
- 5:30Porque, na verdade, são duas construções aqui. Uma, o cais do Valongo, por onde pisaram os escravizados. E outra, o apagamento desse lugar com uma reconstrução para que chegasse a Tereza Cristina, duas Sicílias, que ia casar com o Pedro II. Então, pedras mais nobres foram colocadas por cima para que esse lugar ganhasse outro aspecto Daqui a pouco eu te conto mais sobre essa história de um cais por cima do outro Mas, voltando à reforma de 2011
- 6:00Logo que as obras começaram, os operários foram encontrando os restos desses cais de pedra do século XIX O do Valongo e o da Imperatriz Os únicos vestígios materiais do desembarque de africanos nas Américas É uma área que pega toda a Praça Jornal do Comércio, no bairro da Saúde, no perímetro entre a Avenida Barão de Tefé com a Rua Sacadura Cabral.
- 6:30Um pedaço da nossa história que estava escondido desde o início do século XX, quando a reforma do Pereira Passos aterrou aquela área onde o mar chegava. Com as obras de 2011, apareceram os calçamentos de pedra e uma série de objetos, artefatos, amuletos. Muitos búzios, muitas pedras, pedras que a gente chama de ocultar, relacionadas à orixá Essa é a mãe Celina de Xangô, diretora do Centro Cultural Pequena África, numa entrevista à TVT em 2017
- 7:00Muitas ferramentas, muitos alguidares quebrados, muitas louças quebradas, muita coisa da época da escravidão Nas escavações de 2011, ela trabalhou junto com os arqueólogos para identificar os itens que foram encontrados embaixo da terra. O Centro Cultural fica hoje na Rua Camerino nº 5. Já, já eu vou te falar mais sobre essa rua e sobre a pequena África. Mas antes, eu quero que você entenda direitinho o que era o Complexo do Valongo,
- 7:30com o CAIS, o Cemitério dos Pretos Novos, o Hospital e as lojas de venda e engorda. Eu vou te contar como esse complexo surgiu no fim do século XVIII e início do XIX Ali no fim do século XVIII, boa parte do mundo já começava a perceber o absurdo da escravidão
- 8:00Os revolucionários franceses aboliram o tráfico para suas colônias em 1789 Dois anos depois, a Revolução no Haiti acabou com o sistema escravocrata na Marra Em 1807, a Inglaterra tornou ilegal o comércio oceânico de pessoas para os territórios do Império Britânico. E até nos Estados Unidos, na primeira década do século XIX, boa parte do país já tinha deixado de usar a mão de obra escrava. Nesse cenário, adivinha quem passou a dominar o tráfico atlântico praticamente sem concorrência?
- 8:30Portugal, claro, através da cidade do Rio de Janeiro. Enquanto a ascensão da nova burguesia europeia fazia subir o preço do açúcar e do café, a demanda por escravizados no Brasil só aumentava. Comercializar vidas humanas passou a ser um negócio muito rentável e já não cabia naquela pontezinha de desembarque improvisada desde 1774. O Cais do Valongo foi erguido em 1811 pela Intendência Geral da Polícia do Rio de Janeiro,
- 9:00chefiada por Paulo Fernandes Viana. Foi uma obra importante para a logística de venda e revenda. Aquela infraestrutura portuária em pedra, inclusive, ajudou bastante a aumentar a popularidade de Dom João VI entre os comerciantes Por ali, desembarcaram cerca de um milhão de africanos Seja para trabalhar nas já decadentes minas de ouro, nas grandes fazendas do Vale do Paraíba Se espalhando por outras províncias do Império ou permanecendo no Rio como mão de obra para os serviços urbanos
- 9:30O cais era a porta de entrada, mas o complexo do Valongo tinha outros três pontos relevantes para compor esse cenário. Um deles era o cemitério dos Pretos Novos da Gamboa, que foi redescoberto por acaso, em 1996, numa obra na casa da família Guimarães dos Anjos. E mais ossos foram achados nas escavações da Reforma Urbana de 2011, em outra casa.
