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Rio de Conflitos

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Episódio 06

O corpo e a alma das ruas

0:00faltam 38 min38:08

Transcrição

Eu amo a rua.

  1. 0:00Eu amo a rua. E as ruas da cidade do Rio de Janeiro sempre foram terreiros de encontros improváveis. A rua faz o indivíduo, faz as celebridades e as revoltas.
  2. 0:30As ruas abrigam malandros encantados que quase ninguém vê. Sim, as ruas têm alma. Têm sonoridade. Entreguem um tamborzinho no meio de uma praça para uma criança e ela provavelmente vai batucar. As ruas são tão humanas, vivem tanto e formam de tal maneira os seus habitantes que há até ruas em conflito com outras. As ruas, vez por outra, são cenários dos meus sonhos e pesadelos.
  3. 1:00Os chefes de polícia são os alucinados permanentes das ruas. Os presidentes da república, os reis, os papas, no pavor de uma surpresa da rua, a bomba, a revolta.
  4. 1:30As ruas do Rio de Janeiro podem se encontrar, na encruzilhada do Brasil, com rios que são ruas. Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis Só persiste e fica o amor da rua Oi, tudo bem?
  5. 2:00Esse texto que você acabou de ouvir levou 111 anos para ser escrito Porque, na verdade, são dois textos O que a gente fez aqui foi embaralhar frases de duas crônicas sobre as ruas do Rio de Janeiro São dois livros diferentes, separados por mais de um século Um é de 1908, A Alma Encantadora das Ruas, do jornalista João do Rio. E o outro é de 2019, O Corpo Encantado das Ruas, do escritor e historiador Luiz Antônio Simas.
  6. 2:30O diálogo entre eles é tão vivo que, olha, eu duvido você identificar quem é quem nessa mistura de frases. Faz o teste, depois volta lá pra escutar de novo. Mas antes, deixa eu te contar pra onde a gente vai hoje. Eu sou a Gabriela Montoni e esse é o sexto e último episódio do podcast Rio Memórias.
  7. 3:00Se você já ouviu os cinco primeiros, você sabe que nas nossas histórias a rua não é só um cenário, ela é um personagem. E pra fechar essa jornada que passou por tantos conflitos na cidade, hoje a gente vai te mostrar como o corpo e a alma das ruas cariocas foram cruciais nas lutas por liberdade. E a gente vai viajar em boa companhia, viu?
  8. 3:30O João do Rio não tem como entrevistar, né? 2021, inclusive, é o ano do centenário da morte dele. Alô? Mas olha quem tá chegando aí. Opa, tá dando pra ouvir? Tá dando pra ouvir sim, tudo certo. Tá, joia. O próprio Luiz Antônio Simas é quem vai ajudar a gente nessa viagem. Tá, deixa eu fechar a porta aqui só porque o cachorro tá... Peraí. Tranquilo, Simas, fica à vontade
  9. 4:00Nosso tema hoje tem muito a ver com o seu livro A rua é, na história da cidade, na construção da civilização carioca A rua é mais do que o cenário A rua é uma protagonista, porque ela interage com as pessoas o tempo todo No caso da nossa série, como a gente trata de conflitos, protestos, manifestações Essa visão do Simas se encaixa muito bem Uma visão sobre cidadania O Brasil é um projeto estudante
  10. 4:30O Brasil é um projeto oligárquico O Brasil é um projeto de exercício da cidadania limitado Então, se a gente pensa a cidadania do ponto de vista institucional Eu estou falando de parlamento, eu estou falando de direito a voto Eu estou falando de ingresso na escola, na universidade No mercado formal de trabalho Essa cidadania formal foi negada para a grande maioria dos brasileiros e brasileiras.
  11. 5:00Acontece que ser cidadão é exercer a cidade como pertencimento. Se a gente quebrar aquela concepção de cidadania que é típica de um certo pensamento liberal. Então, exercer cidadania é praticar a cidade. E é no chão da cidade que essa cidadania é conquistada. Então, aqui, a cidadania foi exercida nas brechas do poder instituído e, muitas vezes, inclusive, contra e tensionando esse poder instituído.
  12. 5:30Então, desde o século XVII, quando nós temos a Revolta da Cachaça, passando pelo século XVIII, pela Inconfidência Carioca, na virada do XVIII para o XIX, nas grandes manifestações urbanas do século XIX todo, da virada da monarquia para a república, a revolta do Vintém, a revolta contra a vacina obrigatória, as repercussões da revolta da Chibata. Você está reconhecendo essas revoltas, né? Elas estão nos episódios anteriores.
