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Rio de sons
Episódio 01
Sons da fé
0:00faltam 38 min38:15
Transcrição
A gente está longe de dizer que o Rio de Janeiro é uma cidade maravilhosa
- 0:00A gente está longe de dizer que o Rio de Janeiro é uma cidade maravilhosa do ponto de vista das relações que aqui se tecem. As relações são muito violentas, muito perversas, muito cruéis. Mas essas relações também dizem muito sobre as maneiras,
- 0:30as formas de invenção, as batalhas que estão se dando. E me parece que, por exemplo, hoje quando a gente está falando da religião, a gente está falando de muitas coisas ao mesmo tempo. Oi! Se você mora no Rio de Janeiro ou se você ouve o Rio Memórias, você sabe que essa cidade é um monte de coisas ao mesmo tempo, né? Inclusive no que diz respeito à fé.
- 1:00Nos terreiros, nas igrejas, nos mosteiros, nos templos, nas mesquitas, nas sinagogas, nas ruas. O Rio é sempre um território cheio de camadas, de ambiguidades, de relações complexas. E cada lugar tem um som diferente.
- 1:30A voz que você ouviu na abertura é do escritor e pesquisador Luiz Rufino, que é professor na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a UERJ, e na Faculdade de Educação da Baixada Fluminense. Com vários livros publicados e muitos artigos sobre cultura, educação e religiosidade, é ele que vai acompanhar a gente nessa viagem pelos sons da fé. Primeiramente, é fundamental a gente pensar isso que a gente está chamando de cidade, de Rio de Janeiro, enfim
- 2:00Como uma disputa da vida que, de uma certa forma, envolve diferentes temporalidades, espacialidades E diferentes formas de como a vida vai pulsando, vai sendo invocada, vai sendo desperdiçada vai sendo defendida nesse entrecruzamento de uma cidade que cabe em muitos mundos. A gente poderia falar de uma cidade que cabe em muitas cidades, como o cronista lá no início do século passado chamou a atenção,
- 2:30mas, na verdade, eu prefiro até falar de uma cidade que cabe em muitos mundos.
- 3:00Eu sou a Gabriela Montoni e essa é a quarta temporada do podcast Rio Memórias. Em seis episódios a gente vai explorar a galeria Rio de Sons do nosso museu virtual que você encontra em riomemórias.com.br
- 3:30Vai ter samba, piano, bossa nova, funk, um monte de elementos que compõem o panorama sonoro carioca Então ajusta aí seu fone de ouvido porque nesse episódio de estreia eu te convido para um passeio pelos ritmos, as músicas e as histórias que misturam o terreno, o divino, o encantado e o sagrado. Vamos nessa?
- 4:00Capítulo 1, da floresta às catedrais. Se eu te perguntar qual som vem na sua cabeça quando a gente fala de fé,
- 4:30você provavelmente vai lembrar de um sino de igreja, ou um batuque de terreiro, uma pregação evangélica, uma música judaica. E tudo bem, cada um vai ter a sua memória auditiva. Mas a gente está num podcast de história, né? Então nunca é demais lembrar que o Rio de Janeiro já existia muito antes de se chamar Rio de Janeiro Tupinambás e Temiminós já praticavam seus rituais nas aldeias E a trilha sonora indígena se desenhava com os cantos, a batida do pé no chão
- 5:00E o ritmo marcante que vinha de um instrumento pequeno, mas muito poderoso O maracá Essa voz é de Awawewidju, da aldeia Bananal, num vídeo produzido pelo Sesc em 2021.
- 5:30Na mão dele tem um maracá. É uma espécie de chocalho com um cabo de madeira. Na ponta tem uma cabaça redonda, adornada com umas penas e uns grafismos e preenchida com sementes, caroços ou pedras. É isso que faz o barulhinho.
- 6:00O maracá já estava presente em rituais muito antigos nas aldeias indígenas na Baía de Guanabara. Aquele era um som do Rio de Janeiro muito antes da fundação da cidade. E a função não era exatamente rítmica, era espiritual. Um instrumento é encantado com a fumaça abafurada pelo xamã e os sons fazem a ponte entre a aldeia e os ancestrais.