- 10:00Era para ser só uma obra na casa de Dona Mercedes e do seu Petrúcio, Mas bastou cavar para descobrir ossos humanos Essa é uma reportagem feita na época da reforma pelo André Curvelo no Jornal Nacional Estava ali o cemitério dos pretos novos Como eram conhecidos os africanos recém-chegados ao Brasil A novidade recém-descoberta é que no cemitério havia espaço de menos para mortos demais O cemitério nem era exatamente um cemitério Era uma grande vala onde os cativos eram jogados
- 10:30e de tempos em tempos queimados para abrir mais espaço. Os ossos também eram quebrados, por isso muitos foram encontrados em pedaços. E esses ossos estão espalhados pelo terreno. Aqui o arqueólogo Reinaldo Tavares, na mesma reportagem do Jornal Nacional. Todo mundo junto, em covas possivelmente coletivas. As estatísticas da época mostram que cerca de 10% dos africanos sequestrados e trazidos para o Rio de Janeiro de navio morriam durante a travessia
- 11:00ou, principalmente, logo após o desembarque. Ali na escadinha do Valongo, a Eliana Alves Cruz lembrou uma fala de outra escritora brasileira muito relevante, a Conceição Evaristo. E a Conceição Evaristo tem uma fala que eu acho muito importante, que ela diz que se algum monumento tivesse que ser erguido em homenagem às pessoas que foram escravizadas, esse monumento tinha que ser erguido no fundo do oceano. Porque o tanto de gente que ficou lá e não chegou, ou seja, o tanto de gente que está nesse limbo eterno,
- 11:30Nesse não lugar, a pessoa chegava aqui morta, não era mais de lá, também não chegou a ser nada aqui, é jogada lá como nada. Porque junto com aqueles corpos lá do cemitério, as ossadas foram achadas. Osso de galinha, espinha de peixe, escova de dente, pedaço de louça. Então era um lixo da cidade. Então a gente vê o nada que aquelas pessoas eram. Até viajantes estrangeiros da época ficavam chocados quando passavam pelo cemitério. Ouve só a reprodução desse trecho de um relato do naturalista alemão G.W. Freiheis.
- 12:00Pelo lado do fundo está tudo aberto, dividido do quintal de uma propriedade vizinha por uma cerca de esteiras. Pelos outros dois lados, com um muro muito baixo de tijolos. E no meio, uma pequena cruz de paus toscos muito velhos e a terra do campo revolvida e juncada de ossos mal queimados. Naquela época, dois homens negros carregavam numa rede os corpos que chegavam e depois cobriam com terra
- 12:30Por isso os ossos encontrados estavam ali, todos juntos Alguns ossos vieram para este laboratório da Universidade de Brasília Com uma pequena quantidade do pó retirado dos dentes, os pesquisadores vêm descobrindo o que essas pessoas comiam, onde viviam O cemitério dos Pretos Novos passou a funcionar na Gamboa em 1774, quando o desembarque foi transferido ali para o litoral norte, na Ponte Improvisada. Antes disso, o rio teve outros cemitérios de escravizados. O primeiro foi o da Santa Casa de Misericórdia, no fim do século XVI, no entorno do Morro do Castelo.
- 13:00A gente fala bastante sobre essa região no segundo episódio dessa temporada. Se você ainda não ouviu, depois procura aí. Em 1722, com o aumento da chegada de africanos, surgiu o Cemitério dos Pretos Novos de Santa Rita, nos fundos da freguesia da Candelária Só meio século depois veio a transferência para Gamboa, onde hoje é a rua Pedro Ernesto Ali no número 32 fica o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, que tem um museu
- 13:30Depois entra lá no site, dá para agendar uma visita Dos cativos que sobreviviam à travessia, pelo menos dois em cada dez tinham algum tipo de doença Todas relacionadas às péssimas condições dos navios Desenterias, sarna, glaucoma, varíola Os magnatas que lucravam com o tráfico não queriam perder sua mão de obra E por isso financiaram, em 1810, a construção do Lazareto
- 14:00Um hospital no litoral oeste da Península da Saúde Que também fazia parte do Complexo do Valongo Não era um espaço muito grande e, com o crescimento do tráfico escravista nas décadas de 1810 e 1820, o hospital vivia lotado. Os administradores do lazareto cobravam taxas altas dos comerciantes para manter os africanos internados em quarentena. Para reduzir a mortalidade, alguns chegaram a receber a vacina contra a varíola. E olha, isso quase um século antes da revolta da vacina em 1904, que a gente abordou no nosso primeiro episódio.
- 14:30E existia uma indústria do refugio, ou seja, o cara que chegava doente, aí eu ia lá, comprava por dois tostões do cara, enchia de farinha, botava um óleozinho no corpo para que aparentasse um pouquinho mais e revendia aquela pessoa pelo dobro do preço. Então, que comércio aviltante era esse, né? Que tratava as vidas como commodities, né? O corpo das pessoas era a moeda.
