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Rio Memórias

Quem seria capaz de descrever as belezas que apresenta a baía do Rio de Janeiro, esse porto que, na opinião de um dos nossos almirantes mais instruídos, poderia conter todos os navios da Europa?

Saint-Hilaire

As enseadas da Baía de Guanabara convidavam os primeiros navegantes ao desembarque, além de ser um local estratégico nos interesses dos portugueses em assenhorear-se das terras mais ao sul daquela costa do que viria a ser o Brasil. Guanabara é uma palavra em língua Tupi-Guarani, que designa “braço de mar” ou “seio de mar” ou ainda “rio-mar”. Seu nome nos lembra os povos indígenas, quem primeiro habitou aquele entorno de águas tranquilas, povoadas por golfinhos e baleias, se arredondando formosamente em praias de pouca areia. A profundidade da água não permitia chegarem embarcações maiores na costa, e para isso eram necessários barcos menores — quase canoas. Essa era a baía que, confundida com a foz de rio — talvez — foi encontrada por caravelas estrangeiras, bem no início do século XVI. O navegante florentino Américo Vespúcio louvou, em 1502, as qualidades do local, qualificando como “terra amena, temperada e sã”.

Pintura de cais portuário com barcos, casas, torre e ponte.Descrição da imagem: Esta é uma pintura retratando um cais do porto no início do Rio. Do lado esquerdo, vemos uma série de barcos flutuando no mar azul. À medida que nos movemos para a direita, observamos casas e construções dispostas ao longo da praia. No centro, há uma estrutura elevada com uma torre, possivelmente uma igreja ou edifício público, erguida sobre uma colina verde. Ao fundo, mais à direita, estão outros edifícios e uma ponte que cruza o rio. O céu é claro e o horizonte está ligeiramente inclinado, sugerindo que a imagem foi pintada durante o dia.

Vista da Igreja e Praia da Glória, c. 1790 – Leandro Joaquim. Bem perto dali, os portugueses expulsaram os franceses e efetivaram a invasão e colonização do Rio de Janeiro. Wikimedia Commons

Em lugar próximo à boca da baía — mas não tanto, para que não deixasse de ser seguro — se criou o cais, numa pequena enseada, na qual foram sendo construídos pontos para atracar as pequenas embarcações. A primeira ocupação pelos portugueses ao redor do que viria a ser o marco fundador da cidade, se deu próximo à praia do Flamengo, mas sua continuidade e expansão enfrentou constante luta contra os indígenas, em grande parte tamoios, que defenderam sua terra como bem caberia fazer. Na batalha de Uruçumirim, em 1567, houve dezenas de mortos e centenas de aldeias indígenas foram incendiadas. Outros grupos indígenas, como os temiminós, se aliaram aos portugueses, na dura disputa por seguir naquela terra.

Pintura de confronto entre grupos em canoas, tons cinza e bege.Descrição da imagem: A imagem é uma pintura que retrata uma cena de confronto entre dois grupos de pessoas em canoas. A partir da esquerda para a direita, vemos um grupo de homens nus, segurando remos e participando ativamente da ação. Eles estão em uma canoa decorada com motivos geométricos. À direita, há outro grupo de homens vestidos com roupas mais elaboradas, também segurando remos e parecendo estar em uma luta ou disputa. O fundo apresenta um céu nebuloso e algumas figuras distantes, possivelmente outros barcos ou elementos da paisagem. A pintura é em tons de cinza e bege, sugerindo que pode ser uma obra em preto e branco ou com cores suaves.

Aparição de São Sebastião na Batalha das Canoas – Uruçumirim. Carlos Oswaldo, 1915 Acervo Palácio de São Joaquim. Fonte: Reddit. O mito da aparição do santo foi contado e recontado, no intuito de conferir ares de grandeza e heroísmo “divino” à invasão portuguesa às terras indígenas.

O porto nasceu marcado por esta história de conflitos. Em frente a esse cais foi erigido um convento carmelita, no século XVII. E, mais tarde, na primeira metade do século XVIII, a sede da Capitania do Rio de Janeiro, que veio a se tornar o Paço Imperial — símbolo do poder colonial. Neste lugar desembarcavam pessoas e mercadorias na cidade que se tornou capital da América Portuguesa em meados do século XVIII. Não era o único cais de desembarque, havia outras praias, como a dos mineiros, onde chegavam para receber suas encomendas aqueles vindos das Minas Gerais, também naquele século. São Sebastião do Rio de Janeiro: cidade-mar, marcadamente negra neste tempo de tão intensas conexões atlânticas, mas com uma história de longa presença e lutas indígenas em suas margens.

Pintura de cais portuário com barcos e cidade ao fundo.Descrição da imagem: Esta é uma pintura que retrata um cais do porto no início do Rio. Do lado esquerdo para a direita, vemos uma série de barcos flutuando no mar, com alguns contendo pessoas. No centro, há uma embarcação maior com várias figuras vestindo roupas variadas. À distância, vemos uma cidade com várias construções, incluindo igrejas com cúpulas, e ao fundo, montanhas cobertas por vegetação. O céu está cheio de nuvens, dando um tom claro à cena.

Porto da praia dos Mineiros no Rio de Janeiro. J. M. Rugendas – Wikimedia Commons

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