Maracanã

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Rio Memórias

Apelido do icônico estádio da cidade do Rio de Janeiro, Maracanã é uma das palavras mais conhecidas no Brasil e no exterior. O principal estádio de Belgrado, na Sérvia, é conhecido como Marakana. No Panamá também há um estádio com esse nome. Brasileiros e apaixonados por futebol mundo afora conhecem o que se passou naquele campo em 1950, bem como alemães, que vibraram no Maracanã em 2014 quando, mais uma vez, foram campeões mundiais. É a segunda casa dos cariocas, multidões se reúnem ali a cada domingo. No entanto, por incrível que pareça, são raros os que conhecem a origem e significado da alcunha do estádio.

Alguns poderão — corretamente — ao nome do rio que passa silenciosamente em frente à construção, a céu aberto, mas qual seria então o significado desse nome em tupi e por que ele prevaleceu nessa área? Os cariocas crescem, frequentam e vibram nos jogos de seu coliseu, mas não se perguntaram que nome é esse?

Canal de drenagem urbano com árvores e pilares de concreto.Descrição da imagem: Esta é uma fotografia de um canal de drenagem urbano. À esquerda, vemos árvores com folhagens verdes vibrantes, projetando sombras sobre o canal. À direita, há uma série de pilares de concreto que formam a barreira do canal. No fundo, vemos carros estacionados e algumas pessoas caminhando. O canal está preenchido com água, refletindo a luz do sol.

Rio Maracanã atualmente. Foto:

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Maracanã é nome de pássaro. O mais representativo de toda uma terra e que nos anos 1500 eram tão numerosos como são os pombos, hoje em dia. Todo aventureiro que vinha à costa brasileira ou à Guanabara tratava de levar um maracanã. Os indígenas os doavam, não ligavam porque havia muitos, infinitos. Maracanã é um tipo de papagaio. Os “ajurus” são endêmicos de toda a região Sudeste, sendo muitos deles criados pelos tupis como animais de estimação. Preferidos sobretudo pelas mulheres, eram ensinados a “falar”, responder a perguntas e obedecer a comandos.

Papagaio verde com detalhes azuis e amarelos, sentado em galho de madeira.Descrição da imagem: A imagem é uma ilustração de um papagaio, provavelmente em estilo de gravura. O papagaio está sentado em uma galho de madeira. A partir da esquerda para a direita, vemos o corpo do papagaio, que é predominantemente verde com detalhes azuis e amarelos nas asas e cauda. O rosto do papagaio apresenta tons azuis e olhos amarelos. O galho de madeira é claro e está posicionado no centro da imagem. No topo da imagem, há texto em preto sobre fundo branco, mas não é possível ler completamente os detalhes. No fundo, o papel é de cor bege.

A ave Maracanã. Retirado da obra de Francis de Laporte de Castelnau, publicada em Paris, 1850-1857. Acervo Arquivo Nacional

O francês Jean de Léry conheceu, em 1558, uma mulher tupinambá que andava com seu “ajuru” no ombro e que encantava os europeus com os truques de seu papagaio de estimação. Ele escreveu que foi a “maior maravilha” observar o pássaro que “entendia o que lhe falava sua dona”. Em troca de um pente ou presente, ela o colocava para pular, dançar, falar e até cantar. Perguntada por quanto gostaria de trocar aquele papagaio, ela respondeu que só por um grande canhão, pois era muito amado. Foi Léry quem registrou a anotação mais antiga da palavra “maracanã”, ao ter afirmado existir uma espécie de papagaio na Guanabara tão abundante quantos os pombos: “A segunda espécie de papagaios é a dos chamados marganaz”, que eram tantos “quantos os pombos em França”. Por isso, os maracanãs eram negociados com os europeus, que “comumente trazem-no para cá (Europa) os viajantes”.

Gravura preto e branco mostrando três figuras humanas: um homem segurando um objeto longo e curvo, e duas mulheres sentadas conversando.Descrição da imagem: A imagem é uma gravura em preto e branco. No topo, está escrito "DE L'AMERIQUE". A cena mostra três figuras humanas. Na parte superior, um homem está segurando um objeto longo e curvo, enquanto abaixo dele, duas mulheres estão sentadas, parecendo estar conversando ou lendo algo juntas.

O maracá era um dos principais instrumentos de cerimônias e rituais entre os caraíbas e pajés. Nesta representação do que parece ser uma cerimônia fúnebre, participam os guerreiros de uma aldeia. Da obra de Jean de Léry.

É justamente da característica vocal desse pássaro que vem o entendimento da palavra “maracanã” (“maraká” + “”). O chocalho maracá é o instrumento principal de invocação nas cerimônias religiosas, danças e rituais; e o sufixo “”, a forma como diziam ser algo “parecido como, semelhante, igual”. Ou seja, o papagaio maracanã era assim chamado por ser capaz de reproduzir o som do chocalhar dos maracás e por ser barulhento quando em bando.

Maracanã faz menção à cultura indígena tupi do Rio de Janeiro, nos lembra a fauna local na figura do papagaio mais comum de nosso ecossistema, assim como a um dos principais objetos de culto místico tupi. O maracá — que representava o elo com o além e cujos melhores tocadores eram respeitados pelos indígenas — era essencial nas festas, celebrações e espetáculos da Guanabara mais remota.

Gravura preto e branco de dois humanos em cenário natural, com papagaio, homem com objeto cilíndrico e macaco.Descrição da imagem: A imagem é uma gravura em preto e branco. Mostra dois personagens humanos em um cenário natural. Do lado esquerdo, há um papagaio sentado em uma barra horizontal. No centro, um homem está de pé, segurando um objeto cilíndrico com uma mão e apoiando-se com a outra mão em um pedestal. Ele está vestindo calças largas e um chapéu adornado com penas. Ao seu lado, um macaco está sentado no chão. Na parte superior da imagem, há o número "246" e a palavra "HISTOIRE".

Gravura com a representação de dois indígenas brincando com seus animais de estimação, entre eles um papagaio e um macaco. Da obra de Jean de Léry.

Entretanto, é possível inferir que o nome do rio batizado como “Maracanã” deveria ser outro, uma vez que não existe a partícula “y”, que caracteriza nomes de rio no tupi, como em Piraí ou Andaraí. É provável que o nome desse rio tenha sido incorporado à época colonial, quando os contatos entre colonizadores e indígenas eram frequentes.

Hoje desaparecidos do meio ambiente carioca urbano, mas tão recorrentes nos anos 1500 e 1600, os maracanãs eram cotidianos nos céus da atual Tijuca, assim como eram as araras e outras espécies de pássaros. Os papagaios têm por hábito fazer ninhos em árvores altas, nas palmeiras das montanhas. Durante o dia, seguiam para a várzea dos rios em busca de água, sementes e frutos.

A hipótese mais plausível para esse rio da Tijuca ter recebido tal nome é devido a, na outra várzea, se encontrar o atual estádio – um local de baixios e charcos onde mais podiam ser avistados a pouca distância os maracanãs, estimados para captura e comercialização. Assim, o rio passou a ser conhecido dos moradores como sendo o local onde se achavam os maracanãs; com o tempo, o nome foi incorporado como o Rio “dos Maracanãs”. Já o papagaio, infelizmente, ninguém mais vê ou lembra.

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Memória 1 de 4: Mitologia Tupi