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Rio Atlântico

Episódio 01

Chegadas e Renascimentos

0:00faltam 35 min35:02

Transcrição

A travessia no Atlântico, a travessia da Calunga Grande, como os centro-africanos,

  1. 0:00A travessia no Atlântico, a travessia da Calunga Grande, como os centro-africanos, ou seja, ambundos, bacongos, ovinbundos, entendiam o grande oceano, ou seja, a Calunga, a terra dos mortos, a linha que dividia o mundo dos vivos e dos mortos, era extremamente traumática, porém ela é um ponto na vida desses africanos,
  2. 0:30que vão se reinventar por completo aqui nas Américas e principalmente na cidade do Rio de Janeiro.
  3. 1:00A ponto de conseguirem construir, fazer da escravidão, por exemplo, um período transitório nas suas vidas. Vão conseguir comprar suas liberdades, vão conseguir participar de irmandades, vão conseguir dinamizar a vida da cidade, africanizar a cidade. Essa civilização chega pós essa passagem degradante. Mas esse pós existiu e essas pessoas se reinventaram.
  4. 1:30A colonização europeia foi um projeto de dominação de territórios e vidas. Um projeto que se arrastou por séculos. Durante esse tempo, milhões de pessoas cruzaram o Oceano Atlântico
  5. 2:00e encontraram no Rio de Janeiro a principal porta de entrada do Brasil. Enquanto os europeus chegavam para impor sua visão de mundo e passavam por cima de quem eles não conheciam e não entendiam, Os africanos, trazidos à força, eram jogados nesse encontro compulsório e violento com o Rio. Eles foram os braços e as pernas que mudaram as relações urbanas na capital do império.
  6. 2:30Mas também trouxeram um novo jeito de enxergar o mundo, construir redes e se unir em resistência. Eu sou a Gabriela Montoni e essa é a quinta temporada do podcast Rio Memórias. Uma viagem inspirada pela Galeria Rio Atlântico do nosso Museu Virtual,
  7. 3:00que você pode visitar em riomemórias.com.br. A margem no outro lado do mar, a travessia traumática, a chegada no porto. As estratégias de sobrevivência, os fluxos migratórios e as heranças culturais. Em seis episódios imersivos, a gente vai te colocar dentro dessa cidade forjada pelo oceano. Capítulo 1
  8. 3:30Um rio feito de nações Se você está achando confuso esse caldeirão de idiomas, imagina o caos que começou a se formar no fim do século XV com o domínio das técnicas navais e das rotas para atravessar o Atlântico. A lógica ali era conseguir o máximo de riqueza com a exploração de recursos naturais, mercadorias e mão de obra humana
  9. 4:00Ao longo dos séculos, esse método colocou na mesma panela uma infinidade de povos e culturas diferentes O Rio de Janeiro foi invadido pelos colonizadores portugueses, por outros europeus, como franceses e holandeses E não só por eles A cidade passou a receber ciganos, árabes, judeus, todos chegando pelo Atlântico Mas nem todos chegando do mesmo jeito, né?
  10. 4:30Milhões de africanos vieram para o Brasil, a maioria nos porões dos navios. Esse número varia. Estudiosos falam em um milhão, três milhões, cinco milhões. No próximo episódio, a gente vai falar mais sobre essa travessia. Foi uma dominação não só dos corpos, mas também uma tentativa de dominação dos espíritos. De um lado, os colonizadores, querendo exterminar subjetividades e visões de mundo diferentes das suas.
  11. 5:00Do outro lado, os indígenas e os africanos escravizados tentando sobreviver e manter suas culturas. Para entender a violência e a complexidade desse embate, eu vou contar com a ajuda de quem estuda o tema profundamente. Bom, sou Eduardo Possidônio, professor de História da Rede Pública do Ensino Básico da Prefeitura do Rio e da Secretaria Estadual de Educação, do Ensino Médio.