  13. 6:00Mas a gente guardou algumas bem especiais para hoje. A questão da Sabina das Laranjas e o tensionamento ligado à proclamação da república, o desfile das grandes sociedades que levantavam a bandeira da abolição da escravatura na década de 1880, as diversas manifestações que combateram o regime autoritário, a ditadura civil, empresarial, militar instaurada, o golpe de 64.
  14. 6:30Todas essas que o Sima citou agora, a gente vai visitar nesse episódio final. Então a rua é esse espaço de tensionamento urbano, mas ao mesmo tempo é um espaço de exercício da cidadania. Nossa viagem para o passado hoje tem duas grandes escalas. A primeira é no fim do século XIX, com o movimento abolicionista ocupando os teatros e ganhando as ruas. Depois a gente pula para a segunda metade do século XX, para lembrar a resistência contra a ditadura e a campanha por eleições diretas.
  15. 7:00Daqui a pouquinho eu te chamo de volta, Simas, pode ser? Pode ser, claro. Então tá combinado. Você, ouvinte, ajeita aí o seu fone que o nosso ponto de partida é um lugar que a gente já visitou aqui no Rio Memórias. Eu quero ver se você vai lembrar. Essa é a Rua do Cano, no centro do Rio. Foi no episódio 2, lembra?
  16. 7:30A Rua do Cano era onde ficava a sede da Sociedade Literária, o berço da Conjuração Carioca, em 1794. Só que agora a época é outra, quase um século depois da Conjuração. Anota aí pra não se perder. 25 de julho de 1880. O nome da rua já tinha mudado pra 7 de setembro, como a gente conhece até hoje. E ali ficava a fachada lateral do Teatro São Luís, por onde entrava o Imperador Dom Pedro II quando ele ia ver algum espetáculo.
  17. 8:00Vamos entrar também? Vou te mostrar como era por dentro. O São Luís é um dos teatros mais importantes dessa época São 294 poltronas numeradas, 34 camarotes E ali, à direita do palco, fica a Tribuna Imperial Toda dourada, cheia de pompa
  18. 8:30Mas naquele domingo ela estava vazia Até porque não era exatamente dia de ópera Era o dia da primeira Conferência Emancipadora Foi o nome que o engenheiro abolicionista André Rebouças deu para os eventos que ele organizava com outros dois importantes ativistas negros, Vicente Ferreira de Souza e José do Patrocínio. A ideia era convencer a opinião pública sobre a urgência da abolição e, ao mesmo tempo, arrecadar dinheiro para comprar alforrias e libertar pessoas escravizadas.
  19. 9:00Nessa conferência do dia 25 de julho, aconteceu uma coisa que depois se tornaria frequente. Um escravizado foi libertado ali mesmo, em cima do palco, sob aplausos da plateia Quem estava ali numa poltrona vendo tudo, a convite do André Rebouças Era o maestro Carlos Gomes, o maior compositor de óperas que o Brasil já teve Autor de O Guarani, que você certamente conhece Nem que seja pela voz do Brasil no rádio Na conferência seguinte, em agosto, o próprio maestro subiu ao palco
  20. 9:30E libertou uma escravizada de sua propriedade Ali veio a ideia de misturar música e política E em setembro começaram as conferências-concerto Até 1884 foram mais de 50 juntando dois atos
  21. 10:00Uma apresentação de música clássica E um discurso abolicionista do Vicente de Souza ou do José do Patrocínio Eles se revezavam Quando tinha libertação de escravizados no palco, o efeito era apoteótico A plateia aplaudia, chorava, gritava, jogava lenços e flores.
  22. 10:30Principalmente a camélia, que virou um símbolo da abolição. Os eventos se espalharam por outros teatros, como o Politeama, que abrigava duas mil pessoas e até para outras províncias além do Rio de Janeiro. Era o debate político ocupando o espaço público. Inclusive na rua, porque antes das conferências o público ocupava os jardins, as feiras, as remesses. E se o governo pressionava os donos dos teatros para vetar esse tipo de ação,
  23. 11:00a reação do movimento foi, ok, a gente tira os discursos, mas a propaganda abolicionista vai para dentro da ópera. Em 10 de agosto de 1886, a diva soprano-russa Nadina Bulishov
