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Rio, a city in transformation
Episódio 05
Finally, the marvelous city
0:00faltam 36 min36:03
Transcrição
Bom, agora são 10h15 da manhã, hoje é uma quarta-feira e eu tô saindo aqui da minha casa em Madureira, na Zona Norte do Rio.
- 0:00Bom, agora são 10h15 da manhã, hoje é uma quarta-feira e eu tô saindo aqui da minha casa em Madureira, na Zona Norte do Rio.
- 0:30Oi, essa aí que você tá ouvindo sou eu, uma hora atrás. Eu tô aqui esperando o carro porque hoje é dia de gravar a locução no estúdio e hoje, especificamente, esse trajeto que eu vou fazer tem tudo a ver com o episódio. Pois é, eu saí de Madureira, na Zona Norte, e agora eu tô em Ipanema, na Zona Sul, pra gravar o quinto episódio da terceira temporada do Rio Memórias. Agora a Clara Costa, nossa editora, vai abaixar esse som da rua que eu gravei ainda há pouco
- 1:00e eu vou te explicar essa história direitinho. Pronto, esse é um deslocamento que eu faço em todos os episódios quando eu venho gravar as locuções. Só que hoje esse trajeto é simbólico, porque o episódio vai tratar exatamente desse tema. O jeito como o Rio de Janeiro se organizou no século XX
- 1:30e o antagonismo entre a Zona Norte e a Zona Sul. A gente vai passar pelo Mercadão de Madureira, pelo Maracanã, pela Avenida Presidente Vargas, pela Praia de Copacabana. Enfim, eu vou te mostrar o nascimento desse rio como a gente conhece hoje.
- 2:30Caso você ainda não saiba, eu sou a Gabriela Montoni. Nessa terceira temporada do podcast, a gente vem testemunhando as grandes mudanças que o Rio de Janeiro atravessou ao longo de cinco séculos, desde a fundação até os dias atuais. É uma aventura baseada na galeria Rio Cidade em Transformação, do nosso museu virtual riomemórias.com.br.
- 3:00Mas antes de chegar na cidade maravilhosa, com todos os seus símbolos e as suas contradições, eu preciso te contar como o Rio se estruturou a partir da década de 1930 e como surgiu o desenho desse espaço urbano que a gente conhece hoje. Capítulo 1 – O Rio tem um plano
- 3:30Um organismo em equilíbrio, como se fosse o corpo humano, com sistema de circulação, respiração e digestão. Era assim que o arquiteto francês Alfred de Agache enxergava o Rio de Janeiro ideal. Ele foi escolhido para desenhar o primeiro plano diretor da cidade ainda na década de 1920. Foi uma primeira tentativa e outros planos vieram depois. Mas é bom lembrar uma coisa. Nenhum desses planos foi plenamente implementado. Pois é.
- 4:00Essa é a antropóloga Júlia O'Donnell, professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É ela que vai ajudar a gente a contar essa história hoje. Bem-vinda ao Rio Memória, Júlia. Realmente uma alegria poder conversar sobre esses temas que eu gosto tanto, sou suspeita, aqui com vocês e poder compartilhar um pouco com quem está ouvindo. E você viu que, logo de cara, a Júlia já lembrou que nenhum desses planos para organizar a cidade foi colocado em prática na íntegra.
- 4:30Nem o Plano Gaste, nem o Código de Obras 37, nem o Plano Diretor, Agora, eles são sempre memórias dessas construções coletivas e são memórias, claro, de tentativas de estratificação social do espaço. Então, a partir de agora, a gente vai revisitar algumas dessas memórias ali na primeira metade do século XX. E para entender a definição de urbanismo do Agache, eu vou recorrer às palavras dele. É a nova ciência de construir e planejar a cidade
- 5:00com o objetivo prático de controlar o desenvolvimento e o crescimento. Essa nova ciência agrega conhecimentos de diferentes disciplinas. O urbanismo integra o conhecimento do técnico, do sociólogo, do engenheiro, do higienista. O Agache, por um lado, não escondia o encantamento pelo rio. Esta cidade, que goza da mais encantadora moldura, tem radiante e imenso futuro, merecendo tornar-se, sob o ponto de vista da remodelação, a mais bela cidade do mundo.
