A caminhada cultural Rio de Modernidades inicia sua jornada no Edifício Palácio Gustavo Capanema, o marco inaugural da arquitetura moderna no Brasil. Projetado entre 1936 e 1945 por uma equipe liderada por Lúcio Costa, com consultoria de Le Corbusier, o edifício revolucionou a estética nacional ao introduzir o uso de pilotis, brise-soleil e terraços-jardim.
O percurso começa neste monumento para revelar como o Rio de Janeiro redesenhou sua identidade no lugar do antigo berço colonial do Morro do Castelo, transformando o "apagamento" material do passado em um Brasil moderno e industrial. A temática central da caminhada explora temporalidades distintas das modernidades urbanas, demonstrando que as transformações da cidade não foram lineares, mas sim um processo de sucessivas camadas. O roteiro atravessa a Esplanada do Castelo, onde o "vazio" deixado pelo desmonte do morro serviu como uma folha em branco para diferentes visões de futuro, desde o plano de Alfred Agache até o racionalismo funcionalista dos irmãos Roberto no Edifício Plínio de Cantanhede e na ABI. Nesse trecho, a modernidade dialoga com a resistência da Igreja de Santa Luzia, raro testemunho colonial.
Theatro Municipal em construção. Augusto Malta, 1907. Instituto Moreira Salles.
Ao avançar para a Cinelândia, o grupo mergulha na "Paris Tropical" da Belle Époque carioca. Neste núcleo de protagonismo eclético, o Teatro Municipal e a Biblioteca Nacional representam o ápice do luxo e da cultura europeia importados pela reforma de Pereira Passos. A praça funciona como um ponto de inflexão temporal, onde o Obelisco da Avenida Central marca a modernização do início da República, enquanto os antigos cinemas narram a transformação dos hábitos de lazer e de sociabilidade no século XX. A caminhada segue explorando a modernidade diplomática e cosmopolita do pós-guerra, visível no Consulado dos Estados Unidos, um exemplar do estilo internacional concluído em 1952. O percurso destaca a sede da ABL e a boemia intelectual da Casa Villarino, inaugurada em 1953 e imortalizada como o "berço da Bossa Nova". Esses pontos revelam como o Rio manteve sua capitalidade cultural mesmo após perder a centralidade política, integrando música, literatura e diplomacia em uma narrativa de vanguarda.
Palácio Monroe. Augusto Malta, c.1920. Acervo Light
Em sua fase final, o roteiro desloca-se da densidade dos edifícios em direção à abertura visual da Praça Mahatma Gandhi, onde a falta do Palácio Monroe se faz presente.
Este movimento de saída do arruamento tradicional para a amplitude da orla permite ao público perceber o Rio como um organismo vivo, capaz de conciliar as memórias do passado com as novas possibilidades de convivência. A narrativa foca na transição entre o centro administrativo e o espaço de lazer que redesenhou o rosto da cidade.
Imagem retirada de https://www.archdaily.com.br/br/tag/mam-rj O encerramento ocorre no Museu de Arte Moderna (MAM Rio), obra-prima de Affonso Eduardo Reidy sustentada por monumentais pilotis em "V". A integração plena entre o concreto armado e os jardins de formas orgânicas de Roberto Burle Marx sintetiza a proposta do Rio de Modernidades: celebrar uma metrópole que soube transformar espaços e tempos em oportunidades de inovação estética. Ao final, no MAM Rio, os participantes contemplam a fusão definitiva entre a arquitetura modernista e a paisagem da Baía de Guanabara, consolidando a leitura das múltiplas eras que definem o Rio.
Não deixe de conferir também: # O Circuito Centro-Cinelândia, do projeto Aqui tem Memória. # A Galeria Rio Desaparecido, do projeto Museu Virtual. # Nosso podcast sobre a história do Palácio Monroe, no Spotify.