  24. 11:30estrelou no Rio de Janeiro a ópera Aida, de Verdi. E em vez dos presentes tradicionais que as cantoras recebiam, como as joias caríssimas, Ela pediu que os abastados usassem o dinheiro para financiar cartas de alforria. O filme italiano A Vida do Jovem Toscanini, de Franco Zeffirelli, mostra essa apresentação no Rio.
  25. 12:00Nadina interrompe uma cena com escravizados acorrentados e se volta para a tribuna imperial que naquela noite abrigava Dom Pedro II e a Princesa Isabel. Ela faz um discurso pela abolição e, em cima do palco, entrega as cartas de alforria, abraça e beija as mulheres libertas. A revista Ilustrada relatou aquela noite com uma ilustração de Ângelo Agostini e um longo texto.
  26. 12:30Ouve só esse trechinho. A ovação que o público lhe fez no terceiro ato foi deveras grandiosa. O nosso colega José do Patrocínio, assim como uma grande comissão de senhoras e as escravas que iam receber de Nadina o batismo da liberdade, foram recebidos com uma salva de palmas. É claro que aquele ato causou um desconforto na coroa
  27. 13:00e a repressão aos teatros aumentou. Foi aí que o movimento deu uma guinada de vez para as ruas, com imagens bem mais fortes do que uma camélia. Os desfiles da confederação abolicionista carregavam e exibiam jovens negros que tinham sofrido castigos físicos. A estratégia era esfregar nos olhos da corte a crueldade da escravidão. A brutalidade exposta teve efeito e apressou a agenda parlamentar. A pressão ficou insustentável.
  28. 13:30Graças à adesão popular e graças à luta incessante de nomes como Patrocínio, Rebouças, Luiz Gama, Joaquim Nabuco e muitos outros A Lei Áurea foi assinada e a escravidão foi oficialmente extinta em 13 de maio de 1888 Na alma da lei foi assim No corpo das ruas, a história é outra Se a herança da escravidão está aqui entre nós até os dias de hoje
  29. 14:00Imagina naqueles primeiros anos depois da abolição Eu vou chamar o Simas de volta para te contar O que foram as Laranjas da Sabina em 1889 Um caso que reforça o papel da rua como personagem histórico Sabina das Laranjas, que alguns dizem que não era exatamente a Sabina Pode ter sido uma negra chamada Geralda Enfim, mas isso é o de menos Mas era um caso clássico Daquela descendente de africanas e africanos
  30. 14:30que montavam o seu tabuleiro na rua para vender fruta, doce ou comida, sobretudo ligada à culinária do bender, que era muito frequente entre os descendentes de africanos. O que, inclusive, quebra o lugar comum sobre o papel da mulher nas ruas. Tem uma certa versão sobre a história do Rio de Janeiro que eu discordo muito, que é a versão de que a rua foi um espaço praticado pelo homem, enquanto a casa era um espaço dedicado, era um espaço praticado pela mulher. Mas esse senso comum só é válido
  31. 15:00se a gente considerar a burguesia carioca. Então, se a gente pensar na perspectiva da mulher burguesa, tudo bem, o espaço dela é a casa. Mas, se você pensa, por exemplo, nas mulheres que são descendentes das africanas e africanos que vieram para cá, elas sempre estiveram na rua, sobretudo a partir da comida de rua, dos tabuleiros de rua, Que é, inclusive, algo muito frequente nas civilizações africanas. Então, a tia Ciata tinha um tabuleiro de doces na esquina da 7 de setembro com a Uruguaiana.
  32. 15:30Olha a 7 de setembro aí de novo. Tem muita história nessa rua. Tia Amélia, tia Prisciliana de Santamaro, né? Tia Amélia era mãe de Donga. Tia Prisciliana, mãe de João da Baiana. Tinham seus tabuleiros de comida. E um belo dia, mais especificamente, 22 de julho de 1889, pouco mais de um ano após a assinatura da Lei Áurea, a Sabina estava ali, vendendo as suas laranjas num tabuleiro,
  33. 16:00no Largo da Misericórdia, bem em frente à escola de medicina. Nisso, passa uma carruagem com um visconde de ouro preto que estava para virar ministro da fazenda na época. Os estudantes que estavam por ali não pensaram duas vezes. Pegaram as laranjas no tabuleiro da Sabina e começaram a arremessar na carruagem do visconde. A reação da polícia foi completamente desproporcional.