- 5:30Por outro lado, ele cornetava tudo o que tinha sido feito antes Principalmente os prédios públicos meio improvisados Eis aqui a capital de um país que tem 40 milhões de habitantes E cujo senado está instalado em um antigo pavilhão de exposição Se você é ouvinte do Rio Memórias, você sabe que o Agache está falando do Palácio Monroe, né? Na segunda temporada, tem um episódio que conta essa história incrível
- 6:00O Monroe foi criado como pavilhão de uma exposição nos Estados Unidos, depois foi transportado de navio para o Brasil, abrigou o Senado por muito tempo e simplesmente sumiu do mapa. E é isso, a praça está vazia, tem algumas pessoas que moram aqui. Muito sol, não tem muita sombra, a praça é meio árida, tem esses chafariz no meio seco e ela tem um paisagem meio de palmeiras, as árvores não têm as copas muito largas,
- 6:30Então não é um lugar muito legal de ficar Os bancos ficam todos expostos ao sol Ela é um lugar realmente nem um pouco convidativo Esse é o cineasta Eduardo Hades O nosso convidado naquele episódio do Monroe A gente levou ele para o lugar Onde ficava o Palácio, na Cinelândia Se você não ouviu, depois busca aí Mas voltando ao Agache Ele via o plano diretor Como um organismo vivo Imagina aí O sistema respiratório eram as praças
- 7:00Os jardins, as avenidas largas ou seja, os pulmões que oxigenam a cidade. A partir do centro, que era o coração, partiam as ruas, que formavam o sistema circulatório. E o terceiro sistema era o digestivo, com a rede de saneamento e esgotos. Falando assim, parece tudo harmonioso. Mas a verdade é que não deu tempo de colocar o plano inteiro em prática, porque o Brasil mergulhou num período de muita agitação política.
- 7:30Era o começo da Era Vargas. Muito do que o francês sugeriu acabou sendo implantado mais tarde, em momentos distintos. O plano diretor foi apresentado no ano em que Getúlio Vargas assumiu o poder, em 1930. Sete anos depois, o presidente deu um golpe e instalou a ditadura do Estado Novo, que ao mesmo tempo modernizou o país e perseguiu opositores com torturas e assassinatos.
- 8:00Em 1938, ele se deparou com a maquete de uma avenida. Era uma ideia do Agache de construir uma via larga que ia do centro até a região da Cidade Nova. A ideia era fazer uma das maiores vias do mundo, com 80 metros de largura e 4 quilômetros de extensão. O Getúlio não só colocou o projeto em prática nos anos seguintes, como deu seu nome a ele. Começava ali a construção da Avenida Presidente Vargas.
- 8:30A esta altura vocês aí da plateia já estarão perguntando aos vizinhos de poltrona que obras serão essas que se estendem por tantos quarteirões e que mobilizam tantos operários. Na verdade, não há nenhum mistério nisso, amigos. Estamos no ano de 1943, em pleno centro da nossa querida cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, assistindo às obras iniciais da abertura da Avenida Presidente Vargas, hoje a mais importante artéria da capital da República. Dá pra ver que o clima era de euforia, né?