  12. 5:30Agora você já sabe de quem é aquela voz que você ouviu lá no comecinho do episódio. Trabalho também com a pós-graduação do Instituto Pretos Novos, o IPN, com História da África. E atualmente sou pesquisador ligado ao Museu da República, cuidando do acervo nosso sagrado, desse acervo importante de 529 peças que foi transferido em 2020 para o Museu da República. E hoje eu venho tratando da parte histórica desse acervo.
  13. 6:00O professor Eduardo vai ajudar a gente a entender como milhões de africanas e africanas chegaram ao Rio de Janeiro de maneira forçada, se estabeleceram na cidade e atravessaram um processo doloroso de renascimento. Quando você é colocado num navio negreiro e cruza o Atlântico, Esse é um momento de grande incerteza. E essa incerteza vai se transformando em luta por sobrevivência. Porque, conforme os séculos avançam, a economia cresce baseada no trabalho escravo.
  14. 6:30O historiador Flávio Gomes cita num artigo que, em 1627, o Rio de Janeiro e suas freguesias rurais tinham 40 engenhos. Nas primeiras décadas do século XVIII, já eram 136. Estavam localizados nas cercanias da cidade, próximo ao eixo urbano Ou então nas regiões de Jacarepaguá, Inhaúma, Ilha do Governador, Irajá, Campo Grande e Guaratiba
  15. 7:00Freguesias nos subúrbios da cidade A demanda cada vez maior por mão de obra escravizada fazia as embarcações cruzarem o Atlântico sem parar Muitas saíam do porto de Luanda, a atual capital de Angola Nas três primeiras décadas do século XIX, por exemplo, mais de 80% dos navios trazendo africanos para o rio saíam da região Congo-Angola. Moçambique também foi um ponto de origem muito relevante, como o porto de Kelimane.
  16. 7:30E logo na chegada, as pessoas eram submetidas a uma reinvenção abrupta de identidade. Aqui, de novo, o artigo do Flávio Gomes.
  17. 8:00desembarcaram e viveram no Rio de Janeiro, descobrindo novas identidades sociais além dessas locais, e já múltiplas, que se formaram ao longo de seu caminho de sofrimento em direção à costa. Ao longo do século XIX, nenhuma outra população das Américas teve tantas pessoas escravizadas como a do Rio de Janeiro.
  18. 8:30Pessoas que trabalhavam no desembarque de mercadorias na região da alfândega, na limpeza e no calçamento das ruas, até na contenção de incêndios. Eram padeiros, ferreiros, boticários, marceneiros, barbeiros, cozinheiras, quituteiras. Esse contingente de escravizados já passava de 100 mil pessoas em 1780 e triplicou para quase 300 mil em 1872.
  19. 9:00Gente que, na maioria das vezes, saía da África com uma identidade e chegava nas Américas com outra. para pensar os dois maiores portos, o maior porto de embarque de cativo, que é o Porto de São Paulo de Assunção de Luanda, e para pensar no Porto do Rio, que é o maior porto de recebimento desses escravizados que para cá vieram. A freguesia de Nossa Senhora dos Remédios, por exemplo, em Luanda,
  20. 9:30era a que batizava coletivamente toda a carga, como assim era chamada, para ser embarcada dos presídios e depois embarcada para ser vendida para o Rio de Janeiro e para outros portos. A origem de cada indivíduo ficava para trás. E esse nome era, na maioria das vezes, um nome cristão ligado ao porto de embarque. Então, sim, se perdia a origem, a gente não está falando de grupos étnicos, e sim o porto de embarque dele, um nome cristão seguido do nome do porto de embarque dele.
  21. 10:00Então, sim, isso para um africano é uma violência, Porém, a gente está falando de um povo que ressignifica muito a sua história. Ressignificar a história era necessário, porque esse novo batismo fragmentava a geografia africana e agrupava todas aquelas pessoas em denominações genéricas. Quem saía dos portos do lado ocidental da África, na costa dos atuais Togo, Nigéria, Gana e Benin,
