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Cidade em Transformação

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Rio, a city in transformation

Episódio 03

How many people fit in Rio?

0:00faltam 32 min31:32

Transcrição

Na medida em que o pão de açúcar se afasta para o norte do navio, a garganta se abre

  1. 0:00Na medida em que o pão de açúcar se afasta para o norte do navio, a garganta se abre e através dela se divisa a calma imensidão daquilo que, em geral, é considerado como a baía mais bela do mundo. Oi, tudo bem por aí?
  2. 0:30Tá sentindo o ventinho? Tá imaginando a paisagem? Pois é, em 1808, quem vinha da Europa de navio e chegava no Rio de Janeiro tinha essa sensação de deslumbramento com a natureza. Claro que isso vale para quem vinha da Europa, porque os navios que vinham da África, trazendo pessoas sequestradas e escravizadas, tinham um clima bem diferente. Mas esse relato aí que você ouviu é de um viajante europeu, o inglês John Lukoc,
  3. 1:00que nem conseguiu encontrar palavras para descrever o que ele viu quando chegou ao Rio. É em vão que se tenta descrever. Não pode a pena imitar o lápis, nem o lápis imitar a natureza, em cenários tais como esse. Poético ele, né? Acham, contudo, os juízes competentes, que esses cenários formam um panorama de magnificência e beleza quase sem par. Bom, o Lukács chegou tranquilo, admirando a paisagem, e ficou 10 anos por aqui.
  4. 1:30Aproveitou a abertura do mercado brasileiro para fazer os seus negócios e deixou vários relatos sobre os cenários, Os habitantes, os costumes Só que um pouco antes dele Naquele mesmo ano Teve gente mais poderosa chegando no Brasil A família real portuguesa Cruzou o Atlântico fugindo da invasão napoleônica Desembarcou em Salvador Em janeiro de 1808 E entrou na Baía de Guanabara em março A partir dali O Rio de Janeiro nunca mais
  5. 2:00Foi o mesmo Eu sou a Gabriela Montoni E esse é o terceiro episódio Da terceira temporada do Rio Memórias Se você ainda não ouviu os dois primeiros a minha dica é volta lá e ouve na ordem Não é obrigatório não, mas eu te garanto que vai fazer mais sentido Essa é uma temporada em ordem cronológica
  6. 2:30e você vai testemunhar as grandes mudanças que o Rio de Janeiro atravessou ao longo de cinco séculos desde a fundação até os dias de hoje As histórias são baseadas na galeria Rio Cidade em Transformação do nosso museu virtual que você acessa em rio-memórias.com.br O episódio anterior terminou exatamente nesse momento do desembarque da família real no lugar que hoje a gente conhece como a Praça XV.
  7. 3:00O Tales Ramos estava ali em frente à estátua do Dom João VI, lembra? Pois é, essa estátua foi colocada aqui de frente para a Baía de Guanabara para marcar o lugar exato onde a família real portuguesa desembarcou em 1808. Hoje você vai saber como a cidade se transformou completamente depois desse acontecimento. Vamos nessa? Capítulo 1 – De onde veio toda essa gente?
  8. 3:30Para você ter uma ideia do impacto da chegada da família real, eu quero te convidar para uma experiência sonora um pouquinho diferente. A gente está num podcast, né? Então, eu vou usar o som para te mostrar como a população do Rio de Janeiro deu um salto gigantesco na primeira metade do século XIX. E como essa é uma época em que o ciclo do café ganhou muita força, Eu vou usar grãos de café para ilustrar essa explosão demográfica.
  9. 4:00Imagina aí que um grão de café representa mil habitantes. Pronto, ouviu? Eu joguei um grãozinho aqui e são mil habitantes no Rio de Janeiro. Ali no início do século XIX, antes da chegada da família real, a população da cidade estava em torno de 60 mil pessoas. Então, para entender esse tamanho, eu vou derramar exatamente 60 grãos de café. Só que durante a permanência da família real no Rio, até as vésperas da independência, ali por 1821,
  10. 4:30a população já tinha simplesmente dobrado. Tipo isso aqui, ó. A questão é, ao longo de todos os 13 anos de permanência da família real aqui, chegaram pessoas de fora, de Portugal, de outros pontos do Império Português e de outros pontos da América Portuguesa. O que fez com que a população do Rio mais do que dobrasse nesses 13 anos.
