BaíadeGuanabara

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Rio Memórias

Os corpos d’água em geral têm grande importância simbólica, espiritual e prática para as religiões e cosmologias indígenas. Antes da ocupação europeia, rios, lagoas, mangues, restingas e o próprio mar eram compreendidos não apenas como recursos naturais, mas como entidades vivas, dotadas de agência espiritual e integradas à ordem do mundo. Povos de matriz tupi, como os tupinambá e os temiminó, estabeleceram sua relação com a paisagem a partir de uma visão na qual natureza, ancestralidade e espiritualidade formavam um todo indissociável.

Mapa antigo da França Antártica e Rio de Janeiro, com destaque para a Baía de Guanabara.Descrição da imagem: A imagem é uma gravura antiga representando um mapa. No canto superior direito, há um título que menciona "La France Antarctique" e "Le Rio Janeiro". O mapa ilustra uma área costeira com várias localidades marcadas por nomes em francês. À direita, há uma escala de distância e um compasso. No centro inferior, está o Tropico de Capricórnio. A baía de Guanabara é destacada no mapa, com várias localidades e nomes de lugares marcados.

La France Antartique autrement le Rio de Janeiro, a partir das viagens de Villegagnon e Jean de Léry. 1557 / Acervo Bibliothèque nationale de France.

Na cosmologia indígena, a água era associada à origem da vida, à circulação das energias vitais e à comunicação com o mundo espiritual. Rios e lagoas funcionavam como espaços de passagem e transformação, ligados aos mitos de criação e aos deslocamentos dos antepassados míticos. A Baía de Guanabara, por exemplo, não era apenas um espaço geográfico estratégico, mas um território simbólico, marcado por narrativas míticas, práticas ritualísticas e formas específicas de ocupação, onde a pesca, a navegação e os ritos coletivos reforçavam laços comunitários e espirituais.

Gravura em preto e branco da Baía de Guanabara, com figura humana observando paisagem montanhosa.Descrição da imagem: Esta é uma gravura em preto e branco que retrata uma vista panorâmica da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. A imagem mostra uma paisagem montanhosa com várias formações rochosas ao longo da costa. No primeiro plano, há uma figura humana de pé sobre um ponto elevado, observando a vista. À medida que nos movemos para o fundo, vemos mais montanhas e o horizonte onde o mar se mistura com o céu. No alto da imagem, algumas formas que parecem ser aves voando podem ser vistas. Na parte inferior da imagem, há uma inscrição que lê "Corcovado" e "Original de Théodore Galot".

[Vista de parte da cidade e Bahia do Rio de Janeiro, Barra, Oceano, tirada a cavalleiro do Corcovado]. Théodore Alphonse Galot. Rio de Janeiro, RJ: [s.n.], 1850. Acervo Fundação Biblioteca Nacional.

Essa dimensão sagrada, extrapola os limites territoriais do que hoje conhecemos como a cidade do Rio de Janeiro. Por exemplo, a cosmovisão dos povos tukano, desana e outros grupos do Alto Rio Negro estabelece o Rio de Janeiro como o epicentro geomitológico da origem da vida na Terra. Para eles, o que conhecemos como Baía de Guanabara é o Lago de Leite (Diá ahpikõdihtaru ou Opekõ Dihtará), o local sagrado onde emergiu a Canoa da Transformação (Pamürí yuküsiru) após uma travessia cósmica pela Via Láctea. Esta "Canoa-Cobra" trouxe os seres humanos primordiais, e foi nas margens deste lago que surgiram as primeiras malocas e ocorreu a transformação fundamental da humanidade.

Assim, a Baía de Guanabara é descrita como uma cuia de leite ou bacia de pedras preciosas e ouro, representando a fertilidade e a nutrição original. Seu nome original, Guajá-nã-bará, reflete sua grandiosidade como uma "baía que parece o mar". Se repararmos bem, a forma da Baía se assemelha à do útero feminino, o que reforça seu caráter de local onde a vida se materializa.

Gravura antiga de área costeira com Baía de Guanabara.Descrição da imagem: A imagem é uma gravura antiga representando uma área costeira. A disposição espacial começa pela esquerda, onde se observa uma série de terrenos elevados e extensos, com várias marcas que indicam montanhas ou colinas. Ao centro, há uma grande abertura que representa a Baía de Guanabara. À direita, a paisagem continua com mais áreas elevadas e extensas. No fundo, há uma série de rios ou cursos d'água que se estendem pela baía. O mapa está em tons de sepia, com detalhes em vermelho para marcar os cursos d'água. Não há texto legível na imagem além dos nomes das localidades e rios.

Cartas topographicas da capitania do Rio de Janeiro : mandadas tirar pelo Illmo. e Exmo. Sr. Conde da Cunha Capitam general e Vice-Rey do Estado do Brazil. Manuel Vieira Leão. 1767 / Acervo Fundação Biblioteca Nacional

Para estes povos, a Baía de Guanabara permanece como uma encruzilhada multidimensional viva, guardando a memória de um passado sagrado que continua a nutrir a espiritualidade dos povos originários.

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