  22. 10:30geralmente era denominado como mina. Quem vinha dos portos centrais era classificado como Angola, Congo, Ganguela, Luanda, Monjolo. Essa generalização era a regra nos registros de entrada no Brasil. Mas isso também foi transformado em estratégia de união. Então, da mesma maneira que você tem uma violência inicial, você tem uma ressignificação disso. Essa reinvenção vai ser constante aqui na diáspora
  23. 11:00e essa parte do nome não deixa de ser uma das tantas reinvenções que esses povos souberam fazer aqui no Brasil. Mesmo com essas reinvenções, não tinha jeito. A chegada no porto era o início de uma saudade sem cura. Capítulo 2 – A Tristeza Nostálgica do Banzo
  24. 11:30Bem, estamos aqui no Cais do Valongo, no antigo Cais do Valongo. É um lugar muito emblemático, muito importante. Se você é ouvinte do Rio Memórias, você lembra que lá no último episódio da segunda temporada, a gente levou a escritora Eliana Alves Cruz até o sítio arqueológico do Cais do Valongo, no centro do Rio, para conversar sobre o maior porto de entrada de africanos escravizados das Américas.
  25. 12:00Se você não ouviu, depois volta lá nesse episódio. Toda vez que eu venho aqui, vou dizer uma coisa Eu tenho vontade de pular essa cerca, tirar o sapato e pisar ali Antes do Cais do Valongo, o desembarque era feito no Cais do Porto, no Largo do Carno Na região que hoje a gente conhece como a Praça 15 Aí vem um processo que percorre toda a história do Rio de Janeiro E quase sempre ignora a população mais pobre
  26. 12:30As reformas sanitárias A presença do comércio escravagista ali no coração da cidade começou a deixar a elite branca desconfortável E o que chocava não era o horror da escravidão Era o fato de que aquelas pessoas podiam ser vetores de doenças A sociedade carioca não queria que o comércio humano se misturasse à paisagem da área mais nobre da cidade O desembarque é extremamente desumano
  27. 13:00A gente está falando de pessoas esqualidas, magras, doentes, desembarcando. E o desembarque se dava na frente do Paço, ou seja, na sede administrativa, na sede do vice-rei. A partir de 1774, o desembarque de escravizados passou a ser feito numa ponte de madeira improvisada na freguesia de Santa Rita, no litoral norte. E em 1811 foi construído de fato o ancoradouro do Cais do Valongo.
  28. 13:30Por ali, entraram cerca de um milhão de africanos. Você tem essa mudança do desembarque para o Valongo e é um momento de maior aporte. Ou seja, é um momento em que esse tráfego cresce assustadoramente, que são as primeiras décadas do século XIX. Os africanos recém-chegados, chamados de pretos novos, tinham que passar por um período de quarentena
  29. 14:00para evitar a proliferação de doenças. No século XVIII, esse isolamento era feito na Ilha do Bom Jesus, nas dependências dos franciscanos. Com a criação do Cais do Valongo, a quarentena passou a ser feita no Lazareto, atrás do Monte da Saúde, na Gamboa. Aqueles que não resistiam eram enterrados no Cemitério dos Pretos Novos, que, na verdade, não era um cemitério, era uma vala comum. Os que se recuperavam eram enviados para serem vendidos,
  30. 14:30Mas muitos ainda precisavam ganhar peso, então eles ficavam nos trapiches do Valongo. Aqueles trapiches de engorda, onde eles desembarcavam e ficavam ali por um tempo, esperando terem condições físicas de serem vendidos. Você que está ouvindo, você percebe a quantidade de camadas de sofrimento aqui? Primeiro, a pessoa tem que sobreviver à travessia do Atlântico, o que já não é nada fácil.
  31. 15:00Aí ela é rebatizada, tem que atravessar todo esse processo de recuperação e o que vem depois é viver sob as ordens de alguém que vai ser o seu dono. Longe da sua origem, longe dos seus ancestrais. Um sentimento de tristeza nostálgica da pessoa expatriada que nunca mais vai ver sua terra natal. Um sentimento que ganhou o nome de Banzo. O Ney Lopes, cantor, compositor e estudioso da cultura africana