- 15:00Vende-se um escravo de 30 anos de idade, próprio para a roça e bom canoeiro. Aluga-se uma escrava pelo módico preço de 15 mil. Sabe engomar. Vende-se uma preta de meia idade, de casa de família, sabendo cozinhar, lavar, engomar. Leilão de escravos amanhã às 11 horas na Rua do Rosário. Vende-se um preto moço sabendo trabalhar em máquinas a vapor. Vende-se uma pardinha clara de 13 anos de idade, muito galante, com princípios de todo serviço doméstico, na Rua do Lavradio, 73.
- 15:30Todos esses anúncios são reais, retirados de jornais da época. Mas as negociações não eram feitas só pelos classificados E aqui entra o quarto ponto do complexo Além do cais, do cemitério e do hospital Tinha a Rua do Valongo Que reunia a maior parte das chamadas lojas de venda e engorda A rua já existia antes com o nome de Caminho do Valongo Entre os morros da Conceição e do Livramento
- 16:00Em um trecho, na Praça do Depósito Acontecia a venda no atacado direto para os grandes fazendeiros que reembarcavam centenas de negros para outras regiões do país ou ali mesmo para os fundos da Baía de Guanabara de onde eles seguiam a pé até o Vale do Paraíba A venda no varejo para moradores urbanos muitas vezes era feita por ciganos que eram vistos pela sociedade como desonestos e nada confiáveis É na Rua do Valongo, no Rio de Janeiro, que se encontra a loja do comerciante de negros
- 16:30Verdadeiro entreposto onde são guardados os escravos chegados da costa da África Esse relato sobre uma loja mantida por ciganos é do pintor francês Jean-Baptiste Debré Descrevendo a pintura Mercado da Rua do Valongo Que está no segundo volume do livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil Publicado em 1853 Ele chamou o armazém de Bazar onde se vendem homens Este salão de vendas, silencioso o mais das vezes, está infectado pelos miasmas de óleo de rícino
- 17:00que se exalam dos poros enrugados desses esqueletos ambulantes, cujo olhar furioso, tímido ou triste lembra o interior de um zoológico particular. Reconhece-se, pela disposição do armazém, a simplicidade do mobiliário de um cigano de fortuna medíocre. Dois bancos de madeira, uma poltrona velha, uma moringa. Os negros que aí se encontram pertencem a dois proprietários diferentes. A diferença de cor de seus lençóis os distingue.
- 17:30Um é amarelo e o outro vermelho escuro. O primeiro, atormentado por coceiras e que cede à necessidade de se esfregar, é velho e sem dúvida sem energia. O segundo, ainda sadio, é mais indiferente. O terceiro é de gênio triste. O quarto, paciente. O quinto, apático. Os dois últimos, sossegados. Os moleques, sempre amontoados no centro do quarto, nunca são os mais tristes. O mineiro discute com o cigano sentado na poltrona o preço de um deles
- 18:00Foi nesse cenário, ali entre o cais, o cemitério e as casas de venda Que a Eliana Alves Cruz ambientou a trama do segundo livro dela O romance histórico policial O Crime do Cais do Valongo Sobre o assassinato de um comerciante local Inclusive o chefe de polícia, o intendente Paulo Fernandes Viana Que a gente citou aqui, é um dos personagens O Valongo já tinha aparecido na pesquisa do primeiro livro da Eliana, o Água de Barrela. E quando as escavações de 2011 começaram a encontrar os vestígios do cais...
- 18:30Quando os objetos começaram a aparecer, eu falei, gente, mas que coisa fantástica. Ou seja, aquilo ficou 200 anos lá debaixo da terra, meio que esperando, né? Essa história, esperando que alguém contasse essa história. Então eu olhei para o lado, vi que ninguém pegou a garrafa que estava ali no mar, e eu peguei. Bom, é comigo mesmo, né? Aí peguei e fico muito feliz que as pessoas, de alguma forma,
- 19:00hoje saibam um pouco mais por conta do livro, por conta da ficção. É uma ficção, mas toda ancorada na realidade. Queria saber para você como foi cavucar essa história que a gente sabe da crueldade das pessoas brancas da época, dos escravocratas, os escravistas da época e essa região era cercada de lazaretos de casas de venda enfim
- 19:30de todos os horrores da escravidão eu queria saber como foi pra você cavucar essa história é sempre muito dolorido ninguém toca nesse tema sem se afetar por ele de alguma forma sejam pessoas negras ou pessoas brancas, seja quem for todas as pessoas que tem o mínimo que não são psicopatas As pessoas se sentem afetadas por lidar com um material muito sensível. Esse aqui é um sítio arqueológico de memória sensível.