  11. 5:00Se tinha aproximadamente 60 mil pessoas em 1808, em 1821 vai ter mais de 120 mil pessoas. Então, quer dizer, é uma população que dobra, mas o espaço físico da cidade não dobra. Esse é o historiador Sérgio Barra, autor do livro A Cidade Corte, o Rio de Janeiro no início do século XIX. É ele que vai ajudar a gente a entender as transformações radicais nesse período. É um prazer ter você aqui no Rio Memória, Sérgio. O Rio de Janeiro vai sempre no coração, então falar de Rio de Janeiro para mim é sempre uma grande satisfação.
  12. 5:30A gente vai falar bastante, até porque os grãos continuam se multiplicando. E se esticar até a metade do século XIX, essa vasilha vai ficar pequena, viu? a população vai dobrar de novo, chegando a 270 mil pessoas em 1850. É café que não acaba mais.
  13. 6:00Pelo som, deu para ter uma ideia do tamanho dessa mudança? Começou com 60 mil pessoas em 1808 e chegou a 270 mil em 1850. Então, faz o seguinte. Aproveita o clima, passa um cafezinho aí para você e ajeita o seu fone de ouvido, Porque a partir de agora, você vai saber o que mudou na cidade
  14. 6:30para acomodar essa população que quadruplicou de tamanho em menos de meio século. A primeira grande transformação urbana do Rio de Janeiro já tinha acontecido um pouco antes. Foi aquela que a gente ouviu no episódio anterior, quando a cidade virou a capital do vice-reino. E a segunda grande modificação é a própria chegada da família real. O Rio de Janeiro não é capital do Brasil a partir da chegada de Dom João. Ele é a capital do Império Português.
  15. 7:00Enquanto capital do Império Português, você tem que expressar o grau de civilização e de poderio do Império Português, ainda mais num momento politicamente frágil para o Império Português, em que, na verdade, o Império estava por um fio. A grande estratégia de Dom João VI para não perder a coroa e para não perder o Império foi justamente se transferir para o Rio de Janeiro e, a partir do Rio de Janeiro, tentar reconstruir esse Império. Um império que abandonou Lisboa às pressas, em 1807,
  16. 7:30num embarque caótico, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte. A esquadra de quase 20 navios cruzou o oceano, levando toda a estrutura do reino, tudo o que deu para carregar. E, claro, milhares de pessoas. Qual é o número dos imigrados? É impossível você saber exatamente o número certo de pessoas que vieram com a família real
  17. 8:00e de pessoas que continuaram vindo ao longo de 13 anos da permanência da família real aqui. Se discute muito, ah, vieram 15 mil pessoas, né? Os cálculos mais tradicionais falam entre 15 mil e 20 mil pessoas. A gente está falando num cenário de 20 mil pessoas que chegam num lugar com 60 mil, sendo que um terço era de homens e mulheres escravizados. Imagina o impacto disso numa cidade que ainda tinha uma área ocupada muito reduzida. Então é um espaço muito pequeno. E onde é que você mete essa galera toda que está chegando?
  18. 8:30Ao longo desse período, a galera vai ter que ocupar esse espaço que já está ocupado. E por isso tem o famoso PR, as aposentadorias reais, o famoso ponha-se na rua. O PR, em teoria, era a sigla para a propriedade real. Mas o povo rapidinho apelidou de ponha-se na rua. É uma prática que o Rio adota ao longo de toda a sua história até os dias de hoje. A desapropriação forçada. Tem um grande evento? Precisa criar espaço para quem está chegando?
  19. 9:00A solução é tirar as pessoas que já estavam ali. Naquele início do século XIX, o governo simplesmente pintava a sigla PR na fachada de uma casa e os ocupantes tinham que sair rapidamente. Por isso, o PR de propriedade real virou PR de ponha-se na rua ou de prédio roubado. A população se defendia do jeito que dava, né? Há uma paralisação das obras, os proprietários que estavam fazendo obras nas suas casas
  20. 9:30param as obras, não concluem as obras por medo de terem o seu imóvel requisitado, porque o que as pessoas faziam? Elas terminavam as obras dentro e deixavam a fachada incompleta, porque aí dava a impressão de que o imóvel ainda estava em obra. E se o povo era esperto nos mecanismos de defesa, os mais ricos também tinham as suas artimanhas para levar vantagem.
  21. 10:00O que não faltou foi abuso de poder. De nobres solicitarem uma casa e alugarem a casa para o próprio proprietário. Isso tem documentação que fala sobre isso. Do cara ser inquilino na própria casa entre 1808 e 1821, até o fim desse período. O custo de vida inflacionou, tudo ficou mais caro. E para financiar as obras e os melhoramentos na cidade, surgiu um novo imposto anual, a chamada décima urbana.
