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Rio Memórias

O Rio de Janeiro das décadas de 1930 e 1940 estava em constante ebulição. Na política, a Revolução de 1930 apontava para a modernização através de projetos de industrialização, rompendo os controles das oligarquias cafeeiras. No campo da cultura, a ebulição vinha por conta do movimento modernista, que passava a questionar o academicismo e projetar um Brasil fruto da antropofagia com a renovação das artes, das atitudes e dos hábitos.

No processo de implantação do Plano da Cidade, que tinha como principal atribuição avaliar o antigo Plano Agache e, a partir dele, elaborar novos projetos para o Rio, o prefeito Henrique Dodsworth projetou uma grande avenida que tinha como função ligar as pontas do Rio de Janeiro em direção à área norte. A abertura dessa avenida era o modo de integrar à vida urbana regiões mais afastadas, onde se concentravam os setores populares.

Homem em terno preto, expressão séria, fotografia preto e branco.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um homem em traje formal. Ele está de frente para a câmera, com cabelos curtos e bem aparados. Sua expressão é séria. O homem está vestindo um terno preto com uma camisa branca e um lenço de gravata. Na lapela do terno, há um guardanapo branco dobrado.

Imagem de Henrique Dodsworth, interventor do Distrito Federal do Rio de Janeiro (1937-45) nomeado por Getúlio Vargas - Autor desconhecido, 1937 - Prefeitura do Rio de Janeiro / AGCRJ.

Através da política distinta para a zona sul e para o restante da cidade, o populismo de Vargas ganhava terreno. As experiências autoritárias dos anos do Entreguerras estavam na premissa da nova avenida – Mussolini, em 1932, projetou a grande Via del Imperio, em Roma, e Hitler, em Berlim, depois de ascender ao poder, pensou numa avenida Norte-Sul. Na América Latina, a avenida 9 de Julho em Buenos Aires também serviu de inspiração. As demolições necessárias ao projeto envolveram igrejas e prédios públicos, como o Paço da Prefeitura e a Igreja de São Pedro dos Clérigos. Ruas e praças igualmente sucumbiram à avenida. Pelo menos dois redutos importantes de socialização e mobilização política foram desarticulados de uma só vez: o largo de São Domingos e a mítica praça Onze. Era na pequena praça de S. Domingos, que associações de trabalhadores (de caráter sindical) se reuniam em comícios, assembleias e passeatas. As comemorações do 1º de maio eram realizadas ali, desde o início do século XX.

Praça histórica com edifícios ornamentados e estátua central.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga de uma praça com edifícios históricos. Do lado esquerdo, vemos um grande edifício com varandas e janelas decorativas. À frente dele, há árvores em vasos e pessoas sentadas no chão. No centro, há uma estátua em uma base quadrada. À direita, outros edifícios com arquitetura similar, incluindo um com balcões ornamentados. Na parte direita da imagem, há uma construção com uma varanda superior. O chão é de pedra, e há algumas pessoas caminhando pela praça.

Vista do Largo de São Domingos, Centro. Augusto Malta, 1910 circa. Rio de Janeiro, RJ - Instituto Moreira Salles.

A ideia da grande avenida, entretanto, não era totalmente nova. A ligação do Cais dos Mineiros com a Ponte dos Marinheiros já estava na cabeça de Grandjean de Montigny, e, na década de 1920, o prefeito Carlos Sampaio pensou em criar a avenida da Independência, que iria da Rio Branco até a Praça da República. A grande avenida também fazia parte das propostas do Plano Agache. Com Henrique Dodsworth, nomeado por Vargas interventor do Distrito Federal durante o Estado Novo (1937-1945), ela saiu do papel e alterou significativamente a geografia do Rio de Janeiro.

Avenida movimentada com construções antigas e modernas, veículos circulando e montanha ao fundo.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga de uma avenida larga e movimentada, com várias construções ao longo dos lados. Do lado esquerdo, vemos edifícios baixos e mais antigos, enquanto à direita há prédios mais altos e modernos. No centro da avenida, há um grande número de veículos, incluindo carros e ônibus, circulando em ambas as direções. Ao fundo, uma montanha coberta de árvores está visível, adicionando um contraste natural à paisagem urbana.

Imagem da avenida Presidente Vargas durante as obras. Autor desconhecido, década de 1940. Disponível em: http://heloisahmeirelles.blogspot.com/2012/05/avenida-presidente-vargas.html

A Presidente Vargas começou a ser aberta em 1941, sob a coordenação do secretário de Viação da prefeitura, o engenheiro Edison Passos. Seu projeto havia criado um grande frisson na Feira de Amostras de 1938. Ao ver a maquete, Vargas teria dito: “Vamos fazê-la”. O apoio do presidente foi fundamental para a obra que levou ao pé da letra a verticalização proposta por Agache. Terminada, ela era o símbolo do poder autoritário de Vargas e do descaso com as tradições populares, culturais e históricas dos lugares arrasados por conta de sua construção.

Trabalhadores escavando em cratera em avenida em obras, preto e branco.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de uma avenida. Do lado esquerdo, vemos um homem de pé, olhando para a frente. Ele está perto de uma árvore. No centro, dois trabalhadores estão escavando em uma grande cratera. Ao fundo, há várias construções antigas com arquitetura clássica. O céu está parcialmente nublado, e a avenida parece estar em obras.

Operários trabalham na abertura da Avenida Presidente Vargas. Sobrados ao fundo da imagem. Autor desconhecido, 1942. Rio de Janeiro, RJ - Fonte: AGCRJ. Disponível em: http://wpro.rio.rj.gov.br/revistaagcrj/wp-content/uploads/2016/11/e10_a07.pdf.

Outras memórias

Memória 1 de 4: Edifício Avenida Central