- 9:00Você lembra que no último episódio teve o Olavo Bilac fazendo uma exaltação ao som das obras no centro do Rio? Pois é, o narrador dessa peça promocional da época também tá nesse nível, ouve só. Planejam os engenheiros, vibram os músculos dos operários, movimentam-se ruidosamente as escavadeiras numa autêntica sinfonia de trabalho na realização da grande obra. A cidade cresce vertiginosamente e urge dar à metrópole uma avenida moderna
- 9:30que venha descongestionar o tráfego e facilitar o escoamento para a Zona Norte. A Avenida Rio Branco já se torna pequena para conter o número sempre crescente de viaturas. Tudo muito bonito, tudo muito elegante, mas você sabe como são feitas as grandes reformas ao longo da história do Rio de Janeiro, né? Expulsando a população que está no caminho. O Presidente Vargas talvez seja o maior exemplo disso, uma enorme avenida que rasga o centro da cidade, desapropriando casas, derrubando igrejas, derrubando várias construções históricas e, claro, uma demonstração de poder.
- 10:00Centenas de prédios vieram abaixo, milhares de pessoas foram desalojadas. E o pior, a avenida passou por cima da Praça 11, que a gente viu no episódio anterior. Um grande reduto de sambistas, de capoeiristas, habitado principalmente por pessoas negras. Hoje, o lugar abriga um monumento em homenagem a zumbi dos Palmares
- 10:30e, cruzando a avenida, está lá o sambódromo, ocupando o espaço que foi o berço do samba.
- 11:00E se o samba é uma referência tipicamente brasileira e os habitantes da Praça 11 bebiam nas fontes do continente africano, as autoridades cariocas só tinham olhos para a Europa. Era Nova Lisboa, Nova Paris, mas quando o século XX começa a avançar, o olhar muda e se volta para os Estados Unidos, primeiro nos costumes da população.
- 11:30É, a gente tem realmente essa virada de chave, é multifatorial, seria muito leviano dizer não, foi por causa disso ou por causa daquilo. No plano dos costumes, por exemplo, que é uma coisa que eu estudei bastante na década de 20, o desenvolvimento do hábito de ir à praia, o desenvolvimento do hábito de fazer ginástica, a ideia de que um corpo bonito é um corpo magro e um corpo trabalhado, um corpo com músculos, isso foi muito influenciado, por exemplo, pelo cinema de Hollywood. E essa influência americana também acontece no desenho do cenário urbano.
- 12:00De fato, a tecnologia do concreto armado, que é o que permite a construção de edifícios mais altos, dos arranha-céus, teve um desenvolvimento muito forte nos Estados Unidos, na virada do século XIX para o século XX. Então, realmente, essa ideia da modernidade acaba aparecendo muito vinculada aos padrões norte-americanos, seja de hábitos de consumo, seja de estilos de vida, seja de modelos arquitetônicos, coisas que estão completamente vinculadas.
- 12:30As torres gigantes de concreto armado começaram a tomar a paisagem do rio, principalmente em Copacabana e no centro O primeiro arranha-céu da América Latina foi o majestoso edifício A Noite, na Praça Mauá Inaugurado em 7 de setembro de 1929 com o nome de Edifício Joseph Gere, em homenagem a um dos arquitetos que assinaram o projeto Ele passou a ser chamado de A Noite porque abrigava o jornal A Noite grandes empresas e instituições também se instalaram no prédio,
- 13:00como a Panam, a Filco e o Consulado Americano. Mas nada se comparava ao glamour dos dois andares mais altos que receberam os estúdios da Rádio Nacional, com as cantoras arrastando multidões para os auditórios.
- 13:30Mas nem tudo era arranha-céu no Rio. Falando em grandes estrelas, houve só essa escalação de grandes nomes da arquitetura, do paisagismo e das artes.
- 14:00Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Le Corbusier, Burle Marx e Cândido Portinari. Tá bom pra vocês, quinteto? Agora me diz, o que é que eles têm em comum? Os cinco participaram da construção de um marco do modernismo brasileiro, o Palácio Capanema, erguido para sediar o Ministério da Educação e da Saúde. O acontecimento é propício. Em primeiro lugar, porque se vai plantar na bela cidade um grande monumento arquitetônico.