  34. 16:30O jornal O País até publicou uns versinhos irônicos retratando o que aconteceu. Ouve só. Autoridade zelosa. Se tem de fazer, não manda. Ora, aí está. Por que motivo? Era uma vez a quitanda. O golpe era necessário. Assim, completo e certeiro. Salvou-se a paz da cidade, removendo o tabuleiro.
  35. 17:00Pois é. A punição não foi para os estudantes brancos, bem vestidos, que jogaram as laranjas. Foi pra Sabina que não tinha nada a ver com a história. O subdelegado de polícia resolve punir ela, né? E aí apreende as laranjas, o tabuleiro proíbe tudo isso. Só que os estudantes tinham aspirações republicanas. E vale lembrar que isso acontece há menos de quatro meses da proclamação da República. Então, a truculência do governo inspira um protesto pacífico e debochado daqueles alunos.
  36. 17:30No dia 25 de julho, ele sai em passeata do Largo da Misericórdia até a Rua do Ouvidor, erguendo bengalas com laranjas espetadas na ponta. Na frente do cortejo, um estandarte segurava uma coroa feita com bananas e os inscritos ao subdelegado do 1º Distrito da Freguesia de São José oferece a escola de medicina ao exterminador das laranjas. Houve uma mobilização do movimento republicano, inclusive,
  37. 18:00que transcendeu os estudantes e que transformou aquilo num ato contra a monarquia e pela república. Com desfile na rua do Ovidor, com o pessoal levando laranjas, levando frutas e etc. Então, de certa maneira, é uma história que guarda múltiplos sentidos sobre a cidade e a rua. A presença das sociabilidades construídas em torno dos tabuleiros de comida, a presença das mulheres, as tias do samba ligadas aos candomblés
  38. 18:30e que montavam seus tabuleiros nessas ruas a força policial que ao invés de atacar os estudantes de medicina que pertenciam à elite carioca atacam exatamente a vendedora de laranjas que perde o seu produto e a sua barraca estava tudo ali, um resumo do corpo das ruas no Rio de Janeiro a repercussão na imprensa foi enorme o subdelegado pediu demissão a Sabina retomou seu tabuleiro e a imagem do Império ficou ainda mais abalada.
  39. 19:00Oi, a Gabriela já volta, mas só pra te avisar que a história da Sabina tá no livro do Luiz Antônio Simas e a gente também já falou aqui do livro do João do Rio, então se você gosta de livro e de podcast, o Rio Memórias tem uma dica pra você. Este é um anúncio de utilidade pública da 451, a revista dos livros.
  40. 19:30A gente sabe que os nossos leitores são muito leitores. são tão leitores que querem ler o tempo todo. E que depois de ler a 451 só aumenta o tamanho daquela pilha de livros na sua mesinha de cabeceira. Só que tem um problema. Não dá pra ler a revista andando na rua, nem correndo na praia, nem cortando cebola e muito menos andando de bicicleta. A 451 entende essa vontade de ler em qualquer lugar, mas não endossa esse comportamento. Por isso, a gente criou um podcast.
  41. 20:00Duas sextas-feiras por mês, junte-se a nós no 451 MHz o podcast de livros da Revista dos Livros conversas, entrevistas episódios especiais narrativos sobre os nossos maiores autores, sempre um grande papo sobre um livro que ainda vai marcar a sua vida ou talvez que você nem vai chegar a ler mas precisa ter uma opinião a respeito 451 MHz o podcast para quem lê até com os ouvidos uma produção da Rádio Novelo para a Associação 451 aproveitando o gancho, anota aí mais
  42. 20:30duas sugestões de livros sobre os temas desse episódio, Flores, Votos e balas, o movimento abolicionista brasileiro, da Ângela Alonso, pela Companhia das Letras, e 1968, o ano que não terminou, do Zuenir Ventura, pela Editora Planeta. Aliás, é pra lá, pro cenário do livro do Zuenir, que a gente vai agora.
  43. 21:00Daqui a pouco eu chamo Simas de novo, mas agora a gente vai fazer aquele salto no tempo. Oito décadas pra frente, saindo de 1888 e 89, ali entre a abolição e a proclamação da República, pulando para 1968, no auge da ditadura, quando 100 mil pessoas tomaram as ruas do Rio. Você lembra que ainda há pouco eu citei o maestro Carlos Gomes nos concertos abolicionistas?