- 20:00Existe esse conceito hoje na arqueologia. Então, a intervenção nele deve ser de uma forma muito respeitosa. O Complexo do Valongo foi desativado em 1831, 20 anos depois da construção do ancorador. O governo brasileiro buscava um reconhecimento internacional, especialmente da Inglaterra E você lembra que na época da implantação do CAIS, a Inglaterra já tinha proibido o tráfico oceânico para os territórios britânicos
- 20:30Já não era uma unanimidade que isso fosse algo aceitável, já existiam pessoas, tanto que no livro eu boto lá a figura do inglês Já existiam pessoas que... peraí gente, isso tá muito errado, se tem alguma coisa aqui, tudo bem Tinha os interesses econômicos, uma esmagadora maioria estava de olho mesmo, era na grama, no mercado consumidor, naquilo tudo. Mas no meio disso, existiam pessoas que entendiam que era uma questão também humanitária,
- 21:00que eram seres humanos que estavam ali, que, enfim, a gente precisa acreditar nisso, né? A regência, então, decretou uma lei para inglês ver. A famosa Lei Feijó, de 7 de novembro de 1831, que proibia o tráfico de escravizados e declarava livre todo o cativo que chegasse ao Brasil a partir daquele momento Na prática, ninguém fiscalizava a lei e a abolição só viria quase seis décadas depois Mas o CAIS, que era o ponto de entrada oficial, foi sendo ocupado pelas lojas de secos e molhados típicas do comércio do século XIX
- 21:30O lazareto foi esvaziado e a Rua do Valongo foi tomada por armazéns de café Em 1843, como a gente citou no início, a esposa de Dom Pedro II chega ao Brasil e aí começa o processo de apagamento daquela história, com as mudanças de nome para Cais da Imperatriz e Rua da Imperatriz. As pedras irregulares, que são vulgarmente conhecidas como pés de moleque,
- 22:00são as pedras que correspondem ao Cais do Valongo. Sobre elas foi feito um aterro de 60 centímetros e assentadas as pedras do Cais da Imperatriz. A arqueóloga Tânia Andrade Lima trabalhou nas escavações do Valongo Essa fala é de um vídeo produzido pela Prefeitura em 2012 A Rua da Imperatriz, já no período da República, vira Rua Camerino Porque não pegava bem ter uma rua que lembrasse a monarquia, né? E no comecinho do século XX, vem a reforma do Pereira Passos
- 22:30A região do Cais é aterrada e a Rua Camerino é alagada para a construção do Jardim do Valongo Decorado com estátuas que ficavam no antigo cais Resumindo, mais uma camada de apagamento Total apagamento Quem de nós aqui estudou o cais do Valongo na escola? Total apagamento Moro relativamente perto daqui Sei lá, 15 minutos daqui Meus vizinhos se bobear hoje não sabem o que esse lugar significa
- 23:00Quando eu escrevi o livro ficou todo mundo muito admirado Meu Deus Pessoas que moram, nasceram e moram aqui Eu recebo muitos relatos de pessoas que não faziam a menor ideia do que era esse lugar, né? Enfim, as pessoas morreram e continuam morrendo todo dia, né? Continuam sendo apagadas todo dia. É uma luta para a gente dizer que isso existiu, que essas pessoas existiram. Um discurso que, de um tempo para cá, ganhou muita força no Brasil,
- 23:30de que é aquela coisa de atenuar, adocicar a escravidão. então esse discurso eu que estou me controlando para não falar o palavrão mas também porque a gente foge dessa dor a sociedade brasileira como um todo foge de encarar esse passado nos olhos não é à toa que a gente enterrou isso, mais simbólico que isso
- 24:00e a literatura tem um papel aí, eu acho um papel a cumprir bem interessante Porque dá rosto, dá vida, dá trajetória, dá qualidade, dá defeito, dá humanidade a essas pessoas. E aí a gente começa a interferir um pouquinho nesse apagamento, né? A reverter um pouco os efeitos desse apagamento. Apagamento não só de um período que causou muita dor, mas também de uma força cultural que brotou daquela terra.
