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Rio Atlântico
Episódio 05
O caminho de volta
0:00faltam 36 min35:45
Transcrição
Oi! A gente está agora na estrada do Corcovado.
- 0:00Oi! A gente está agora na estrada do Corcovado. Mas calma, que ainda falta um século para a construção do Cristo Redentor. Aliás, não tem nem a linha férrea, que foi inaugurada por Dom Pedro II em 1884. Mesmo sem o Cristo, na primeira metade do século XIX, o Corcovado já é um ponto importante do Rio de Janeiro,
- 0:30porque ali de cima dá para ver praticamente a cidade inteira. Sem falar na vista encantadora do Oceano Atlântico. Tanto que, em 1885, foi inaugurado ali o mirante do Chapéu do Sol. Mas, enfim, quem está caminhando pela trilha é um viajante francês chamado Rijan Fourcy de Bremois.
- 1:00Os relatos do Bremois indicam que um dia ele encontrou nessa região um homem sentado perto da estrada com os olhos fixos no mar. O francês se aproxima e reconhece aquele rapaz. Era um negro liberto que já tinha trabalhado para ele como carpinteiro. O Bremoy pergunta o que o homem está fazendo ali, sozinho, longe do centro da cidade. E escuta que ele conseguiu a alforria três meses antes e se mudou para uma cabana ali no morro
- 1:30porque queria morar onde fosse possível ver o oceano, para se sentir mais perto da África. O homem tira de uma bolsa quatro esculturas pequenas E diz ao viajante que elas representam o seu pai, a sua esposa, o seu filho, que ele nunca tinha visto E o seu tio, que era um rei no continente africano A gente não sabe o nome daquele carpinteiro
- 2:00Mas ele explica pro Bremoy que tá juntando dinheiro pra comprar uma passagem de navio Eu tô rezando pra que as águas levem minhas saudades pra minha querida terra Depois de viver como escravizado no Rio de Janeiro e conseguir a liberdade Ele quer voltar para Angola e reencontrar a família Eu sou a Gabriela Montoni e esse é o quinto episódio da temporada Rio Atlântico
- 2:30Baseada na galeria que você encontra no nosso museu virtual em riomemórias.com.br No fim da nossa jornada a gente vai voltar na cabana do carpinteiro E até lá, você vai ouvir outras histórias de homens e mulheres que saíram da África de forma compulsória, cruzaram o oceano rumo ao Rio de Janeiro, viveram o horror da escravidão, mas conseguiram o que parecia impossível.
- 3:00Fazer o caminho de volta. Capítulo 1. A Conquista da Liberdade. Quem vai acompanhar a gente hoje é uma pessoa que já passou por aqui nessa temporada. Lá no terceiro episódio, A Outra Margem, eu avisei que a professora Mônica Lima ainda ia voltar, né?
- 3:30Ela ensina a história da África na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ, e é a curadora da Galeria Rio Atlântico, no site do Rio Memórias. É a professora Mônica que vai ajudar a gente a entender a história dos africanos e das africanas que retornaram para casa. Bom, essa é uma história de fato fascinante Eu sempre começo dizendo que são histórias extraordinárias Mas antes de voltar para o oceano, havia uma missão que não era nada simples
- 4:00Deixar de ser escravizado A gente lembra que a escravidão sempre caminhou junto com a luta pela liberdade Muitas vezes essa luta envolveu a fuga Muitas, muitas vezes Muitas vezes essa luta envolveu a rebelião E algumas vezes essa luta envolveu a negociação No episódio anterior, teve uma frase da professora Marta Abreu que me marcou. Eu vou tocar aqui de novo para você ouvir. A liberdade no Rio de Janeiro no século XIX é negra.