  44. 21:30Pois é, agora a gente está em frente à estátua em homenagem a ele na Cinelândia no dia 26 de junho de 68. E tem gente pendurada na estátua porque as ruas estão lotadas com o povo protestando contra a ditadura civil militar. Antes de chegar nesse dia, eu vou só recuar um pouquinho. Dois meses, para 28 de março.
  45. 22:00A gente está pertinho do aeroporto Santos Dumont e ali do lado ficava um restaurante chamado Cala Bolso, muito frequentado por universitários. Aliás, esse nome também tem a ver com o tema da escravidão, porque nessa área onde hoje é o aeroporto, antigamente ficava a temida prisão do Cala Bolso, destinada a castigar pessoas escravizadas no tempo do Império. Voltando para o dia 28 de março de 68, uma manifestação estudantil no restaurante foi interrompida pelas viaturas da polícia militar.
  46. 22:30Cercados e acuados, os estudantes atiraram pedras e a polícia respondeu com tiros de metralhadora. Um dos tiros atingiu o peito do estudante Edson Luiz, de 18 anos.
  47. 23:00Ele foi levado pelos colegas até a Santa Casa de Misericórdia, ali perto do restaurante, mas não resistiu. resistiu. Temendo que a polícia recolhesse o corpo e sumisse com ele, os estudantes carregaram o corpo pelas ruas até a Assembleia Legislativa. Depois de muita negociação em clima tenso, a autópsia foi feita ali mesmo e o velório também. Na manhã do dia seguinte, a Cinelândia estava completamente tomada. À tarde, o corpo foi levado em cortejo até o cemitério São João Batista e à noite foi sepultado ao som do hino nacional cantado pelo povo.
  48. 23:30Lembra do nosso último episódio sobre a comoção após a morte do Getúlio Vargas? Há quem diga que Edson Luiz teve a maior homenagem imposta numa vista no Rio de Janeiro desde o velório do presidente, em 1954. A imprensa deu grande repercussão ao fato. A revista O Cruzeiro cobrou uma reação num editorial de 13 de abril de 68. Morreu um rapaz que podia ser nosso filho.
  49. 24:00Tinha 18 anos. Podia ser nosso filho. Nós todos temos uma parcela de culpa na sua morte Eles não são desordeiros, nem vadios, nem subversivos Eles são nossos filhos Lembremos-nos disto e façamos alguma coisa em nome disto Antes que outra bala atinja o coração de um rapaz de 18 anos Os ânimos foram se acirrando na semana seguinte Não só no Rio, mas em todo o país
  50. 24:30Outros protestos vieram A repressão policial aumentou E o cerco aos estudantes se fechou no dia 21 de junho que entrou para a história como a sexta-feira sangrenta. O que o centro do Rio viu nesse dia foi uma sequência até então inédita de batalhas violentíssimas com a população enfrentando a polícia. Nas ruas, as pessoas atiravam paus e pedras nos agentes da repressão.
  51. 25:00Do alto dos prédios eram arremessados vasos, cinzeiros, garrafas, cadeiras. O pelotão da cavalaria entrou a galope na Avenida Rio Branco. O saldo daquele dia.
  52. 25:30Quatro mortos, incluindo um soldado da PM atingido por um tijolo lançado de um edifício. 23 populares baleados, 15 espancados, 35 policiais feridos, quase mil pessoas presas. Menos de uma semana depois da sexta-feira sangrenta, veio uma quarta-feira histórica.
  53. 26:00Percebendo a capacidade de mobilização do movimento estudantil, o governo recua e permite a realização de uma passeata pacífica no dia 26 de junho. Vários setores da sociedade se encontraram na Cinelândia. Os estudantes, a classe artística, os intelectuais, os jornalistas, os religiosos. Você que está ouvindo agora, depois busca na internet as fotos clássicas do Evandro Teixeira, do Jornal do Brasil. Você vai encontrar gente da música, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque.
  54. 26:30Escritores, como Clarice Lispector e Fernando Sabino. Atores como Paulo Autran, Odete Lara e Tônia Carreiro Enfim, a nata da cultura brasileira E tem também as imagens abertas Com a multidão preenchendo as ruas E erguendo as faixas Abaixo a ditadura, o povo no poder Em cada esquina tinha alguém discursando A gente precisa ficar sabendo de uma vez por todas Que eles sempre vão apelar para a violência