- 6:30Além dos maracás, dos cantos, das flechas, a paisagem sonora do rio até o século XV também era essa. O som da mata, das águas, do vento, da natureza. Tudo isso tem um sentido para os indígenas que remete a outros planos, além do plano material. Só que aí, você sabe, né? Chegaram os colonizadores.
- 7:00Aqui no Rio Memórias, a gente já passou algumas vezes por essas batalhas entre europeus e indígenas. Se você não ouviu a terceira temporada, baseada na galeria Rio Cidade em Transformação, depois procura aí. Ela começa com um episódio chamado Chuva de Flechas na Baía de Guanabara. Mas agora não vai ter flecha, porque o nosso assunto hoje é outro, o sagrado.
- 7:30E o projeto colonizador também foi um projeto teológico, um projeto de expansão das religiões de matriz cristã para catequizar quem já estava por aqui. A gente está falando desde uma ideia de religião enquanto um projeto institucional. Aqui, de novo, o Luiz Rufino. E falar da religião como um projeto institucional é falar da catequese como um parâmetro, um pilar da colonização,
- 8:00a conversão como uma das políticas de dominação colonial. Só que, ao mesmo tempo, essa política não conseguiu impedir a permanência e o surgimento de outras crenças religiosas no Brasil. E a gente está falando de uma dimensão de intimidade, de afeição ao mistério, à beleza da vida, que transgride e transborda essa caixa da religião e que muitas vezes comunica muito mais o povo que aqui está. Então a gente está falando de espiritualidades que estão sendo invocadas para conduzir a vida no cotidiano.
- 8:30O som que acompanha o cristianismo trazido pelos europeus é desde sempre a música sacra, que tem no canto uma base fundamental, especialmente o canto gregoriano, próprio da Igreja Católica. O canto gregoriano tem esse nome, mas não foi decretado pelo Papa Gregório I no século
- 9:00VI, e sim dois séculos depois, no período em que Carlos Magno era o imperador de Roma a partir do ano 800. O canto não está ali para acompanhar a oração, ele é a própria oração. Pela liturgia católica, é a reza que faz o fiel se afastar do mundo, se lançar ao
- 9:30céu e repousar em Deus. Isso está representado na estrutura do canto que faz esses movimentos musicais de ascensão e repouso Quando surge a técnica de escrever músicas em partituras, surgem também outras formas de articular o canto E uma das mais conhecidas é a polifonia, ou seja, a melodia composta por várias vozes em camadas No período da colonização, a música e o teatro foram muito usados pelos jesuítas na catequese dos indígenas
- 10:00Então, a música sacra no Brasil colônia foi desenvolvendo dinâmicas próprias ao longo dos séculos Mas no século XIX, o Vaticano começou a proibir que as missas tivessem cantos na chamada língua vernacular Ou seja, na língua local Só estava liberado cantar em latim E isso só foi mudar na década de 1960
- 10:30quando o Conselho Vaticano II permitiu que as missas fossem rezadas nos idiomas locais. O canto gregoriano foi sumindo da paisagem sonora carioca ao longo do século XX, mas ainda está presente, por exemplo, nas missas do Mosteiro de São Bento, no centro do Rio. Esses cantos que a gente está ouvindo aqui estão num vídeo de apresentação do canal do Mosteiro no YouTube. Além dos cantos, não dá pra falar em fé católica sem mencionar esse som aqui, né?
- 11:00O choque de metal com metal nos sinos das igrejas sempre teve múltiplas funções Desde a mais comum, que é avisar as horas Até uma comunicação complexa com os fiéis, chamando pras missas ou anunciando comunicados urgentes
- 11:30Pra cada propósito, um bater de sinos diferente, com suas pausas e seus ritmos Uma espécie de código morse divino E essa sinfonia ganhou um aliado muito imponente Um instrumento fundamental para as instituições católicas O órgão de tubos No século XVI, o órgão foi escolhido de forma oficial pela igreja
- 12:00Para acompanhar os cantos Justamente porque ele emite várias notas ao mesmo tempo Assim como a polifonia de vozes E foi por causa da igreja que o órgão chegou ao Brasil A chegada do órgão no país deu-se nos primórdios da colonização portuguesa com a criação do primeiro posto de organista na primeira Sé do Brasil, na Bahia, em 1559.