  32. 15:30Incluiu a definição de Banzo na sua Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana E no novo dicionário Banto do Brasil Aqui ele explica o conceito num vídeo do canal Em Frente O que é um Banzo? Banzo é uma palavra do universo Banto Que traduz exatamente um sentimento que é muito comum na civilização moderna
  33. 16:00que é o sentimento da solidão, o sentimento que leva à depressão. O banzo poderia tranquilamente ser traduzido como depressão física, espiritual, etc. Para enfrentar o banzo, o jeito era se unir aos companheiros de Calunga. Eu estou caminhando aqui na Rua da Alfândega, no centro do Rio.
  34. 16:30Essa é a nossa produtora, a Jamile Boulê. E estou chegando no número 219, onde fica uma igreja bem antiga, com uma porta grande e três janelinhas no alto. Ela está em frente à igreja de Santo Elesbão e Santa Efigênia. E está na hora da missa. Vai entrar para a gente ouvir um pouquinho. Bora lá? Então, claro, o Senhor é nosso, o Senhor Jesus Cristo.
  35. 17:00Irmãos e irmãs, rezando o seu gesto na Santa Missa, as seguintes intenções. A igreja, que funciona até hoje no centro da cidade, foi inaugurada em 1754 por uma irmandade religiosa de ex-escravizados em devoção a esses dois santos católicos negros. Tem muita significância para a cultura dos negros, onde eles podiam ser quem eles eram de verdade,
  36. 17:30praticar a fé, a religiosidade, e tanta dor, tanto sofrimento. Se a religião assassinava a identidade dos africanos com o batismo cristão no desembarque, também era pela religião que muitos se reconectavam longe de casa. Homens e mulheres negras formavam confrarias e irmandades que abrigavam africanos e seus descendentes escravizados, livres ou libertos. Foi assim com a Irmandade de Santo Elesbão e Santa Efigênia,
  37. 18:00uma pequena congregação criada em 1740 por Pretos Minas. Tem gente que sempre vem, tem gente que passa, para um pouquinho e vai embora, que ela demora mais ou menos uma hora e quarenta minutos, entendeu? Se por um lado os africanos tiveram que reinventar suas práticas religiosas para sobreviver no Rio de Janeiro, por outro lado dá para dizer que as irmandades criadas por pessoas negras africanizaram o catolicismo. A maior delas foi a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que começou no século XVI em Pernambuco e chegou ao Rio, à Bahia e ao Pará no século XVII.
  38. 18:30Na virada do XVIII para o XIX, já tinha a Irmandade do Rosário em Alagoas, Minas Gerais, Goiás, São Paulo e Rio Grande do Sul. Ali no século XIX, o trabalho escravo numa cidade do tamanho do Rio de Janeiro já tinha uma dinâmica diferente de outras partes do Brasil. A escravidão numa cidade como o Rio de Janeiro, como o Recife, Salvador,
  39. 19:00era completamente diferente da escravidão no interior. A escravidão é praticada dentro das fazendas. O Rio já tinha o que se chamava na época de escravo de ganho. Ou seja, o escravizado que tinha um pouco mais de autonomia e podia trabalhar na cidade. Ele vendia comida, prestava serviços remunerados e parte dessa remuneração era repassada para o escravizador como um soldo ao fim de um período determinado.
  40. 19:30Muitas vezes, o dinheiro que sobrava era usado para comprar a própria alforria. Para o cativo, como é chamado nesse contexto, estar inserido no mercado de ganho, ele ganha uma mobilidade muito grande. Primeiro porque muitos deles viviam por si. O que é viver por si nesse contexto? É você não ter a necessidade de morar com o seu senhor. Então esse escravo de ganho, essa escrava de ganho
  41. 20:00Essa negra de tabuleiro que está vendendo seus quitutes A negra que está vendendo seu angu Que aparece tanto nas pinturas do Rugendas, do Debray E tantos outros viajantes O carregador que está aqui na frente do porto
