O"sertão"seurbaniza

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Rio Memórias

Cenário rural com casa branca, lago, montanha verde, edifício amarelo e céu azul.Descrição da imagem: Esta é uma pintura que retrata um cenário rural com elementos históricos. Do lado esquerdo, vemos uma casa branca com telhado vermelho, localizada perto de um lago. Ao fundo, há uma montanha coberta de vegetação verde. À direita, há uma estrutura branca com telhado amarelo, possivelmente uma igreja ou edifício histórico, situada em uma colina. O céu está azul com algumas nuvens brancas.

A Lagoa de Santo Antônio, atual Largo da Carioca, e a vala que deu origem à Rua da Vala. Detalhe de gravura de Carlos Gustavo Nunes Pereira, Portal GEO, IPP.

Até meados do século XVIII, era a rua da Vala (atual rua Uruguaiana) que definia os limites da cidade. Tudo o que havia para além dela eram descampados lamacentos, locais de pastagem para animais e depósitos de dejetos. A área era conhecida como Campo da Cidade e se estendia até o Mangal de São Diogo (ou Saco de São Diogo), na região da Cidade Nova. Junto a outra área pantanosa e alagadiça bem próxima – o Campo dos Ciganos (posteriormente Rossio Grande e hoje, Praça Tiradentes) – o Campo da Cidade era frequentado apenas pelos “infames pela raça ou religião” – ou seja, negros escravizados ou livres, ciganos e degredados.

Quase única a circular pela região até meados dos anos 1700, essa parcela marginalizada da população acabou induzindo a transposição do muro iniciado por João Massé em 1713, a partir da instalação de suas moradias e igrejas. Irmandades católicas negras construíram capelas em devoção a Nossa Senhora do Rosário (rua da Vala, 1725), Nossa Senhora da Lampadosa (Rossio Grande, por volta de 1748) e Santa Ana (nas imediações do Campo da Cidade por volta de 1735). Foi esta última a responsável por rebatizar a região, que passou a ser chamada de Campo de Santana.

Interior de habitação de ciganos, lavanderia, conversa, frutas, mulher com manto vermelho, árvore e papagaio.Descrição da imagem: Esta é uma ilustração colorida que retrata um interior de uma habitação de ciganos. A cena está dividida em diferentes áreas, começando pela esquerda e indo para a direita. Na parte esquerda, vemos pessoas lavando roupas em uma pia. Ao centro, duas mulheres estão sentadas no chão, conversando e comendo frutas. À direita, uma mulher vestida com um manto vermelho e dourado está em pé, segurando um objeto. No fundo, há uma construção com telhado de telhas e janelas abertas, onde outras pessoas estão reunidas. Uma árvore e um papagaio estão pendurados à direita. O texto na imagem lê: "INTERIEUR D'UNE HABITATION DE CIGANOS."

Interior da casa de um cigano. Jean Baptiste Debret, 1823. Domínio Público

Aos poucos, surgiram casas baixas nas imediações – lares de ciganos e trabalhadores livres e pobres – e o crescimento populacional “empurrou” a cidade em direção aos “sertões”, até então ocupados apenas por algumas chácaras e mansões particulares. Os chamados sertões eram as regiões além do Campo da Cidade, alcançadas por caminhos que contornavam as áreas alagadiças e chegavam aos engenhos que “ficaram conhecidos como Engenho Velho, Engenho Novo e Engenho de Dentro” (SCHLEE, 1999, p. 30).

A partir da chegada da família real portuguesa (1808), o adensamento populacional tornou a expansão territorial inevitável – entre 1808 e 1821, a população carioca passou de cerca de 50 mil pessoas para cerca de 120 mil. Os sertões foram urbanizados e o Campo de Santana deixou de ser uma área pantanosa evitada pela elite econômica, para se tornar um local de diversão. Recebeu torres iluminadas, uma arena para realização de touradas e um novo palacete real — com direito a jardim e passeio, além de um chafariz com 22 bicas, abastecido pelas águas do Rio Maracanã.

Cidade do sertão brasileiro com campos, praça e casas vermelhas.Descrição da imagem: Esta é uma gravura colorida representando uma cidade do sertão brasileiro. Do lado esquerdo, vemos um campo aberto com algumas construções simples e palmeiras ao redor. No centro, há uma praça com um edifício central e arquibancadas laterais. À direita, a cidade está densamente povoada de casas de telhados vermelhos. No fundo, há colinas cobertas por vegetação.

O Campo de Santana, antigo Campo da Cidade, e sua Praça de Touros (1818). Obra de Franz Josef Frühbeck. Wikimedia Commons

O local ainda foi palco e cenário de importantes eventos, como a aclamação do imperador D. Pedro I (1822) e a Proclamação da República (1889). No final do século XIX, o Campo de Santana foi modernizado por Auguste François Marie Glaziou e ganhou uma paisagem inspirada nos parques românticos parisienses.

Parque antigo com lago, árvores e ponte.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia antiga de um parque com um lago central. Do lado esquerdo, há árvores altas e palmáceas, enquanto à direita, há plantas mais baixas e rochas ao longo do lago. No centro, há uma ponte pequena sobre o lago. Ao fundo, há mais vegetação densa e árvores grandes. A imagem é em preto e branco.

O Campo de Santana após a modernização de Glaziou. Foto de Luis Musso, c. 1903. Instituto Moreira Salles.

Mas a expansão em direção aos sertões representou, também, o acentuamento das diferenças sociais. As casas baixas do Campo de Santana contrastavam com os sobrados da rua Direita. Ciganos e judeus pobres passaram a ocupar as áreas de brejos e pântanos para além da região. Uma outra cidade se desenhou na periferia da cidade barroca. A miséria e a pobreza ganharam espaço e determinaram um processo de exclusão que se renova até os dias atuais, transformando o Rio numa “cidade partida”.

Referências:

PIMENTEL, Márcia. Campo de Santana: o lugar que viu o Império e a República nascerem. Portal MultiRio. Disponível em: https://www.multirio.rj.gov.br/index.php/reportagens/13262-campo-de-santana,-o-lugar-que-testemunhou-o-nascimento-do-imp%C3%A9rio-e-da-rep%C3%BAblica

SCHLEE, Mônica Bahia. Cenografia urbana e qualidade ambiental na cidade do Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. São Paulo: 1999 VERNIN, Lenna Carolina Solé. Campo de histórias e a batalha pela memória: o curioso caso da Praça da República. Anais do Encontro Internacional e XVIII Encontro de História da ANPUH-Rio: História e parcerias. 2018

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