  22. 10:30Qualquer prédio urbano nos limites da cidade tinha que pagar anualmente para o governo 10% dos seus rendimentos líquidos. Assim, o cofre foi enchendo e assim o rio foi se expandindo. Alguns se mudaram para chácaras em regiões afastadas, como a Praia de Botafogo. Outros, mais pobres, foram empurrados para zonas como o Campo de Santana e o Largo da Lampadosa. Resumindo, um crescimento desordenado.
  23. 11:00não tinha muito como crescer. Vai crescer, o principal vetor de crescimento é propriamente essas duas direções, a Zona Sul margeando ali Catete, Flamengo, margeando a Baía de Guanabara e até Botafogo e o bairro nobre de São Cristóvão, o bairro imperial de São Cristóvão, onde vão se estabelecer, na verdade, os nobres mais abastados, de maior título, de maiores posses. Mas isso também só depois que Dom João se transfere para o palácio ali da Quinta da Boa Vista.
  24. 11:30Já já a gente chega nesse palácio porque ele é um bom exemplo de como não bastava mudar a paisagem urbana. Era preciso mudar os costumes da cidade e reproduzir, de alguma forma, a vida europeia. Capítulo 2. A Nova Lisboa. A partir do momento que o Rio de Janeiro é sede de um império europeu
  25. 12:00e que abriga no seu interior um monarca europeu, e não só um monarca, toda uma família real e todos os grandes dignatários de Portugal, da sede, você tem a necessidade de alterar aqueles hábitos que eram próprios de uma colônia. E essa mudança de hábitos passa pela difusão daquilo que se entendia como cultura à época. Nós estamos na virada do século XIX, da virada do século XVIII para o século XIX, em que a civilização europeia, As nações europeias se encaram como o auge da civilização ocidental.
  26. 12:30Elas são o ocidente, elas encarnam o ocidente por meio de seus hábitos, da sua cultura, da sua música, do seu teatro. Se você mora no Rio e já foi ao Teatro João Caetano, ali na Praça Tiradentes, eu quero que você imagine como era esse lugar dois séculos atrás.
  27. 13:00Exatamente ali ficava o Real Teatro de São João, uma cópia idêntica do Teatro de São Carlos, na capital portuguesa. Os espetáculos atraíam os nobres e a elite econômica como se aquele pedaço do Rio de Janeiro fosse uma reprodução de Lisboa. A ópera é o grande espaço de sociabilidade da corte, já era em Portugal.
  28. 13:30E quando eles chegam aqui não tem nenhum grande teatro digno desse nome para abrigar a corte, o rei, enfim, a família real. O decreto de Dom João, publicado em 28 de maio de 1810, deixava claro quanto aquela construção era importante. Fazendo-se absolutamente necessário nesta capital que se erija um teatro decente e proporcionando à população
  29. 14:00o maior grau de elevação e grandeza em que hoje se acha pela minha residência nela. Humilde o moço, né? Se constrói como o grande espaço de sociabilidade da corte, né? Ali onde deveria acontecer grandes solenidades cortesãs assim como a expressão dessa cultura europeia, dessa forma mais material da cultura europeia, que se expressa nos pequenos hábitos também, pequenos hábitos de sociabilidade cotidiana. Mas o teatro, sobretudo, é o espaço de sociabilidade,
  30. 14:30por excelência, dessa cultura europeia. Então agora eu quero que você imagine os arredores do Teatro de São João. Lembra que eu falei do Lago da Lampadosa, que era uma região meio abandonada da cidade? Pois é, com a chegada da família real, esse lugar foi totalmente remodelado e virou o Largo do Rocio, imitando o modelo das praças portuguesas. É onde hoje fica a Praça Tiradentes.
  31. 15:00Ali foi instalado um obelisco como símbolo de poder, onde eram lidos os decretos reais. E aquele lugar virou o coração da vida noturna carioca. O entorno da praça ganhou casarões e palacetes habitados por condes e viscondes. Dom João foi morar em São Cristóvão, longe da praça e daquela movimentação do centro da cidade Ele ocupou um palácio espaçoso na Quinta da Boa Vista, com jardins e áreas de passeio Foi uma doação de um homem muito rico e já já a gente vai falar dele
  32. 15:30O fato é que, com a presença do monarca, a região passou a ser mais povoada e ficou conhecida como a Cidade Nova Ali surgiram torres de iluminação e até uma arena de touradas Os acessos ao palácio também foram incrementados, como o Caminho das Lanternas, que ligava a Quinta da Boa Vista ao Campo de Santana. Aliás, o Campo de Santana, que antes era um descampado lamacento,