  42. 20:30Recebendo e carregando caixas Todo tipo de serviço A Viradouro mostrou isso muito bem Naquele enredo lindo sobre as ganhadeiras Ele fala, levanta a preta que o sol tá na janela Leva a gamela pro xarel do pescador Ou seja, leva a bandeja pra pegar lá o peixe do pescador Levanta a preta que o sol tá na janela Leva a gamela pro xarel do pescador Ao fogo e o balaia do tamanho
  43. 21:00Do suor do seu amor A alforria se conquista com o ganho E o balaia do tamanho do suor do seu amor Ou seja, tem uma parte do samba que ele inclusive cita A criança que está ganhando o erer do liberdade Ou seja, essas mulheres conseguem comprar Quando não a sua própria liberdade Elas conseguem libertar a próxima geração Comprando a liberdade dos seus filhos Essas mulheres conseguem fazer uma poupança
  44. 21:30Com seus balangandãs Aquilo ali é uma maneira de poupar E são eles que conseguem circular livremente Por dentro dos zungus Os zungus Eu quero te levar para dentro de um deles O Eduardo Possidônio também está convidado para vir com a gente
  45. 22:00Então era muito comum que não funcionavam os zumbus nesse contexto Eram diversos cômodos Uma casa que oferecia bebida, que oferecia música, que oferecia comida E também quartos, oferecia acomodação E era muito comum, era raro um Zungu que não oferecesse também, porque a vida para essas pessoas, você não separava, como hoje a gente tenta fazer e infelizmente não separa, a vida civil da religiosa.
  46. 22:30As pessoas não se separavam. Então, dentro dos zumbus, você tem práticas sagradas acontecendo. Muitos desses zumbus serviram de base para a criação do que mais tarde a gente ia chamar aqui no Rio de Janeiro,
  47. 23:00pelo Brasil como um todo, de terreiro, de barracão. Para quem conhece o centro histórico do Rio de Janeiro, mais tarde, depois desses zumbus, O que a gente chama hoje de Rio Antigo era o espaço onde essas primeiras casas religiosas foram se estabelecendo. Essas casas eram comandadas por pessoas negras, muitas vezes africanas, que tinham cruzado o Atlântico. E funcionavam como uma espécie de ponto de abastecimento cultural da população negra, seja escravizada ou livre.
  48. 23:30Ali, como disse o Eduardo, era possível reproduzir com alguma segurança as práticas religiosas vindas do continente africano e adaptadas para a realidade do Brasil. Também dava para se alimentar com a culinária típica.
  49. 24:00E até a comida foi ressignificada. Alguns pratos nascem no Brasil como uma adaptação de costumes e hábitos, mas com ingredientes e utensílios encontrados na diáspora. Um elemento central naqueles espaços era o angu. Tem uma ilustração do Jean-Baptiste Debré que mostra mulheres negras servindo angu na rua em caldeirões de cobre enormes. O Debré descreve assim.
  50. 24:30levar consigo, numa sopeira, uma porção de quatro vinténs recoberta por uma folha de couve
  51. 25:00ou de mamona. Com a criação dos ungus, as vendedoras de angu migram para dentro dessas casas que se tornam um lugar para alimentar o corpo e a alma. Essas casas, que mais tarde vão se chamar de Umbanda e Candomblé, aqui no Rio de Janeiro e em todo o Brasil, elas são responsáveis principalmente pela arte e ofício de curar. E quem está angariando dessas pessoas, quem está conseguindo alcançar a confiança dessas pessoas para a arte e o ofício de curar?
  52. 25:30Pais e mães de santo, que vão ser chamados pejorativamente de curandeiros. É claro que a elite carioca ia reagir. A lei publicada em 1839 e reproduzida no jornal O Sete de Abril, não deixa dúvidas sobre a perseguição policial e a clandestinidade dos zungus. Artigo 7º. São proibidas as casas conhecidas vulgarmente pelo nome de casas de Zungu e Batuques.