- 14:30Esse é o próprio Gustavo Capanema, o ministro, discursando no lançamento da pedra fundamental do Palácio em 24 de abril de 1937. Depois, e este é o ponto que desejo salientar, porque com a ereção deste edifício daremos o passo final no esforço que vem de longe, de organização do Ministério que tem a seu cargo a solução de tantos sérios problemas do Brasil.
- 15:00Niemeyer participou da equipe chefiada por Lúcio Costa, com orientação do suíço Le Corbusier, um dos maiores nomes da arquitetura do século XX. Burle Marx desenhou jardins suspensos e Portinari pintou um ladrilho com navios, sereias, cavalos marinhos e estrelas do mar, em referência à praia de Santa Luzia, que tinha sido aterrada naquela região.
- 15:30Inaugurado em 1945, último ano da ditadura do Estado Novo, O Palácio Capanema é um símbolo da primeira passagem de Getúlio Vargas pelo poder. Um líder que apostou na modernização do país e abraçou o modernismo como estilo arquitetônico e, ao mesmo tempo, um ditador que não hesitou em perseguir rivais e passar por cima da população mais pobre para abrir uma avenida com o seu nome.
- 16:00Capítulo 2 – O Rio que a gente conhece Esse som que você está ouvindo eu gravei mais cedo no Mercadão de Madureira, que fica pertinho da minha casa. É o maior mercado popular do Rio e um dos maiores da América Latina, com quase 600 lojas. Ele começou como uma pequena feira livre em 1914
- 16:30e 15 anos depois virou um mercado, o maior centro de distribuição de alimentos do subúrbio carioca. Não foi um caso isolado. Entre as décadas de 1930 e 60, os bairros periféricos da cidade e os subúrbios da Zona Norte atravessaram um período de franca expansão, assim como os municípios da Baixada Fluminense. A inauguração da Avenida Brasil e as obras de saneamento atraíram muita gente, inclusive muitos migrantes de estados da região Nordeste.
- 17:00É nesse contexto que surge a Feira de São Cristóvão. Nos anos 60, a Madureira assume um protagonismo na Zona Norte, pelas atividades ligadas às escolas de samba e pelo posicionamento estratégico na malha ferroviária. Agora, sabe outra coisa que também valorizou muito a Zona Norte nessa época?
- 17:30Quando o Brasil foi escolhido como sede da Copa do Mundo de 1950, o então prefeito do Rio, Ângelo Mendes de Moraes, e a Câmara Municipal Aprovaram às pressas, em 1947, a construção de um grande estádio Em dois anos, estava de pé um templo do futebol mundial O estádio Jornalista Mário Filho Ou, para os íntimos, o Maracanã
- 18:00Graças aos esforços redobrados dos operários e das construtoras Os prazos são cumpridos e a fita inaugural é cortada em 2 de abril de 1950 Esse povo adorava uma obra, né? Os discursos homenageiam essa primeira vitória obtida pelo espírito de equipe dos trabalhadores. Vitória que não deixa de prefigurar a da seleção nacional. Eles também apresentam o estádio como uma marca distinta da cidade, tanto quanto o pão de açúcar e o corcovado.
- 18:30Uma obra que faz resplandecerem aos olhos do mundo as capacidades do povo brasileiro. O amistoso inaugural, no dia 16 de junho de 1950, colocou frente a frente as seleções do Rio e de São Paulo. O locutor Pedro Luiz mal conseguia conter a euforia e era só elogios ao prefeito. No momento em que é dado ao público brasileiro, muita gente combateu, muita gente desacreditou,
- 19:00mas que Mendes e Moraes transformou numa realidade palpável, magnífica, esplêndida e esponteante. Com a bola rolando, o gênio Didi, meio campista do Fluminense, fez o primeiro gol no estádio. Mas os paulistas venceram o jogo de virada por 3 a 1. Poucos meses depois, quando a coisa foi pra valer na Copa de 50, aí o clima não foi exatamente de festa, né?
