OsMantosTupinambá

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Rio Memórias

Confeccionados principalmente com penas vermelhas de guará (Eudocimus ruber), essas vestimentas cerimoniais possuíam profundo valor simbólico, espiritual e político dentro da cosmovisão tupinambá — além, claro, de sua dimensão estética.

Duas peças de vestimenta tradicional tupinambá, um manto de penas vermelhas e outro de fibras naturais com faixa vermelha.Descrição da imagem: A imagem mostra duas peças de vestimenta tradicional tupinambá. À esquerda, vemos um manto feito de penas vermelhas, com detalhes em tons mais escuros nas bordas. À direita, há outro manto, desta vez feito de fibras naturais, possivelmente de palmeira, com uma faixa vermelha na base. Ambas as peças apresentam adornos na parte superior, com penas e fibras que se destacam contra o fundo claro.

Manto Tupinambá que estava no acervo do Nationalmuseet, Dinamarca, devolvido ao Brasil em 2024. Ele mede 1,2 m de altura e 60 cm de largura.

Na sociedade tupinambá, o manto não era uma peça de uso cotidiano. Sua confecção exigia conhecimento técnico especializado, tempo e acesso a materiais raros, o que o tornava um objeto associado a rituais, lideranças e momentos de grande importância coletiva. O uso do manto estava relacionado a cerimônias que envolviam guerra, alianças, funerais e práticas espirituais, funcionando como um mediador entre o mundo humano e o mundo dos espíritos. Na cosmovisão tupinambá, as penas — especialmente as vermelhas — estavam ligadas à força vital, à transformação e à capacidade de trânsito entre diferentes planos de existência.

Gravura colorida de pessoas tupinambás em trajes tradicionais.Descrição da imagem: Esta é uma ilustração colorida, provavelmente uma gravura ou pintura, retratando um grupo de pessoas vestidas com trajes tradicionais tupinambás. A cena está dividida em duas partes principais: na parte superior, homens estão de pé, enquanto na parte inferior, outros estão de joelhos. Todos os indivíduos usam roupas coloridas, com padrões florais e detalhes em vermelho, azul e verde. As pernas dos homens são cobertas por calças curtas, e eles usam adornos nas coxas. Na parte superior, alguns homens seguram cordas, enquanto na parte inferior, outros parecem estar em posição de adoração ou respeito.

O Manto sendo utilizado em cerimônia religiosa tupinambá. Desenho de Theodore de Bry para o livro de Hans Staden, 1552.

O manto também expressava a relação dos tupinambás com os animais, a floresta e os ancestrais. Ao vestir o manto, o corpo humano era simbolicamente transformado, incorporando qualidades espirituais e cosmológicas associadas às aves. Dessa forma, o artefato não pode ser compreendido apenas como um objeto material, mas como um elemento vivo da cultura, da memória e da espiritualidade indígena.

Com a chegada dos europeus ao território que viria a ser chamado de Brasil, muitos mantos tupinambás foram retirados de seus contextos originais, tomados como peças pitorescas de um mundo novo que os brancos desconheciam e destratavam. Cronistas, missionários e viajantes dos séculos XVI e XVII levaram essas peças para a Europa, onde passaram a integrar coleções privadas e, posteriormente, acervos de museus etnográficos. Esse deslocamento ocorreu em um contexto de violência colonial, expropriação cultural e desestruturação das sociedades indígenas, resultando na perda de objetos fundamentais para a continuidade de suas tradições.

Ilustração colorida de figuras indígenas tupinambás vestindo trajes tradicionais.Descrição da imagem: Esta é uma ilustração colorida, provavelmente de um manuscrito ou livro antigo, retratando cinco figuras humanas vestidas com trajes tradicionais indígenas tupinambás. A figura mais à esquerda está segurando um arco e uma flecha, vestindo uma saia amarela e uma faixa azul no pescoço. À sua direita, há uma figura segurando um papagaio verde, usando um manto vermelho com franjas douradas e uma faixa de penas amarelas e vermelhas na cabeça. A terceira figura, centralizada, está segurando uma planta verde, vestindo um manto vermelho com franjas douradas e uma faixa de penas azuis e vermelhas na cabeça. A quarta figura, à direita, está segurando um objeto floral azul e amarelo, usando um manto azul com franjas vermelhas e uma faixa de penas azuis e vermelhas na cabeça. A última figura, à direita, está com os braços apoiados nas coxas, usando um manto marrom com franjas amarelas e uma faixa de penas azuis e vermelhas na cabeça. Todos os personagens têm inscrições escritas embaixo deles, mas elas não são legíveis nesta descrição.

Um nobre europeu segura um papagaio e usa um manto Tupinambá (segundo da esquerda para a direita) na procissão “Rainha da América”, aquarela sobre pergaminho, século XVI, autor desconhecido.

Durante séculos, os mantos tupinambás permaneceram fora do Brasil, especialmente em museus europeus. No entanto, nas últimas décadas, intensificaram-se os debates internacionais sobre a restituição de bens culturais retirados de povos indígenas durante o período colonial. Nesse contexto, ganhou destaque o processo de devolução de um dos mantos tupinambás ao Brasil, anteriormente sob a guarda de instituições europeias.

O retorno do manto tupinambá, hoje integrado ao acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, representa um marco simbólico e político de grande relevância. Mais do que a recuperação de um objeto histórico, trata-se do reconhecimento do direito dos povos indígenas à sua memória, à sua cultura e à sua herança espiritual. A devolução também dialoga com os esforços de reconstrução do Museu Nacional após o incêndio de 2018, reafirmando seu papel como espaço de preservação, pesquisa e valorização das culturas indígenas brasileiras.

Manto tupinambá com detalhes em amarelo, exposição cultural.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de uma exposição intitulada "Os Mantos Tupinambá". A imagem mostra um manto de plumas vermelhas, com detalhes em amarelo nas bordas, ocupando o centro da foto. À direita, há uma pessoa vestida com roupas tradicionais tupinambás, incluindo um chapéu adornado com flores. Ao fundo, outras pessoas estão presentes, mas estão desfocadas. A iluminação é baixa, com foco principal no manto e na pessoa.

Manto Tupinambá saudado por indígenas do povo Tupinambá em setembro de 2024, Museu Nacional. Foto de Leo Otero (MP).

Os mantos tupinambás se constituem como elementos fundamentais para compreender a resistência indígena, a continuidade das cosmologias originárias e os desafios contemporâneos relacionados à reparação histórica e à justiça cultural. Sua guarda por instituições brasileiras, em diálogo com os povos indígenas, contribui para a construção de uma narrativa histórica mais plural, crítica e comprometida com a valorização dos saberes originários.

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