- 4:30Você lembra dessa frase? Por que ela diz isso? Porque nessa época, o Rio passou a ter uma população numerosa de negros libertos. E a negociação do trabalho foi um método importante para criar esse cenário. Uma negociação que começa a acontecer com mais intensidade a partir do fim do século XVIII Para entender como isso aconteceu, vamos voltar para a professora Mônica Lima Você tem um movimento dentro do próprio universo da escravidão
- 5:00Que é um movimento em que se fortalecem, e isso é uma iniciativa dos próprios escravizados Os caminhos para a liberdade, a partir de negociação do trabalho Em Minas Gerais, por exemplo, que era a região da mineração, fortíssima mineração no século XVIII, vai começar a surgir com mais frequência a figura da quarta ação. Quarta ação era uma forma que o escravizado tinha de negociar
- 5:30o pagamento da própria euforia dentro de um prazo estabelecido. Então o escravizado dizia, olha, eu vou pagando com o meu trabalho a mais ou com algo que eu consiga por fora, de tanto em tanto preço da minha alforria. Isso era negociado. E nem sempre são iniciativas individuais. O alcançar essa liberdade, não poucas vezes, envolvia também uma ação coletiva.
- 6:00Então, os escravizados precisavam se organizar para se ajudar para libertar. A gente já falou nessa temporada, lá no primeiro episódio, sobre as irmandades religiosas. Você vai lembrar que a Jamile Boulay, nossa produtora, foi até a igreja de Santo Elesbão e Santa Efigênia na Rua da Alfândega, uma congregação fundada por Pretos Minas em meados do século XVIII. E a igreja funciona até hoje no meio do caldeirão sonoro do centro do Rio. Eu acabei de entrar aqui na igreja e o engraçado é que, por mais que seja significativamente mais silencioso do que lá fora,
- 6:30A gente ainda consegue ouvir o som dos áudios gravados, o som das pessoas gritando, o som de publicidade. Então, fica um pouco mais calmo, mas ainda um pouco caótico.
- 7:00As Irmandades Religiosas faziam coletas para financiar alforrias de escravizados que viviam em cenários de maior opressão, nas fazendas, na mineração. E o espaço urbano tinha também outras formas associativas. A gente tinha, por exemplo, no Rio de Janeiro, não só no Rio de Janeiro, mas vou falar do Rio, que é o nosso campo de olhar mais próximo, os cantos de trabalho. Um canto de trabalho podia ser, por exemplo,
- 7:30uma esquina na zona portuária, ou uma praça, ou um espaço improvisado perto de uma igreja. Ali ficavam reunidos homens que estavam ali esperando ser chamados para algum serviço. Em geral, cada canto do trabalho tinha um coordenador. Isso é bem característico do século XIX. Então você vai ter... E ali na região portuária isso era muito comum, no centro da cidade muito comum. Por quê? Porque eram os escravizados que faziam todo tipo de trabalho. Carregar, levar, trazer as coisas. Enfim, toda e qualquer carga e descarga, transporte, concertos.
- 8:00E aí a pessoa chegava num desses cantos que eram conhecidos, e perguntava ao coordenador, ao chefe do canto, olha, eu preciso de alguém para fazer um concerto na minha casa, eu preciso de alguém para carregar um piano.
- 8:30Alguém, não é verdade? Eu preciso de alguém para descarregar um barco, preciso de duas pessoas. E esse chefe de canto determinava quem era o da vez. Esses cantos de trabalho também eram associações de ajuda mútua. Às vezes até com uma poupança, um peculio, uma caixinha com dinheiro para ajudar quando alguém precisava. E muitas vezes isso era guardado para ser usado na compra da liberdade.
- 9:00Essa compra envolve, é claro, a exploração do trabalho. Mas envolve também negociação. Envolve um cenário internacional cada vez mais contrário ao tráfico escravista e envolve rebeliões. Porque a promessa da libertação nunca foi suficiente para impedir a insurgência. Isso vai criando um cenário diferente no Rio de Janeiro e em outras partes do país. Faz com que a gente tenha essa população de libertos, numerosa, no Brasil, do século XIX.
