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Rio Memórias

A face norte do Maciço da Tijuca, voltada para as planícies da Tijuca e Inhaúma, abriga uma intricada rede hidrográfica que molda os vales encaixados entre suas escarpas e se espraia nas áreas baixas em direção à Baía de Guanabara. Os rios Maracanã, Joana, Faria e Timbó têm suas nascentes cravadas nas encostas do maciço, em altitudes que vão de 400 a 1.000 metros, e fluem por canais livres até encontrarem a malha urbana e serem aprisionados em canais, ora retilinizados, ora subterrâneos sob o asfalto.

O rio Maracanã, o mais emblemático do conjunto, nasce em declives íngremes da Floresta da Tijuca, entre paredões rochosos recobertos pela Mata Atlântica. Em seu alto curso, ele soma fios de água cristalina que descem a parede quase vertical da Pedra da Mazomba, moldura do cenário do Bairro da Usina, com eixos de drenagem, que formam pequenas cachoeiras e poços entre blocos de gnaisse, na vertente da Pedra do Conde. São trechos vivos dentro do Parque Nacional da Tijuca, onde o ciclo das águas relembra a história do desmatamento, da cafeicultura e do reflorestamento que em momentos históricos sequenciais dominaram todas suas vertentes. Ao descer, o Maracanã perde sua liberdade, canalizado em longos trechos urbanos até desembocar no Canal do Mangue, na Praça da Bandeira, antigo Saco de São Diogo, aterrado pelas “modernizações” do Prefeito Pereira Passos. A mudança da qualidade da água, dos habitats e da própria qualidade ecológica dos trechos fluviais é absurdamente contrastante e triste. A pavimentação radical da baixada e mesmo de muitas vertentes garante o incremento do escoamento superficial sobre as fortes chuvas e, cada vez mais, chuvas menores, causam enchentes maiores na impermeabilizada Praça da Bandeira. Agindo no efeito, as construções das piscinas de retenção, investem nosso dinheiro público, no que poderia ser evitado, sob planejamento urbano.

Área urbana com edifícios coloridos, via de tráfego e edifício com cúpula circular.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia aérea de uma área urbana. À esquerda, vemos uma série de edifícios de diferentes alturas, com telhados coloridos principalmente em tons de laranja e bege. No centro, há uma grande via de tráfego com várias faixas de carros em movimento. À direita, destaca-se um grande edifício com cúpula circular, possivelmente um estádio ou um centro de eventos, com uma estrutura metálica clara. Ao longo das ruas, há árvores esparsas e algumas áreas verdes.

Rio Maracanã, canalizado próximo ao Ginásio Gilberto Cardoso (Maracanãzinho)

O rio Joana, afluente direto do Maracanã, não escapa desse mesmo processo. Suas nascentes vêm do Vale do Elefante, um vale suspenso no sopé do Pico Andaraí Maior e acima do Pico do Perdido, onde nasce o Rio Perdido, no Grajaú. Soma-se a essas águas, as vertentes do Rio do Urubu, também no Grajaú, onde encontra-se um dos maiores depósitos de bloco do Maciço da Tijuca. Hoje, tais vertentes são protegidas pela união das Unidades de Conservação do Parque Nacional da Tijuca e da Reserva do Grajaú, estadual, porém gerida pelo município. Desmatadas e recobertas por Capim Colonião até meados dos anos 80, essas vertentes foram palco de diversos projetos de reflorestamento, que graças ao esforço dos Engenheiros Florestais e trabalhadores do Projeto Mutirão Reflorestamento, recompuseram, com esse longevo esforço até hoje ativo, a franja florestal que hoje as sombreia.

Cidade com edifícios, parque e montanhas verdes.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de uma cidade com uma vista panorâmica. A partir da esquerda para a direita, vemos uma série de edifícios residenciais de vários andares, alguns com telhados vermelhos. No centro, há um parque com árvores verdes. À direita, mais edifícios se estendem até o horizonte. No fundo, vemos montanhas cobertas por vegetação verde. O céu está parcialmente nublado.

Curva do Rio Joana, canalizado em seu baixo curso, pela Avenida professor Manoel de Abreu, paralela ao arborizado Boulevard 28 de setembro.

Canal de drenagem urbano com árvores e edifícios ao fundo.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de um canal de drenagem urbano. À esquerda, vemos uma parede de concreto com alguns elementos decorativos e uma árvore. À direita, há outra parede similar, também com elementos decorativos e uma árvore. No fundo, há uma rua com carros e edifícios residenciais. O canal está preenchido com água, que flui lentamente. Na parte inferior direita, há uma pequena vegetação verde.

Rio Joana, canalizado em seu alto curso, pela Rua Maxwell.

Paisagem montanhosa com vegetação variada e cidade ao fundo.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de uma paisagem montanhosa. Do lado esquerdo para a direita, vemos uma série de colinas cobertas por vegetação verde densa. À medida que nos movemos para a direita, a vegetação torna-se mais escassa e revela áreas de terra exposta. No fundo, vemos uma cidade com edifícios de vários tamanhos e cores, dispostos de forma irregular. As montanhas ao fundo formam um horizonte distante, com alguns picos mais elevados. O céu está parcialmente nublado, permitindo que a luz solar ilumine a paisagem.