- 19:30A derrota para o Uruguai na final virou um grande trauma para os 199.854 torcedores nas arquibancadas
- 20:00O que dava 8% da população na época Mas o Maracanã está aí até hoje como um símbolo do Rio de Janeiro O Rio do futebol, o Rio do samba e, claro, o Rio da praia Eu sei que é dia de gravar episódio, mas ninguém é de ferro, né? Então, antes de chegar no estúdio, eu dei uma passadinha aqui na praia de Copacabana,
- 20:30que é um lugar fundamental na construção do imaginário carioca no século XX. Eu nem vou mergulhar, não. É só para você ouvir um pouquinho desse som ambiente da princesinha do mar. Daqui a pouco eu estou de volta no estúdio. Por enquanto, vamos ouvir a Júlia O'Donnell. Copacabana surge como um produto direto, que a gente pode chamar de uma nova elite carioca, que era uma nova elite nacional, que já não era tão vinculada ao universo do Brasil monárquico, da aristocracia,
- 21:00era de fato uma elite mais ligada a atividades e ideais burgueses que não tinha mais nos bairros antigos, Catete, Glória, Botafogo, Flamengo, que eram os bairros nobres da região na época do Império, uma arquitetura, uma cidade à sua imagem e semelhança. Essa vida a cantar
- 21:30Pronto, já estou aqui no ar-condicionado do estúdio de novo. E eu queria te fazer um convite. Se você quer saber sobre a origem de Copacabana, quando a região era habitada pelos tamoios, dá uma olhada lá no nosso museu virtual, na Galeria Rio Cidade em Transformação. Fica em riomemórias.com.br ou vai no Google e digita Copacabana Rio Memórias. Você vai ver uma foto linda do Mark Ferrez, feita em 1900, da capelinha em homenagem à Nossa Senhora de Copacabana,
- 22:00que ficava nas pedras onde hoje é o posto 6. Pouco depois disso, em 1905, a Companhia Jardim Botânico levou os trilhos do bonde até o bairro. O folheto tinha até uns versinhos convidando a população. Graciosas senhoritas, moços chiques, fujam das ruas da poeira insana. Não há lugares para piqueniques como em Copacabana. Depois disso, claro, o bairro cresceu muito e principalmente entre as décadas de 1920 e 50,
- 22:30quando a arquitetura do rio trocou seus palacetes pelos edifícios altos e o Carioca da Zona Sul adotou um novo estilo de vida. Eram grupos sociais que se vinculavam a esse ideal um pouco mais norte-americano, mas, enfim, não só, mas a ideais diferentes de modernidade e que, de fato, inspirado em outros países, nas elites de outros países americanos, americanas, mas não só europeias também, fizeram de Copacabana um lugar
- 23:00que passou a ser símbolo de modernidade, então ir à praia, ter um corpo moreno, de sol, usar roupas de banho, enfim, incorporar a praia ao seu cotidiano e ter também casas que levassem em conta a proximidade do mar, então surgem outros estilos arquitetônicos, Copacabana, a arquitetura desse período é muito diferente daqueles palacetes rebuscados de Glória, Flamengo e Botafogo. Hoje restam poucos, mas os poucos que restam
- 23:30dá para a gente ver essa diferença grande. E, de fato, Copacabana se torna esse lugar símbolo dessa nova elite, dessa nova ideia de modernidade e de progresso. Uma rara construção clássica de Copacabana, projetada pelo mesmo Joseph G. do Palácio Capanema, foi inaugurada em 1923 e está de pé até hoje. Eu também passei por lá mais cedo. Agora eu estou aqui, em frente àquele que provavelmente é o hotel mais famoso do Brasil,