  33. 16:00também virou uma área com circulação intensa e foi palco de celebrações luxuosas da coroa. Inclusive, o casamento entre Dom Pedro e Leopoldina, em 1817. Nesse ano, aliás, o Rio ganhou o seu primeiro sistema de transporte público. Eram as diligências Veículos pequenos, puxados por animais Carregando até quatro pessoas num trajeto Que ia do Largo de São Francisco até o Palácio Real, em São Cristóvão
  34. 16:30O cartão de visitas da cidade era o Largo do Passo Que hoje é a Praça XV Em 1838, o Largo recebeu o Hotel Farrul A primeira hospedaria de luxo da cidade Se você já leu o clássico Memórias Póstumas de Brascubas você sabe que Machado de Assis usou esse hotel como cenário no livro. Era tipo o Copacabana Palace da época e tinha até água encanada, um privilégio raríssimo. Tanto que na fachada imponente de quatro andares ficava escrito bem grande
  35. 17:00Banhos, em português, francês e inglês, para atrair os viajantes. Boa parte dessa mudança aconteceu depois da criação da Intendência Geral de Polícia, responsável pelas obras de remodelação da cidade, pelo abastecimento de água, pela iluminação e pela segurança. Era uma espécie de embrião do que depois seria a prefeitura do Rio. Assim, foram surgindo grandes construções ligadas à coroa. O Banco do Brasil, o Museu Real, a Academia Militar, a Real Biblioteca
  36. 17:30e, claro, o Jardim Botânico, com suas majestosas palmeiras imperiais. Até agora, tudo parece muito bonito, limpinho e ordenado nos moldes europeus, né? Então, vamos botar uma pitada de realidade nessa história. Primeiro que esse negócio de ficar comportadinho na poltrona do teatro demorou um pouco pra pegar. De início, o carioca queria a bagunça, né? Aí gritava na plateia, batia o pé no chão, assobiava.
  37. 18:00Às vezes, até jogava moedas no palco. Ou seja, isso já dava um trabalhinho pra intendência de polícia. Outra coisa, aquele Palácio de São Cristóvão foi uma doação entre aspas, né? porque quem doou foi o Elias Antônio Lopes, um traficante de escravizados muito rico que, em troca, ganhou pensão vitalícia e títulos de nobreza. Não é que ele simplesmente foi bonzinho e falou para o Dom João.
  38. 18:30Estou com esse casarão sobrando aqui, o senhor não quer morar? Não, né? Está todo mundo esperando o retorno dessa presença do rei, dessa proximidade do rei. É assim que a corte funciona. Então, tudo era um jogo de interesses para construir essa imagem de que o rio era um pedacinho da Europa, uma nova Lisboa. Só que, nas primeiras décadas do século XIX, alguns viajantes estrangeiros viam e registravam nos seus relatos as imagens que a corte tentava esconder.
  39. 19:00A cidade suja, das casas baixas, do comércio barulhento, das ruas estreitas, da falta de saneamento. Todo esse encanto é apagado à noite por um grande inconveniente. Por volta das cinco horas, barris de imundície saem de todas as casas e se dirigem ao porto, espalhando um fedor insuportável e enchendo o ar desse país quente com um cheiro de podre nocivo.
  40. 19:30Esse é um relato de 1827 do naturalista francês Jean-Baptiste Duville, um herdeiro milionário que percorreu o Brasil e acabaria assassinado nas margens do rio São Francisco por cobrar caro demais por serviços médicos. Nesse período, depois da queda do Napoleão, uma comitiva de artistas e arquitetos franceses desempregados veio para o Brasil num acordo com Dom João VI. Essa comitiva ficou conhecida como a Missão Artística Francesa. Mas de missão não tinha nada, né?
  41. 20:00Era só o desemprego mesmo e eles vieram para cá. Um dos principais nomes desse grupo era o pintor Jean-Baptiste Debré. Ele se tornou um grande cronista do Rio naquele período. Virou até enredo de escola de samba em 1995 com a Viradouro Então os viajantes estrangeiros ao longo do século XIX
  42. 20:30O que chama a atenção deles é essa combinação entre a construção humana O gosto clássico e a paisagem natural deslumbrante A Bahia, o Pão de Açúcar, grandes morros, grandes florestas Olha o Pão de Açúcar aparecendo aí de novo Eu te avisei que ele ia ser uma presença constante ao longo da temporada como testemunha de todas essas transformações. O morro aparece nos relatos de viajantes, como o francês Jacques Arragot, em 1817.