- 12:30Esse é um trecho da dissertação de mestrado da organista Débora Kerr, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sabe-se também que os jesuítas, na sua missão de catequese, utilizavam vários instrumentos musicais, entre eles o órgão, que levaram para os mais variados pontos do Brasil. Embora não haja atualmente vestígios conhecidos desses instrumentos, pode-se supor que fossem bem pequenos, facilmente transportáveis. Isso lá no século XVI, porque depois os instrumentos foram ficando cada vez mais aprimorados.
- 13:00O órgão é um instrumento extremamente complexo. Durante a sua evolução, o sistema de produção do som e suas partes mecânicas foram se tornando cada vez mais sofisticados, visando a facilitar a execução, enriquecer as possibilidades musicais do instrumento e adaptá-lo a locais e utilizações diversas. Na verdade, não existem dois órgãos iguais. Durante muitos anos, o órgão da coroa era o mais importante do Rio de Janeiro.
- 13:30Ele foi construído em 1773 pelo pernambucano Agostinho Rodrigues Leite, o maior fabricante de órgãos da colônia no século XVIII. Mas existem relatos de um outro órgão, diferente, inusitado e misterioso. Ele operava como uma espécie de brinquedo, com bonecos que tocavam flautas, pífanos, clarinetes e violinos.
- 14:00No corpo do instrumento havia uma enorme carranca que colocava a língua para fora e arregalava os olhos quando as notas mais graves eram tocadas. Sob os dedos profissionais do padre Pedro Leão, o órgão todo se movia na carranca medonha e nos autômatos e maravilhosos bonecos simulando tocar os pequeninos instrumentos Da poderosa tubulagem, musicando o grande hino de ação de graças, escorriam volatas melodiosas
- 14:30inchando o templo, escapando pelo portal, jorrando pelas janelas, esvoaçando pelo terraço e pela praça Esse órgão resistiu por alguns séculos e teve um fim trágico em 1926, quando uma tempestade violenta destruiu o teto da capela onde ele ficava. O que resta dele é somente a carranca terrífica, que bulia os olhos e expelia a língua. Apenas a carranca sobrevive, arreganhando em desafio ao tempo as dentuças refiladas.
- 15:00Agora você imagina um órgão de tubos, um instrumento tão importante para a consolidação do poder da Igreja Católica, incorporando no Rio de Janeiro uma carranca. Um artefato não branco por excelência, considerado monstruoso e até demoníaco pela Igreja. Mas falar de algo não branco é um bom gancho para a gente lembrar que o período da colonização
- 15:30não trouxe para o Brasil só os europeus. Trouxe também violentamente os africanos Como uma cidade como o Rio de Janeiro Reflete muito bem esse narcisismo europeu
- 16:00Essa espécie de tara em ser uma caricatura de uma metrópole europeia O Rio de Janeiro, a história do Rio de Janeiro ela é de uma certa forma evidenciada ela evidencia isso pra gente entretanto, o Rio de Janeiro é uma cidade, é um chão é um tempo e espaço praticado, exatamente por aqueles que foram e são investidos de
- 16:30muito terror e muita violência pra que essa ideia de um lugar meio que projetado querendo ser o outro querendo ser centro, querendo ser uma espécie de reprodução de uma metrópole europeia, ele vai ser o tempo todo atravessado exatamente porque essas presenças estão aqui e vão dar batalha, e vão fazer com que aqui não seja exatamente aquilo que se buscou. Então a gente está falando de uma cidade que tem um contingente negro-africano gigantesco,
- 17:00a gente está falando de uma cidade indígena, em grande parte a gente está falando de aldeias. Entre os séculos XVI e XIX, nenhum outro país das Américas recebeu mais africanos sequestrados e escravizados do que o Brasil. Foram quase 5 milhões de pessoas. As formas de sobrevivência e resistência passavam pela religião e pela música. Nesse sentido, a cultura afro-brasileira se entranhava inclusive nas festas católicas.