  53. 26:00Os donos ou chefes de tais casas serão punidos com a pena de oito dias de prisão e 30 mil réis de multa. Nas reincidências, 30 dias de prisão e 60 mil réis de multa. Eu posso citar aqui uma figura que eu me encantei e passei um bom tempo indo atrás dele, Laurentino Inocencio dos Santos. Um brasileiro, preto, provavelmente filho de africano, que em 1878 está sendo preso por ser dono de Zungu,
  54. 26:30em 1879 já tinha sido preso mais duas vezes pelo mesmo subdelegado por ser considerado um grande curandeiro na freguesia da glória. É o mesmo período que está atuando no Rio de Janeiro o que ficou conhecido pela imprensa e no Brasil inteiro, o afamado Juca Rosa, ou seja, o grande pai de santo do império. Como também, para a gente pegar uma mulher desse mesmo contexto, Leopoldina Giacomo
  55. 27:00que ficou conhecida nos jornais como a Rainha Mandinga ela era uma preta mina que ao ser presa ela está grávida e a violência na casa dela foi muito grande só pra gente ver como esse Rio é disputado palmo a palmo por essas lideranças por essas, enfim, africanas e brasileiras que estão no comando dessas casas que eu costumo chamar de afro-cariocas pra gente entender como elas vão nascendo nesse espaço da cidade As lideranças resistiam e continuavam acolhendo a população negra.
  56. 27:30Inclusive escravizados que fugiam e costumavam se esconder nos zungus, como mostra esse anúncio do Diário do Rio de Janeiro em 1834. Desapareceu no dia 2 do mês corrente um preto barbeiro de 18 a 20 anos. Costuma dormir pelos zungus, como o da Ilha Seca, da Guarda Velha e da Rua de São Joaquim. Chama-se Lourenço de Benguela, levava calça de riscado azul, jaqueta de pano da mesma cor e uma bacia de arame
  57. 28:00Quem dele der notícia certa na Rua da Misericórdia nº 99, na loja de barbeiros Domingos dos Santos, que é seu senhor Receberá 30 mil réis, sendo o preto preso no zungu e sendo fora 15 mil, tudo em metal A perseguição a um jovem como Lourenço de Benguela Valia também para mulheres como Maria Mina
  58. 28:30Que escapou do seu escravizador e, segundo o jornal Ia passando de um zungu para o outro sem ser encontrada Maria, de nação mina, aluga quartos nas casas de zungus Roga-se mais expressamente aos delegados de polícia E recomendamos aos inspetores de quarteirão para examinarem as casas de seus distritos que costumam alugar quartos. De certo, em algumas destas, ela será encontrada, como já em outra ocasião o fez numa casa da Rua da Vala.
  59. 29:00Não à toa, a palavra zungu, nas línguas do tronco banto, pode ser entendida como toca ou buraco. Um esconderijo para escravizados em fuga, que também servia como lugar de moradia, de alimentação, de práticas religiosas, resistência cultural. Uma herança que está no nosso cotidiano até hoje Eu tenho há muitos anos trabalhado e pesquisado práticas sagradas afro-brasileiras
  60. 29:30Mas eu costumo falar para os meus alunos que não tem uma instituição religiosa hoje no Brasil Que não esteja intimamente marcada por essa presença africana Nos templos evangélicos, por exemplo Eu falo para o meu aluno muitas das vezes que está lá na igreja pentecostal dele, do bairro dele que todo aquele gestual que ele está fazendo, que toda aquela expressividade corporal, que aquilo não veio da Europa. Aquilo é África na sua essência, a maneira de louvar, de cantar, de dançar, com o corpo.
  61. 30:00Isso é africano, que é como os deuses se comunicavam, é como o povo africano se comunicava com suas divindades, fossem orixás, inquis, voduns, ou seus ancestrais divinizados. Essa influência também está presente na Igreja Católica. O nosso catolicismo é africano, é africanizado, é africano. Os viajantes da época nem sempre percebiam que essa influência africana já estava presente na época da colonização.