  55. 27:00E ai de nós se nós não nos prepararmos para essa violência Esse é o Vladimir Palmeira, um alagoano que tinha chegado ao Rio de Janeiro com seis anos e ali, aos 23, era o líder do movimento estudantil e um dos principais organizadores da passeata. Ele sabia que a repressão podia ser violenta, mas também sabia a importância de agir com inteligência. Assim, ele subiu as escadarias da Assembleia Legislativa para fazer seu primeiro discurso.
  56. 27:30Fez um sinal com as mãos e, num gesto impensável, pediu para que todo mundo se sentasse no chão. Aquelas pessoas que uma semana antes tinham visto a cidade explodir num conflito brutal, agora estavam ali quietas, em silêncio, sentadas no asfalto. O que caía dos edifícios não era tijolo, era papel picado. O som não era das bombas, era dos pombos da Cinelândia.
  57. 28:00A passeata passou pela Candelária e, em cima de um carro, Vladimir Palmeira lembrou a violência da polícia na missa em homenagem a Edson Luiz. O povo seguiu pelas ruas do centro Presidente Vargas, Uruguaiana, 7 de setembro, Praça Tiradentes Tudo em paz Mas o regime militar, claro, estava atento Nos meses seguintes, o clima foi ficando mais tenso
  58. 28:30Até que em 13 de dezembro daquele ano A ditadura cometeu seu ato mais radical A assinatura do ato institucional número 5, o AI-5 Os anos seguintes, como você sabe, foram de chumbo. E a luta pela democracia precisou subir o volume. Depois da passeata dos 100 mil, os militares ainda ficariam no poder por mais 17 anos.
  59. 29:00E quase no fim do regime, o Rio de Janeiro viu mais uma demonstração do poder das ruas. Se você acha que 100 mil é muita gente, o famoso comício na Candelária pelas eleições diretas reuniu mais de um milhão de pessoas. Essa é a atriz Zezé Mota em cima do palanque.
  60. 29:30E assim como na passeata em 68, a classe artística também estava mobilizada no comício histórico de 10 de abril de 84. Com tantas tetas, com tantas metas, a gente vai levando, a gente vai levando, A gente vai levando, a gente vai levando as diretas... Os partidos políticos também se uniram à pressão popular pelo retorno da democracia.
  61. 30:00Era a sociedade abraçando a emenda Dante de Oliveira. O deputado federal propôs um adendo na Constituição para realizar eleições diretas em dezembro de 1985. Outra semelhança com 68 é que os líderes do movimento, como o então governador do Rio, Leonel Brizola, Brizola, também negociaram com o regime para que a manifestação na Candelária transcorresse de forma pacífica e sem repressão policial. Assim foi. E tome discurso no Palan. A democracia que queremos é aquela que venha a ser e representar uma convivência pluralista
  62. 30:30e generosa do povo brasileiro, onde não haja nem banquetes, nem migalhas, onde não haja privilégios para uma minoria e a opressão e a miséria para a grande maioria do nosso povo. Além de Brizola e outros políticos, ficou muito marcada a participação de Ulisses
  63. 31:00Guimarães, que seria o nome do PMDB para as eleições diretas, com uma candidatura que, àquela altura, parecia imbatível. Chegou a hora de nós pronunciarmos uma palavra só, um monossílabo, que é o universo de toda a nossa esperança e de todas as nossas reivindicações. É um monossílabo da força de pai, mãe, fé, que é sim,
  64. 31:30sim às eleições diretas, já, para presidente da República. O Comício na Candelária foi a maior mobilização popular da história do Brasil desde a campanha pela abolição em 1888 e só seria superado em número pelas jornadas de junho de 2013 que você ouviu aqui no nosso terceiro episódio. O clima daquela noite era de festa e esperança com todos cantando juntos o hino nacional.
  65. 32:00Duas semanas depois, no dia 25 de abril, veio a votação do Congresso em Brasília. Foi um balde de água fria. A proposta foi rejeitada pela Câmara. Deixe assim que seja submetida ao Senado. A mesa quer silêncio. Esgotado o tempo regimental para a duração e está encerrada a sessão.
  66. 32:30Com a emenda Dante de Oliveira rejeitada na Câmara, o PMDB se manteve na eleição indireto, em 1985, mas não com Ulisses e sim com Tancredo Neves, que acabaria sendo o primeiro presidente civil após 21 anos de militares no poder. Tancredo nem chegou a tomar posse. Morreu antes, em abril de 1985. E quem assumiu foi o vice José Sarney, político que esteve por quase 20 anos na Arena,
