Acidadedospianos

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Rio Memórias

Interior clássico com obras de arte e luminária.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga de um interior clássico. A imagem mostra uma sala com paredes revestidas de madeira pintada de branco, com detalhes decorativos na base das mesmas. À esquerda, há uma grande janela com cortinas pesadas e abertas, permitindo a entrada de luz natural. Na parte central da imagem, um lustre pendente está suspenso do teto, iluminando a sala. À direita, várias obras de arte estão penduradas nas paredes, incluindo retratos e quadros. Um grande vaso com flores está sobre uma mesa coberta por um tecido com franjas. À frente, há uma cadeira com encosto alto e um pequeno mesa lateral. No fundo, uma escrivaninha com objetos pessoais pode ser vista.

Interior da residência da família Lynch

. Autor: Huberti. Rio de Janeiro, 1936

Em 1856 o escritor, pintor e escritor (e futuro barão de Santo Ângelo), Manuel Araújo Porto-Alegre, chamou o Rio de Janeiro de “a cidade dos pianos [...] uma "verdadeira pianópolis”. A alcunha não era por acaso: na segunda metade do século XIX, uma tradição pianística passou a se instalar nos lares, salões e teatros do Rio de Janeiro. O instrumento se tornou símbolo de distinção: o piano era tanto um mobiliário doméstico de luxo quanto uma prova de um almejado (e pretenso) progresso civilizatório — típico da segunda metade do século XIX.

Cristo Redentor em preto e branco, Rio de JaneiroDescrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga em preto e branco do Cristo Redentor, localizado no Rio de Janeiro, Brasil. A imagem mostra o monumento de Jesus Cristo erguido sobre um penhasco, com as mãos abertas em gesto de benção. À esquerda, vemos uma estrutura metálica que parece ser parte do sistema de acesso ao monumento. Ao fundo, há uma área urbana com edifícios e ruas. A foto foi tirada de cima, proporcionando uma visão panorâmica do monumento e sua base.

Mobiliário de uma residência da Família Imperial: cadeiras e piano

. Autor: Revert Henry Klumb. Rio de Janeiro c.1860

Entre as décadas de 1850 e 1860, a capital fluminense experimentava o auge de um processo de urbanização e de efervescência cultural. A industrialização começava a tomar corpo, o café consolidava-se como principal força da economia, e o fim do tráfico negreiro alterava profundamente a estrutura social. Nesse cenário, os costumes também mudavam: as elites buscavam novos modos de lazer e sociabilidade, e a música, em especial a feita ao piano, tornou-se o coração dessa nova vida urbana.

Até meados do século XIX, as festas e saraus eram marcados pelo som das violas e rabecas, instrumentos populares que ecoavam nas chácaras e casarões da cidade. Mas o piano, importado da Europa e caríssimo — custava quase o mesmo que um escravizado —, assumiu o papel de protagonista sonoro e objeto de desejo burguês. Tocá-lo, tê-lo e exibi-lo eram demonstrações de prestígio.

Pessoas transportando carga pesada em preto e branco.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga em preto e branco. Vemos várias pessoas carregando um objeto pesado sobre a cabeça. A figura principal está no centro, com outros indivíduos distribuídos à sua volta, alguns mais próximos e outros mais distantes. O fundo apresenta uma estrutura de edifício e um poste de luz elétrica.

Carregadores de piano

. s/d. Fundação Biblioteca Nacional

A presença inglesa no comércio do Rio e a abertura cultural promovida pela Corte impulsionaram a expansão desse mercado. Jornais como o Jornal do Commercio e o Correio Mercantil publicavam anúncios de lojas que revendiam pianos importados de Londres e Paris — de marcas como Erard, Broadwood e Collard —, com certificados de autenticidade e garantias contra falsificações. A rua do Ouvidor e a rua dos Ourives tornaram-se vitrines do luxo musical da cidade, onde se alugavam, afinavam e vendiam instrumentos de cauda e armário, além de partituras e acessórios, como se pode ler neste anúncio: "Pianos de Erard - único deposito, na rua do Ouvidor n.66, sobrado - Os legítimos pianos deste grande.autor não se vendem senão nesta casa, e cada um delles está afiançado pelo certificado assignado pelo proprio autor, que se entrega ao comprador. Todos os pianos de Erard vendidos sem aquelle certificado, desde o lº de maio de 1848, são falsificados" (Jornal do Commercio - 8/7/1850 - p.2).

Com o piano transformou-se também o modo de se ouvir música no Brasil, particularmente na capital. Como observa José Ramos Tinhorão, o piano trouxe ao Rio o hábito moderno de escutar música, inaugurando uma nova relação entre público e espetáculo. Nos saraus, nas residências aristocráticas ou nos cafés e teatros recém-inaugurados, a música deixou de ser apenas acompanhamento para se tornar centro das atenções. Essa “cultura do ouvir” foi reforçada pela vinda de virtuoses estrangeiros, que encantaram o público com recitais e concertos de altíssimo nível técnico.

