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Rio Memórias

Se no início do século XX a região da Maré era repleta de praias, ilhas e uma natureza exuberante que servia de abrigo às aldeias de pescadores na margem da Baía de Guanabara, a ocupação do território nas décadas seguintes trouxe um enorme passivo ambiental para toda a cidade, mas que incide com mais gravidade sobre os próprios moradores da Maré.

Porto movimentado com navios grandes e barcos menores transportando mercadorias.Descrição da imagem: Esta é uma gravura em preto e branco. A cena retrata um porto movimentado com várias embarcações. Do lado esquerdo, vemos navios grandes com mastros altos e velas abertas, navegando em direção à costa. No centro, há barcos menores carregando mercadorias. À direita, na margem do rio, pessoas estão descarregando itens de barcos menores. Ao fundo, vemos construções antigas, possivelmente uma cidade, com torres e cúpulas. O sol está alto no céu, iluminando a cena.

Inauguração da Refinaria de Manguinhos, Correio da Manhã, 16/12/1954. p. 3. Fundação Biblioteca Nacional

A desigualdade ambiental se revela aqui em sua face mais cruel: foi nessa área que equipamentos importantes para a cidade foram implantados, mas sem compensações aos moradores. Nas imediações da Maré, do outro lado da avenida Brasil, em 1954 foi inaugurada a Refinaria de Manguinhos. Na ocasião, estimou-se que ela seria responsável pelo fornecimento de 90% do combustível utilizado na cidade do Rio. Durante décadas, a refinaria emitiu poluentes que afetam a saúde de centenas de milhares de moradores, e impactou diretamente não só o território da Maré, mas também o de outro grande complexo de favelas da cidade: Manguinhos.

Área industrial com estruturas industriais, árvore e montanhas ao fundo.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de uma área industrial. Do lado esquerdo, há um poste de eletricidade com fios tensionados. No centro, há estruturas industriais com tubos altos e uma torre. À frente, há uma construção aberta com várias colunas e uma árvore grande. Ao fundo, há montanhas cobertas por vegetação. A imagem está tomada de um ângulo ligeiramente baixo, com o horizonte formado pelas montanhas.

Refinaria de Manguinhos, Gilson, s/d. Acervo: Biblioteca IBGE

Nas palavras de Rosália Maria de Oliveira, pesquisadora da Fiocruz: “Há décadas, a situação é perigosa. Há muitos anos, o terreno é uma bomba-relógio. Isso foi causado pela obsolescência da refinaria. Em função da quantidade de compostos manuseados, jamais uma companhia desse porte poderia se localizar dentro de uma área urbana e densamente povoada.” (“Pesquisa analisa região da Refinaria de Manguinhos”. INFORME ENSP. Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca. 25/02/2013).

Navio com figuras humanas em conflito em um rio.Descrição da imagem: Esta é uma gravura em preto e branco. A cena mostra um navio grande com velas abertas navegando em um rio. À esquerda, na margem, há figuras humanas nus segurando arcos e flechas, parecendo estar em uma posição defensiva. No centro, um grupo de homens está em uma canoa, interagindo com os habitantes da margem. À direita, outros homens estão em outra canoa, também nus, e um deles está próximo ao navio. Todos parecem estar envolvidos em uma troca ou confronto.

Recorte de Se liga no Sinal n. 7 p. 8, setembro-outubro de 1992. Publicado pelo Cepel – Centro de Pesquisas da Leopoldina.

Além da refinaria, há uma estação de esgoto, a de Alegria, inaugurada em 2009. No entanto, segundo a Carta de Saneamento da Maré – 2020, produzida pelo Data-Labe, Redes da Maré e Casa Fluminense:

As obras por saneamento básico não acompanharam o crescimento da região. Ainda que em algumas comunidades as casas estejam conectadas à rede de esgoto, essas redes não estão conectadas aos troncos coletores cuja função é conectar as redes e as estações de tratamento, com isso o esgoto é canalizado para os valões (rios extremamente poluídos por esgoto e lixo) que seguem sendo despejados na Baía de Guanabara. A realidade na maior parte das comunidades é a canalização do esgoto das casas nas galerias de água pluvial (drenagem superficial, água da chuva, lavagem das ruas), contaminando as águas das galerias subterrâneas que também fluem para a Baía. Muitas ruas possuem esgoto correndo a céu aberto.

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