Rio sobre Rochas

CURADORIA

Marcelo Motta de Freitas

REVISÃO

Davi Aroeira

FOTOGRAFIA

Renato Oliveira

A produção do espaço que habitamos é fruto de diversos processos acumulados ao longo do tempo em nossa materialidade e relações sociais. O espaço é composto do conjunto indissociável entre a área ocupada (formada por relevos, ecossistemas, dinâmicas atmosféricas) e os processos de ocupação (relativos às relações de poder, de cultura, políticas, sociais e econômicas): uma amálgama que registra, grava, grafa no chão a sua marca, única e exclusiva, que chamamos comumente de paisagem ou, mais profundamente, de geografia – o grafismo na terra. Essa paisagem é feita de coisas visíveis e, também, de imaterialidades que resultam das relações sociais e envolvem poder, valor econômico, interesses políticos e culturais. Geodiversidade, entre muitas definições, pode ser entendida como a diversidade de feições e processos geológicos e geomorfológicos que interagem com a cultura modelando a paisagem. O Rio de Janeiro não escapa a esse processo, expressando muito bem em sua geografia, o entremeado de edificações sobre maciços rochosos, baixadas litorâneas e as diferentes formas de se viver em espaços tão distintos. Cada vale escavado por um rio ou cada baixada, com praias e restingas, aninham e acomodam partes da nossa cidade e influenciam nossas vidas. As formações rochosas e suas dinâmicas interagem intensamente com o cotidiano urbano, seja com as cachoeiras que refrescam seus frequentadores ou nos deslizamentos de terra e inundações que nos afligem nos verões quentes e chuvosos. Não é uma tarefa fácil habitar o Rio de Janeiro, uma cidade onde o relevo não é apenas cenário — é protagonista da vida que pulsa entre montanhas, vales, praias e baixadas. Desde a sua fundação, a cidade foi se configurando sobre esse terreno acidentado e a influência dessas dimensões físicas estão presentes, desenhando o palco dos acontecimentos e moldando sua própria construção. É nesse relevo único que inscrevemos a nossa presença, desviando rios, aterrando brejos, praias e mangues, subindo aos picos e descendo ao subsolo. Fomos e somos contundentes na construção do nosso próprio espaço de viver. A história geológica do Rio de Janeiro remonta aos movimentos tectônicos muito antigos em colisões continentais que forjaram, em alta temperatura e pressão, as nossas rochas. Depois, a separação dos continentes e a abertura do Oceano Atlântico alterou completamente o relevo e elevou nossos pães de açúcar, morros corcovados, picos e serras. As chuvas tropicais, tempestades e intempéries trataram de fustigar e destruir essas formações, ao longo dos milhões de anos de evolução desta paisagem. Vales foram escavados, sedimentos distribuídos nas áreas baixas, rios, brejos e baías se formaram. Florestas e ecossistemas associados ocuparam seus habitats com exuberante flora e abundante fauna. Os humanos registraram seus primeiros vestígios na região do Rio de Janeiro e Guanabara em torno de 8.000 anos atrás e estão associadas ao aquecimento global que o planeta vivenciou com o fim da última glaciação. A tropicalização desses ambientes atraiu hordas humanas que chegaram pela Amazônia e ocuparam o recôncavo da Guanabara dada a sua abundância de recursos: mangues, brejos, peixes, crustáceos, água doce de vários rios que chegavam na baía. Depois desses povos pré-históricos vieram os tupinambás, temiminós e demais nações indígenas que ocuparam nosso território. Mas esse relato histórico já está na galeria

Rio antes do Rio

e aqui vamos nos ocupar da dimensão espacial dos fatos pensando a geografia desses processos.

