OcaisdoValongo

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Rio Memórias

Angola, Congo, Benguela, Monjolo, Cabinda, Mina, Quiloa, Rebolo Aqui onde estão os homens Há um grande leilão

Jorge Benjor
Logotipo da Secretaria Especial da Cultura e Ministério do Turismo do Brasil.Descrição da imagem: A imagem apresenta um logotipo e texto relacionados à Secretaria Especial da Cultura e ao Ministério do Turismo do Brasil. À esquerda, há o texto "SECRETARIA ESPECIAL DA CULTURA MINISTÉRIO DO TURISMO" em preto sobre fundo branco. À direita, há um logotipo com as cores verde, amarelo e azul, representando o brasão do Brasil, acompanhado do texto "PÁTRIA AMADA BRASIL GOVERNO FEDERAL".

Cais do Valongo após sua (re)descoberta. Prefeitura do Rio de Janeiro

No século XVIII se intensificam as conexões atlânticas da cidade, com a exploração do ouro nas Minas Gerais e regiões próximas, e o consequente aumento do tráfico atlântico de africanos escravizados. Diferentes grupos europeus no Atlântico dedicam-se a esta atividade que, mais tarde, no século XIX, será chamada de infame comércio. Em várias cidades litorâneas da África Atlântica se estabelecem contatos comerciais com o Rio de Janeiro, e o oceano estendido alcança Moçambique, na África Oriental. O Rio é transformado em capital da colônia, e cada vez mais aportam embarcações trazendo pessoas africanas escravizadas, e produtos, e outras gentes de muitas partes.

Pintura de Rio de Janeiro com ruas, pessoas, burro, igreja e casas.Descrição da imagem: Esta é uma pintura que retrata uma rua principal em Rio de Janeiro. Do lado esquerdo, vemos uma coluna clássica com pessoas sentadas e caminhando. À frente, há um burro e uma pessoa de pé. No centro, há uma igreja com um sino visível no telhado. À direita, há várias casas com varandas e janelas abertas. No fundo, vemos uma colina com construções e árvores. A imagem é em tons de cinza, sugerindo que é uma pintura antiga.

Vista da rua principal do Rio de Janeiro. Thomas Ender, 1817. Muitas vezes, o comércio de escravizados era feito ali, na rua Direita, a principal via do Rio de Janeiro colonial/imperial.

A chegada dos africanos e africanas trazidos à força da sua terra de origem na terrível travessia produzia cenas difíceis de se ver, mesmo numa sociedade que convivia com a legalidade da escravidão. Desembarcavam adoecidos, com medo, mal vestidos e carregando toda a dor da viagem em seus corpos e rostos. O comércio de gente era muitas vezes realizado na Rua Direita e arredores, muito próximo ao cais do Chafariz do Mestre Valentim, e à sede do governo colonial. Essas cenas começaram a criar desconforto na elite local, que passou a reclamar e a solicitar que o desembarque de cativos fosse transferido daquela área nobre da cidade.

Pintura interna com dois homens em trajes formais conversando e duas mulheres em vestidos elegantes.Descrição da imagem: Esta é uma pintura que retrata um ambiente interno, provavelmente uma cela ou sala de espera, com paredes amareladas e teto de madeira. À esquerda, há uma janela com grades, permitindo entrada de luz natural. No centro, dois homens em trajes formais estão em pé, conversando. Um deles segura um bastão. À direita, duas mulheres em vestidos elegantes estão em pé, também conversando. No chão, várias pessoas estão sentadas ou deitadas, algumas parecendo estar em situação de vulnerabilidade. A iluminação é suave, com uma lâmpada suspensa no teto.

Jean-Baptiste Debret. Mercado de escravos da rua do Valongo.