- 24:30Capítulo 3 – O legado de um povo Quando o comércio transatlântico descravizado se tornou ilegal em 1831, os arredores do Valongo passaram a receber negros libertos de todo o país. Eles passaram a fazer parte da dinâmica da cidade, muitos trabalhando no comércio ou como estivadores. No bairro da Saúde, perto do Largo da Prainha, ficava a Pedra do Sal,
- 25:00uma referência da cultura negra no século XIX, que se tornaria um monumento histórico, cultural e religioso do Rio. Ali se formou uma espécie de colônia baiana, com negros que carregavam valores do que hoje conhecemos como candomblé. Em outro ponto, também dentro dessa região que ficaria conhecida como Pequena África, estava o terreiro de João Alabá, na rua Barão de São Félix, que virou um grande ponto de encontro. E quem ocupava o posto de aquequerê, ou mãe pequena,
- 25:30a segunda pessoa mais importante do terreiro, era ninguém menos que Lária Batista de Almeida, a tia Seata. Ali, ela recebia outras tias baianas, como Viviana, Mônica e Persiliana Tia Seata tinha chegado ao Rio em 1876, com 22 anos Trabalhava como doceira na rua da Carioca E não só iniciou a tradição das baianas quituteiras no Rio Como tem seu nome ligado diretamente à origem do samba carioca
- 26:00Nas pensões das tias, o batuque e as rodas reuniam nomes de peso Como Pixinguinha, Donga, João da Baiana e Heitor dos Prazeres, pioneiro e fundador das primeiras escolas de samba do país.
- 26:30Esse é o samba da Portela, no Carnaval de 2014, com o enredo Um Rio de Mar a Mar, do Valongo à Glória de São Sebastião. Aliás, esse samba cita vários temas que já passaram aqui pelo Rio Memórias, como o Bota Baixo e a Revolta da Chibata. Mas enfim, voltando ao mestre Heitor dos Prazeres, Foi ele que popularizou o termo Pequena África para definir aquela região que englobava a Pedra do Sal, a Praça Onze, o Santo Cristo e outros lugares habitados por negros livres e libertos no século XIX.
- 27:00Quer saber um outro grande nome da cultura nacional que viveu ali naquela época? Machado de Assis, tá bom pra você? O maior escritor brasileiro nasceu em 1839 na Ladeira do Livramento, bem perto do Cais. E a região também foi palco das principais obras de André Rebouças, engenheiro baiano, negro e líder abolicionista. Ele e o irmão Antônio, também engenheiro, hoje dão nome ao túnel que liga as zonas norte e sul da cidade.
- 27:30Bem ao lado do cais do Valongo ficava a doca Dom Pedro II, erguida em 1871, sem utilização de trabalho escravo por determinação do André Rebouças. A pedra fundamental dessa obra foi encontrada nas escavações da zona portuária em 2012. E o prédio na Rua Barão de Tefé foi tombado pelo patrimônio histórico. Está lá até hoje. Você entendeu o tamanho da importância de preservar essas construções? E preservar também, claro, a memória dessas pessoas.
- 28:00Tanto as que foram sequestradas, escravizadas e mortas, como as que sobreviveram e carregaram o legado da cultura negra durante tanto tempo. Acho que a gente não fez as pazes com esse passado. Eu acho que a gente não respeita essas pessoas que aqui estiveram. Isso demonstra uma baixa estima nossa dos vivos. Porque quando a gente não respeita o nosso passado, a gente, na verdade, está se desrespeitando. Seja você branco, preto, amarelo, o que for.
- 28:30A gente precisa se respeitar como povo para que a gente possa, primeiro, construir uma estima a ponto de você cobrar do governante que você é uma vida digna de ser feliz. de viver com dignidade, ter moradia, ter educação, ter saúde. Se a gente não reconhece isso nos nossos ancestrais, a gente também não vai reconhecer isso para a gente. E para reconhecer esse passado, a gente tem que fazer como o pássaro sancofa.
- 29:00Você já ouviu falar dele? É parte do conjunto de símbolos chamados adinkra, que remetem aos povos Akan do oeste da África. O sancofa é um pássaro que tem o pescoço voltado para trás. Acho que todo mundo já viu esse símbolo, O símbolo da editora Malê é um símbolo que está muito popularizado. É aquele pássaro que olha para trás e pega um ovinho lá atrás. Então, qual o significado desse símbolo? O ovo é um passado que o pássaro olha para trás e vai lá buscar.