- 17:30Tanto que os registros sobre associações religiosas semelhantes ao que hoje conhecemos como o Candomblé, nas primeiras décadas do século XIX, mostram que, inicialmente, essas organizações estavam vinculadas a confrarias e irmandades cristãs. Naquela época, os batuques eram ouvidos nas processões e nas homenagens aos santos, como o padroeiro São Sebastião. A verdade é que, no Brasil,
- 18:00o sagrado e o profano sempre se misturaram na fé católica. Aliás, como lembra o Luiz Rufino, o Rio de Janeiro reserva um feriado no dia 23 de abril para celebrar São Jorge que é um santo exatamente popular porque tudo que o marca como identidade que enlaça a sua aldeia a sua companhia, como diz lá a oração, é marcado por atributos que não são santificados é um santo que não tem nenhuma
- 18:30condição de ser santo, no estrito da palavra, é um santo que às sete horas da manhã está Tá bêbado, tomando porre, né? É um santo que tá virando a madrugada no samba. As festas organizadas pelas Irmandades em homenagem aos santos padroeiros ou outros de devoção eram o momento máximo da vida dessas associações. Esse é um texto da historiadora Marta Abreu sobre as festas das Irmandades Católicas no século XIX.
- 19:00Para desagrado de muitas autoridades civis e religiosas, preocupadas com a continuidade da ordem e com o não cumprimento das determinações tridentinas, essas festas costumavam confundir as práticas sagradas e profanas tanto nas comemorações externas como nas que eram realizadas dentro das igrejas. Em geral, a população escrava negra não perdia a oportunidade de tocar suas músicas e batuques e dançar suas danças.
- 19:30Esses espaços podiam ser de solidariedade, alegria, prazer, criatividade, troca cultural e, ao mesmo tempo, um local de luta, violência, educação, controle e manutenção dos privilégios e hierarquias. A Marta Abreu registra a presença de três batuques de pretos em 1866. E não era nos subúrbios, era na freguesia de Santana, a mais populosa do Rio naquela época.
- 20:00As autoridades tentavam coibir essas atividades com o rigor da lei, mas os fiscais encontravam resistência. Ouve só esse relato. O fiscal da freguesia de Santana enviou alguns ofícios à Câmara Municipal comunicando que os batuques, danças e tocatas de pretos proibidos pelo Código Municipal de Posturas têm continuado todos os domingos. No último ofício, o fiscal informa que, no domingo 29 de julho, dobraram tais batuques com muito incômodo para a vizinhança, havendo dois na Rua da Alcântara, com fundos para
- 20:30a Rua São Leopoldo, e um na Rua de São Diogo. O fato ainda era mais grave, segundo a descrição do fiscal, porque um dos batuques tinha uma caixa de receber as espórtulas, ou seja, as gorjetas, e quando ele próprio se aproximou, rondando com os guardas municipais, recebeu apupadas, ou seja, vaias e foguetes. O fiscal explicava que ainda não havia multado os batuques, pois aguardava a Câmara deliberar qual deveria ser o seu comportamento com semelhantes ajuntamentos.
- 21:00Outro som que se disseminou pelo Rio de Janeiro ao longo do século XIX foi o da macumba Mas aqui eu estou falando do instrumento musical chamado macumba Era um pedaço de madeira parecido com um reco-reco que produzia um som assim Depois, claro, o termo macumba passou a se referir também às festas com dança, música
- 21:30Muitas vezes animada pelo som daquele instrumento Antes da chegada do candomblé, a macumba carioca foi um dos rituais mais importantes da cidade. O candomblé tem matriz africana, mas se forma no Brasil, no século XIX, com diferentes práticas musicais e ritualísticas. As cantigas do candomblé nago, por exemplo, são cantadas em Yorubá,
- 22:00como nesse exemplo registrado pela Larissa Lira, pesquisadora em ciências das religiões. O candomblé caboclo é cantado em português. gays. O de Angola só se toca com as mãos e assim por diante nesse quadro sonoro rico e variado. As sonoridades
- 22:30são diferentes em cada nação, mas existem pontos em comum. A música no candomblé não é só um ornamento, ela tem um significado, uma função. Assim como os sinos na Igreja Católica, os tambores também são tocados de diferentes formas para diferentes momentos, como os toques para cada orixá, por exemplo. Eu gostaria de falar um pouco do tambor, e a meu ver eu acho que o tambor é um lugar importante para a gente pensar a paisagem sonora, os ritmos, os versos que cruzam e fazem essa cidade, mas não é pensar o tambor meramente como um instrumento musical.
