“SóJesusexpulsaodemôniodaspessoas”:avigilânciadocorpo

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Rio Memórias

Andarilhar pelas ruas do Rio é como escavar o tempo ou mesmo improvisar um verso. Ao contrário daqueles que insistem em encará-la de forma linear, a cidade transita de forma gingada, dribla a retidão e abraça em tempos circulares. Dessa forma, não é difícil a sensação de que o passado assombra o cotidiano do Rio de Janeiro e de que o futuro é uma espécie de aposta acesa em uma esquina.

Da janela do ônibus, do alto da passarela, no entroncamento das ruas, no muro do cemitério, nos quatro cantos dessa casa, escrito a tinta na parede, colado em papel no poste ou entoado dentro dos vagões, salta o verso: “só Jesus expulsa o demônio das pessoas”. Nessa embolada, sobram demônios para tudo quanto é lado: para a cigana, o Tranca Rua, a pombagira e mais um bocado de nomes que são obrigados a pagar uma tal conta de mal.

Pessoas limpam grafite de parede, substituindo mensagem antiga por nova sobre respeito e intolerância.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia composta por três partes horizontais. Na parte superior, vemos uma parede com grafite preto que lê "SÓ JESUS EXPULSA DEMÔNIOS DAS PESSOAS". Três pessoas estão de pé, vestindo roupas brancas, limpando o grafite com pincéis. Na parte central, a mesma parede está sendo limpa com um rolo de tinta branca. À direita, uma pessoa de vestido branco observa o processo. Na parte inferior, após a limpeza, o grafite foi substituído por um novo texto em cores diferentes: "AONDE SE PINTA O RESPEITO SE APAGA A INTOLERÂNCIA".

Rio de Janeiro, 2015. Autor não identificado.

Nessas bandas, a religião nunca foi somente questão de fé. A cumbuca em que ela come é mais profunda e para entender como Deus e o diabo são invocados, é preciso raspar o fundo da gamela. Nessa toada, vale a pena comprar o verso e dizer que a expulsão do famigerado diz muito sobre como o corpo e tudo que ele pode dar tem sido disputado desde que os europeus aportaram por aqui.

Não coincidentemente, a expressão inscrita e dita por aí vai se juntar com a também famosa saí desse corpo que não te pertence! Mas afinal, que diabos poder ter de ruim um corpo que se quer livre? Um importante filósofo, muito popular na cidade, deu o seguinte papo: “nem todo mal é mal, nem todo bem é bem. Há mal que vem para o bem e tem bem que vem para o mal”. O aforismo dito a torto e a direito por Seu Sete, o Rei da Lira, ajuda a pensar as batalhas entre o bem e o mal, não como meras circunstâncias comuns da vida e dos seus cotidianos, mas como dispositivos que incidem em políticas de controle do corpo.

Duas pessoas dançando em preto e branco, cenário escuro.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia preto e branco de duas pessoas dançando. A figura à esquerda está de costas, vestindo calças e sapatilhas, enquanto a figura à direita, de frente, usa um turbante branco e uma saia longa com padrões. Elas estão em um cenário escuro, com a iluminação focada nas duas figuras.

Culto umbandista

, 1966. Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã

Enquanto em alguns modos que explicam o mundo a noção de bem e mal se opõe, em outras tradições que atravessam a experiência brasileira e carioca essas noções estabelecem relações, coexistem, se cruzam e destacam a ambivalência como uma das marcas da trama social e do vivido por aqui. Dessa maneira, é comum em diferentes práticas culturais e nos cotidianos da cidade sermos abraçados pelo seguinte verso: “por aqui, o bem convive com o mal” ou “o que é bom para um poder ser ruim para o outro”.

O que os versos inscritos nos muros, colados nos postes, entoados na trívia ou cuspidos pela boca do exu filósofo nos dizem é que por aqui permanece uma batalha que não é meramente semântica, mas diz muito sobre as possibilidades de ser, suas relações, poderes e maneiras de narrar a vida. Nem todo texto é verbal, mas sempre é parido e alcançado por um corpo.

Aquilo que pode ser lido como uma questão religiosa, quando tomado pela experiência comum diz sobre inúmeras maneiras de relação com as coisas da vida. A expulsão, dominação e conversão é uma narrativa que atravessa a história dessa cidade. Em outro ponto, driblar a lógica que é contrária a diversidade tomando o corpo como lugar de enunciação, memória e comunidade é também uma maneira que muitos grupos encontram de se manter firmes nessa peleja. Se por um lado uns rogam a expulsão, vigilância e controle do corpo, do outro há aqueles que tomam o corpo para si e caem no samba.

Desfile de Carnaval com participantes em trajes metálicos e alegres.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia de um desfile de carnaval. Na parte frontal, várias pessoas estão de joelhos, vestindo trajes elaborados com detalhes metálicos e botas altas. Eles estão em uma plataforma, com os braços levantados e expressões de alegria. Ao fundo, há carros decorados e fumaça, sugerindo um ambiente festivo. No topo da imagem, uma multidão observa o evento.

Exus modernos, em desfile da Beija Flor,

2020. Dhavid Normando/Riotur

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