- 29:30Ficou lá atrás e o significado dele é nunca é tarde para se voltar, pegar o que ficar perdido atrás e fazer um novo futuro, e reconstruir o que ficou mal resolvido no passado. Então, eu acho que é esse movimento que toda essa literatura traz, essa literatura que remonta ao passado das pessoas escravizadas, sobre uma outra ótica. Além do pássaro, outra representação do Sankofa é um coração estilizado
- 30:00com umas voltinhas na parte de cima e de baixo. Esse é um símbolo que a gente encontra muito pela cidade. Em portões de ferro, móveis, cadeiras. E isso tem a ver diretamente com os antepassados da Eliana. Meu bisavô era um ferreiro, e os ferreiros negros trouxeram esses símbolos para a sua arte, e era considerada uma arte, era preciso ter um olhar artístico para fazer todos esses desenhos, então eles colocaram ali os pertencimentos e conhecimentos dele, isso é muito sensacional.
- 30:30E eu morava numa casa, um dia eu estava sentada na sala da minha casa, eu olhei aquela janela, eu falei, gente, tem um símbolo adíncara aqui na minha janela, que era o coração, aquele coração. Então são sinais, são vestígios muito bacanas que a gente vai encontrando no nosso dia a dia. A importância de olhar para trás e reconhecer o passado fez com que o Cais do Valongo recebesse da Unesco,
- 31:00A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura O título de patrimônio mundial Verbas foram destinadas para conservação, sinalização, iluminação Mas esse tem que ser um trabalho constante Muito abandonado, toda vez que chove isso aqui inunda Aliás, dito e feito Uma semana depois dessa nossa gravação Caiu uma chuva muito forte no Rio de Janeiro E essa área ficou totalmente debaixo d'água Embaixo, aqui no subsolo, ainda existem muitas coisas soterradas
- 31:30Que foi uma opção dos arqueólogos de continuar soterrado Porque a gente não confia no nosso poder público Melhor que fique enterrado do que vir à tona e ser deteriorado Como a gente vê um pouco aqui Já tem um tempo que eu não venho ao caso de Valongo Estou vendo que tem uma depreciação Tem um desgaste pela falta de manutenção Por que é patrimônio da humanidade? Não apenas pela quantidade de pessoas que chegou Porque é o único vestígio
- 32:00Material dessa chegada Nas Américas E porque isso faz do Rio de Janeiro A cidade mais escravocrata do planeta Da história da humanidade Né? É isso Foi uma honra pra mim Como pesquisadora e mulher preta Encontrar a Eliana, também pesquisadora E mulher preta, num lugar Tão simbólico pra gente Nós duas, sentadas ali nas escadinhas, atrás da cerca, olhando para aquelas pedras tão cheias de história.
- 32:30Toda vez que eu venho aqui, vou dizer uma coisa, eu tenho vontade de pular essa cerca, tirar o sapato e pisar ali. Toda vez que eu venho aqui, eu tenho esse impulso, né? Gente, eu vou pular essa cerca. Mas tem sempre um guardinha aqui para... não, casa de polícia. Mas de pular essa cerca, tirar o sapato
- 33:00Como a gente faz em locais sagrados E bater uma cabeça ali Pedir uma licença E honrar essas pessoas de alguma forma A gente precisa ter um rito de passagem Pra entrar na terra dos ancestrais E todo mundo que não passa por esse rito de passagem Meio que fica preso nessa Então, na verdade, quando eu trouxe os fantasmas no livro É um pouco isso, o Rio de Janeiro em especial é uma cidade fantasmagórica
- 33:30Porque é uma cidade que não fez o rito de passagem com um monte de gente E enquanto a gente não fizer as pazes com esse passado A gente vai ficar preso nele A gente vai repetir até a gente entender que a gente precisa fazer as pazes com esse passado A Eliana, eu queria te agradecer muito, de verdade, por disponibilizar esse tempo para falar com a gente Enfim, eu espero ainda ler muitas coisas suas Seu trabalho é fundamental Eu nunca vou me cansar de dizer isso Enfim, foi um prazer enorme te conhecer
- 34:00Prazer todo meu Sucesso aí pro podcast Muito obrigada Por esse espaço A gente tem que agradecer Porque Nossa, há muito pouco tempo A gente não conseguia falar sobre isso Não conseguia Os espaços que a gente frequentava trazer esses temas E eu acho muito importante Principalmente para a galerinha que está vindo Os jovens, adolescentes, as crianças Que a gente possa fazer um futuro
- 34:30Diferente do crime do caso Valon E assim termina a segunda temporada Do podcast Rio Memórias Eu agradeço a Eliana E recomendo muito que você procure os livros dela
- 35:00Inclusive o mais recente Lançado agora em 2022 O título é Solitária Um romance que se passa nos dias atuais e fala sobre o trabalho doméstico e a herança da escravidão. Se você ainda não ouviu os 12 episódios das duas temporadas, busca aí no seu celular. Pode ouvir na ordem que você preferir. Dá uma passada também no Museu Virtual, em riomemórias.com.br. Lá você encontra as galerias Rio Desaparecido e Rio de Conflitos, que inspiraram os episódios, além de vários outros temas para você explorar.