- 23:00e aí eu vou conversar um pouco com algo que é muito comum, por exemplo nas macumbas, nas umbandas por exemplo, na cultura do samba na cultura do jongo que é muito presente aqui na cidade do Rio de Janeiro na cultura dos calangos, nas folias de reis que estão
- 23:30presentes nos morros da cidade que é pensar o tambor como um suporte onde algo o encarna, o corpo é um tambor, a existência Consistência é um tambor. Na busca dessa espiritualidade, a Umbanda surge no começo do século XX a partir de movimentos religiosos como o candomblé, o catolicismo e o espiritismo.
- 24:00Uma mistura refletida em festas e eventos das comunidades que a gente vê até os dias de hoje. O Luiz Rufino lembra os réveillons da infância dele. Onde, por exemplo, eu, que era um moleque que morava no subúrbio, morava numa rua onde os moradores alugavam ônibus para ir fazer macumba na praia. E muitos desses que iam fazer macumba, o fazer macumba era estar ali, comer, brincar, socializar, saber de uma fofoca. Os sambas que iam desfilar no ano seguinte já estavam muito presentes, sendo cantados, sendo ali versados.
- 24:30No próprio Natal esses discos já eram distribuídos de presente, então isso era uma coisa comum das famílias. a dimensão cotidiana da cidade do Rio de Janeiro nesse duplo fé, festa mito, rito que vai sendo plasmado no cotidiano é muito parecido com a dinâmica de um partido alto onde um dá um verso, o outro tem que dar outro pra ter exatamente continuidade então
- 25:00isso eu acho que de uma certa forma comunica bem essa espiritualidade brincante que reside nessa cidade, mas que é uma espiritualidade também guerreira Do ponto de vista musical, as células rítmicas e a instrumentação da fé de matriz africana, os batuques, a macumba, o candomblé, a umbanda, tudo isso vai ser a base do que a gente entende como a música popular brasileira. Essa herança vai dar no samba, que nasce na Praça 11 e se espalha pelos morros e pelos subúrbios do Rio de Janeiro,
- 25:30assim como na batida do funk carioca. E vocês se preparem, porque nessa temporada sobre os sons da cidade, A gente ainda vai passar pelo samba e pelo funk Mas como o nosso passeio hoje é cheio de zigue-zague Agora eu vou pular para algo bem diferente dos ritmos de matriz africana Primeiro sem música, só na voz Eu garanto a você, meu amado Que desde então, no dia, nesta noite Se você quiser, quando você levantar a tua mão para ele
- 26:00Você vai voltar aqui no próximo dia dizendo o seguinte Eu quero uma oportunidade, pastor Eu preciso de uma oportunidade Agora com música. Capítulo 3. Pra glorificar de pé.
- 26:30O que a gente tá ouvindo são sons da Igreja Assembleia de Deus do Rio de Janeiro. E esse é um som cada vez mais presente no mapa auditivo da cidade. A matriz que mais cresceu no Brasil nas últimas décadas foi a neopentecostal. São muitas e muitas igrejas evangélicas que se espalham pelo rio ocupando desde pequenas construções de alvenaria até templos luxuosos de mármore.
- 27:00Cada uma tem suas características, mas quase todas oferecem elementos sonoros bem marcantes. O pastor pregando em voz alta com o microfone na mão, o coro dos fiéis na plateia, os cantos e louvores acompanhados por um conjunto musical.
- 27:30A música, enquanto gesto de louvor, é tão marcante nas religiões evangélicas evangélicas que esse cenário extrapolou as igrejas e virou um fenômeno de mercado. Os hits gospel estão nas rádios e nas plataformas de música online, uma explosão sonora que ocupa não só os templos, mas também as caixinhas de som e os fones de ouvido de muita gente no Rio de Janeiro e no Brasil todo.
- 28:00Só que o instrumental evangélico também varia. Algumas igrejas chegaram a adotar a tradição católica dos órgãos de tubos. Foi o caso da primeira igreja batista do Rio de Janeiro, a PIBRJ, fundada na Rua de Santana em agosto de 1884, pelo pastor americano William Buck Bagby, o primeiro missionário batista a se estabelecer no Brasil. Hoje, a igreja funciona na Rua Frei Caneca e o órgão de tubos foi reformado e reinaugurado em 2016.
- 28:30Portanto, para esta noite, noite significativa e especial, concerto de reinauguração do órgão de tubos da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, peço a todos vocês que recebamos agora a organista Regina Lacerda para a primeira parte do nosso programa. Assim como a música de várias religiões, a pregação evangélica também sai dos templos e ganha as ruas.