  62. 30:30Eu recomendo muito, muito, que quem está nos ouvindo agora pegue uma gravura incrível do Debré, que é chamada Negras Novas Indo ao Batismo. Debré pinta negras recém-desembarcadas, segundo ele, no Brasil, indo para o batismo. Eu tenho para mim que o Debré errou feio ao fazer essa interpretação Porque quando você olha nessa pintura Tem um padre esperando na porta da igreja, um padre negro E essas negras estão com as suas cabeças raspadas
  63. 31:00As suas crianças no seu colo também E elas estão vestidas tipicamente como uma atual saída de santo A roupa é idêntica Ou seja, essas pessoas dos dois lados do Atlântico Se apropriam desse espaço da igreja recriam esse espaço da igreja pra uma nova prática religiosa e isso não vale só pra religião vale pra tudo até pro jeito como a gente se expressa hoje em dia ninguém aqui chama aquele bichinho maior que a abelha
  64. 31:30pretinho que tem um ferrão tremendo de vespa a gente chama de marimbondo é camundongo, é pernilongo, é canga, miçanga ou seja a travessia do Atlântico foi um processo violento e doloroso mas a presença africana no Rio de Janeiro e no Brasil tem um caráter civilizatório. Não no sentido do senso comum, de doutrinal que é considerado selvagem, mas no sentido de imprimir costumes e práticas. Então, se você ainda acha que só o europeu é capaz
  65. 32:00de civilizar, eu espero que esse episódio tenha te mostrado o caminho inverso. Para qualquer canto da nossa sociedade que a gente quiser observar, a gente vai ver essa presença marcante, civilizatória, africana e crioula, que é como os filhos de africanos eram chamados aqui no Brasil até o século XIX, a palavra crioula não tem o mesmo significado pejorativo que tem hoje, então africanos e seus filhos, ou seja,
  66. 32:30seus descendentes, os que aqui foram nascendo, os brasileiros, descendentes de africanos, foram civilizando também essa nação e dando as características que o Brasil tem hoje. Eu queria agradecer ao professor Eduardo Possidônio por ter ajudado a gente a começar essa viagem pelo Rio Atlântico eu que agradeço, acho que é sempre bom a gente poder falar da nossa história poder falar das nossas origens e principalmente dessa conexão tão intensa
  67. 33:00que é Brasil e o continente africano, é um rio chamado Atlântico mesmo, ou seja é muito curto, dada os encontros que foram possíveis nesses anos marcado por essas trocas obrigado gente esse foi o episódio de abertura da Quinta temporada do podcast Rio Memórias. Você pode se aprofundar no assunto visitando o nosso museu virtual em rio-memórias.com.br.
  68. 33:30Lá você encontra a Galeria Rio Atlântico, que vai guiar os seis episódios da temporada. Conta pra gente o que você achou. A nossa arroba é rio-memórias no Instagram. Avalie o podcast no seu aplicativo e espalhe os episódios por aí. Hoje você ouviu áudios do canal Em Frente e da Unidos do Viradouro. Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora desse podcast que é produzido pela Escuta Aqui A coordenação é do Rodrigo Alves, que grava as locuções adicionais e escreve os roteiros
  69. 34:00A supervisão de roteiro é do Tales Ramos A Jamile Boulé faz as entrevistas e as gravações externas A Clara Costa faz a montagem, a edição e a sonorização A Giovanna Orsini é assistente de edição A trilha sonora original é composta pelo Gabriel Falcão e a pesquisa histórica é do Davi Arueira. As minhas locuções são gravadas no estúdio Frango no Bafo, em Belo Horizonte. As entrevistas e as locuções adicionais são gravadas no estúdio Rastro, no Rio de Janeiro, com supervisão técnica do Dani Di.
  70. 34:30A temporada está só começando. Obrigada e até mais! Essa temporada do podcast é patrocinada pelo Ministério da Cultura por meio da Lei de Incentivo à Cultura e pelas empresas Norsul, Modal, Impulso e Casnar Leonardos. Até o próximo episódio!