- 24:00o Copacabana Palace. Não dá nem para contar o número de celebridades, autoridades e estrelas internacionais que já se hospedaram aqui. Mas quando você olha para o hotel, e eu estou bem aqui de frente para ele, fica bem claro que o estilo arquitetônico é bem diferente do restante do bairro. E o Copacabana Palace surge, na verdade, no momento em que Copacabana ainda não está consolidada, como esse grande símbolo de modernidade e de progresso, mas está ali sendo alvo do investimento dessas elites
- 24:30que querem fazer do bairro essa grande vitrine. E como símbolo mesmo daquela ideia de que o Brasil poderia conjugar, por um lado, o que havia de mais chique, moderno, sofisticado, porque o Copacabana Palace foi construído com tudo que há de bom e do melhor, só materiais e mão de obra importada, e, ao mesmo tempo, uma natureza exuberante, com um quê de selvagem, com um quê de pitoresco. E assim, o Rio de Janeiro foi desenvolvendo um antagonismo entre Zona Sul e Zona Norte,
- 25:00que dura até os dias atuais, né? Um símbolo extremo disso, não sei se você vai lembrar, é uma edição do programa Documento Especial, que passava nos anos 90, na extinta TV Manchete, com uma jovem de 18 anos dizendo coisas absurdas, Defendendo que as praias da Zona Sul tinham que cobrar ingresso das pessoas que vinham da Zona Norte e do subúrbio Tem que cobrar entrada Porque as pessoas que podem pagar a entrada, dependendo do lugar
- 25:30Porque Copacabana e Ipanema tem que custar mais caro e tudo bem Mas eu sugiro a você pegar uma pessoa que mora em Ipanema Uma pessoa bem vestida, legal, que tem educação E colocar na praia de um monte de gente que não tem educação Que vai dizer grosseria, sabe? Que vai comer farofa com galinha Vai matar as pessoas, entendeu? De nojo, é um horror Não pode tirar o pessoal do meia, do mangue, e levar pra cá com a pacabana, cara. Porque eu não posso conviver com uma pessoa que não tem o mínimo de educação. E a reportagem tinha outras pessoas falando coisas semelhantes, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
- 26:00Trinta anos depois, quando o vídeo viralizou, essa mulher até veio a público e disse que o pensamento dela hoje é o oposto daquilo. Que ela se tornou uma pessoa progressista, bem diferente daquela adolescente preconceituosa. Mas enfim, esse foi só um exemplo para lembrar que, desde a primeira metade do século XX, a Zona Sul vinha crescendo, a Zona Norte vinha crescendo, o Rio como um todo vinha crescendo.
- 26:30Até que, em 1960, uma decisão mudou a história política do Brasil. Capítulo 3 – Eu não vou para Brasília Eu havia declarado que era indispensável para o desenvolvimento do país paz, tranquilidade e que esta só se obtinha com o respeito integral à Constituição.
- 27:00Esse é um depoimento de Juscelino Kubitschek, gravado em 1974. Ele está recordando um comício na cidade goiana de Jatai, em 1955, o ano que ele foi eleito presidente. Depois do discurso sobre o respeito à Constituição de 46, um homem que estava ali assistindo levantou a mão para fazer uma pergunta Era o Toniquinho da farmácia Quando me pus à disposição do público, o Toniquinho, como se chama o rapaz de Jataí, perguntou-me
- 27:30Vossa Excelência acaba de afirmar que vai cumprir artigo por artigo da Constituição Sendo assim, V. Exª deve se lembrar que, no artigo 4º das disposições transitórias da Constituição, estabelece que a capital da República deve ser construída no Planalto Central. Vai V. Exª construir a nova capital? Confesso que, até aquela altura, eu não havia pensado nesse assunto.