A iluminação da tela, toda voltada para os traficantes e escravocratas, contrasta com as condições insalubres dos africanos colocados à venda como mercadorias – dos quais não é possível nem mesmo identificar os traços do rosto

. Wikimedia Commons

O Vice-Rei, Marquês do Lavradio, atendeu a essas reivindicações e transferiu obrigatoriamente todo o desembarque de africanos para a enseada do Valongo, indicando também a mudança do mercado de escravizados e do cemitério de pretos novos – destino final dos cativos recém chegados que não resistiram às doenças e sofrimento -, bem como do lazareto, espécie de hospital de tratamento dos que chegavam enfermos. Foi montado no Valongo todo um complexo escravagista, e este aparato urbano criou raízes na região, se estendendo além do tempo de funcionamento do Cais do Valongo, que vai de fins do século XVIII até 1831. O cais como local de desembarque de centenas de milhares de africanos escravizados trazidos diretamente do seu continente de origem tem a duração de pouco mais de quatro décadas, porém, suas conexões com outros portos atlânticos brasileiros no tráfico interprovincial, o mercado de escravizados e as lojas dedicadas ao comércio de artefatos de tortura, seguem por ali.

Ilustração em preto e branco de um ambiente interno com pessoas distribuídas.Descrição da imagem: Esta é uma ilustração em preto e branco, possivelmente uma gravura ou desenho, retratando um ambiente interno com várias pessoas distribuídas ao longo do espaço. Do lado esquerdo, há uma estrutura vertical com janelas verticais. No centro, um grupo de indivíduos está reunido em pé, alguns parecendo estar conversando. À direita, uma pessoa está sentada no chão, enquanto outras estão de pé perto de uma porta aberta que revela mais pessoas no fundo. O teto é composto por estruturas de madeira e telhas, sugerindo um edifício industrial ou comercial.

Grupo de escravizados à venda. Charles Landseer, 1825-26. Instituto Moreira Salles

Quando constroem sobre ele o Cais da Imperatriz, para receber a Princesa das Duas Sicílias que veio se casar com o Imperador Pedro II, em 1843, cobrem o Cais do Valongo, alteram o nome dos logradouros que o cercam, mas não conseguem silenciar de todo sua memória, e sua história. A presença africana ali seguiu, resistente, criadora, viva, pulsante, e atlântica, neste caso alimentada pela eventual chegada clandestina daqueles trazidos pelo tráfico ilegal ou por migrações internas. Formaram-se quilombos urbanos naquela área no final do século XIX e na primeira metade do século XX, como o Quilombo da Pedra do Sal. E, na região do entorno do cais e parte do centro do Rio, reuniões de músicos e artistas negros, nos batuques, rodas de samba e casas religiosas de matrizes africanas, fizeram com que fosse nomeada como uma “África em miniatura”, por Heitor dos Prazeres, na década de 1920.

Em 1976, Djalma Sabiá, um verdadeiro griô da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, escreveu uma letra de samba trazendo o Cais do Valongo histórico, e se referiu ao desembarque de gente identificada por ele como especialmente trazida de Angola e do Congo. Em 1996, o achamento do Cemitério dos Pretos Novos fez lembrar as dores da morte provocadas pela escravidão atlântica.

Exposição histórica com placas informativas, painel de nomes e datas, fotos de pessoas e triângulo de vidro.Descrição da imagem: A imagem mostra uma exposição histórica dentro de um ambiente com teto de madeira e paredes de tijolos. À esquerda, há placas informativas com textos e imagens. No centro, um painel grande apresenta nomes e datas escritos em preto sobre um fundo claro. À direita, três fotografias de pessoas estão penduradas nas paredes. O chão é de madeira, e no centro está um triângulo de vidro transparente.

O Cemitério dos Pretos novos, atualmente um museu memorial. Diário do Rio

Desde 2017, o Cais do Valongo é reconhecido pela UNESCO como patrimônio mundial, caracterizado como um sítio histórico de caráter sensível.

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Memória 1 de 3: Chegadas e partidas: retornos