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Todos os episódios

  1. 01Chegadas e Renascimentos
    Duração 35:02

    A partir do século 16, o Rio de Janeiro recebe uma infinidade de povos que cruzam o Atlântico - por vontade própria ou, no caso dos africanos, confinados nos porões dos navios. Na abertura da 5ª temporada: o desembarque, a identidade roubada, o sentimento do banzo, a reinvenção nos zungus e nas irmandades religiosas de um Rio africanizado e forjado pelo oceano. Entrevistado neste episódio: Eduardo Possidônio.

  2. 02A Travessia
    Duração 44:08

    No segundo episódio da temporada Rio Atlântico, a parte mais dolorosa da relação entre o Rio de Janeiro e o oceano: a travessia dos escravizados. A jornada terrestre do sertão africano até o litoral, a longa viagem no porão do navio, e a chegada a uma terra desconhecida. Com trechos do relato de um ex-escravizado que passou por cada uma dessas etapas. Entrevistada nesse episódio: Nilma Teixeira Accioli. ||| Rio Memórias. Histórias do Rio para ouvir. Na temporada Rio Atlântico: a travessia traumática, a outra margem, a cidade porto, as reinvenções e as heranças culturais. Visite a galeria no museu virtual ⁠⁠riomemorias.com.br⁠ para se aprofundar nos temas⁠. Siga ⁠⁠@riomemorias⁠ no Instagram⁠. ||| Apresentação: Gabriela Montoni. Coordenação, roteiros e locuções adicionais: Rodrigo Alves. Leituras adicionais neste episódio: Thiago André, do podcast História Preta. Supervisão de roteiro: Thales Ramos. Produção e entrevistas: Jamille Bullé. Pesquisa: Davi Aroeira. Edição e sonorização: Clara Costa. Assistência de edição: Giovanna Orsini. Trilha sonora original: Gabriel Falcão. Gravações: Estúdio Rastro (RJ) e Estúdio Frango no Bafo (MG). Direção executiva: Lívia Baião.

  3. 03A outra margem
    Duração 36:20

    No terceiro episódio da temporada Rio Atlântico, a margem africana do oceano. Costa da Mina, Congo-Angola, Moçambique: os pontos de onde mais saíram escravizados rumo ao Rio de Janeiro, e as memórias que essas pessoas carregaram no navio. Entrevistada neste episódio: Monica Lima.

  4. 04A cidade porto
    Duração 36:32

    No quarto episódio da temporada Rio Atlântico, a história da zona portuária do Rio de Janeiro. O podcast te convida para chegar pela Baía de Guanabara, conhecer os diferentes pontos de desembarque ao longo dos séculos, atravessar a alfândega e perceber sons, imagens e aromas da cidade porto. Entrevistada neste episódio: Martha Abreu.

  5. 05O caminho de volta
    Duração 35:45

    No quinto episódio da temporada Rio Atlântico, as histórias de africanos e africanas que não apenas conquistaram a liberdade como conseguiram voltar para casa cruzando novamente o oceano. Entrevistada neste episódio: Monica Lima.

  6. 06A invenção do Rio Africano
    Duração 34:37

    No episódio final da temporada Rio Atlântico, a herança africana no cotidiano carioca. As palavras que a gente usa no dia a dia, os sabores, os sons, a música, e um passeio pelo lugar mais africano do Rio de Janeiro. Entrevistada neste episódio: Lucimar Felisberto dos Santos. Locução adicional: Theo Ramos.