- 29:00Você que está aí ouvindo, eu tenho certeza que você já esbarrou com alguém pregando em algum lugar do Rio de Janeiro Numa rua, numa praça, até no transporte público Em 2013, a justiça proibiu qualquer pregação religiosa dentro dos vagões dos trens da cidade Mas, ainda assim, esse som faz parte do nosso cotidiano Essas inscrições do cotidiano
- 29:30São muitos cotidianos Eles de uma certa forma Forjam uma paisagem sonora Então se você está no trem Às seis horas da manhã E isso porque você já pegou o trem às cinco E vai entrar alguém Fazendo uma pregação
- 30:00Cantando um louvor Então eu gostaria de orar pela sua vida orar pela sua família para que o Senhor Jesus venha abençoar a tua vida nesta segunda-feira ou se você está numa feira e naquele momento que enquanto se arma a barraca, puxa caixote tem alguém que versa um samba de um lado e o outro responde de um outro lado, então a gente está falando por exemplo, de você pega um ponto cantado um ponto versado nas macumbas cariocas, está sendo cantado
- 30:30na esquina, na porta da igreja ou está sendo cantado numa mata, numa praia, ou no aniversário de alguém, num batizado, muitas vezes isso é para também invocar uma dimensão de como a vida é abraçada por um mistério e que comungar desse mistério também faz parte. Aqui no episódio a gente se aprofundou mais nos sons da fé católica, dos evangélicos e das religiões de matriz africana.
- 31:00Mas é claro que o Rio de Janeiro vai muito além. No século XVIII, a comunidade judaica já tinha uma presença significativa na cidade. Ali, perto do Largo da Lampadosa, que depois ficou conhecido como Largo do Rocio, onde também viviam os ciganos. As cerimônias praticadas pelos judeus mantinham tradições milenares, com o hebraico pronunciado nas rezas e, muitas vezes, cantado. A prática litúrgica nos cultos usa o xofar, uma corneta feita com chifre de carneiro.
- 31:30E nas cerimônias de casamento, a música vibrante é uma tradição.
- 32:00A polifonia religiosa do Rio de Janeiro passa por muitos instrumentos e muitos idiomas. O hebraico cantado dos judeus, o árabe das mesquitas muçulmanas, o sânscrito nos mantras Hare Krishna. A língua dos anjos nos cultos evangélicos, o latim das missas católicas tradicionais,
- 32:30o yorubá do candomblé-nagô. Uma mistura que a cidade sempre abrigou. Claro, com cuidado para a gente não cair no discurso romantizado da miscigenação. Tem uma narrativa da mistura que é uma narrativa racista. Tem uma narrativa da mistura que ela, de uma certa forma, ela gera, ela é muito benquista por aqueles que, de uma certa forma, estão protegidos no privilégio, na manutenção do poder, no lucro,
- 33:00do que a história de tratamento dessas diferenças e um tratamento balizado pela violência construiu aqui. Essa mistura, ao mesmo tempo, passa pelo terreno da violência e também passa por uma beleza encantadora. Então eu acho muito bonito e ao mesmo tempo muito potente, muito sagaz e muito furioso
- 33:30no sentido também da sua força de batalha, como todas essas criações, elas estão de uma certa forma marcando um caráter do quão é plural esse mundo que cá estamos, que é atravessado por muitos mundos, muitos deles são extremamente afáveis com a diferença, mas outros não, são extremamente perversos e contrários à diferença. Então, se canta, se faz música, se cria verso, se bate tambor ou se bate no corpo,
- 34:00se bate com o pé no chão, para diferentes questões na vida. Isso que é o mais bonito e que nesse universo dos ditos comuns, da trívia, do cotidiano, no universo dito popular, que também abraça uma expressão de intimidade com o mistério, com a fé, com o sagrado, essas coisas vão aparecer das mais diferentes formas, compondo paisagens musicais,
- 34:30paisagens sonoras e paisagens também de tom poético mesmo, para nos dizer que existe, no fundo disso tudo, uma grande política de como se vive por aqui. Eu agradeço demais ao Luiz Rufino Por ter embarcado com a gente nessa viagem Eu que agradeço Uma alegria estar com vocês aqui Que a gente possa, com esse papo Talvez tocar em memórias
- 35:00Profundas aí dessa cidade E você, gostou do episódio? A nossa viagem Pelos sons do Rio tá só começando Por falar em som A trilha sonora do podcast é composta Pelo Gabriel Falcão Mas peraí Gabriel, dá uma pausa aí na música rapidinho. Pronto. Agora faz um favor. Bota um pianinho aí pra gente.