- 28:00O que veio depois disso a gente já sabe O Brasil ganhou uma nova capital A partir de 1960, o centro do poder se transferiu para Brasília E o Rio perdeu seu posto depois de quase três séculos Teve gente que gostou Vou-me embora e não levo Saudade da Guanabara Vou-me embora pra Brasília Pois Brasília é joia rara
- 28:30Aquilo é um paraíso O samba Exaltação, cantado por Jorge Veiga, não ficou sem resposta. Ouve aí a música do Billy Blanco na interpretação do grupo Os Cariocas. Não vou, não vou pra Brasília, nem eu nem minha família Mesmo que seja pra ficar cheio da grana
- 29:00A vida não se compara, mesmo difícil e tão cara Quero ser pobre sem deixar Copacabana Foi, sem dúvida, o embate. E desde então, realmente, o Rio vem tentando se segurar nessa posição de capitalidade através, principalmente, da sua centralidade cultural. Logo depois veio, por exemplo, a Bossa Nova, logo em seguida, um pouco que marcando esse lugar da centralidade do Rio de Janeiro,
- 29:30os aspectos importantes da nacionalidade. Como uma espécie de prêmio de consolação, na mesma canetada que transferiu a capital para Brasília, foi decretada a fundação do Estado da Guanabara. As forças políticas se mobilizaram e o Rio passou a ser uma cidade-estado, com vantagens fiscais e tributárias. Surgiu, então, o apelido para rebater Brasília.
- 30:00Enquanto a nova capital era chamada de Nova Cap, o Rio, com as suas belezas, era a Bela Cap. Nós não somos uma capital decaída, mas uma cidade libertada. Esse é um discurso do Carlos Lacerda, o primeiro a ocupar o posto de governador do estado da Guanabara, e o primeiro eleito pelos cariocas em vez de indicado pelo presidente, como os prefeitos anteriores. Os que partiram daqui com saudade sabem que o Rio é uma cidade insubstituível.
- 30:30Uma cidade na qual todos os brasileiros, ontem, hoje e sempre, estarão em casa. Eles achavam que, ao nos abandonarem, levavam a civilização para o interior, mas foi aqui que a deixaram. Porque nós somos a síntese do Brasil, porque somos a porta do Brasil para o mundo e somos para o mundo a verdadeira imagem que ele faz de nós. E isso permanece, para o bem e para o mal. Tem toda a questão da violência também, que é uma marca nacional
- 31:00e que no Rio também se expressa de maneira mais intensa. Então, sem dúvida, o fato do Rio ter sido capital e ainda ser capital cultural, segundo um certo senso comum, faz com que os grandes símbolos cariocas sejam grandes símbolos nacionais. Mas o estado da Guanabara em si, esse não foi muito longe. Durou 15 anos e terminou com outra canetada. Dessa vez, um decreto do presidente militar Ernesto Geisel durante a ditadura.
- 31:30O rio, então, voltou a ser uma cidade dentro do estado homônimo. Esse rio que a gente conhece, do Maracanã, de Copacabana, de Madureira, da Cinelândia, E, claro, do pão de açúcar. Você sentiu falta dele hoje? Mas não fica triste, não. Olha só pra onde a gente vai no próximo episódio, o último da temporada. Hoje a equipe do Rio Memórias tá em peso aqui no pão de açúcar. Daqui a pouquinho a gente vai pegar o bondinho pra ver a cidade lá do alto.
- 32:00Pois é. No episódio final da terceira temporada, a gente sobe a montanha mais famosa do Rio pra olhar a cidade de cima. E também para falar de outros morros, para falar das favelas, para falar de um planejamento urbano que, ao longo de cinco séculos, nunca levou a sério as desigualdades sociais e raciais. Nenhuma dessas diretrizes procurou, de fato, projeto de diminuição de desigualdade na ocupação do espaço urbano.
- 32:30Agora, é claro que, como você mencionou, é impossível a gente, no Brasil, desligar a classe de raça. Então, ao ter, claro, um processo de reprodução constante de desigualdade na ocupação do espaço urbano, a gente está falando também de processos de reprodução de violências de natureza necessariamente racial. Essas coisas são completamente atreladas na história brasileira.