  43. 21:00O pão de açúcar, um gigante enorme, forma com a sua nudez um contraste admirável com o rico cenário das montanhas vizinhas. E olha que engraçado, o conde Chavagnet de Sousanet parecia meio decepcionado na primeira descrição que ele fez em 1842. Um cone árido, mais bizarro do que majestoso. Meio ranzinza, né? Mas depois ele se rendeu ao símbolo do Rio de Janeiro. O Pão de Açúcar, espécie de pirâmide natural, eleva-se acima de pitorescas colinas que se reúnem ao corcovado.
  44. 21:30Cada novo passeio faz descobrir paisagens encantadoras e o entusiasmo iguala o prazer que se sente. Os viajantes se encantavam com a paisagem, mas, como disse o Sérgio Barra, o lado humano também atraía os olhares estrangeiros. Os relatos e as pinturas traziam à tona um fato que a coroa fingia que não via.
  45. 22:00Ali, pela metade do século XIX, quase 40% da população carioca era formada por pessoas escravizadas. Capítulo 3 – A Nova África Lembra do inglês John Lukoc, que a gente ouviu lá na abertura do episódio, descrevendo a paisagem da Baía de Guanabara? Ele também registrou o cotidiano das ruas do rio. Antes das dez da manhã, quando o sol começava a subir alto e as sombras das casas se encurtavam,
  46. 22:30os homens brancos se faziam raros pelas ruas. A descrição do Lukoc lembra uma pintura de 1813, feita a partir de um desenho do Jacques Arragot, que eu citei ainda pouquinho. Vamos misturar aqui as duas coisas? Eu vou descrevendo a pintura enquanto a gente continua ouvindo o relato do Lukak. Viam-se então os escravos à vontade ou sentados à soleira das portas, fiando, fazendo meias ou tecendo uma espécie de erva com que fabricavam cestos e chapéus.
  47. 23:00A imagem mostra o Largo do Rocio com o Teatro de São João ao fundo e algumas pessoas circulando na praça, quase todas negras. Outros prosseguiam nos seus trabalhos de entregadores, saíam a recados ou levavam à venda sobre pequenos tabuleiros, frutas, doces, armarinhos, algodõezinhos estampados e uns poucos outros gêneros. Alguns escravizados equilibravam tonéis na cabeça. Outros carregavam uma pessoa numa liteira, aquela cadeira suspensa e coberta sustentada por duas varas compridas que os homens carregavam.
  48. 23:30Todos eles eram pretos, tanto homens como mulheres, e um estrangeiro que acontecesse de atravessar a cidade pelo meio do dia quase que poderia supor-se transplantado para o coração da África. O ancoradouro do Cais do Valongo foi construído em 1811 e passou a ser o maior ponto de entrada de africanos escravizados nas Américas.
  49. 24:00A gente tem um episódio sobre o Valongo, é um dos mais bonitos e mais fortes aqui do podcast, com a escritora Eliana Alves Cruz. Acho que a gente não fez as pazes com esse passado, eu acho que a gente não respeita essas pessoas que aqui estiveram. Se você ainda não ouviu, depois busca aí. É o encerramento da segunda temporada. Mas voltando, antes do cais, o desembarque era na região onde hoje é a Praça XV. Em 1774, o vice-rei Marquês de Lavradio quis tirar o comércio humano da área mais nobre da cidade
  50. 24:30e mandou improvisar uma pontezinha de madeira na freguesia de Santa Rita. O volume do tráfico escravista só aumentava e o ancoradouro foi erguido em 1811, três anos depois da chegada da família real. Isso criou dinâmicas sociais diferentes na cidade. São duas cidades que são duas formas de sociabilidade, com espaços de sociabilidade próprios, mas que dividem, compartilham o mesmo espaço, um perímetro urbano reduzido.
  51. 25:00De um lado, a Nova Lisboa. Essa é uma cidade que eu chamo propriamente de Acorte, que é essa nova forma de sociabilidade, com esses novos espaços de sociabilidade, que inclui o Palácio Real, o teatro, a igreja, a catedral, e, em certa medida, as ruas também, quando você tem aquelas grandes procissões, aqueles grandes espetáculos públicos. Do outro lado, a Nova África. E a outra cidade, que eu chamo propriamente de cidade,
  52. 25:30é a cidade onde estão os escravizados, onde estão os homens livres e pobres, onde está a parcela da sociedade que não participa daquela primeira parte. Então, essa galera da corte é que precisa se adaptar a uma cidade que é eminentemente uma cidade negra uma cidade de homens e pobres, esse espaço urbano é deles, são duas cidades que fisicamente não estão separadas, porque como a gente falou antes, são