- 9:30E o que isso tem a ver com a história dos libertos que voltam para a África? Tem tudo a ver, né? Capítulo 2 – O Regresso Esse áudio que você está ouvindo foi gravado no dia 14 de agosto de 2017 no Pão de Açúcar
- 10:00Mas não é esse Pão de Açúcar que você está pensando É um morro chamado Pão de Açúcar em Freetown, capital de Serra Leoa, na África Ocidental A voz é do repórter Sonny Cole, do canal RWMG E o que ele está mostrando é o efeito de um deslizamento de terra que fez desabar uma parte enorme da montanha,
- 10:30soterrando casas pelo caminho e deixando mais de mil pessoas desaparecidas. A tragédia foi avassaladora, porque Freetown foi construída ao redor desse morro. E a cidade, que tem uma montanha com o mesmo nome do maior símbolo do Rio de Janeiro, foi fundada no fim do século XVIII com um objetivo bem definido. Receber imigrantes africanos que viviam nas Américas,
- 11:00especialmente na Jamaica e no Canadá. Mas aquele não era exatamente um movimento voluntário. Serra Leoa era uma colônia britânica. Em setembro de 1800, mais de 500 pessoas atravessaram o Atlântico e desembarcaram em Freetown. Eram negros livres ou libertos que tinham se envolvido numa rebelião na Jamaica Os colonizadores achavam que aquelas pessoas seriam uma influência negativa para os escravizados nas Américas
- 11:30A solução? Deportar todo mundo Migrações desse tipo fizeram parte de um movimento conhecido como Back to Africa Os Estados Unidos também entraram nessa e aproveitaram para levar as igrejas esses movimentos de volta para a África não são exclusivos do Brasil, isso é algo importante ser lembrado os Estados Unidos vão fazer campanhas igrejas do Back to Africa
- 12:00mas vai ter um conteúdo meio assim, primeiro vamos levar a fé das igrejas para lá, né e por outro lado vamos salvar a África e um certo mal estar que o próprio governo estadunidense vai ter com os libertos Às vezes era uma mistura de uma campanha evangelizadora com a deportação forçada de pessoas indesejadas naquelas sociedades nas Américas. O fato é que as notícias do movimento Back to África circulavam pelo mundo atlântico.
- 12:30As informações sobre os retornos certamente chegaram nas ruas de Salvador, de Recife e, claro, do Rio de Janeiro. Com uma diferença fundamental. No Brasil nunca houve um financiamento para que ele voltasse. Nunca houve, por parte de nenhuma gramiação religiosa, pelo menos não temos notícias, a história sempre surpreende a gente. Mas assim, nunca houve um estímulo do Estado brasileiro.
- 13:00Então foi iniciativa das pessoas, conjuntamente. Não tem a menor dúvida que os retornos eram iniciativas e movimentos coletivos. O fato de se tornar liberto era o começo, mas não bastava. Para entrar num navio e voltar para a África, era preciso ter algum dinheiro e uma autorização, um passaporte. Um documento que carregava uma série de descrições, desde a nação a qual a pessoa pertencia até as características físicas dela.
- 13:30E ainda tinha que incluir o aval de uma testemunha com domicílio na cidade para atestar que aquilo não era uma fuga. Essas são anotações dos livros que registravam os passaportes
- 14:00para saídas do Brasil nas primeiras décadas do século XIX Os registros ajudam a ter ideia do volume de pessoas que fizeram o caminho de volta É claro que aconteciam também algumas tentativas desesperadas de fuga
- 14:30Em 1850, por exemplo, o navio inglês Rifleman interceptou uma embarcação a 30 quilômetros da costa que tinha a bordo nove homens, uma mulher e um menino de 16 anos. Eles eram de Campos, no interior da província do Rio, e estavam tentando ir para a África. Provavelmente eles morreriam no mar, porque só tinham água para beber durante oito dias no máximo. Então esse tipo de coisa até acontecia.
- 15:00Mas hoje a gente está falando de pessoas livres ou libertas que conquistaram o direito de fazer a travessia de retorno. Muita gente conseguiu. O registro da Polícia da Corte indica que a grande maioria dos libertos que saíram do Porto do Rio de Janeiro em direção à África foram para a Costa da Mina e para Angola, o que só confirma a ligação estreita entre o Rio e esses dois pontos importantes da margem africana, como a gente ouviu no episódio 3. Ou seja, a rota do retorno estava diretamente ligada à rota escravista.
