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Rio Memórias

Foliões cantam durante bloco

O Carnaval do Rio não se resume ao desfile das escolas de samba, como prova a algazarra de batuques, cantos, passos, caminhões-pipa e muita conversa alta que enche grande parte das vias. A folia carioca começou nas ruas e nunca saiu de lá.

Os primeiros registros de blocos carnavalescos na cidade remetem a meados do século XIX. Eram essencialmente grupos anárquicos de foliões, que saíam às ruas de forma indistinta. No começo do século seguinte, porém, certos traços de organização começaram a dar ritmo à bagunça libertária dos primeiros blocos e cordões. Foram tempos de segmentar a folia. Grandes sociedades carnavalescas e ranchos faziam desfiles mais organizados. Cordões eram a síntese da confusão e da farra desmedida. Os blocos, por sua vez, ficavam no meio do caminho entre um e outro.

Um grupo festivo em carnaval com uniformes coloridos e detalhes dourados.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de um grupo de pessoas participando de um carnaval. A imagem mostra seis pessoas vestidas com fantasias coloridas e chapéus altos vermelhos e azuis, todos com a letra "X" dourada. Do lado esquerdo, há um homem vestindo um uniforme azul com detalhes dourados e segurando uma caneta. À sua direita está uma mulher com cabelos grisalhos, usando um uniforme vermelho com detalhes dourados. No centro, um homem negro está sorrindo amplamente, segurando um microfone e apontando para a câmera. Ele usa um uniforme branco com detalhes amarelos e preto. À sua direita, há outra mulher com cabelos coloridos e maquiagem vibrante, também usando um uniforme vermelho. Ao seu lado está uma mulher com cabelos loiros e um uniforme azul com detalhes dourados. Todos parecem estar em um evento festivo, possivelmente um desfile de carnaval.

Foto: Diego Carriço - Carnaval de rua - 2019

Antigos blocos, como Cacique de Ramos e Bafo da Onça, até hoje integram os tradicionais desfiles pelo centro do Rio, assim como outros grupos tradicionalíssimos — caso do Cordão do Bola Preta. Outros acabaram sendo ancestrais de escolas de samba, como o Baianinhas de Osvaldo Cruz, considerado precursor da Portela.

Bloco Céu na Terra - Santa Teresa - Rio de Janeiro

Durante certo tempo, o gosto pelos blocos arrefeceu. Mas, na última década, com a retomada do Carnaval de rua do Rio, os blocos se multiplicaram e voltaram a tomar a cidade, com seu jeito maroto, multifacetado, imprevisível.

Foto: Thiago Diniz - Crianças brincam no Carnaval - 2013

Parede rosa vibrante com frase "ADICIONE COR" e espelho refletindo duas pessoas de costas.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia de uma parede pintada de rosa vibrante. No topo, há a frase "ADICIONE COR" escrita em letras brancas. Abaixo, há um pequeno espelho refletindo duas pessoas de costas, ambas com cabelos coloridos. A pessoa à esquerda está usando um maiô preto, enquanto a pessoa à direita usa uma blusa branca e shorts coloridos. Ao redor do espelho, há algumas inscrições e grafites em cores variadas.

É o que reiteram os blocos e cordões que ainda hoje seguem, na cartografia inventada e reinventada da cidade, o fio da tradição. Os nomes já dão pistas da gaiatice que resume seu espírito: “Loucura Suburbana”, “Orquestra Voadora”, “Amigos da Onça”, “Cordão do Boitatá”, “Céu na Terra”, “Prata Preta” e tantos outros. Assim como as histórias e causos que lhes deram origem, espelham a irreverência, marca registrada da festa.

Criança sorridente segurando boneco festivo em evento noturno.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de um evento noturno, possivelmente durante o Carnaval, com pessoas vestidas de trajes coloridos. No centro da imagem, há uma criança sorridente, segurando um boneco vestido com roupas festivas. O boneco tem uma máscara amarela com detalhes coloridos e está envolvido por várias camadas de tecidos vibrantes em tons de verde, azul, rosa e roxo. Ao fundo, há iluminação artificial e algumas árvores, sugerindo que o evento ocorre em um parque ou área pública à noite.

Foto: Diego Carriço - Carnaval de rua - 2019

O “Bloco das Carmelitas”, por exemplo, teria surgido por volta de 1990, quando um grupo de peladeiros que batia uma bolinha onde hoje é o Parque das Ruínas, em Santa Teresa, viu uma freira pular o muro do convento para brincar o Carnaval. Já outros blocos optam por ostentar a relação de seus nomes com a história da cidade, como é o caso do “Escravos da Mauá” – título que remete aos mercados de escravizados dos séculos XVIII e XIX, que ficavam nas ruas do bairro da Saúde, nas proximidades da praça Mauá e do morro da Conceição.

Isso sem contar aqueles blocos que, de tão tradicionais, viveram para contar a história da cidade, como o centenário Cordão do Bola Preta, fundado em 1918. Também é o caso dos mais de 80 anos de vida dos “bate-bolas”, conhecidos como “clóvis” – uma corruptela do inglês clowns­ ­–, que remontam à festa da Folia de Reis. Os clóvis misturam farra e terror, causando fascinação e medo por onde passam.

Pessoa sorridente com penteado colorido e rosto pintado, ouvidos com pérolas.Descrição da imagem: A imagem é uma fotografia de uma pessoa sorrindo. A pessoa está usando um penteado colorido com fios de cabelo em tons de rosa, azul, verde e vermelho. O rosto da pessoa também está pintado com cores vibrantes, incluindo azul, verde, rosa e branco. Há duas pérolas pendentes de ouvido visíveis. Ao fundo, há outras pessoas, mas elas estão desfocadas.

Foto: Diego Carriço - Carnaval de rua - 2019

Cada rua, de cada região, traz consigo um conjunto variado de sons, e cada um desses sons conta uma parte do espírito do Carnaval no Rio de Janeiro. Diversos na sua origem, os blocos de rua não se resumem a um padrão único e nem seguem o mesmo roteiro. Pelo contrário: o cardápio de gêneros atende a público variado. Vai do samba ao sertanejo, passando pelo funk, forró e maracatu. Tem bloco que até se mete a tocar rock. E, se alguns deles são populares a ponto de arrastar multidões, outros têm uma pegada mais intimista, mudam de nome a cada ano e não divulgam o horário nem o local de saída do cortejo.

Mas, se acontecer de, em algum ano, o bloco esperado não sair, não tem problema. Basta criar um novo. Foi assim, por exemplo, que, em 2006, o Cordão do Boitatá deu origem ao Cordão do Boi Tolo, conhecido como o bloco “que não termina nunca”, por conta das longas horas que passa desfilando pelas ruas da cidade.

Carnaval nas ruas com dança e hula-hoop.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de um evento de carnaval nas ruas. Do lado esquerdo, vemos pessoas dançando e segurando um hula-hoop colorido. No centro, um homem e uma mulher estão dançando juntos. A mulher usa um vestido colorido com detalhes vibrantes e sapatos brancos. O homem está sem camisa, usando shorts estampados e tênis pretos. Ao fundo, outros participantes do carnaval estão presentes, alguns usando fantasias coloridas. Há prédios altos e uma árvore verde na parte superior da imagem.

Foto: Diego Carriço - Carnaval de rua - 2019

Outras memórias

Memória 1 de 4: Cordões carnavalescos