OSermãodaMontanhadeCildoMeireles

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Rio Memórias

A ampla maioria das exposições que ocorrem em uma cidade como o Rio de Janeiro são fugazes e, apesar de registros, se tornam parte menor da história das artes visuais da cidade. Outras, porém, se tornam eventos que marcam uma geração. É o caso de O Sermão da Montanha: Fiat Lux, instalação que Cildo Meireles apresentou em 25 de abril de 1978 na recém-criada Galeria Cândido Mendes, localizada em Ipanema.

Indivíduo em pé diante de caixas com símbolos de olho e "OLHO".Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia preto e branco. No centro, um indivíduo está de pé, com os braços ao lado do corpo, olhando para a câmera. Ele está em frente a uma estrutura feita de caixas empilhadas, cada uma com um símbolo de olho e a palavra "OLHO" escrita nele. À esquerda, há outra pessoa parcialmente visível, de costas, em pé atrás das caixas. Ao fundo, há mais caixas organizadas em fileiras, formando uma parede. A iluminação é uniforme, e o ambiente parece ser industrial ou de armazenamento.

Cildo Meirelles na exposição

O Sermão da montanha:

Fiat Lux,

foto de Luiz Alphonsus. Fonte: Revista 451

De origem carioca, mas com boa parte da juventude passada entre Goiânia, Belém e Brasília, Cildo Meireles é um dos principais nomes que surgiram na segunda metade do século XX. Residente do Rio de Janeiro desde final da década de 1960, participou ativamente da cena experimental que se organizou na cidade na década de 1970. Com O Sermão da Montanha ele se estabeleceu de vez como um artista cuja relação entre política e estética se dava de forma engenhosa – e perigosa.

O ambiente que Meireles criou na galeria consistia em oito espelhos com frases retiradas do texto bíblico de Mateus 5, 3-10, em que o sermão de Cristo anuncia as bem-aventuranças para os que seguirem a palavra de Deus. No centro desse espaço, 126.000 caixas de fósforo Fiat Lux formavam uma escultura montada em cima de um chão de lixas pretas, que amplificava o som dos passos de quem circulava pelo espaço. Ao redor das centenas de caixas empilhadas, cinco seguranças de aparência ameaçadora (na verdade atores contratados simulando policiais à paisana) vigiavam a obra. Um dos pontos mais marcantes da exposição é que, como um happening, ela durava apenas 24 horas.

Grupo de homens em loja, espelho e caixas empilhadas.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um grupo de homens em um ambiente interno, possivelmente uma loja ou exposição. Do lado esquerdo, há um espelho grande com reflexos dos homens e objetos ao redor. Do lado direito, há uma pilha de caixas empilhadas. Os homens estão em pé, alguns usando óculos escuros, e estão dispostos de frente para a câmera. Atrás deles, há uma parede branca com mais objetos pendurados. O teto tem luzes suspensas e estruturas metálicas.

Atores como policiais à paisana em

O Sermão da Montanha: Fiat Lux,

de Cildo Meireles. Fonte: Simon Lee Gallery

O trabalho, que já vinha sendo pensado desde 1973 e havia sido recusado por duas galerias, trazia em sua proposta uma série de signos ligados ao longo período de violência e medo que artistas e parte da população viviam durante o regime civil-militar. A iminência do fogo, os policiais à paisana, os avisos ostensivos de perigo e proibição de fumar, sobrepostos ao sermão de Cristo, deram ao trabalho um tom agônico e marcante para os que o viram. O anúncio da obra de Cildo circulava com expectativa na crítica local devido aos materiais reunidos e o tempo efêmero da ação. Nas palavras de Roberto Pontual, publicadas no Jornal do Brasil, o trabalho “nos leva ao mergulho numa realidade que parece toda ausente dali, retirada de nossos olhos: a contingência de um Brasil recente, as formas e os modos de conflito, os subterrâneos de pressões e repressões, as tensões como uma bomba prestes a acender-se e explodir”.

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