Gentilezageragentileza

Tempo de leitura 3 min

Rio Memórias

A palavra na boca do povo diz que todo poeta é também profeta. Para muitas culturas o sagrado é também uma poética e a palavra tem o poder de conduzir, erguer e materializar mundos. Nas muitas sabenças atravessadas pelo oceano que aportaram aqui a palavra não é mero recurso comunicativo. Lançada como uma flecha, que disparada da boca, ela ata som, ritmo, hálito e tem o poder de criar. Não coincidentemente, em grande parte das tradições negro-africanas nas Américas o princípio que fundamenta a comunicação é também aquele que se expressa como força criadora e participante de tudo que existe, existiu e ainda irá existir.

A palavra tem poder, como diriam os antigos. Entretanto, não é somente a palavra dita, mas também riscada. Em uma cidade como o Rio de Janeiro uma das expressões populares mais conhecidas para se referir aos conhecimentos que circulam no universo das religiosidades de sua gente é dizer que fulano ou beltrano entende do riscado. Entender do riscado remonta a capacidade de escarafunchar as textualidades do sagrado que se inscreve como poética. Sendo a palavra uma embolada entre ritmos, sons, hálitos, cores, texturas e corpos ela corre mundos caçando um jeito de expressar o sagrado, seus mistérios, espantos, belezas e ritos de fé. A palavra como uma espiritualidade está lançada na cidade, na boca do povo e da rua.

Fotografia preto e branco com flores pendentes, texto em português, figura sorridente com colar de flores, pessoa de costas com chapéu branco ao fundo.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia preto e branco. Na parte superior, vemos flores pendentes. À esquerda, há um painel com texto em português, seguido por uma figura com longos cabelos e barba, sorrindo. A pessoa está usando um colar de flores brancas. Ao fundo, vemos uma pessoa de costas, com um chapéu branco.

José Datrino, o Profeta Gentileza, em dezembro de 1969

. Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã.

Foi nas ruas do Rio que uma das almas mais encantadoras, gentis e, paradoxalmente, explosivas, por aqui baixou, se expandiu como arte, vida e conhecimento em palavras costuradas em pregações públicas e encarnadas nas paredes de concreto. Estamos falando do profeta Gentileza, José Datrino, o homem de origem humilde, tecido na mística encantada daqueles que tem escuta sensível e vista forte para a beleza e espanto da vida. O profeta Gentileza durante anos pregou nas ruas do Rio de Janeiro e foi responsável por 56 murais no Viaduto do Caju, zona portuária, que traziam expressões como: “não usem problemas, não usem pobreza, usem amor e gentileza”, e a mais famosa expressão: “gentileza gera gentileza”.

As ruas como lugar de memória contam que a saga andarilha, de amor e fé do profeta costura episódios de uma infância simples em meio ao trabalho rural, mas já marcada pela beleza e o espanto de uma mística encantada. Outro momento importante dessa caminhada é, já na fase adulta, a tragédia do incêndio do Gran Circus Norte-americano, na cidade de Niterói. Esse foi um episódio importante que deu sentido ao diálogo com as vozes astrais, que o próprio profeta afirmava que chamavam a um propósito de vida dedicado ao amor, gratidão e a gentileza.

Pilar de concreto com grafite e ônibus ao fundo.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia de um pilar de concreto sob uma ponte. Na parte superior, há um grafite amarelo e preto que parece ser uma assinatura ou tag. Abaixo dele, está escrito "38" em preto. Em seguida, há uma série de palavras escritas em azul sobre fundo branco, formando uma mensagem. A frase principal lida "GENTILEZA GERA GENTILEZA" está destacada em destaque. Ao fundo, há um ônibus parado com a placa "AQUA BRANCA" visível.

Painel Gentileza 38,

autor não identificado, 2023. Wikimedia/Creative Commons

Ao falar dos espíritos, belezas e espantos do Rio de Janeiro, não podemos deixar de falar do profeta que fez da poética um lugar de defesa da vida, amor e gentileza. Ele encarna toda a mística dos pregadores alucinados e visionários da cidade, evocando esses aspectos para montar nas palavras e se avivar nas ruas cariocas.

Outras memórias

Memória 1 de 4: “Só Jesus expulsa o demônio das pessoas”: a vigilância do corpo