- 15:30A gente sabe que a maior parte do tráfico escravista do Brasil tinha rotas, divididas entre os grandes comerciantes. Então você tem uma rota que vai do Porto de Salvador para a chamada Costa da Mina, que faz parte dessa Costa dos Escravos, e o Rio de Janeiro com a sua relação histórica fortíssima com o Porto de Luanda, em Angola, e o Porto de Benguela. Também o Porto de Cabinda, sobretudo no século XIX, da Baía de Cabinda.
- 16:00Os retornos começam a seguir a lógica desses caminhos. E, de fato, os retornos que no Brasil são majoritários a partir do Porto de Salvador vão se dirigir a essa Costa da Mina. E os retornos a partir do Porto do Rio de Janeiro vão se dirigir também à Costa da Mina. Nesse caso, contrariando as rotas do tráfego, porque o rio tinha uma relação muito mais forte com Angola. Mas é totalmente explicável porque ao norte do Equador
- 16:30você vai ter a proibição do tráfico. Então, quem voltasse para a Costa da Mina teria muito menos chance de ser reescravizado ou sofrer essas consequências. Além de você ter uma comunidade brasileira muito bem estabelecida na Costa da Mina. A Costa da Mina abrange a área do mapa onde hoje ficam Gana, Togo, Benin e Nigéria. Ali, os retornados se estabelecem e se denominam brasileiros. Mas vamos ter retornos também para a região congongola,
- 17:00a região da Baía de Cabinda, do Porto de Luanda e Benguela. Haverá retornos para lá, a partir do Rio de Janeiro. Até o idioma é um facilitador. O resultado é que, em Angola, não vai ter a formação de comunidades específicas de retornados porque quem desembarca ali vai se misturando com os locais. A não ser em Cabinda, que tinha menos presença portuguesa, então lá foi um pouco mais parecido com a Costa da Mina. Lá eles vão criar esses retornados, vão fazer parte de comunidades locais também identificadas como de retornados visíveis.
- 17:30Vão nomear povoações e vão ser vistos pelos viajantes como esse grupo em especial. Essas pessoas geralmente saíam do Rio de Janeiro em pequenos grupos ou individualmente. Não existem registros de famílias numerosas partindo juntas para Angola e dificilmente eram grupos com mais de três pessoas.
- 18:00A professora Mônica anotou uma exceção em 1835. No dia 21 de dezembro daquele ano, saiu do Porto do Rio o Brig Funchalense, um navio português de comércio de azeite com 53 pretos africanos libertos. Em Angola, essas pessoas conseguem trabalhar nas atividades urbanas de Luanda, no comércio, na construção, em várias funções. Até porque, muitas vezes, eram pessoas qualificadas profissionalmente.
- 18:30Alguma coisa ele tem ali, o que ele tinha, o que ele desenvolvia, o que ele fazia, que já explica, de uma certa maneira, a construção das condições desse retorno. Nessa sociedade, ele vai se colocar com esses seus conhecimentos, que vai, inclusive, permitir o desenvolvimento de cidades africanas, nessa costa dos escravos, com a presença dessas pessoas. Eles vão ser construtores, eles vão ser mestres de obras,
- 19:00eles vão ser alfaiates, responsáveis por todo, enfim, uma mudança no modo de trajar. E o mais simbólico é que eles estavam levando de volta para a África um conhecimento que nasceu na própria África. Porque, na verdade, não são conhecimentos que eles adquiriram da sociedade colonial brasileira simplesmente. Foi na troca com os outros africanos aqui que eles vão aprimorar muito desse conhecimento.
- 19:30Então vai ser nesse compartilhamento de saberes, de competências, de conhecimento sobre a sua própria ofício que vai fazer com que eles se tornem artesãos e artífices mais especializados que vão chegar na África nesse lugar. Para quem tinha muita dificuldade de se estabelecer no Brasil, era um alívio encontrar um novo ambiente que permitia colocar em prática esse conhecimento.