  67. 33:00o partido que deu sustentação à ditadura. Ali começa uma outra história da política brasileira, mas essa fica para outro dia. O fato é que, com vitórias e derrotas, conquistas e frustrações, é na rua que as grandes transformações ganham corpo. A rua é a grande protagonista dessa cidade.
  68. 33:30Está de volta o Luiz Antônio Simas para a gente arredondar a nossa reflexão. Porque, além de olhar para trás, é preciso olhar para frente para saber como vai ser a retomada dessa relação com a rua depois desse período que nos afastou um pouco dela. Eu acho que pensar o Rio de Janeiro pós-pandemia fundamentalmente vai ser pensar o Rio de Janeiro a partir de uma questão que está presente em toda a nossa história. A gente vai definir a cidade que a gente quer a partir da maneira como a gente acha que a rua tem que ser praticada.
  69. 34:00A gente quer uma rua como simples ponto de passagem, obedecendo a uma lógica da circulação de mercadorias, a lógica do capital, a cidade gentrificada, ou a gente quer pensar uma rua a partir da ideia do encontro então esse é o grande embate que marca a história da rua e é o grande embate que marca a história do Rio de Janeiro eu acho que é por aí Muito obrigada Simas por dividir um pouco da sua percepção aqui com a gente, foi um prazer
  70. 34:30Valeu, tchau tchau Obrigada também a você que acompanhou essa jornada por conflitos históricos aqui no podcast Rio Memórias Eu sou a Gabriela Montoni e quero muito saber o que você achou. Comenta lá no Instagram, arroba rio-memórias. Avalie os episódios no aplicativo onde você escuta, compartilhe com seus amigos, espalhe a palavra por aí. Você pode acessar o Museu Virtual em rio-memórias.com.br.
  71. 35:00Tem um monte de galerias lá para explorar. O podcast é uma produção da Escuta Aqui, com coordenação e roteiros do Rodrigo Alves. Oi, Gabi, tudo bom? Passando só para te avisar que o roteiro já está liberado lá na pasta, para você gravar as locuções. Daí uma mensagem que eu ouvi bastante nos últimos meses. E antes do Rodrigo me mandar, o Thales Ramos fez a supervisão de todos os roteiros. Deixa eu dar uma olhada aqui, de novo. Tranquilo, Thales. Agora você já pode descansar, já trabalhou muito.
  72. 35:30A Jamile Boulay é nossa repórter e produtora. Ela fez todas as entrevistas e algumas gravações externas, você lembra, né? O problema é que na rua é meio imprevisível, né? Você tá gravando uma fala e do nada... Isso a escuta que eu não mostro. O que acontece no meio da gravação. Olha que beleza. Será que o ouvinte vai curtir? Bom dia, hein?
  73. 36:00Quem pega todos esses áudios e faz a mágica acontecer é a Clara Costa, nossa editora. Foi ela que recriou os sons de cada época. Agora imagina quando a única referência é tipo a foto de um navio. É igual quando a gente teve as fotos do encuraçado, assim, já deu pra entender que era uma coisa de porte gigantesco, né? Aí dava pra pesar no som, assim.
  74. 36:30Todo o material de pesquisa vem do Danilo Marques, historiador do Projeto República da UFMG. E às vezes é muito tema num episódio só, tipo hoje, né Danilo? Eu meio que agarrei nessa pesquisa, mas vai rolar, tá bom?
  75. 37:00Tá ótimo, já rolou. A música que você tá ouvindo é do Gabriel Falcão. Esse episódio até teve umas óperas do Verdi no início, lembra? Mas, tirando isso, toda a trilha sonora original do podcast foi composta pelo nosso maestro Gabriel. Mesmo quando o barulho da obra tentava atrapalhar. Dá pra ouvir isso? Eu tô com tudo fechado aqui. Janela, cortina. É, músico também sofre. Bom, é isso, gente. Eu já tô com saudade.
  76. 37:30Obrigada a toda a equipe. obrigada demais a você que ouviu continua seguindo a gente na rede social, que sempre que tiver novidade a gente anuncia por lá um beijo e até a próxima o Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, e pelo Banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremate, por meio da Lei Municipal
  77. 38:00de Incentivo à Cultura, Lei do ISS. Obrigado e até a próxima!

