PinturaPopepolíticanoRiodeJaneiro

Tempo de leitura 3 min

Rio Memórias

Dentre as exposições coletivas que ocorriam no Museu de Arte Moderna e nas galerias que surgiam no Rio de Janeiro na década de 1960, quatro nomes residentes no Rio de Janeiro se destacaram como renovação da pintura e da arte brasileira. Os cariocas Rubens Gerchman e Roberto Magalhães, o paraibano Antonio Dias e o gaúcho Carlos Vergara foram artistas ativos em um período de transformações profundas no país. Em sua obra eclética incorporando pintura, escultura, gravura e desenho, a cidade do Rio de alguma forma se fez presente.

Alguns deles foram estudantes do Liceu de Artes e Ofício e da Escola Nacional de Belas Artes, outros travaram contatos como alunos ou ajudantes de mestres do porte de Iberê Camargo (caso de Carlos Vergara) e Oswaldo Goeldi (caso de Antônio Dias). Essa articulação entre gerações cria um diálogo com uma tradição de ateliês abertos e cursos livres que já vinha ocorrendo no Rio de Janeiro desde a década de 1940. Por serem jovens que surgem em um período de turbulências políticas, a visão crítica sobre o país – que também fez parte da arte modernista – era um desdobramento natural em seus trabalhos.

Caixa de morar colorida com figuras humanas, pessoas caminhando à esquerda.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia de uma caixa de morar com a inscrição "CAIXAS DE MORAR AIR" em destaque. Na esquerda, vemos duas pessoas caminhando, uma delas segurando um objeto. A caixa de morar está no centro da imagem, com um design colorido e geométrico, contendo figuras humanas em diferentes poses e expressões. O fundo é desfocado, mostrando uma rua com pessoas e edifícios.

Obra “Caixa de Morar”, de Rubens Gerchman, no filme

Ver Ouvir,

de Antônio Carlos Fontoura, 1966. Blog Carmattos

Com a participação dos quatro na famosa mostra coletiva Opinião 65, realizada no MAM-RJ em agosto de 1965, seus nomes se destacaram no meio artístico carioca e passaram a fazer parte de uma rede criativa que contava com cineastas do grupo do Cinema Novo (gestado em boa parte nas reuniões e sessões que ocorriam na cinemateca do Museu) e da música popular (principalmente os jovens compositores baianos que criariam o Tropicalismo). O cineasta Antônio Carlos Fontoura chega a fazer em 1967 o filme Ver Ouvir, com Gerchman, Dias e Magalhães mostrando suas obras e performances dentre populares pelas ruas da cidade.

Ilustração em amarelo e preto com figura feminina em ornamento floral; "Um amor impossível" e "A Bela Lindonéia".Descrição da imagem: A imagem é uma ilustração em tons de amarelo e preto. No centro, há um quadro com uma figura feminina dentro de um ornamento floral. Acima do quadro, está escrito "UM AMOR IMPOSSÍVEL" em letras pretas. Abaixo do quadro, há outra inscrição que lê "A BELA LINDONÉIA".

Rubens Gerchman, “A Bela Lindonéia”, 1966. Enciclopédia Itaú Cultural

A arte dessa geração trouxe para suas obras uma visão pop e política sobre os temas e personagens do meio urbano carioca, as contradições sociais da cidade, seus tipos populares e seus dramas cotidianos. A violência e a cultura de massas em seu forte apelo gráfico – quadrinhos, caricaturas, televisão e futebol, por exemplo – são incorporados em obras chaves desse período. Talvez a mais emblemática, por ter virado inclusive música de Caetano Veloso, é a pintura A Bela Lindonéia, trabalho de Rubens Gerchman de 1966. O tema da violência doméstica contra as mulheres e o uso de elementos populares como o vidro bisotê mostra um olhar sobre as vidas ordinárias raramente comentadas nas artes visuais.

Paisagem urbana com montanhas e monumento notável.Descrição da imagem: Esta é uma pintura pop retratando uma paisagem urbana com montanhas e um monumento notável. Do lado esquerdo, vemos uma cidade colorida, enquanto o centro destaca uma montanha coberta de vegetação verde e roxa. À direita, há outra montanha com tons de azul e roxo. No fundo, uma grande estrutura vermelha e branca se destaca sobre a montanha central. O céu é de cor rosa, dando um tom suave à cena.

Glauco Rodrigues, “Pão de Açúcar”, 1968 - Reprodução Fotográfica Paulo Góes - Enciclopédia Itaú Cultural

Vale ainda destacar, mesmo que não fosse parte ativa desse grupo, a importante obra do gaúcho Glauco Rodrigues, morador do Rio de Janeiro desde 1960. Seu trabalho de pintor, desenhista e gravurista foi o que mais utilizou a paisagem carioca como tema. Inserido tanto nas figurações políticas quanto no momento tropicalista, Glauco participa das principais exposições do período. Com breve passagem por Roma entre 1962 e 1965, sua obra articula a visualidade pop de cores quentes com uma reflexão crítica sobre a história colonial brasileira.

Outras memórias

Memória 1 de 4: O boom de galerias na cidade