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Rio Memórias

Há cinco anos, Maria Júlia Coutinho chegou ao Rio de Janeiro carregando uma bagagem comum a quem, como ela, vem de São Paulo: o entendimento que "marcar de passar lá em casa" de carioca nem sempre vira realidade. O que ela não esperava era que a cidade desmontasse esse estereótipo com tanto afeto. Cinco anos depois, ela dá nome a uma biblioteca sediada no CEAP (Centro de Articulação de Populações Marginalizadas), no bairro da Saúde.

"Tenho 47 anos e cinco de Rio. Tive mais encontros culturais, de música e de sarau na minha casa do que em 44 anos em São Paulo", ela conta, ainda um pouco surpresa. Para Maju, é uma disposição das pessoas para o encontro real. Seja na rua, nas livrarias, no parque, na praia ou na biblioteca de uma comunidade.

A cidade foi se revelando para ela em camadas, muitas delas ligadas à história negra que o Rio guarda — e que Maju busca ativamente. Madureira foi a primeira grande surpresa ao ver o Parque do Madureira e perceber que ali cabia tudo ao mesmo tempo: cantinho do Charme, sertanejo, gente de todo lado convivendo sem que os barulhos se atravessassem. Depois veio Realengo, a uma hora de carro, que valeu cada minuto. E a Pequena África, que ela frequenta com crescente emoção, sobretudo a Casa Savana, onde sente algo difícil de nomear: "Tô em casa."

A frase ganhou mais camadas quando ela descobriu que morava na região onde ficava o Quilombo do Leblon. "Eu só estou voltando para um lugar que era meu", ela diz, sem dramatismo, como quem constata algo que o corpo já sabia.

A paisagem também ajuda quem veio da metrópole do carro a virar caminhante convicta. "Sempre olho para uma paisagem e fico deslumbrada, achando linda", ela diz. Ela pergunta, com carinho, aos cariocas: vocês também sentem isso? A resposta, quase sempre, é sim. Aqui, o deslumbramento não envergonha ninguém.

Mas o Rio de Maju começa antes de ela morar aqui na sequência da pandemia. Começa num táxi, em Laranjeiras, quando ela tinha uns cinco ou seis anos e veio com a mãe visitar a madrinha. O balão vermelho ("a bexiga", como se diz em São Paulo) que ela levava escapou pela janela aberta. O taxista parou o carro no meio do tráfego, desceu, foi buscar o balão e voltou com ele na mão. "Quando o cara ia parar em São Paulo para pegar o balão da criança?" Essa cena carrega, até hoje, tudo o que ela sente sobre o temperamento carioca.

Filha de dois professores — João Raimundo, servidor da língua portuguesa que, prestes a completar 82 anos, agora é membro da Academia de Letras, Ciências e Artes da AFPESP (Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo), e Zilma, pedagoga da rede pública e coordenadora aposentada da Prefeitura de São Paulo —, Maju cresceu numa casa onde o valor mais essencial era a educação.

Sua mãe, filha de empregada doméstica, foi a primeira mulher da família a ingressar na universidade (USP). Seu pai, filho de um artesão humilde, aposentou-se de uma escola pública depois de uma vida inteira dedicada ao ensino. É dessa herança que vem o peso simbólico de ter uma biblioteca com o seu nome na Pequena África, um território de memória, num lugar onde a leitura é ato de resistência. "Isso coloca a gente num outro lugar", ela reflete. "Sempre estamos no lugar do talento pelo futebol, pelo samba. Mas aqui se abre outra chave, outra possibilidade."

Seus livros de cabeceira revelam o percurso de leitora voraz: Canção para Ninar Menino Grande, de Conceição Evaristo; os escritos de Beatriz Nascimento, sergipana que viveu no Rio e foi assassinada; e Tudo sobre o Amor, de bell hooks, que leu tarde, mas com intensidade de quem chegou na hora certa. "Eu demorei para pegá-lo, mas agora estou apaixonada".

A jornalista que aprendeu a profissão no estúdio de TV pegando o microfone pela primeira vez, e que se confirmou jornalista de verdade ancorando ao vivo a tragédia de Brumadinho por horas a fio, encontrou no Rio algo que as coberturas não ensinam. A leveza de pertencer. E isso inclui o carnaval. Em 2022, Maju, ao lado de Alex Escobar, apresentou a transmissão dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial. É um papel que a coloca no centro de um dos maiores rituais culturais do Brasil — e do Rio. Mas admite que, no começo, ficou nervosa: "Se você passou pelo carnaval do Rio, você passa por tudo."

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