TiaMariaeoJongodaSerrinha

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Rio Memórias

Grupo de pessoas reunidos em celebração cultural ao ar livre.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de um grupo de pessoas reunidas em um ambiente ao ar livre, possivelmente em uma comunidade local. No centro da imagem está uma mulher idosa vestindo uma blusa verde e branca com um lenço branco na cabeça. Ela está tocando um tambor grande. Ao seu redor, há várias crianças e adultos, alguns vestidos com roupas verdes e brancas, participando ativamente da atividade musical. Atrás delas, há uma construção simples e uma vista de uma cidade com muitos edifícios. Todos parecem estar envolvidos em uma celebração ou evento cultural.

Tia Maria, a jongueira mais longeva do Rio

. Foto: Cris Isidoro/ Diadorim Ideias

No dia 14 de maio de 2019, Tia Maria subiu no palco do Copacabana Palace e recebeu em mãos o prêmio “Sim à Igualdade Racial”, promovido pelo Instituto Identidades Brasileiras. No alto de seus 98 anos, elegantíssima em seu vestido turquesa, Tia Maria agradeceu a homenagem, e discursou em tom sereno: “O Jongo da Serrinha agradece e terá um grande prazer, se vocês um dia puderem passar uma tarde com a gente lá. O jongo é bom. Vocês vão gostar”. Quatro dias depois, durante uma roda de jongo, Tia Maria teve um mal-estar, e veio a falecer no mesmo dia.

O prêmio concedido à Maria de Lourdes Mendes, a Tia Maria, era uma reverência a uma história de luta pela preservação da cultura negra no Rio de Janeiro. Tia Maria fez parte da primeira geração de moradores nascidos no morro da Serrinha, quando o bairro de Madureira, na Zona Norte do Rio, ainda era uma área rural, no início do século XX. Além de ser uma das fundadoras da GRES Império Serrano — agremiação na qual desfilou até o fim de sua vida —, por décadas (e até seu último suspiro) Tia Maria foi a principal referência do jongo na cidade e no país.

Pintura vibrante de festa em aldeia com dança e celebração.Descrição da imagem: Esta é uma pintura que retrata uma cena de festa ou celebração em um local que parece ser uma aldeia ou povoado. A imagem está em cores vivas, com destaque para tons de azul, vermelho e amarelo nas roupas dos personagens. Na parte esquerda, vemos pessoas dançando e interagindo animadamente. Um homem negro está no centro, vestido com um chapéu e dançando com entusiasmo. À sua volta, outros dançam e se divertem, alguns segurando instrumentos musicais. À direita, mais pessoas participam da festa, algumas segurando frutas e outros objetos. No fundo, há uma casa simples com telhado de palha e paredes de tijolos. À esquerda, vemos uma montanha distante e um céu com nuvens. Na frente da casa, há uma grande cesta de frutas e outros itens de mercado.

Negro fandango scene, Campo St. Anna, Rio de Janeiro.

Augustous Earle, c.1822. Acervo Biblioteca Nacional da Austrália [id:

798007]

O jongo desembarcou no Rio junto com negros bantus, vindos de Angola, no século XIX. O jongo é uma dança que se faz em roda, ao som de tambores e canto de pontos, com os corpos brincando em giros e umbigadas. Para muitos especialistas, o jongo foi uma forte influência — ou até um elo ancestral — para o nascimento do samba. O toque dos tambores do jongo — são três: o Caxambu, o Candongueiro e o Angoma Puíta — é sagrado: deve-se pedir licença e tomar a benção deles antes de entrar numa roda. Afinal, o tambor é produzido pela junção de duas vidas ceifadas — o couro animal e a casca da árvore —, que têm o poder de se transformar em uma nova entidade, trazendo a alegria da vida através do toque ancestral. Em 2005 a cultura jongueira é considerada pelo Iphan patrimônio imaterial do Brasil.

No Rio de Janeiro, a preservação dessa tradição se deve e muito aos esforços do grupo cultural Jongo da Serrinha, em Madureira, fundado pela lendária Vovó Maria Joana Rezadeira, e seu filho, Mestre Darcy do Jongo, na década de 1960. Até então, o jongo era dançado pelos mais velhos nos quintais e terreiros do morro da Serrinha, em Madureira. Vovó Maria Joana percebeu que aquela tradição seria perdida se a dança não incluísse os mais novos — que assistiam, escondidos, mas sem poder participar — na roda.

Grupo de pessoas em trajes tradicionais durante evento cultural, com dança em destaque.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia de um grupo de pessoas em cena, possivelmente durante um evento cultural. A disposição espacial é assimétrica, com alguns indivíduos em primeiro plano e outros atrás. À esquerda, adultos e crianças vestidos com trajes tradicionais estão em pé, enquanto à direita dois adultos dançam em destaque. O fundo é escuro, destacando os participantes. As cores predominantes são bege e marrom, com tons mais claros nos trajes dos dançarinos e mais escuros nos trajes dos espectadores.

A passagem do jongo, de geração à geração

. Disponível em https://jongodaserrinha.org/historia-do-jongo/

O Grupo Cultural Jongo da Serrinha nasce então para articular ações continuadas de salvaguarda, educação, arte, cultura e cidadania, preservando e divulgando essa rica manifestação da cultura afro-brasileira. Tia Maria, que era jongueira desde berço — sua mãe cantava os pontos e cantigas desde menina — foi chamada para assumir a direção do grupo, e desde o fim dos anos 1970, se tornou a principal guardiã do Jongo da Serrinha.

Foram anos de lutas para preservação da associação. Desde 2015 o Jongo da Serrinha conquistou uma sede ampla, com 1700m², na Rua Compositor Silas de Oliveira; e hoje é uma ONG coordenada por mulheres, em sua maioria negras, envolvendo diretamente centenas de pessoas, entre músicos, dançarinos, gestoras, professores e alunas.

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Memória 1 de 4: Samba e Subúrbio