Urbanidade,eriqueza

Tempo de leitura 2 min

Rio Memórias

É interessante observar que nas construções mais antigas do século XVII, especialmente as de ordens religiosas como a de São Bento, as torres guardam o aspecto básico de fortaleza [...]. Já no século XVIII, à função de suporte dos sinos agrega-se o valor simbólico de sinal externo de riqueza e prestígio das irmandades proprietárias, traduzido em sua maior altura e na ornamentação apurada dos coroamentos.

Myriam Ribeiro e Fátima Justiniano

Nos primeiros séculos de colonização, a arquitetura voltada para a proteção deu o tom da urbanidade do Rio de Janeiro e, se as fortalezas instaladas no litoral tinham o objetivo de proteger a cidade contra invasões, as igrejas e mosteiros do século XVI – e algumas do início do XVII – cumpriam a função de “proteger os espíritos”, muitas vezes funcionando, elas próprias, como equipamentos de fortificação da cidade.

Forte montanhoso em cenário sombrio.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia preto e branco de um forte localizado em um cenário montanhoso. Do lado esquerdo, vemos uma montanha escarpada, enquanto à direita há outra montanha com forma triangular. O forte está construído sobre a água, com suas paredes retangulares e várias aberturas que serviam como alvos para artilharia. À frente do forte, o mar está agitado, com ondas batendo contra as rochas. No fundo, o céu está nublado, dando um tom sombrio à imagem.

Fortaleza de Santa Cruz da Barra, localizada na orla de Niterói da Baía de Guanabara e erguida no século XVI. Marc Ferrez, c. 1890. Instituto Moreira Salles

No século XVI, o Maneirismo – estilo transitório entre o neoclássico e o barroco – marcou a arquitetura de algumas construções da cidade. Mas foi o Barroco que, no século XVII, se tornou o grande legado arquitetônico do Rio de Janeiro.

Igreja histórica com torre e placa "Ladeira da Misericordia".Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de uma igreja histórica localizada em uma rua. A igreja tem uma fachada branca com detalhes em pedra cinza. À esquerda, há uma torre com um sino e uma cruz no topo. À direita, há uma construção com varandas verdes e janelas com grades. Na frente da igreja, há uma placa com a inscrição "Ladeira da Misericordia". Ao fundo, há árvores e um céu azul claro.

Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso vista da Ladeira da Misericórdia. A predominância da construção, do século XVI, é o Barroco. Wikimedia Commons

No século XVIII, a incorporação da talha joanina, da pintura em perspectiva e das plantas poligonais e curvilíneas das igrejas – técnicas importadas da Itália que revolucionaram o Barroco português – se disseminaram também na arquitetura civil. Essas transformações fizeram da cidade um “modelo” e criaram as condições para que o estilo do Rio de Janeiro se espalhasse pelo restante da colônia, especialmente para as Minas Gerais.

Nesse ambiente, as Ordens religiosas ocuparam um lugar especial. Recebendo doações de terras dos chamados “homens bons” – ou seja, membros da elite político financeira da colônia –, construíram e habitaram as igrejas e conventos cariocas nos pontos mais antigos da cidade. Os primeiros a chegar foram os jesuítas – junto aos fundadores da cidade em 1565 –, e ocuparam o Morro do Castelo. Em seguida, vieram os carmelitas, que se instalaram no Largo do Carmo por volta de 1590; os beneditinos, que chegaram ao Rio de Janeiro em 1589 e se instalaram no Morro de São Bento em 1590; e os franciscanos, que ocuparam o Morro de Santo Antônio em 1615.

Convento colonial em preto e branco, Rio de JaneiroDescrição da imagem: A imagem é uma gravura em preto e branco. Mostra um convento com arquitetura colonial, localizado em Rio de Janeiro. Do lado esquerdo, há um edifício longo e baixo, enquanto o centro apresenta uma construção mais elevada com três portas de entrada. À direita, há uma estrutura mais estreita e alta, com detalhes ornamentais. No fundo, há uma escadaria com duas pessoas caminhando. Na parte superior da imagem, está escrito "RIO DE JANEIRO" e no fundo inferior, "CONVENTO DE S. ANTONIO".

Convento de Santo Antônio. Desenho de Pieter Gotfred Bertichen, 1856 – Coleção Brasiliana Itaú

Também se constituíram na cidade barroca as ordens terceiras formadas por leigos. Inicialmente, eram três: a Venerável Ordem de São Francisco da Penitência, a Venerável Ordem de Nossa Senhora do Carmo e a Venerável Ordem de São Francisco de Paula, todas alimentadas pela riqueza e pela devoção dos homens bons da cidade.

Altar ornado com detalhes dourados e esculturas religiosas.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de um altar ornado com detalhes ricamente decorados. A imagem mostra uma estrutura central com elementos dourados e esculturas religiosas. À esquerda, vemos uma série de colunas e molduras douradas que se estendem até o teto. No centro, há uma grande estátua dourada de um anjo, com asas abertas, flanqueada por outros elementos decorativos. À direita, mais detalhes dourados e figuras esculpidas completam a composição. O fundo apresenta uma série de molduras e detalhes ornamentais que se repetem ao longo da parede.

Interior da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência. Wikimedia Commons

Referências:

CUSTÓDIO, José A. C. A arquitetura de defesa no Brasil Colonial. Discursos fotográficos, Londrina, v.7, n.10, p.173-194, jan./jun. 2011

OLIVEIRA, Myriam A. R. JUSTINIANO, Fátima. Barroco e Rococó nas igrejas do Rio de Janeiro. Brasília, DF: IPHAN / Programa Monumenta, 2008.

PEREIRA, Sónia Gomes. A Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro: dois momentos cruciais da arquitetura brasileira – a obra colonial e a reforma do século XIX. In: FERREIRA-ALVES, Natália M. A Misericórdia de Vila Real e as Misericórdias no Mundo de Expressão Portuguesa. CEPESE – Centro De Estudos Da População, Economia e Sociedade, 2011.

Outras memórias

Memória 1 de 4: A defesa da cidade e a criação das aulas de fortificação