- 33:00A Júlia vai fechar a nossa história de hoje citando o pensador da cidade do Rio, o jornalista Zueni Ventura, autor do livro e reportagem Cidade Partida, fruto de 10 meses de apuração na favela de Vigário Geral, logo após a chacina de 1993, que matou 21 pessoas. Sem dúvida, vigora no Rio essa ideia dos anifeituras, de uma cidade partida. Acho que mais do que convidar a gente a pensar de fato dualisticamente, eu acho que ela convida a gente a pensar as muitas relações
- 33:30que fazem com que a cidade seja construída através de tensões, de escutas em torno desse processo constante de estratificação social do espaço urbano. Eu agradeço demais a Júlia O'Donnell e recomendo a leitura do livro dela A Invenção de Copacabana Culturas Urbanas e Estilos de Vida no Rio de Janeiro. Tá quase acabando a nossa viagem
- 34:00de cinco séculos pelas grandes transformações da cidade. Mas tem muito mais coisa pra você descobrir nas nossas galerias em riomemórios.com.br Conta pra gente o que você tá achando da temporada. Marca a nossa arroba RioMemórias no Instagram. E se você ouve no Spotify, cada episódio tem uma perguntinha lá no aplicativo pra você responder. Se você gostou, avalie a gente com as estrelinhas e espalhe o conteúdo por aí. O podcast é uma
- 34:30realização da produtora Escuta Aqui. O Rodrigo Alves faz a coordenação geral, escreve os roteiros e grava as locuções adicionais. O Thales Ramos faz a supervisão dos roteiros que são escritos a partir da pesquisa histórica elaborada pelo Davi Arueira. Quem entrevistou a Júlia O'Donnell foi a nossa produtora Jamile Boulet. A música original é composta pelo Gabriel Falcão. Aí a Clara Costa pega todo esse material e empacota desse jeito bonitão com um monte de sonorizações para te levar para dentro da história.
- 35:00Eu sou a Gabriela Montoni, historiadora e apresentadora do podcast. As locuções são gravadas no Estúdio Rastro, que, como eu te falei no início, fica aqui em Ipanema, na zona sul do Rio. A supervisão técnica é do Dani Di. Agora eu vou voltar para Madureira, mas a temporada ainda não acabou, não. Eu te encontro no último episódio, combinado? Obrigada, um beijo e até lá! O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo,
- 35:30Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo, Obrigado e até o próximo episódio.
Disponível em
Todos os episódios
- 01Rain of arrows in Guanabara BayDuração 29:40
Between arrows and cannon fire, Rio experiences its first great transformation, trying to incorporate nature into the battles of Guanabara Bay. Interviewed in this episode: Rafael Freitas da Silva. III Rio Memórias. Stories of Rio to listen to. In the 3rd season, the transformations that Rio de Janeiro has gone through over five centuries, from its founding to the present day.
- 02The city comes down the hillDuração 30:21
After climbing the hills to establish its foundation, Rio de Janeiro takes the path back and spreads across the lowlands. The birth of the streets, the dominance of the churches, and the urban transformations that turned it into the seat of the viceroyalty. Interviewee in this episode: Antônio Edmilson Martins Rodrigues.
- 03How many people fit in Rio?Duração 31:32
With the arrival of the Royal Family in 1808, Rio's population exploded in size, and the city struggled to accommodate so many people. Interviewed in this episode: Sérgio Barra.
- 04Get out of the way, here comes progress!Duração 33:51
In the early 20th century, mayor Pereira Passos's Bota-Abaixo transformed downtown Rio de Janeiro. But in order for the carioca to feel like they were in Paris, the poorer population was forcibly torn from the path. Interviewed in this episode: Jaime Benchimol.
- 05Finally, the marvelous cityDuração 36:03
The Copacabana beach, Maracanã, the growth of the Zona Norte and the suburbs. In the mid-20th century, Rio de Janeiro as we know it today emerges: the Cidade Maravilhosa. Interviewed in this episode: Júlia O'Donnell.
- 06Back to the hillsDuração 35:54
At the closing of the 3rd season, the origin, presence, and strength of the favelas, a fundamental element in the urban transformations of Rio de Janeiro. Interviewed in this episode: Pâmela Carvalho.