- 20:00Daí a urgência de encarar o Atlântico. Com o passar do tempo, o panorama vai mudando por aqui. Na década de 1850, as pessoas já conseguiam se planejar com mais calma antes das viagens. E isso vai fazer com que, na década de 50, já no início da década de 50, a gente assista um grande número de retornos que vai ter outra característica, já não é mais, já estou saindo do país
- 20:30porque está difícil para a minha vida aqui, mas estou saindo daqui porque eu posso me colocar melhor nesse mundo atlântico do lado de lá. Sem aquela urgência da rebelião, com mais planejamento e menos riscos. Muitos grupos saindo aqui do Rio de Janeiro, e eles vão para diferentes partes da África, sobretudo para a região da costa ocidental e eles vão ter como característica uma organização prévia aqui que possibilita essa viagem
- 21:00então essa organização passa desde vamos juntar dinheiro para voltar, temos um grupo organizado e as diferentes formas de solidariedade que vão propiciar essa organização incluindo a busca de financiamento internacional para fazer a viagem Temos no Rio de Janeiro uma história que é muito interessante Que é o grupo de Libertos Congo Um grupo que se organiza, que escreve para os ingleses
- 21:30Na época o Lord Palmerston, que estava aqui no Rio de Janeiro Como representante diplomático Pedindo apoio financeiro para voltar para a África A carta é assinada por Joaquim Nicolau de Brito Em nome de 106 pessoas, incluindo dezenas de crianças Eles pedem apoio financeiro para sair do Brasil e fundar uma cidade em cabinda nos padrões europeus. O melhor lugar para os libertos africanos e seus descendentes livres residentes no Império do Brasil
- 22:00irem e fundarem uma cidade é o lugar chamado Cabinda, no sudoeste da África, porque os nativos daquele lugar tiveram, ao longo dos anos, o desejo de adquirir civilização europeia. Entre eles estava um representante de uma família importante do Cabino Então eles escrevem e dizem Olha, nós somos artesãos, qualificados As pessoas que forem fundar a mencionada população Começarão cultivando a terra
- 22:30Plantando café, algodão, cana-de-açúcar, tabaco, índigo, mandioca, feijões, milho E todo tipo de vegetais Tanto para consumo quanto para exportação para estabelecer relações comerciais com todas as nações do mundo, porque o sistema será estimulante não só para os antigos habitantes de cabinda, mas para aqueles do interior, para que se dediquem ao trabalho no campo e ao comércio e gradualmente começarão a esquecer a prática ilegal de venderem uns aos outros, aos traficantes de escravos.
- 23:00Nós queremos combater o tráfico atlântico de africanos escravizados, queremos outras formas de desenvolvimento para a África, enfim, se colocam sempre nessa postura de que essa história que eles tinham vivido, como escravizados, essa experiência atlântica que eles tinham vivido, permitiria que eles voltassem num lugar positivo para elevar o continente em termos econômicos e sociais. Eu, abaixo assinado, representando meus companheiros que estão especificados
- 23:30Jornalista entregue com este documento, a sua excelência, o primeiro-ministro britânico, asseguro que é verdade tudo o que está escrito. Rio de Janeiro, 4 de agosto de 1851. Assinado, Joaquim Nicolau de Brito. Nem todas as tentativas de voltar para a África tinham esse grau de organização e estratégia, mas o planejamento passou a ser cada vez mais comum. Lembra do carpinteiro liberto encontrado pelo viajante francês lá no começo do episódio?
- 24:00O relato diz que ele estava juntando dinheiro. Eu prometi que a gente vai voltar na cabana dele e vai ser daqui a pouquinho. Mas antes, eu quero que você conheça a história de três embarcações que saíram do Rio de Janeiro e levaram africanos de volta para casa. Capítulo 3. Maria Adelaide, Feliz Animoso e Robert.