Gravura preto e branco de salão lotado durante concerto.Descrição da imagem: Esta é uma gravura em preto e branco. A imagem mostra um salão repleto de pessoas assistindo a um concerto. Do lado esquerdo para o centro, vemos várias mulheres sentadas em cadeiras, vestindo trajes elegantes. À medida que nos movemos para a direita, o número de pessoas aumenta, formando uma grande multidão. No centro, há um homem de pé, possivelmente o músico ou o maestro, dirigindo a atenção do público. Na parte superior da imagem, mais pessoas estão de pé, observando atentamente. Ao fundo, vemos o palco onde o concerto está sendo realizado. Na parte inferior da imagem, há duas harpas de pé, um instrumento musical clássico. O texto na imagem lê: "Cheio como um óvo! - tal era o aspecto do salão do theatro Lyrico na noute do primeiro concerto de Gottschalk."

Na ilustração, destaca-se, além do pianista Luis Gottschalk, o imperador Pedro II, defronte ao piano

. Vida Fluminense, n.76, 12 de junho de 1869. Fundação

Biblioteca Nacional

A passagem do pianista austríaco Sigismond Thalberg, em 1855, foi um divisor de águas: rival de Liszt na Europa, ele mostrou às elites do Império que o piano podia ser arte e espetáculo. Poucos anos depois, Artur Napoleão e Louis Moreau Gottschalk ampliaram esse fascínio. Este último protagonizou, em 1869, um lendário “concerto monstro”: dizem os jornais que 31 pianistas e duas orquestras teriam se reunido no Teatro Lírico — não especificando quantos músicos e quantos pianos ocuparam o palco simultaneamente.

Mas o piano não viveu apenas nos salões da aristocracia. Aos poucos, ele dialogou com as sonoridades populares da cidade: modinhas, lundus e batuques começaram a se misturar com valsas, polcas, mazurcas e quadrilhas importadas. Dessas fusões, nasceria a alma musical carioca — expressa no maxixe e no choro, gêneros urbanos que reinventaram o piano com sotaque brasileiro. A maestrina Chiquinha Gonzaga — uma das figuras mais notáveis dessa transição —, e o pianista Ernesto Nazareth são dois ícones que transformaram o instrumento em ponte entre o salão e a rua, entre a elite e o popular.

Cartão-postal antigo com mulher e salão de dança.Descrição da imagem: Esta imagem é um cartão-postal antigo com dois lados distintos. No lado esquerdo, vemos uma ilustração de uma mulher com cabelos longos, vestindo um traje formal, com flores e folhas desenhadas ao redor. O texto "Composições Musicais" está escrito em letras grandes e ornamentadas, seguido por "de" e uma assinatura. Abaixo, há um logotipo com o nome "Manuel Antonio Guimarães". O lado direito apresenta uma ilustração de um salão de dança com pessoas dançando, cercado por flores e um anjo flutuando acima. O texto "Novidades para Dança" está escrito em letras grandes e ornamentadas, com "Edição Bevilacqua" acima.

Capas de publicações reunindo partituras de Chiquinha Gonzaga

. Acervo IMS

Com o passar do tempo o item se tornou mobiliário comum também nas camadas médias urbanas. E na década de 1950, competições como o Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro, com centenas de participantes de mais de trinta nacionalidades, são uma amostra da popularidade do instrumento no país. Na primeira edição do concurso, em 1957, plateias abarrotadas, ingressos esgotados antecipadamente, além das robustas premiações pagas em dólar dão o grau da importância social do evento, sediado no Teatro Municipal. As reportagens destacaram o afã do público em busca de autógrafos – e arranjando espaço para elencar os galãs da competição. Fotografias registraram os cordões policiais de isolamento para conter a multidão que ficou de fora. A revista O Cruzeiro chegou a comparar a popularidade do piano com o gosto popular pelos “desportes e outras atividades festivas”.

Família reunida ao redor de um piano, homem tocando, dois meninos assistindo, adultos sorrindo.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de uma família reunida em torno de um piano. Do lado esquerdo, um homem está tocando o instrumento, enquanto dois meninos estão sentados à frente dele, olhando para ele. À direita, um homem adulto e uma mulher estão parados, sorrindo para os outros. Atrás deles, há uma parede com um quadro pendurado.

A "geração de ouro" do piano nacional: os alunos Luiz Eça, Jacques Klein, Nelson Freire (criança), e Arthur Moreira Lima (sentado), no apartamento da professora Lúcia Branco, na Rua General Urquiza, nº 108, Leblon. D. Lúcia, como era chamada, também ensinou piano de um (então) jovem rapaz, à época com vontade de ser músico clássico, chamado Antônio Carlos Jobim. Autor não identificado, c.1957. Instituto Piano Brasileiro - IPB.

Assim, o Rio de Janeiro do século XIX foi, por mais de um século, uma cidade moldada pelo som do piano. Nessa pianópolis tropical, o instrumento marcou o compasso de uma época de mudanças profundas. De símbolo aristocrático a veículo de brasilidade, a capital do Brasil, nas teclas do piano, encontrou uma voz.

Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, de Louis Moreau Gottschalk, interpretada por Nelson Freire. Canal Instituto Piano Brasileiro - IPB

Outras memórias

Memória 1 de 3: Do tablado ao palco das ruas