Explore as salas

Pensar a cidade a partir de suas águas é assumir que, por baixo do concreto e das infraestruturas, pulsa uma outra geografia – invisibilizada, mas ainda viva. O Rio de Janeiro é uma cidade feita de águas — visíveis ou ocultas, fortes ou suaves — que escorrem pelas encostas, atravessam vales e desenham o relevo antes de alagarem as planícies e chegarem ao mar. Os rios da cidade, muitos dos quais esquecidos sob o asfalto ou aprisionados em canalizações, são testemunhas do funcionamento hídrico do sítio urbano sobre o qual a cidade cresceu. O “rio de asfalto e gente entorna pelas ladeiras, entope o meio fio” construindo uma cidade sobre o fluxo de águas que moldavam caminhos próprios, fertilizava baixadas e diluíam a salinidade dos corpos d’água represados em nosso litoral. Os rios cariocas nascem nos maciços montanhosos da Tijuca, Pedra Branca, Gericinó-Mendanha. Cristalinos e sem poluição no meio das florestas protegidas que mantêm umidade e alimentam nossos mananciais, são ainda pequenos olhos d’água que brotam das rochas e descem em forma de córregos, riachos e rios maiores. No Maciço da Tijuca, por exemplo, as cachoeiras são feições refrescantes e de apreciação há séculos. A Cascatinha Taunay, as Cachoeiras do Horto, a Cascata Cristalina são lugares de refúgio em meio a massa de concreto da cidade construída, onde o som da queda d’água reencena uma geografia que insiste em ser ouvida. Essas águas também alimentam rios como o Maracanã, o Trapicheiros, o Joana e tantos outros que, embora soterrados em boa parte de seus cursos, ainda seguem vivos, escorrendo por sob a cidade, como veias de um corpo urbano que se recusa a secar. Na Zona Oeste, o Maciço da Pedra Branca dá origem a rios como o Grande, o Camorim e o Anil, que percorrem planícies alagáveis antes de desaguar nas lagoas de Jacarepaguá e da Tijuca. São cursos d’água que testemunham as disputas territoriais do “sertão carioca” dos engenhos, da agricultura e da intensa urbanização. Todos respondem aos tempos de chuva, transbordando e lembrando que a cidade, apesar de tudo, ainda está inserida em bacias hidrográficas tropicais. Em Gericinó-Mendanha os rios menores escondem lindas cachoeiras em territórios, historicamente, mais afastados da cidade, e, certamente, por isso, marcados por contrastes. O uso menos intenso de suas encostas, guardou excelentes remanescentes florestais, hoje protegidos, mas logo em seu sopé as águas encontram baixadas que enfrentam a expansão das periferias urbanas, suas histórias e desafios sociais. Abrem-se os vales e os fluxos hidrológicos chegam às baixadas, serpenteando os rios ou criando extensos alagados. Porém, ao abandonarem os trechos encachoeirados dentro dos maciços, encontram-se com a cidade, que resolveu no início do século XX, eliminar as tantas curvas que seus meandros desenhavam pelas baixadas, substituindo-os por canais retilinizados, com o propósito de enxugar rapidamente as áreas baixas, visadas para ocupação. As bacias hidrográficas da cidade, portanto, se espalham como redes de memória. Muitas foram retificadas, canalizadas, drenadas, esquecidas. Outras resistem. Assim, quase todos os rios do município, exceto aqueles dentro de áreas protegidas pela legislação, perderam suas curvas e seguem retos em seus baixo-cursos e, naturalmente (gosto do uso dessa palavra para artificializações), pela falta de saneamento, encontram-se altamente poluídos. As cachoeiras e rios do Rio de Janeiro não são apenas acidentes naturais: são elementos estruturantes da paisagem e da história. São lugares de persistência ecológica e de memória social. Em suas margens se formaram comunidades, se traçaram limites, se definiram trajetórias de expansão urbana. Em seus fluxos, ainda hoje, correm as memórias ancestrais, funcionalidades hidrológicas e o comportamento vivo do clima tropical. Rios que, em outros tempos, foram fontes de vida, lazer, navegação, agricultura. Hoje, carregam lixo e esgoto, mas também possibilidades de reexistência. Projetos de revitalização e educação ambiental tentam devolver sentido e presença a esses corpos líquidos invisibilizados. Pensar os rios e cachoeiras do Rio de Janeiro é retomar o elo entre o urbano atual e o funcionamento das paisagens antes da ocupação, entre o visível e o oculto, entre o concreto e o fluido. É entender que a cidade não é só construída sobre a terra firme, mas também sobre fluxos — de água, de vida e de tempo. É redescobrir, enfim, a geografia líquida que habita sob nossos pés, escorre por nossos morros, e que insiste, apesar de tudo, em nos lembrar que ainda resistem paisagens a perceber.

Escolha uma das memórias para explorar

O que você quer saber
sobre a história do Rio?