Opinião65

Tempo de leitura 3 min

Rio Memórias

Após o fim do CPC da UNE, cujo prédio na Praia do Flamengo foi queimado na noite de 31 de março de 1964 — a primeira do Golpe civil-militar —, os seus artistas ligados ao teatro se reuniram para enfrentar tanto o regime quanto o desemprego. Dessa reunião, fundaram o coletivo de atores, autores e diretores intitulado Grupo Opinião. Oduvaldo Viana Filho (Vianinha), Ferreira Gullar, Paulo Pontes, Tereza Aragão, Armando Costa e outros conseguiram montar alguns espetáculos importantes.

O maior deles, sem dúvida, foi Opinião, escrito pelo trio Vianinha, Gullar e Pontes e dirigido pelo então diretor do Teatro de Arena de São Paulo, Augusto Boal. Com estreia em dezembro de 1964, foi um sucesso de público e crítica. Sua perspectiva sobre o que era o “povo”, porém, permaneceu ligada à perspectiva do CPC, isto é, a criação e difusão de uma arte “popular e revolucionária”. A dramaturgia, um musical intercalado de textos sobre a situação política do Brasil e das Américas (do Norte e do Sul) ainda seguia a lente do realismo socialista, em que o “povo” seria uma união virtuosa de camponeses, operários e burgueses esclarecidos. No caso de Opinião, estas personagens eram interpretadas, respectivamente, pelos músicos-atores João do Vale, Zé Ketti e Nara Leão.

Cartaz informativo sobre exposição comemorativa do IV Centenário do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.Descrição da imagem: A imagem é um cartaz informativo em preto e branco. No topo, há uma lista de nomes em duas faixas horizontais separadas por um espaço branco. As faixas contêm nomes de pessoas em ordem alfabética. Abaixo dessas listas, está escrito "OPINIÃO 65" em letras maiores. Em seguida, está mencionado "MUSEU DE ARTE MODERNA DO RIO DE JANEIRO" e "EXPOSIÇÃO COMEMORATIVA DO IV CENTENÁRIO". A data "12 de agosto a 12 de setembro de 1965" está no fundo inferior.

Cartaz da Exposição

Opinião 65

. Fonte: Memórias da Ditadura.org

Seu sucesso e sua qualidade estética fizeram com que o nome Opinião se espalhasse no imaginário da época. Além do espetáculo e de um disco de Nara Leão com o mesmo nome, em agosto de 1965 o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro também teve sua exposição intitulada Opinião 65. Contando com dezessete artistas brasileiros e treze artistas franceses, muitos dos nomes locais já vinham de trajetórias sólidas, outros teriam grande destaque nas décadas seguintes. É o caso dos que vinham dos embates no grupo concreto e neoconcreto Hélio Oiticica, Ivan Serpa e Waldemar Cordeiro, ou dos jovens Rubens Gerchman, Antonio Dias, Carlos Vergara e Roberto Magalhães. Idealizada pelo marchand Jean Boghici e pela curadora Ceres Franco, foi quando a jovem pintura brasileira – com artistas moradores do Rio de Janeiro – se mostrou como força renovadora das artes brasileiras.

Cena festiva noturna com dança e bandeiras vermelhas e brancas.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de uma cena festiva noturna. À esquerda, vemos pessoas vestindo roupas tradicionais, algumas segurando objetos decorativos vermelhos. No centro, um menino segura uma bandeira vermelha e branca. À direita, uma figura adulta, possivelmente um homem, está vestido com uma túnica longa e parece estar dançando ou participando da celebração. O fundo está desfocado, sugerindo movimento e luzes coloridas.

Hélio Oiticica e moradores da Mangueira no MAM, agosto de 1965. MAM-Rio

A exposição fez grande sucesso na imprensa carioca, com longos artigos debatendo o caráter político e estético que predominava nas obras exibidas no MAM. Para além do interesse crítico, Opinião 65 também se tornou famoso na época por uma situação em que a arte e a cidade do Rio de Janeiro viram o encontro conflituoso de seus extremos. Era a primeira vez que Oiticica exibiria em público seus Parangolés. Para a performance, o artista estava acompanhado dos passistas e dos moradores da Mangueira. A ideia, porém, não prosperou, já que a direção do museu barrou a entrada dos integrantes da escola. A proibição dos sambistas e moradores da Mangueira nos salões do Bloco-Escola do MAM se tornou uma polêmica pública, já que Oiticica foi à imprensa para denunciar o que chamou racismo da instituição. Era o encontro de duas cidades que, na época, não se encontravam em hipótese nenhuma.

Outras memórias

Memória 1 de 4: O boom de galerias na cidade