- 35:30Nossa, eu pedi um pianinho e o Gabriel botou logo um Ernesto Nazaré tocado pela Maria Tereza Madeira. Não precisava tanto, mas foi bom. Porque esse vai ser o clima do nosso próximo episódio. A gente vai navegar pelo período em que o Rio de Janeiro se transformou na cidade dos pianos. Agora eu vou pedir licença pro Ernesto Nazaré com todo o respeito.
- 36:00Mas tá na hora dos créditos Então, Gabriel, pode voltar com a sua música Beleza Esse foi o episódio de abertura Da quarta temporada do podcast Rio Memórias Eu te convido a se aprofundar No tema, visitando o nosso Museu virtual em RioMemórias.com.br Lá você encontra a galeria Rio de Sons Que vai guiar os seis episódios Da nossa temporada Conta pra gente o que você achou A nossa arroba é RioMemórias no Instagram
- 36:30E se você tá ouvindo no Spotify avalia a gente com as estrelinhas e deixe seu comentário na pergunta que aparece aí no aplicativo nesse episódio você ouviu áudios dos canais Tucanap, Sesc SP Alê Jungle Songs Larissa Lira, Juntos no Candomblé Mosteiro de São Bento Assembleia de Deus do Rio de Janeiro Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro Projeto Missões Zani Filmes e Acervo do Choro
- 37:00eu sou a Gabriela Montoni historiadora e apresentadora desse podcast que é produzido pela Escuta Aqui. A coordenação é do Rodrigo Alves, que também cria os roteiros e grava as leituras adicionais. O Tales Ramos faz a supervisão do roteiro. A Clara Costa faz a montagem, a edição e a sonorização. A pesquisa histórica é do Davi Arueira. A Jamile Boulé faz as entrevistas. Foi ela que gravou com o Luiz Rufino. Tanto a entrevista como as locuções
- 37:30foram gravadas no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro, com supervisão técnica do Dani Di. Obrigada e até o próximo episódio. O Rio Memórias é patrocinado pelo Ministério do Turismo, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, pelas empresas Norsul e Casnar Leonardo, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, e pelo Banco BTG Pactual, Adam Capital e Concremate, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Lei do ISS. Obrigado e até
- 38:00o próximo episódio.
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- 01Sons da féDuração 38:15
Na abertura da 4ª temporada, um passeio pelos sons da fé no Rio de Janeiro: os sinos das igrejas, os batuques dos terreiros, a pregação evangélica, a força sonora das várias religiões. Entrevistado neste episódio: Luiz Rufino.
- 02A cidade dos pianosDuração 36:33
No século 19, os pianos se espalharam por salas de concerto, bailes dançantes e casas abastadas no Rio de Janeiro. Em tempos de Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth, a cidade ganhou o apelido de Pianópolis. Entrevistado neste episódio: Pedro Paulo Malta.
- 03O berço do carnavalDuração 35:52
Uma viagem pelos entrudos, corsos, cordões, sociedades e ranchos: as origens do carnaval no Rio de Janeiro. Entrevistada neste episódio: Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti.
- 04A voz dos bambasDuração 49:35
As origens do samba e do choro nas vozes de três gênios da música brasileira: Pixinguinha, Donga e João da Baiana, em seus depoimentos históricos ao Museu da Imagem e do Som.
- 05Da bossa nova ao funkDuração 41:57
Um diálogo improvável entre bossa nova e funk, dois sons que marcam a identidade do Rio de Janeiro, cada um no seu ritmo, cada um do seu jeito. Entrevistados neste episódio: Hugo Sukman e Juliana Bragança.
- 06Um dia de sons cariocasDuração 41:20
A praia, o vendedor de mate, os ambulantes, as feiras, a voz do metrô, o carro do ferro velho, as rodas de samba: no encerramento da temporada, um passeio pela paisagem sonora do Rio de Janeiro e a história por trás de cada um desses sons.