- 24:30Agora a gente está no dia 11 de maio de 1836, dentro de uma embarcação portuguesa chamada Maria Adelaide, Adelaide, que acaba de zarpar do Porto do Rio. É uma noite de quarta-feira, com a lua minguante no céu da Baía de Guanabara. Esse navio está indo para os Açores, um arquipélago de Portugal no Oceano Atlântico. Então, quem circula pelo convés vai ver o mestre
- 25:00Lourenço Justiniano Jardim, o português que comanda a nau. Além dos 14 tripulantes, estavam ali como passageiros um lusitano chamado Inácio Antônio de Alvarenga e o seu filho pequeno. Só que antes de chegar nos Açores, a viagem ia fazer uma escala na costa da mina. Então não eram só esses portugueses que estavam a bordo. Ali no canto está a Carlota Cassange com seu filho. Do outro lado está a Catarina
- 25:30Monjola com quatro meninos. E a conta não acaba aí. O Maria Adelaide está levando 234 africanas e africanos libertos, incluindo 69 crianças. Na maioria são pretos minas, mas também tem gente que partiu de portos de outras regiões da África. Raimundo e Carolina, por exemplo, são registrados como Cabo Verdes. O Maria Adelaide carrega pelo Atlântico famílias inteiras de ex-escravizados,
- 26:00todos devidamente identificados na Secretaria de Negócios Estrangeiros, No mesmo procedimento exigido de qualquer cidadão que saía do Brasil. Pessoas que viviam no Rio de Janeiro e reuniram condições para fazer a travessia de volta. Quatro anos depois, em 2 de agosto de 1840, parte um brique de bandeira brasileira, o Feliz Animoso.
- 26:30Ele sai do rio com destino ao porto de Benguela, também passando pela costa da mina. A embarcação está carregada de água ardente e gêneros alimentícios de vários tipos Na época era intenso o comércio entre o rio e o porto de Benguela A lista de passageiros inclui dois brasileiros, três portugueses, um malteis e 30 africanos minas libertos Entre os ex-desgravisados, metade é de mulheres e sete delas viajam sozinhas
- 27:00O grupo tem quatro crianças acompanhadas de pai e mãe E um menino de nome Adriano viaja só com o pai, Duarte José Martins da Costa. A partida do Feliz Animoso não só estava registrada na polícia da corte, como foi noticiada no Jornal do Comércio. E teve mais, claro. Tem um embarque, que é o embarque do Brig Robert, que é de 1851,
- 27:30cuja liderança, que é formada por um grupo de africanos islamizados, Então, a gente mais ou menos pode deduzir que o islã, entre essas pessoas escravizadas no Rio de Janeiro, não era só na Bahia, no Rio também era uma forma de junção. Um africano liberto chamado Rafael José de Oliveira, representando um grupo maior de pessoas, firma um contrato com o inglês George Duck, o mestre do brigue Robert.
- 28:00Que diz desde os locais que eles querem ir, fala que eles querem passar em Salvador para pegar os amigos, os parentes, enfim que vão junto com ele, ou seja, uma viagem toda planejada. O dito navio deverá receber neste porto 63 homens africanos livres, mulheres e crianças incluídos neste número e suas bagagens devem prosseguir para a Bahia e ficar lá, se requerido, por 14 dias e então seguir para um porto seguro no Golfo do Benin na costa da África
- 28:30Então a gente tem esse grupo de pessoas que vai procurar dois missionários quacres para que eles vejam o contrato deles de volta, que eles tinham feito com o capitão do navio para voltar para a África. Tudo especificado no contrato, até a quantidade de comida e água. O mestre se compromete a fornecer para os ditos passageiros diariamente 60 libras de carne de sol, 2 alqueires e meio de farinha e meio alqueire de feijão
- 29:00preto, além de um lugar para cozinhar e a necessária lenha a ser fornecida pelo capitão e 60 galões de água a ser suprida diariamente. Multa pelo não cumprimento deste acordo, 500 pounds em libras esterlinas. Os africanos apresentam o contrato para dois missionários ingleses, representantes da companhia Religious Society of Friends. E também exigem notícias sobre o destino, para saber se naquela época o Golfo do Benin ainda tinha traficantes descravizados.