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Todos os episódios

  1. 01Revolta da Vacina
    Duração 45:52

    Em 1904, o decreto da vacinação obrigatória contra a varíola transformou o Rio de Janeiro em praça de guerra. Além do negacionismo científico e do moralismo da época, os protestos e quebradeiras em vários bairros revelam uma população que já estava no limite com as reformas autoritárias do prefeito Pereira Passos.

  2. 02Contrabando de ideias
    Duração 39:26

    Em 1794, um grupo de médicos e intelectuais cria uma rede clandestina de informações para driblar a repressão da coroa e espalhar pelo Rio de Janeiro conceitos de liberdade, bem comum e ideais inspirados na revolução francesa.

  3. 03Nem 20 réis, nem 20 centavos
    Duração 40:53

    Viajamos por três períodos em que as manifestações contra os preços das tarifas de transporte público evoluíram para movimentos que ajudaram a mudar a história do Rio de Janeiro e do país: as revoltas do Vintém (1880), do Bonde (1956) e as Jornadas de Junho (2013).

  4. 04Revolta da Chibata
    Duração 42:26

    Em 1910, João Cândido, o Almirante Negro, lidera um movimento contra os castigos físicos impostos nos navios. Marujos se recusam a aceitar a herança da escravidão e assumem o controle de embarcações importantes da Marinha brasileira em um levante histórico.

  5. 05O fim da Era Vargas
    Duração 42:37

    Em agosto de 1954, os motins após o suicídio de Getúlio Vargas revelam a rede de intrigas que dominava a política brasileira nos anos 50. O gesto extremo do presidente e a revolta da população frearam o golpe de estado que se desenhava.

  6. 06O corpo e a alma das ruas
    Duração 38:08

    Das procissões abolicionistas à resistência contra a ditadura, o Rio de Janeiro sempre teve a rua como protagonista de suas lutas políticas. É na rua, ao longo de vários momentos cruciais, como o Comício de 13 de março na Central, a Passeata dos 100 mil, o movimento das Diretas), que se passa o episódio final do podcast.