  53. 26:00duas cidades que compartilham o mesmo perímetro urbano muito restrito e aí é claro que o conflito acontece como compartilhar esse espaço sem entrar em conflito o conflito existe efetivamente, e a guarda real de polícia, a criação da guarda real de polícia em 1809, nos mostra justamente isso. Como se não bastasse o fato de que as reformas na cidade foram feitas com mão de obra escravizada, tinha ainda uma outra camada de ironia. Porque a
  54. 26:30guarda de polícia prendia arbitrariamente os negros que, segundo eles, representavam uma ameaça àquele clima europeu. É o guarda de polícia que vai decidir se você está cometendo um crime, vamos dizer assim, e que vai te reprimir com mais ou menos severidade. Isso é uma constante. Isso parece ser uma constante hoje ainda. E esses negros presos acabavam também virando mão de obra nas reformas públicas. Ou seja, eram eles que construíam aquele novo Rio de Janeiro,
  55. 27:00mas eles não eram aceitos no convívio daquele novo Rio de Janeiro. E quando a gente olha para a relação da polícia com a população negra no Rio de hoje, dois séculos depois, a situação não é muito diferente, né? Hoje nós temos leis escritas que dizem o que é crime e o que não é crime e que são, na maior parte do tempo, ignoradas. É o policial que decide se você está cometendo um crime, se você está errado ou não. A manutenção de uma mentalidade, e aí a gente cai naquele assunto que realmente não dá para escapar,
  56. 27:30é a manutenção de uma mentalidade escravista. Não tem outro nome. É continuar tratando as pessoas como se fossem escravos. Muito obrigada ao Sérgio Barra, que ajudou a gente a contar essa história. Eu que agradeço mais uma vez o convite Como eu disse, falar de Rio de Janeiro E pensar sobre Rio de Janeiro É sempre um prazer, eu espero que os Ouvintes do podcast Também achem, também gostem
  57. 28:00E compartilhem, e é isso aí, obrigado E precisando a gente está sempre aí disponível E você que está ouvindo, eu recomendo Que você leia o livro do Sérgio O título é A Cidade Corte O Rio de Janeiro no início do século XIX Uma ótima pedida Para se aprofundar mais nesse período Em que a população se multiplicou E os grãos de café estão aqui para você não esquecer que a riqueza das fazendas também tinha o custo humano do trabalho escravo,
  58. 28:30assim como toda a expansão da cidade. Um rio que desde sempre se transforma, excluindo uma parte gigantesca da população. No próximo episódio, a gente entra no século XX e essa tensão social escala para o patamar da revolta. Com os avanços industriais, sai a Nova Lisboa e chega a Nova Paris
  59. 29:00Para respirar os franceses, o rio mergulha naquela que é considerada a reforma das reformas O bota abaixo do prefeito Pereira Passos Que era uma coisa que vinha se discutindo desde a primeira epidemia de febre amarela Desde 1850 praticamente Que era a ideia de retirar do centro da cidade aquela população proletária que vivia ali Esse foi o terceiro episódio da terceira temporada do podcast Rio Memórias.
  60. 29:30É a metade da nossa viagem de quase cinco séculos para testemunhar as mudanças do Rio de Janeiro com base na galeria Rio Cidade em Transformação do Museu Virtual RioMemórias.com.br Lá no site você pode navegar por essa e outras galerias, inclusive as que inspiraram as duas temporadas anteriores,
  61. 30:00Rio de Conflitos e Rio Desaparecido. Marca a arroba Rio Memórias no Instagram e conta pra gente o que você tá achando dessa jornada. O podcast é uma realização da produtora Escuta Aqui, com coordenação do Rodrigo Alves, que também gravou as locuções adicionais e escreveu o roteiro com base na pesquisa histórica do Davi Arueira. O Thales Ramos fez a supervisão do roteiro e a Jamile Boulay entrevistou o Sérgio Barra. A Clara Costa fez a edição e todas as sonorizações.
  62. 30:30E o Gabriel Falcão compôs a trilha sonora original que você está ouvindo aí. Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora do podcast. As locuções são gravadas no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro, com a supervisão técnica do Dani D. A gente se encontra no próximo episódio, beleza? Obrigada e até lá! O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro,
  63. 31:00Secretaria Municipal de Cultura pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo por meio da Lei de Incentivo à Cultura e pelo banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremat por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS Obrigado e até o próximo episódio