- 29:30E não poucos deles trocavam cartas com outro lado do mar, programando essa volta. Alguns levavam cartas específicas para algumas lideranças, no intuito de chegar lá com uma recomendação. Isso tudo era, vamos dizer assim, era muito bem planejado e organizado, porque não era uma viagem simples, né? Inclusive, eles tinham que garantir que o capitão do navio não ia vendê-los no primeiro porto. Com todos os detalhes acertados, o Brig Robert parte no dia 18 de dezembro de 1851 e o Jornal
- 30:00do Comércio Notícia. O mestre George Duck comandava uma equipe de nove tripulantes, carregando mantimentos e levando como passageiros 22 famílias de pretos minas-forros, num total de 62 pessoas. São tantas histórias de africanos que voltaram para o seu continente e também de afro-brasileiros que fizeram esse retorno para buscar as raízes dos seus ancestrais.
- 30:30E aí, por que o termo retorno? A gente tem o termo retorno se alguns eram nascidos no Brasil. Que mesmo aqueles que voltaram e que eram nascidos no Brasil, era o que chamava na época os crioulos, como se dizia, fazem esse movimento numa perspectiva de um retorno com os seus pais, com os seus mais velhos. Criando, inclusive, algumas das maiores comunidades brasileiras no exterior, como os Tabons e os Agudás.
- 31:00Esse é o samba-enredo da Unidos da Tijuca no Carnaval de 2003. Agudazos que levaram a África no coração e trouxeram para o coração da África o Brasil Como diz o samba, na volta das espumas flutuantes, mãe África receba seus leões Essas pessoas cruzavam o oceano levando na bagagem memória e conhecimento
- 31:30Principalmente para a região ocidental do continente Ali em Gana, eles não entendiam bem o idioma local Falavam em português e usavam muito a expressão tá bom No Benin usavam a palavra aguda como uma corruptela de rua da ajuda onde muitos moravam em Salvador Assim se estabeleceram os Tabons e os Agudás
- 32:00Trabalharam como alfaiates, marceneiros, barbeiros, contadores, construíram bairros Deixaram heranças que estão de pé até hoje Como a grande mesquita de Porto Novo na capital do Benin construída em 1913 A arquitetura não lembra em quase nada um templo muçulmano, mas lembra muito uma típica igreja católica baiana do período colonial.
- 32:30Seja com brasileiros se estabelecendo do outro lado do Atlântico ou com africanos fazendo o caminho de volta, são histórias de gente que lutou pela liberdade. Histórias como a do carpinteiro lá do início do episódio, o homem que tinha os olhos fixos no oceano e carregava pequenas esculturas representando a sua família. Seis meses depois daquele encontro na estrada do Corcovado O viajante francês voltou até lá para rever o carpinteiro
- 33:00Mas a cabana estava vazia, abandonada Não se sabe se ele foi morar em outro lugar do rio Ou se ele finalmente conseguiu juntar dinheiro e voltou para a África Aquele homem pode muito bem ter sido o personagem de um desses casos que a gente ouviu aqui hoje Não tem como saber Mas o que a gente sabe com toda certeza é que muitos desses retornos aconteceram, de verdade. São histórias extraordinárias e que merecem ser conhecidas e iluminadas
- 33:30para a gente entender que isso também acontecia. Nunca foi fácil, eu estou sublinhando isso porque é muito importante lembrar, mas que essa construção da liberdade era algo que partia das pessoas escravizadas. Ou seja, são formas de construir lugares de liberdade Eu quero agradecer demais a professora Mônica Lima Pela aula de hoje E pela curadoria na Galeria Rio Atlântico
- 34:00Que mais uma vez eu indico para você explorar No nosso museu virtual em riomemórias.com.br A temporada está quase no fim No último episódio eu vou te levar para conhecer O Rio Africano e as heranças culturais Que estão aí até hoje eu sou a Gabriela Montoni historiadora e apresentadora do podcast, diz pra gente se você tá gostando, nosso instagram
- 34:30é arroba rio memórias e no spotify você também pode deixar um comentário a realização dos episódios é da produtora escuta aqui, com coordenação e roteiros do Rodrigo Alves que também grava as locuções adicionais a supervisão dos roteiros é do Thales Ramos a Clara Costa é responsável pela edição de som e pelas sonorizações. A assistente de edição é a Giovanna Orsini. A Jamile Boulay gravou a entrevista com a professora Mônica Lima no Estúdio Rastro com supervisão técnica do Dani Di.