- 35:30Aproveita e me conta o que você achou da temporada. Marca o nosso Instagram, é arroba rio-memórias. Avalie a gente nas estrelinhas do seu aplicativo e espalhe o conteúdo por aí. O podcast é uma produção da Escuta Aqui, com coordenação do Rodrigo Alves, que também escreve os roteiros e grava as locuções adicionais. O Tales Ramos faz a supervisão dos roteiros, a Jamile Boulé faz a produção e as entrevistas
- 36:00e a Clara Costa faz a edição e a sonorização. O Danilo Marques e o Davi Arueira, do Projeto República da UFMG, fazem as pesquisas de todos os episódios. E a trilha sonora original é composta pelo Gabriel Falcão. Nesse último episódio, teve bagunça no estúdio. Jamile, Rodrigo e Clara vieram para acompanhar a gravação. Aê! Valeu, Gabi! Valeu, gente! Todas as locuções dessa temporada foram gravadas no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro.
- 36:30Obrigada ao Dani D pela supervisão técnica. Hoje você também ouviu aqui áudios da TV Globo, da TVT e da Prefeitura do Rio Eu sou a Gabriela Montoni e agradeço demais a você ouvinte que acompanha a gente nessa viagem Um beijo e até a próxima O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro Secretaria Municipal de Cultura Pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo por meio da Lei de Incentivo à Cultura
- 37:00e pelo Banco BTG Pactual Adam Capital e Concremate por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS. Até mais!
Disponível em
Todos os episódios
- 01Marielle, Amarildo, Stuart e Rubens: presentes!Duração 44:44
Na estreia da 2ª temporada, o Rio Memórias conecta quatro trajetórias que foram interrompidas no Rio de Janeiro e viraram símbolos de resistência: Marielle Franco, Amarildo de Souza, Stuart Angel e Rubens Paiva. Entrevistado neste episódio: Mário Magalhães.
- 02Morro do CasteloDuração 38:50
Um símbolo da fundação do Rio de Janeiro literalmente caiu por terra no início do século 20 e sumiu do mapa. A história do Morro do Castelo, contada com a ajuda de um depoimento histórico de dois moradores. Entrevistado neste episódio: Alberto Mussa.
- 03Cinemas de RuaDuração 32:52
Ao longo de um século, o Rio de Janeiro viveu uma história feita de salas deslumbrantes, telas enormes, pipocas saborosas e filmes que marcaram as nossas vidas: a magia dos cinemas de rua.
- 04Palácio MonroeDuração 36:04
A incrível história do Palácio Monroe, uma construção majestosa que viajou de um país para outro, se instalou no Centro do Rio, foi sede do Senado e sumiu deixando para trás uma praça vazia com um chafariz sem água. Entrevistado neste episódio: Eduardo Ades.
- 05Rádios que se foramDuração 38:34
No ano que marca o centenário do rádio no Brasil, uma viagem por emissoras que deixaram saudade: a magia das radionovelas, o poder dos noticiários, o fanatismo pelas grandes cantoras e a força das transmissões esportivas. Entrevistado neste episódio: Edson Mauro.
- 06Cais do ValongoDuração 37:25
No encerramento da 2ª temporada, a história do Cais do Valongo, maior ponto de entrada de africanos escravizados nas Américas, e as seguidas tentativas de apagamento dessa memória. Entrevistada neste episódio: Eliana Alves Cruz.