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  1. 01Rain of arrows in Guanabara Bay
    Duração 29:40

    Between arrows and cannon fire, Rio experiences its first great transformation, trying to incorporate nature into the battles of Guanabara Bay. Interviewed in this episode: Rafael Freitas da Silva. III Rio Memórias. Stories of Rio to listen to. In the 3rd season, the transformations that Rio de Janeiro has gone through over five centuries, from its founding to the present day.

  2. 02The city comes down the hill
    Duração 30:21

    After climbing the hills to establish its foundation, Rio de Janeiro takes the path back and spreads across the lowlands. The birth of the streets, the dominance of the churches, and the urban transformations that turned it into the seat of the viceroyalty. Interviewee in this episode: Antônio Edmilson Martins Rodrigues.

  3. 03How many people fit in Rio?
    Duração 31:32

    With the arrival of the Royal Family in 1808, Rio's population exploded in size, and the city struggled to accommodate so many people. Interviewed in this episode: Sérgio Barra.

  4. 04Get out of the way, here comes progress!
    Duração 33:51

    In the early 20th century, mayor Pereira Passos's Bota-Abaixo transformed downtown Rio de Janeiro. But in order for the carioca to feel like they were in Paris, the poorer population was forcibly torn from the path. Interviewed in this episode: Jaime Benchimol.

  5. 05Finally, the marvelous city
    Duração 36:03

    The Copacabana beach, Maracanã, the growth of the Zona Norte and the suburbs. In the mid-20th century, Rio de Janeiro as we know it today emerges: the Cidade Maravilhosa. Interviewed in this episode: Júlia O'Donnell.

  6. 06Back to the hills
    Duração 35:54

    At the closing of the 3rd season, the origin, presence, and strength of the favelas, a fundamental element in the urban transformations of Rio de Janeiro. Interviewed in this episode: Pâmela Carvalho.