- 35:00As minhas locuções são gravadas no Estúdio Frango no Bafo, em Belo Horizonte. A pesquisa do podcast é feita pelo historiador Davi Arueira e a trilha sonora que você ouve é uma composição original do Gabriel Falcão. Só falta um episódio. Eu encontro você lá. Obrigada e até mais Essa temporada do podcast é patrocinada pelo Ministério da Cultura por meio da Lei de Incentivo à Cultura e pelas empresas Norsul, Modal, Impulso e Casnar
- 35:30Leonardo. Até o episódio final
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- 01Chegadas e RenascimentosDuração 35:02
A partir do século 16, o Rio de Janeiro recebe uma infinidade de povos que cruzam o Atlântico - por vontade própria ou, no caso dos africanos, confinados nos porões dos navios. Na abertura da 5ª temporada: o desembarque, a identidade roubada, o sentimento do banzo, a reinvenção nos zungus e nas irmandades religiosas de um Rio africanizado e forjado pelo oceano. Entrevistado neste episódio: Eduardo Possidônio.
- 02A TravessiaDuração 44:08
No segundo episódio da temporada Rio Atlântico, a parte mais dolorosa da relação entre o Rio de Janeiro e o oceano: a travessia dos escravizados. A jornada terrestre do sertão africano até o litoral, a longa viagem no porão do navio, e a chegada a uma terra desconhecida. Com trechos do relato de um ex-escravizado que passou por cada uma dessas etapas. Entrevistada nesse episódio: Nilma Teixeira Accioli. ||| Rio Memórias. Histórias do Rio para ouvir. Na temporada Rio Atlântico: a travessia traumática, a outra margem, a cidade porto, as reinvenções e as heranças culturais. Visite a galeria no museu virtual riomemorias.com.br para se aprofundar nos temas. Siga @riomemorias no Instagram. ||| Apresentação: Gabriela Montoni. Coordenação, roteiros e locuções adicionais: Rodrigo Alves. Leituras adicionais neste episódio: Thiago André, do podcast História Preta. Supervisão de roteiro: Thales Ramos. Produção e entrevistas: Jamille Bullé. Pesquisa: Davi Aroeira. Edição e sonorização: Clara Costa. Assistência de edição: Giovanna Orsini. Trilha sonora original: Gabriel Falcão. Gravações: Estúdio Rastro (RJ) e Estúdio Frango no Bafo (MG). Direção executiva: Lívia Baião.
- 03A outra margemDuração 36:20
No terceiro episódio da temporada Rio Atlântico, a margem africana do oceano. Costa da Mina, Congo-Angola, Moçambique: os pontos de onde mais saíram escravizados rumo ao Rio de Janeiro, e as memórias que essas pessoas carregaram no navio. Entrevistada neste episódio: Monica Lima.
- 04A cidade portoDuração 36:32
No quarto episódio da temporada Rio Atlântico, a história da zona portuária do Rio de Janeiro. O podcast te convida para chegar pela Baía de Guanabara, conhecer os diferentes pontos de desembarque ao longo dos séculos, atravessar a alfândega e perceber sons, imagens e aromas da cidade porto. Entrevistada neste episódio: Martha Abreu.
- 05O caminho de voltaDuração 35:45
No quinto episódio da temporada Rio Atlântico, as histórias de africanos e africanas que não apenas conquistaram a liberdade como conseguiram voltar para casa cruzando novamente o oceano. Entrevistada neste episódio: Monica Lima.
- 06A invenção do Rio AfricanoDuração 34:37
No episódio final da temporada Rio Atlântico, a herança africana no cotidiano carioca. As palavras que a gente usa no dia a dia, os sabores, os sons, a música, e um passeio pelo lugar mais africano do Rio de Janeiro. Entrevistada neste episódio: Lucimar Felisberto dos Santos. Locução adicional: Theo Ramos.