Nascentes do Rio do Urubu no Grajaú, formador do Rio Joana, afluente do Rio Maracanã.

Paisagem montanhosa com rochas, colinas verdes e estruturas elétricas.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia aérea de uma paisagem montanhosa. À esquerda, vemos uma rocha escurecida com texturas riscadas. Ao centro, há uma colina verde coberta por vegetação densa. Na parte superior da colina, vemos estruturas elétricas altas e finas. À direita, mais colinas verdes se estendem até o horizonte, onde estão outros elementos elétricos. No fundo, vemos mais colinas e uma cidade distante. O céu é azul claro com algumas nuvens brancas.

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Mosaico de reflorestamentos de datas e formas diferentes, representando o esforço do projeto Mutirão Reflorestamento no Grajaú, aos pés do Pico do Perdido

Cascata em ambiente natural com árvore caída e rochas verdes.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de uma cascata em um ambiente natural. Do lado esquerdo, vemos uma árvore caída, enquanto à direita há rochas cobertas de musgo verde. O centro da imagem apresenta uma pequena cascata que desce sobre essas rochas, formando uma lagoa calma no fundo. A água é transparente, revelando o fundo rochoso.

Cachoeira da Mãe D’água no Grajaú, Rio Perdido, afluente do Rio Joana

Destaque deve ser dado às cachoeiras da Mãe D’água e sua sequência para montante de diversos poços e quedas que desenham, por trás do Pico do Perdido, uma trilha de exuberante beleza. O Rio Joana, assim, exerce um papel importante na retenção hídrica e na manutenção de seus mananciais, porém, ao atingir a malha urbana, segue desgraçado por um estreito canal de cimento pela Avenida Maxwell até o estádio do Maracanã. Lá se junta com o Rio Maracanã e tem parte de seu fluxo desviado para São Cristóvão e desembocam no denso Canal do Mangue em direção à zona portuária.

Mais para norte, dois rios fundantes da história carioca formam uma grande bacia de drenagem para a Baía de Guanabara: os rios Faria e Timbó, hoje afluentes do Canal do Fundão. Porém, antes das obras de aterramento, eram dois rios que descarregavam suas águas na mesma enseada do Saco de Inhaúma, um braço de mar que adentrava o continente até quase onde hoje encontra-se o bairro de Maria da Graça. Toda a região, hoje, em direção à Baía de Guanabara, acomoda bairros sobre sucessivos aterros, até a Favela da Maré, não à toa com esse nome.

Paisagem urbana durante o crepúsculo com edifício moderno, estrada movimentada, rio e cidade densa.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de uma paisagem urbana durante o crepúsculo. Do lado esquerdo, vemos um edifício moderno com fachada marrom. Ao centro, há uma estrada com muitos carros em movimento. À direita, há um rio que corta a cidade, com árvores ao longo das margens. No fundo, vemos uma cidade densamente populosa e uma linha de montanhas ao horizonte. O céu está azul claro com nuvens dispersas.

Canal do Fundão

O rio Faria, nasce na vertente norte do Maciço da Tijuca, fazendo divisão com o Vale do Elefante, anteriormente citado, e coletando contribuições fluviais de toda a Serra dos Pretos Forros, onde muitas nascentes convergem para a baixada do chamado Grande Méier, envolvendo as elevações da Serra do Engenho Novo até Benfica.

A bacia de drenagem pelo seu tamanho converge diversos córregos, que atravessam o Largo do Encantado, Engenho de Dentro e Jacaré, percorrendo trechos urbanizados já em baixa declividade. Assim como seus afluentes, o Faria já sofre com o processo de canalização em seus cursos médio e baixo, sendo capturado por obras de engenharia que alteram sua paisagem fluvial até a foz.

Seu contribuinte de bacia hidrográfica, o rio Timbó, brota de pequenas serras isoladas, desde o Morro do Juramento e das vertentes de toda a Serra da Misericórdia. São pequenos vários cursos d’água que rapidamente atingem a área plana da baixada de Inhaúma. Suas águas percorrem pequenos degraus do relevo, muitas vezes em afloramentos rochosos, que foram explorados, historicamente, pela mineração. Logo, o Rio Timbó encontra a baixada e é canalizado entre os bairros densamente ocupados. A divisão espacial do plano de ocupação dos subúrbios cariocas, garantiu uma densa urbanização com casas de belíssimas fachadas do início do século XX. Com quintais grandes, repletos de árvores frutíferas, tais casas acomodavam as famílias proletárias das fábricas recém-construídas no processo de industrialização do Rio de Janeiro. A linha do trem e as grandes estações ferroviárias prometiam a qualidade de vida desses bairros. Vida boa dos subúrbios cariocas com o assentamento de muitos imigrantes, desde o Cachambi, Maria da Graça até a Penha e Olaria, ocupando toda essa baixada até os aterros do Saco de Inhaúma, hoje substituído pelo Canal do Cunha que une os Rios Faria e Timbó em uma única saída no Canal do Fundão.

Outras memórias

Memória 1 de 4: Bacias do Limite Norte do Município